Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 35 de 40

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Vitória

Capítulo IX

Tropeçando nos degraus como se de repente se sentisse exausta, Lena entrou na sala e deixou-se cair na cadeira mais próxima. Antes de entrar também, Heyst observou da varanda os arredores. A solidão era completa. Nada havia no aspecto daquela cena familiar para lhe indicar que ele e sua companheira não estavam inteiramente sós, como no começo da sua vida em comum nesse sítio abandonado, onde apenas lhes faziam companhia a muda recordação de Morrison e Wang, que de quando em quando se materializava discretamente.

Após a lufada de vento frio o ar ficara de todo imóvel. A negra massa de nuvens carregada de eletricidade pairava inteiriça além do promontório baixo, preto como tinta, e entenebrecia o crepúsculo. Por contraste, o céu estava claro e translúcido no zênite, brilhando qual delicado globo de vidro que o menor sopro de ar poderia despedaçar. Um pouco à esquerda, entre os vultos negros da ponta de terra e da floresta, o vulcão, pluma de fumaça durante o dia e brasa de charuto à noite, tirava a sua primeira baforada ardente do anoitecer. Acima dele surgiu uma estrela avermelhada, como uma centelha despedida pelo seio incandescente da terra e imobilizada por algum misterioso influxo dos espaços gelados.

Defronte de Heyst a floresta, já envolta em sombras profundas, semelhava um muro que ali se erguesse. Mas ele ainda se demorou a observar a orla do arvoredo, onde este terminava numa cinta de arbustos, ocultando a base do pier. Desde que a moça lhe falara numa coisa branca lobrigada entre as árvores, cria firmemente que o secretário de Mr. Jones os tinha seguido na excursão ao alto da montanha. Sem dúvida o sujeito os vira sair da floresta e agora, a menos que se desse ao trabalho de tornar atrás o bastante para fazer um rodeio considerável, teria de surgir no espaço aberto entre os bangalôs. Heyst julgou, com efeito, perceber em dado momento algo que se movia entre as árvores, mas imediatamente o perdeu de vista. Continuou a olhar com paciência, porém nada mais aconteceu. Afinal de contas, por que preocupar-se com o que fazia aquela gente? Por que esse cuidado estúpido com os preliminares, se a crise, quando chegasse, o encontraria desarmado e a encolher-se diante da sua degradante hediondez?

Foi para dentro. Reinava já na sala um denso crepúsculo. Lena, próximo à porta, estava quieta e calada. A alvura da toalha de mesa dava nos olhos. O bruto que aqueles dois nômades tinham, domesticado entrara ali para por a mesa durante a ausência de Heyst e Lena. Heyst percorreu diversas vezes a sala, de um extremo ao outro. A moça continuava imóvel e silenciosa na sua cadeira. Mas quando Heyst, depois de colocar sobre a mesa os dois candelabros de prata, riscou um fósforo para acender as velas, ela levantou-se de repente e entrou na alcova. Voltou logo depois. Tinha tirado o chapéu. Heyst olhou-a por cima do ombro.

— De que serve esquivar-nos à bora fatídica? Acendi estas velas para dar sinal da nossa volta. Afinal, pode ser que não nos tenham observado... isto é, durante a volta. Mas claro que nos viram sair de casa.

A moça tornou a se sentar. Sua rica cabeleira parecia mais escura sobre o descorado das faces. Ergueu os olhos, que brilharam suavemente na luz, com uma espécie de apelo ilegível, e produzindo um estranho efeito de candura cega.

— Sim — disse Heyst no outro lado da mesa, com as pontas dos dedos de uma das mãos pousadas na alva toalha. — Uma criatura dotada de uma mandíbula antediluviana, peluda como um mastodonte e com o feitio de um símio pré-histórico, pôs a mesa para nós. Estás acordada, Lena? Estarei eu mesmo acordado? Seria capaz de dar beliscões em mim mesmo, se não soubesse que nada porá fim a este sonho. Três talheres. Sabes que quem virá é o mais baixo dos dois... o cavalheiro que faz lembrar uma onça pela estrutura facial e pelo movimento dos ombros ao caminhar. Ah, não Gabes o que é uma onça? Mas já olhaste bem para os dois. É o mais baixo, sabes, que será nosso conviva.

Ela fez um sinal com a cabeça para dizer que sabia. A insistência de Heyst fez com que a imagem de Ricardo lhe surgisse vivida aos olhos do espírito. Paralisou-lhe todos os membros um súbito langor, que era como um eco físico da sua luta com aquele homem. Ficou quieta na cadeira, muito atemorizada com esse fenômeno e pronta a rezar em voz alta, pedindo forças.

Heyst pusera-se a caminhar de novo pelo aposento.

— Nosso conviva! Há um provérbio (creio que é russo) , segundo o qual quando um hóspede entra numa casa Deus entra com ele. A santa virtude da hospitalidade! Ela mete a gente em embaraços tanto como outra qualquer.

A moça ergueu-se inesperadamente, balançando o corpo flexível e estirando os braços acima da cabeça. Ele se deteve para observá-la com curiosidade, e prosseguiu:

— Ouso crer que Deus nada tenha que ver com semelhante hospitalidade nem com tal hóspede!

Lena havia saltado em pé, afim de reagir contra o torpor e verificar se o seu corpo lhe obedecia à vontade. Obedeceu. Podia estar em pé e mover livremente os braços. Embora não fosse fisiologista, inferiu quê aquele torpor repentino estava todo na cabeça, e não nos membros. Apaziguados os seus temores deu graças a Deus mentalmente e para Heyst, murmurou um protesto:

— Oh, sim! Ele cuida de tudo... das menores coisas. Nada pode acontecer...

Sim — apressou-se ele a disser, — um dos dois pardais não poderá cair... é nisto que estás pensando. — O habitual sorriso brincalhão desaparecera dos lábios bondosos recobertos pelo bigode marcial. — Ah, ainda te lembras do Que te contavam aos domingos, quando eras criança.

— Sim, eu me lembro. — Lena deixou-se cair de novo na cadeira. — Eram os únicos momentos felizes que tinha guando era garota... com as duas meninas da nossa senhoria, sabes.

— Estou perguntando á mim mesmo, Lena — disse Heyst, voltando ao seu urbano tom de gracejo, — se tu és apenas uma criancinha ou se representas alguma coisa tão velha como o mundo.

Ela o surpreendeu replicando em voz sonhadora:

— Mas... e tu mesmo, o que és?

— Eu? Eu pertenço a uma época posterior... muito posterior. Não posso chamar-me de criança, mas sou tão recente que poderia qualificar-me de um homem de última hora... ou será da penúltima? Passei tanto tempo afastado que não sei com segurança até onde foram os ponteiros do relógio desde... desde...

Relanceou os olhos para o retrato de seu pai, suspenso exatamente acima da cabeça de Lena, com um ar de não querer tomar conhecimento dela na sua expressão austera. Não terminou a frase, mas tão pouco permaneceu muito tempo calado.

— Apenas, o que devemos evitar são as inferências enganadoras, Lena... especialmente nesta hora.

— Estás caçoando de mim outra vez — disse ela sem levantar os olhos.

— Eu, caçoando? — protestou ele. — Não, estou advertindo. Que diabo, por mais verdades que te hajam dito naquele tempo, também isto é verdade: os pardais caem efetivamente ao chão, os pardais são abatidos. Isso não é uma vã afirmação, mas um fato. E eis por que... — sua voz mudou outra vez de tom, enquanto ele pegava uma faca da mesa e a soltava depois desdenhosamente — eis por que desejo que estas miseráveis facas redondas tivessem gume. Verdadeiras drogas... nem gume, nem ponta, nem elasticidade. Creio que um destes garfos daria uma arma melhor em caso de aperto. Mas como poderei andar por aí com um garfo no bolso?

Rangeu os dentes com uma fúria bem real, e contudo cômica.

— Tínhamos antes uma faca de trinchar, mas há muito que se quebrou e foi jogada fora. Não há por aqui muita coisa que trinchar. Seria uma arma de respeito, sem dúvida alguma. Mas...

Calou-se. A moça estava muito quieta, com os olhos baixos. Vendo que o silêncio dele se prolongava, ergueu-os e disse pensativamente:

— Sim, uma faca... o de que precisarias era duma faca, não e mesmo, no caso... no caso...

Ele encolheu os ombros.

— Deve haver uma ou duas alavancas de. ferro nos barrações; mas eu entreguei todas as chaves. Também, fazes ideia de mim andando por aí com uma alavanca na mão? Ah, ah! E além disto, esse edificante espetáculo bastaria por si só para dar começo às hostilidades, se não me engano. A propósito, por que será que ainda não começaram?

— Talvez eles tenham medo de ti — murmurou ela, tornando a por os olhos no chão.

— Por Júpiter, é o que parecei — concordou Heyst meditativamente. — Eles têm o ar de conter-se por alguma razão. Será essa razão a prudência, o medo puro e simples, ou quem sabe se os pausados métodos da certeza?

Lá fora, na noite escura, não muito longe do bangalô, ressoou forte e prolongado assobio. As mãos de Lena seguraram as bordas do espaldar da cadeira, sem que a moça, entretanto, fizesse o menor movimento. Heyst teve um sobressalto e desviou os olhos da porta.

O som inquietador havia cessado.

— Assobios, uivos, sinais, augúrios, portentos... que importa tudo isso? — disse ele. — Mas que me dizes daquela alavanca? Supondo-se que eu a tivesse aqui, poderia emboscar-me atrás da porta, desta porta, e esmigalhar a primeira cabeça que apontasse para dentro, esparramar sangue e miolos pelo chão, sobre estas paredes, e depois correr furtivamente à outra porta para fazer a mesma coisa... e repeti-la, quem sabe, ainda uma vez? Poderia eu fazer isso? Por uma suspeita, sem remorsos, de ânimo sereno e decidido? Não, isso não está em mim. Pertenço a uma era demasiado recente. Gostarias de me ver tentar isso enquanto ainda dura o meu misterioso prestígio... ou a não menos misteriosa hesitação desses homens?

— Não, não! — murmurou ela ardentemente, como que forçada a falar pelos olhos de Heyst, que estavam cravados no seu rosto. — Não, é com uma faca que precisas defender-te... defender... Nós teremos tempo...

— E quem sabe se tal não é, com efeito, o meu dever? — recomeçou ele, como se não tivesse ouvido em absoluto as frases desarticuladas de Lena. — Talvez seja... o meu dever para contigo, para comigo mesmo. Por que hei de suportar a humilhação destas ameaças encobertas? Sabes o que diria o mundo?

Deu uma risada em voz baixa, que a aterrorizou. Quis levantar-se, mas Heyst curvara-se tanto sobre ela que não lhe permitia mover-se sem primeiro afastá-lo com um empurrão,

— O mundo diria, Lena, que eu — “aquele sueco” — depois de causar a morte do meu amigo e sócio, por simples cobiça de dinheiro, assassinei por puro medo estes náufragos inofensivos que, vieram dar à minha ilha. Seria essa a história que se cochicharia... que se rugiria talvez... que com certeza seria propalada e acreditada... e acreditada, minha querida Lena!

— Quem acreditaria em coisas tão horríveis?

— Tu talvez não acreditasses... no começo, em todo caso. Mas o poder da calúnia vai crescendo com o tempo. Ela é insidiosa e penetrante. Pode até destruir a nossa fé em nós mesmos, carcomer a alma.

De súbito os olhos dela saltaram para a porta e ali se fixaram, um pouco maiores que o normal. Heyst voltou a cabeça e avistou Ricardo, enquadrado no retângulo da porta. No primeiro momento nenhum dos três se mexeu; depois, voltando os olhos do recém-chegado para a moça que continuava sentada, Heyst fez uma apresentação sardônica.

— O sr. Ricardo, minha querida.

Ela baixou um pouco a cabeça. Ricardo levou a mão ao bigode. Sua voz atroou dentro da sala.

— Um seu criado, madame!

Entrou, tirou o chapéu com um gesto rasgado e soltou-o negligentemente numa cadeira que se achava junto da porta.

— Um seu criado — repetiu, num tom bem diverso. — Fui informado pelo nosso Pedro de que havia uma senhora aqui; apenas, não sabia que teria o prazer de lhe falar esta noite, madame.

Lena e Heyst consideravam-no às esconsas, mas ele, com um vago olhar que evitava a ambos, não se fixava em nada, parecendo seguir algum ponto no espaço.

— Gostaram do passeio? — perguntou de repente.

— Sim. E o senhor? — replicou Heyst, que conseguira encarar com ele.

— Eu? Não me afastei nem um metro do patrão esta tarde, até agora. — A pureza do acento de voz surpreendeu Heyst, sem convencê-lo da veracidade das palavras. — Por que pergunta? — ajuntou Ricardo, com todas as inflexões da perfeita inocência.

— Podia ter sentido o desejo de explorar um pouco a ilha — disse Heyst, estudando o homem, que, justiça lhe seja feita, não procurou desviar os olhos. — Devo lembrar que isso importa certo perigo.

Ricardo era a própria imagem da inocência.

— Ah, sim! Refere-se àquele china que fugiu. Não me impressiono com ele!

— Ele tem um revólver — observou Heyst em tom significativo.

— Bem, o senhor também tem um revólver — replicou Ricardo inesperadamente, — e eu não estou me preocupando com isso.

— Eu? Isso é diferente. Não tenho medo do senhor — respondeu Heyst depois de uma breve pausa.

— De mim?

— De vocês todos.

— O senhor tem um modo esquisito de falar — ia começando Ricardo.

Mas nesse momento se abriu, com certo ruído, a porta que dava para os fundos e Pedro entrou apertando contra o peito uma bandeja carregada. Sua enorme cabeça hirsuta oscilava um pouco, e o homem caminhava plantando um pé diante do outro, com um baque breve e duro no assoalho. A chegada de Pedro desviou talvez o fio das ideias de Ricardo, e o fez mudar de assunto.

— Ouviram-me assobiar lá fora ainda há pouco? Era para avisá-lo, enquanto vinha, de que podia trazer o jantar. E aí está ele.

Lena ergueu-se e passou para a direita de Ricardo, que baixou os olhos um momento. Sentaram-se à mesa. O enorme dorso de Pedro, que parecia o dorso de um gorila, desapareceu pela porta, balançando.

— Um bruto extraordinariamente forte, madame — disse Ricardo. Tinha uma propensão para discorrer sobre o “nosso Pedro”, como certos homens que gostam de falar nos seus cães. — Não é bonito, verdade seja dita. Não, não é nada bonito. E é preciso trazê-lo de rédea curta. Eu sou o guarda da fera, como quem diz. O patrão não se ocupa muito com detalhes. Deixa tudo para o Martin. O Martin sou eu, madame.

Heyst viu os olhos da moça voltarem-se para o secretário de Mr. Jones e pousarem-se inexpressivos no seu rosto. Mas Ricardo olhava vagamente o vazio e, com os lábios agitados por leves arrepios de sorriso, conversava infatigavelmente diante do silêncio dos seus anfitriões. Gabava-se muito da sua longa parceria com Mr. Jones — já mais de quatro anos, dizia ele. E, deitando um rápido olhar a Heyst:

— O senhor viu logo que ele era um cavalheiro, não foi mesmo?

— Os senhores — disse Heyst, com uma nota sombria no seu habitual tom brincalhão — são inteiramente destituídos de realidade aos meus olhos.

Ricardo recebeu a frase como se esperasse ouvir estas mesmas palavras, ou bem como se não lhe importasse em absoluto o que dizia Heyst. Murmurou um distraído “sim, sim,” brincou com um pedaço de biscoito, suspirou e disse, com um curioso olhar fixo que não parecia ir muito longe, detendo-se num ponto muito próximo ao seu rosto:

— Qualquer pessoa pode ver logo que o senhor também é um cavalheiro. O senhor e o patrão devem entender-se bem. Ele espera a sua visita esta noite, O patrão não está passando bem, e temos de pensar na volta.

Enquanto dizia estas palavras virou-se em cheio para Lena, mas sem nenhuma expressão legível no rosto. Recostada na cadeira com os braços cruzados, a moça olhava para a frente como se estivesse sozinha na sala. Mas, sob esse aspecto de indiferença quase imbecil, os perigos e emoções que haviam penetrado na sua existência enchiam-na de uma sensação de vida extraordinariamente intensa.

— Realmente? Estão pensando em voltar? — murmurou Heyst.

— Os melhores amigos têm de se separar mais cedo ou mais tarde — pronunciou Ricardo devagar. — E, contanto que se separem amigos, tudo vai bem. Nós dois estamos acostumados com as mudanças. O senhor, segundo me informaram, prefere ficar no mesmo lugar.

Era visível que ele dizia tudo isto apenas por falar e que seu pensamento estava concentrado em algum desígnio sem relação com as palavras que saíam da sua boca.

— Eu gostaria de saber — tornou Heyst com incisiva polidez — de que modo os senhores colheram essa e outras informações a meu respeito. Que me lembre, não lhes fiz nenhuma confidência.

Ricardo, olhando confortavelmente para o espaço e com a cabeça reclinada no espaldar da cadeira (havia algum tempo que todos os três tinham deixado de fingir que comiam), respondeu em tom distraído:

— Qualquer um pode adivinhar.

Aprumou o corpo de repente e pôs à mostra todos os seus dentes, numa careta extraordinariamente feroz que a persistente amabilidade do seu tom desmentia.

— O patrão é que lhe contará isso. Eu gostaria que o senhor se resolvesse a ir vê-lo. Sempre é ele quem fala por nós dois. Deixe-me levá-lo lá esta noite. Ele não está nada bem, e não quer decidir-se a ir embora sem primeiro conversar com o senhor.

Heyst levantou a vista e encontrou os olhos de Lena, cuja expressão cândida parecia ocultar alguma intenção que lutava por se fazer conhecida. Ele julgou notar um imperceptível movimento afirmativo de cabeça. Por quê? Que razão teria ela para isso? Seria a inspiração de algum instinto obscuro? Ou era simplesmente uma ilusão dos seus sentidos? Mas, nessa estranha complicação que invadira a serenidade da sua existência, no estado de dúvida, de desdém e quase de desespero com que olhava para si mesmo, ter-se-ia deixado guiar até por uma aparência ilusória naquela escuridão tão compacta que chegava a causar-lhe indiferença.

— Bem, e supondo que eu me resolva?

Ricardo não escondeu a sua satisfação, que despertou momentâneo interesse em Heyst.

— Não deve ser a minha vida o que eles querem — disse este consigo. — De que lhes serviria ela?

Olhou para a moça, no outro lado da mesa. Que importava que ela tivesse acenado ou não com a cabeça? Como todas as vezes que contemplava aqueles olhos inconscientes, sentiu alguma coisa que se parecia com um resíduo de piedade e de ternura. Resolvera ir. O oceano dela, imaginário ou real, advertência ou ilusão, tinha feito pender a balança. Heyst disse consigo que o convite de Ricardo dificilmente poderia representar uma armadilha. Isto seria por demais absurdo. Para que arrastar sutilmente a uma armadilha alguém que já se achava, por assim dizer, amarrado de mãos e pés?

Enquanto pensava estas coisas olhava fixamente para a mulher a que tinha dado o nome de Lena. Com aquela sua tranquilidade submissa, atitude que nunca deixara desde que os dois haviam iniciado sua nova existência na ilha, ela continuava misteriosa como sempre. Heyst ergueu-se abruptamente, com um sorriso tão enigmático e desesperado que o secretário Ricardo, cujo olhar abstrato nada deixava escapar, teve um ligeiro encolhimento de corpo como para mergulhar debaixo da mesa e puxar a faca que carregava na perna. Mas o movimento foi reprimido tão depressa se esboçou. Ricardo esperara que Heyst fosse saltar sobre ele ou puxasse um revólver, pois tinha formado uma ideia do homem conforme à sua própria imagem. Mas, ao invés de tomar uma dessas duas decisões lógicas, Heyst atravessou a sala, abriu a porta e meteu a cabeça para fora afim de olhar o pátio.

Logo que ele virou as costas a mão de Ricardo procurou sob a mesa o braço da moça. Embora o homem não a olhasse, ela sentiu o tatear nervoso, e subitamente os seus dedos lhe prenderam o braço acima do punho. Ricardo curvou-se um pouco para diante, sem todavia ousar ainda olhar para ela. Mantinha os olhos cravados nas costas de Heyst. O seu argumento principal, a sua ideia fixa, encontrou esta expressão causticante, emitida num sibilo extremamente baixo:

— Estás vendo? Ele não é homem para ti!

Relanceou-lhe os olhos, afinal. Os lábios dela mexeram-se um pouco, e esse movimento silencioso infundiu respeito em Ricardo, cujos dedos logo soltaram o braço que apertavam com força. Heyst havia fechado a porta. Ao voltar para a mesa cruzou-se com a moça a quem outrora — sem que ela soubesse por que — chamavam Alma e também Madalena, e cujo espírito permanecera tanto tempo em dúvida sobre a razão da sua existência. Já não se atormentava, porém, com esse amargo enigma, pois o seu coração encontrara a resposta numa grande luz resplendente e cegadora, numa resolução apaixonada.