Vitória
Capítulo VIII
Schomberg sentia abandoná-lo o desespero, esse lamentável substituto da coragem. Não era tanto a ameaça de morte, mas a forma extraordinariamente circunstanciada em que era feita, que o afetava. Um simples “vou matá-lo”, por mais feroz e decidido, poderia ele enfrentá-lo; mas diante desse modo inédito de falar e proceder, tendo a imaginação muito sensível às coisas incomuns, abateu-se como se lhe houvessem deslocado as vértebras morais: crac!
— Ir à polícia? Naturalmente que não. Nunca pensei nisso, nem em sonhos. Agora é tarde. Deixei-me envolver nesse negócio. Vocês me arrancaram o consentimento quando eu não tinha domínio sobre mim mesmo. Expliquei-lhes na ocasião.
Os olhos de Ricardo desviaram-se vagarosamente da pessoa de Schomberg para olhar ao longe.
— Sim. Desgostos com uma mulher. Mas nós não temos nada com isso.
— Claro! O que eu digo é o seguinte: de que servem essas ameaças selvagens que me fazem? — Veio-lhe à lembrança um bom argumento: — Isso é descabido, porque mesmo que eu fosse bastante tolo para dar parte à polícia agora, não teria nenhuma queixa séria para fazer. Não fariam mais que deportá-los. Faziam-nos embarcar no primeiro vapor para Singapura. — Schomberg ganhara ânimo. — Para o inferno — a juntou entre dentes, para seu deleite pessoal.
Ricardo não respondeu nada e não deu sinal de ter ouvido uma única palavra. Isto tornou a desanimar Schomberg, que erguera os olhos esperançado.
— Por que hão de se plantar aqui? — exclamou. — Não paga a pena andar por aí perdendo tempo. Não falava ainda agora na dificuldade de incitar o seu patrão? Pois a polícia se encarregaria disso, e de Singapura podiam ir para a costa oriental da África.
— Diabos me levem se o sujeito não está mesmo tramando a tal asneira! — foi o comentário de Ricardo, emitido num tom de mau agouro que fez Schomberg. voltar à realidade da sua situação.
— Não! Não! — protestou o hoteleiro. — É um modo de falar. Está claro que eu não faria isso.
— Parece-me que essa história da mulher o deixou mesmo um tanto apatetado, sr. Schomberg. Creia-me, seria melhor para você que nos separássemos amigos, porque, sejamos ou não deportados, um de nós há de voltar aqui antes de muito tempo para tirar desforra de qualquer trampolinagem que esteja preparando.
— Gott im Himmel! — gemeu Schomberg. — Será que nada fará esse homem ir embora? Há de ficar aqui toda a vida? Suponhamos que eu lhe indicasse um negócio mais rendoso, você não poderia?...
— Não atalhou Ricardo. — Não podia, a não ser que tivesse alguma coisa para empurrá-lo. Já lhe disse isto antes.
— Um estímulo? — murmurou Schomberg.
— Sim. A costa oriental da África não basta. Ele me disse o outro dia que a costa oriental terá de esperar até que esteja disposto a ir lá; e talvez leve ainda muito tempo, porque a costa oriental não pode fugir, e não é provável que alguém vá roubá-la.
Estas considerações, quer fossem apresentadas como axiomas, quer como uma descrição do estado mental de Mr. Jones, eram positivamente desanimadoras para o atribulado Schomberg; mas há a sua dose de verdade no velho adágio, segundo o qual a hora mais negra precede a alvorada. O som das palavras, aparte do seu sentido, também tem uma força própria. E esta palavra “roubá-la” tinha uma afinidade especial com a ideia fixa do hoteleiro. Estava-lhe sempre presente ao espírito, e neste momento veio à superfície, evocada por uma expressão puramente fortuita. Não, ninguém podia roubar um continente; mas Heyst roubara a garota!
Ricardo não podia adivinhar qual era a causa da mudança de expressão de Schomberg. No entanto, ela dava bastante na vista para fazê-lo cessar o bamboleio negligente da perna e dizer, olhando para o hoteleiro;
— Não há muito que discutir com uma pessoa que fala nesses termos, não é mesmo?
Schomberg não o escutava.
— Podia indicar-lhes outra pista — disse ele devagar. Subitamente calou-se, como sufocado por uma emoção diabólica, de ardor intenso combinado com o temor do insucesso. Ricardo esperava atento, mas não sem algum desprezo.
— Na pista de um homem! — proferiu Schomberg convulsivamente; e fez nova pausa, consultando o seu furor e a sua consciência.
— O homem da lua, hein? — insinuou Ricardo num murmúrio escarninho.
Schomberg sacudiu a cabeça.
— Seria quase tão fácil lográ-lo como ao homem da lua. Vá lá e faça a experiência. Não fica tão longe assim.
Estava refletindo. Estes homens eram assassinos e ladrões, não menos que jogadores — indivíduos terrivelmente apropriados para fins de vingança. Mas preferia não entrar em particularidades. Disse a si mesmo, sumariamente, que tiraria desforra de Heyst e ao mesmo tempo se livraria dos seus opressores. Bastava-lhe soltar a rédea ao seu talento natural para o comércio de escândalos. No caso presente, a sua grande prática era corroborada pelo ódio que, como o amor, tem uma eloquência peculiar. Com o maior desembaraço retratou para Ricardo, já sério e atento, um Heyst locupletado durante anos na rapina pública e privada, assassino de Morrison, esbulhador de inúmeros acionistas, um admirável composto de astúcia e descaro, de traças profundas e simples ardis, de mistério e futilidade. Neste exercício da sua função natural, Schomberg cobrou nova vida, a cor voltou-lhe às faces, tornou-se loquaz, retórico, ardente, a virilidade realçada pelo porte militar.
— Esta é a história verdadeira. Ele foi visto a rondar anos inteiros nesta parte do mundo, espionando a vida de toda a gente. Mas eu fui o único que o adivinhei desde o primeiro momento: um indivíduo desprezível, refalsado, sem escrúpulos, perigoso.
— Perigoso, é?
O som da voz de Ricardo fez Schomberg cair em si.
— Bem, você sabe o que eu quero dizer — tornou, um pouco contrafeito. — Um patife mentiroso, enredador, de falsas mansas, cortês, presumido, Não tem um pingo de honestidade.
O sr. Ricardo tinha-se afastado da mesa e rondava pela sala com movimentos silenciosos e oblíquos. Ao passar por Schomberg fez-lhe uma careta em que os dentes lampejaram, e rosnou:
— Ah! Hum!
— Então, que quer você de mais perigoso? — argumentou Schomberg. Creio que ele não tem valor para lutar — acrescentou negligentemente.
— E tem vivido lá sozinho?
— Como o homem da lua — respondeu Schomberg prontamente. — Ninguém se inquieta com o que lhe possa acontecer. Anda escondendo-se, compreende, depois de meter no saco toda essa presa.
— Presa, hein? Por que não voltou para a terra com ela? — indagou Ricardo.
O secretário de “Mr. Jones-simplesmente” começava a achar que o negócio era digno de consideração, e dispunha-se a pesquisar a verdade à maneira de homens dotados de moralidade mais sã e mais puras intenções do que ele; isto é, pesquisava-a à luz da sua experiência e preconceitos pessoais. Porquanto os fatos, seja qual for a sua origem (e só Deus sabe de onde nascem eles), só podem ser auscultados pelas nossas suspeitas individuais. Ricardo era todo ele suspeitas. Schomberg (tal é o efeito tônico da reavida estima própria) retorquiu impávido:
— Voltar para a terra? Por que não volta você para a sua terra? Quem o ouve falar diria que já amontoaram uma fortuna regular com o dinheiro que ganham no jogo por aí. Já deviam estar prontos para voltar.
Ricardo deteve-se para contemplar Schomberg com surpresa.
— Você se julga muito esperto, não?
Schomberg estava naquele momento tão convencido da sua esperteza que esta malévola ironia não o perturbou. Notava-se positivamente um sorriso no meio da sua nobre barba teutônica, o primeiro sorriso depois de muitas semanas. Achava-se numa disposição feliz.
— Como sabe você que ele não pensava em voltar para a terra? O fato é que ia a caminho de lá.
— E como posso saber se você não se está divertindo a me contar uma história da carochinha? — atalhou Ricardo asperamente. — Não sei como ainda tenho a pachorra de ouvir essas asneiras!
Schomberg recebeu impassível esta mutação de humor. Não era preciso ser um observador muito sutil para perceber que havia despertado certo sentimento, talvez de cobiça, em Ricardo.
— Não quer acreditar? Muito bem! Pergunte a qualquer pessoa das que aparecem por cá se esse... esse sueco não chegou até aqui na viagem de volta. Para que havia ele de vir a Surabaya se não fosse por isso? Pergunte a qualquer um.
— Sim, perguntar! — volveu o outro. — Eu é que ia andar por aí tomando informações sobre um homem que trago de olho! Essas coisas devem ser feitas na calada, ou então é melhor desistir.
A intonação especial desta última frase deu a Schomberg uma sensação de frio na nuca. Pigarreou de leve e desviou os olhos, como se tivesse ouvido uma indelicadeza. Depois, numa espécie de arremesso:
Está claro que ele não me disse nada. Havia de me dizer? Mas eu não tenho olhos? Não tenho cabeça para compreender? Sei adivinhar as intenções das pessoas. Por exemplo, ele fox falar com os Tesman. Por que havia de falar com os Tesman dois dias seguidos, hein? Não sabe? Não compreende?
Esperou com indulgência que Ricardo terminasse de praguejar contra ele, chamando-lhe tagarela excomungado, e depois continuou:
— Um homem não vai dois dias seguidos a um escritório comercial, nas horas de trabalho, só para cavaquear sobre o tempo. Então por que foi? Para saldar as contas num dia e receber o dinheiro no outro! Isto não é claro?
Ricardo, com o seu sestro de olhar numa direção enquanto caminhava na outra, aproximou-se vagarosamente de Schomberg.
— Para receber o dinheiro? — ronronou.
— Gewiss — replicou Schomberg com impaciente superioridade. — Que mais podia ser? Apenas o dinheiro que estava com os Tesman, note bem. Quanto ao que ele escondeu ou enterrou na ilha, só o diabo sabe. Pense no dinheiro sonante que passou pelas mãos desses homens, para pagamento de empregados e compra de provisões... e ele é um ladrão esperto, estou-lhe dizendo.
O olhar fixo de Ricardo perturbou o hoteleiro, que acrescentou embaraçado:
— Isto é, um ladrão vulgar, sorrateiro... sem nenhum valor. E faz-se passar por barão sueco, se faz favor! Pfiu!
— É barão, hein? Essa nobreza estrangeira não vale grande coisa — continuou o sr. Ricardo em tom sério. — E depois? Ele andou rondando por aqui.
— Sim, andou rondando. — disse Schomberg com uma careta. — Ele... andou rondando. É isso. Rondando...
Sua voz se apagou. Uma expressão de curiosidade estampou-se no semblante de Ricardo.
— Assim, sem motivo? Depois fez. meia volta e voltou para aquela ilha?
— E voltou para aquela ilha — ecoou Schomberg numa voz sem vida, fitando os olhos no chão. Que é que você tem? — perguntou Ricardo com sincera surpresa. — O que é isto?
Schomberg fez um gesto de impaciência, sem erguer os olhos. Tinha o rosto rubro e conservava-o abaixado. Ricardo tornou ao ponto em discussão.
— Bem, como é que você explica isso? Qual foi o motivo? Com que fim voltou ele para a ilha?
— Lua de mel! — atirou Schomberg com ferocidade.
Estava quieto, com os olhos baixos. De súbito, sem nenhum gesto preliminar, sentou na mesa uma punhada que fez saltar o desprevenido Ricardo. Só então ergueu Schomberg os olhos, com uma expressão de ressentimento opaco.
Ricardo olhou-o fito um instante, foi até o fundo da sala, voltou vivamente e resmungou “sim, sim!” em voz profunda, por cima da rígida cabeça de Schomberg. Que o hoteleiro era capaz de um grande esforço moral, provou-o o retorno gradual das suas maneiras severas de tenente da reserva.
— Sim, sim! — repetiu Ricardo mais decididamente que antes, após ter refletido. — Seria preferível que não lhe tivesse perguntado, ou que você me tivesse mentido. Não me convém saber que há uma mulher envolvida nisto. Que jeito tem ela? É a garota que você...?
— Acabe com isso! — resmungou Schomberg, lamentável sob a sua rígida fachada militar.
— Sim, sim! — exclamou Ricardo pela terceira vez. compreendendo cada vez melhor, e cada vez mais perplexo. — Não tolera que se fale nisso... a coisa é tão séria assim? E contudo eu apostaria como ela não é nenhum prodígio de beleza.
Schomberg fez um gesto indicando que não sabia, que não lhe importava. Depois perfilou os ombros e pôs os olhos no vácuo, carrancudo.
— Barão sueco... hum! — prosseguiu Ricardo pensativamente. — O patrão há de achar que o negócio merece consideração, se eu lhe falar com jeito. O patrão gosta de um duelo, se assim se pode dizer; mas ainda não vi um homem capaz de lhe fazer frente em campo raso. Você já viu um gato brincar com um rato? E um lindo espetáculo.
Ricardo, com os seus olhos que luziam voluptuosamente e a sua expansão modesta, parecia-se de tal maneira com um gato que Schomberg ficaria tão alarmado quanto um rato se outros sentimentos não o dominassem então por completo.
— Entre nós dois não há fingimentos — disse ele, em voz mais firme do que esperava.
— Mas de que serve isso? Ele foge das mulheres. Naquele pueblo mexicano onde estivemos encalhados, eu ia às vezes a um baile de noite. As moças do lugar me perguntavam se o caballero que estava na posada era um monge disfarçado, ou se tinha feito promessa à santíssima madre de não falar com mulheres, ou se... Você faz ideia do que umas garotas que não têm papas na língua são capazes de perguntar quando chegam ao ponto de dizer o que lhes vem à cabeça. E aquilo me vexava. Sim, o patrão tem medo de mulheres.
— De uma mulher só? — interpôs Schomberg em voz gutural.
— Às vezes é mais difícil lidar com uma do que com duas ou duzentas, se formos a isso. Num lugar cheio de mulheres, a gente não é obrigado a olhar para elas, a não ser que o queira. Mas quando se entra numa sala onde só esteja uma mulher, moça ou velha, bonita ou feia, tem-se que enfrentá-la. E nesse caso, a não ser que ela nos interesse (neste ponto o patrão tem toda a razão), é um estorvo.
— Por que reparar nela então? — resmungou Schomberg. — Que mal podem elas fazer?
— No mínimo, podem fazer barulho — respondeu o sr. Ricardo laconicamente, com a repugnância de um homem cujos métodos requerem silêncio; pois, na verdade, nada há mais odioso que o ruído para quem está absorvido num importante jogo de cartas, — Barulho, barulho, meu amigo — continuou ele vigorosamente, — excomungado barulho por uma coisa ou outra, e se o patrão não gosta disso, eu tão pouco. Mas no caso do patrão há outra coisa mais. Ele não pode absolutamente tolerá-las.
Fez uma pausa para refletir sobre este fenômeno psicológicos, e como não havia ali nenhum filósofo para lhe dizer que não há sentimento forte que não seja acompanhado de certo terror, assim como não existe verdadeira religião sem um pouco de fetichismo, ele formulou a sua conclusão pessoal, que evidentemente não podia atingir o âmago da questão.
— Diabos me levem se elas não são para ele o que a bebida é para mim. O brandy... uf!
Fez uma cara de nojo e teve um autêntico estremecimento. Schomberg. ouvia-o pasmado. Parecia que aquele... sueco seria protegido pela sua própria patifaria, pois o fruto de sua iniquidade se erguia entre o ladrão e o seu castigo.
— Pois é, meu velho. — Ricardo quebrou o silêncio depois de ter contemplado com uma espécie de simpatia o mudo desânimo de Schomberg. — Acho que a manobra vai falhar.
— Mas é uma tolice — murmurou o homem esbulhado da vingança, que já parecia ter nas mãos, por uma manobra e exasperante idiossincrasia.
— Não se meta a julgar um cavalheiro -— verberou Ricardo sem cólera, com expressão sorumbática. — Nem eu mesmo posso compreender perfeitamente o patrão. Eu, que sou inglês e lhe acompanho os passos! Não, acho que não ousarei falar-lhe nisso, por mais farto que esteja deste lugar.
Ricardo não podia estar mais farto de Surabaya do que estava Schomberg da sua presença no hotel. Schomberg acreditava tão firmemente na realidade de Heyst, tal como o pintavam o seu poder de tirar inferências falsas, o seu ódio, o seu amor do escândalo, que não pôde reprimir um grito abafado, cheio de uma convicção tão sincera quanto o podem ser nos momentos supremos a maior parte das nossas convicções, servas disfarçadas de nossas paixões.
— Seria o mesmo que ir buscai uma pepita de ouro valendo mil libras, ou quem sabe se duas ou três vezes mais. Nenhum obstáculo, nada de...
— O obstáculo é a mulher — contraveio Ricardo. Recomeçara as suas caminhadas silenciosas, oblíquas e felinas, onde um observador descobriria uma excitação de nova índole, qual a que revelaria um gato bravo ansioso por saltar. Schomberg nada viu. Se visse, teria provavelmente recuperado a esperança; mas em geral preferia não olhar para Ricardo. Este, contudo, num dos seus olhares irrequietos, de viés, observou o sorriso amargo que se escondia a meio entre as barbas de Schomberg, o sorriso inconfundível da esperança frustrada.
— Você é um tipo bem rancoroso — disse ele, detendo-se um instante com expressão de interesse. — Que me enforquem se alguma vez já vi uma cara tão desapontada! Aposto como você mandaria a peste negra àquela ilha se pudesse... hein, que tal? A peste ainda é muito boa para eles? Ah, ah, ah!
Inclinou-se para fitar Schomberg, que permanecia imóvel, com os olhos e as feições petrificados, aparentemente surdo à cáustica zombaria daquele riso que soalhava tão próximo da sua orelha rubra e carnuda.
— A peste negra é muito boa para ele, ah, ah! — Ricardo insistia com o atormentado hoteleiro, que mantinha obstinadamente os olhos no chão.
— Não quero mal à pequena — resmoneou.
— Mas ela não se pôs ao fresco? Não lhe deu a tábua? Diga lá!
— Só o diabo sabe o que lhe fez esse infame sueco... o que lhe prometeu, como a aterrorizou. Ela não podia gostar dele, tenho certeza. — A vaidade de Schomberg apegava-se a esta crença em algum meio de sedução extraordinário e atroz, empregado por Heyst. — Pense no modo como ele enfeitiçou o pobre Morrison — murmurou.
— Ah, Morrison... o homem tirou-lhe todo o dinheiro, hein?
— Sim... e a vida também.
— Sujeito terrível, esse barão sueco. Como se pode deitar-lhe a mão?
Schomberg estrugiu:
— Três contra um! São medrosos? Quer que eu lhe dê uma carta de apresentação?
— Você devia olhar-se num espelho — disse Ricardo calmamente. — Diabos me levem se não tiver algum ataque daqui a pouco. E este é o homem que diz que as mulheres não podem fazer mal nenhum! Essa mulher dará cabo de você, a menos que consiga esquecê-la.
— Quem me dera — confessou Schomberg ardentemente. — E é tudo obra daquele sueco. Durmo mal, sr. Ricardo. E além disso, para liquidar comigo, aparecem-me aqui os senhores... como se eu já não tivesse desgostos que chegassem.
— Isso lhe faz bem — sugeriu o secretário com irônica seriedade. — Afasta-lhe do espírito essa preocupação idiota. Na sua idade, além do mais!
Não prosseguiu, como se sentisse pena do outro. E mudando de tom:
— Eu gostaria sinceramente de lhe prestar um serviço, fazendo ao mesmo tempo um bom negócio.
— Um excelente negócio — insistiu Schomberg, como que maquinalmente. Na sua simplicidade era incapaz de renunciar à ideia que se lhe instalara no espírito. Uma ideia só pode ser expelida por outra ideia, e as ideias de Schomberg eram raras e por conseguinte tenazes. — Ouro cunhado — murmurou ele com uma espécie de angústia.
Tão expressiva combinação de palavras não deixou de produzir efeito sobre Ricardo. Ambos os homens eram acessíveis à influência das sugestões verbais. O secretário de Mr. Jones-simplesmente suspirou e murmurou:
— Sim, mas como se pode chegar até ele?
— Como são três contra um — disse Schomberg, — creio que seria bastante pedir por boca.
— Dir-se-ia que o sujeito mora aí ao lado — rosnou Ricardo com impaciência. — Que demônio, você não sabe responder a uma pergunta? Perguntei-lhe o caminho.
Schomberg pareceu recobrar vida.
— O caminho?
O torpor das esperanças desiludidas, que se ocultava sob as suas mudanças de humor, fora dissipado por estas palavras, que pareciam cheias de intenção.
— O caminho é pelo mar, está visto — disse o hoteleiro. — Para homens como os senhores, três dias num bom bote grande é uma brincadeira. Um simples passeio, uma mudança de ares. Nesta época do ano o Mar de Java é um lago. Tenho um excelente bote, perfeitamente seguro... um escaler de navio... com lugar para trinta pessoas, quanto mais três. Uma criança poderia manobrá-lo. Nesta quadra do ano não receberiam nem um respingo de água no rosto. Uma viagem de recreio, pode-se dizer,
— Mas já que tem esse bote, por que não foi atrás dela... ou atrás dele? Como amante enganado, você é um fracasso!
Esta insinuação causou um estremecimento em Schomberg.
— Eu não sou três — disse com semblante carrancudo, por ser esta a resposta mais breve entre as diversas que tinha à escolha.
— Oh, eu conheço os tipos da sua marca — disse Ricardo negligentemente. — Você e como quase toda a gente... ou talvez um pouco mais conformado que o resto dos traficantes que mandam nesta joça. Pois meu caro cidadão respeitável — prosseguiu, — vamos examinar a fundo este negócio.
Quando Schomberg compreendeu por fim que o assessor de Mr.. Jones estava disposto a discutir, conforme as suas próprias palavras, “esse seu bote, as rotas e as distancias”, e outras particularidades concretas de mau agouro para o infame sueco, recobrou a sua atitude marcial, perfilou os ombros e perguntou com a sua intonação militar:
— Deseja então ir avante com o negócio?
Ricardo inclinou a cabeça. Estava quase resolvido, disse. Devia-se, tanto quanto possível, fazer as vontades dum cavalheiro; mas em certas ocasiões era preciso tomar as rédeas na mão, para o bem dele próprio. E cumpria a um bom auxiliar conhecer a ocasião e os métodos especiais dessa delicada parte das suas obrigações. Tendo exposto esta teoria, Ricardo passou à aplicação prática.
— Nunca cheguei positivamente a mentir-lhe — disse ele, — e não vou fazê-lo desta vez. Limitar-me-ei a não dizer nada sobre a garota. Ele terá de suportar o choque como puder. Que diabo! Neste caso não convém ter demasiada consideração com os seus sentimentos.
— Esquisito — observou Schomberg vivamente.
— Acha? Sim, você não se importaria de pegar uma mulher pelas goelas nalgum canto escuro, desde que não houvesse ninguém perto, aposto!
Esta horrível, perversa e felina prontidão de Ricardo para mostrar as garras a qualquer momento impressionou Schomberg como de costume. Mas não deixava de provocante também.
— E você? — perguntou à guisa de defesa. — Não me quer fazer crer que está para todas?
— Eu, meu caro? Claro que estou. Eu não sou um cavalheiro, e você tão pouco. Pegá-las pelo pescoço ou fazer um afago no queixo, para mim é a mesma coisa... pouco mais ou menos — afirmou Ricardo com um tom sutilmente irônico na sua complacência vaidosa. — Bem, vamos ao nosso negócio. Um passeio de três dias num bom bote não é coisa para assustar homens como nós. Até aí você tem razão; mas há outros pormenores.
Schomberg estava pronto para entrar nos pormenores. Explicou que possuía em Madura uma pequena plantação, com uma cabana habitável. Propôs que os três hóspedes partissem da cidade no seu bote, fazendo crer que iam em excursão àquele sítio campestre. Os guardas de alfândega, no cais, estavam habituados a ver o bote partir nesses passeios.
De Madura, num dia apropriado e após descansarem, Mr. Jones e seus companheiros efetuariam a verdadeira partida. Velejariam com vento favorável. Schomberg encarregava-se de aprovisionar o bote. O maior contratempo a recear seria alguma chuvarada. Naquela estação não havia tormentas sérias.
O coração de Schomberg pôs-se a latejar com força ao ver aproximar-se assim a hora da vingança. Sua fala era pastosa, mas persuasiva.
— Nenhum risco... absolutamente nenhum!
Ricardo afastou com um gesto impaciente estas asseverações. Estava pensando em outros riscos.
— Quanto à saída daqui, está muito bem. Mas podemos ser vistos no mar, e isso nos poderá trazer aborrecimentos depois. Um escaler de navio com três homens brancos, em alto-mar, é coisa para dar que falar. E provável que sejamos vistos em caminho?
— Não, a não ser pelas embarcações indígenas — disse Schomberg.
Ricardo inclinou a cabeça satisfeito. Os dois homens consideravam a vida dos indígenas como um simples jogo de sombras — um teatrinho chinês que a raça dominadora podia atravessar indiferente e despercebida, na perseguição dos seus fins e necessidades incompreensíveis. Não. As embarcações indígenas não entravam em conta, naturalmente. Era um trecho de mar vazio e solitário, continuou Schomberg a explicar. Só o paquete de Ternate cruzava essa região por volta do dia 8 de cada mês, regularmente... nunca, porém, aproximando-se da ilha. Rígido, a voz rouca, o coração batendo com força, o espírito concentrado no meu plano, o hoteleiro multiplicava as palavras como que para pôr entre ele e o aspecto criminoso do seu desígnio o maior número delas possível.
— De modo que se os senhores partirem da minha plantação sem espalhafato no dia 8 (é sempre preferível largar de noite, com a brisa da terra) há uma probabilidade em cem... que digo eu? uma probabilidade em mil de que sejam vistos na passagem. Tudo que têm a fazer é conservar o rumo de nordeste durante coisa de cinquenta horas; talvez nem tanto. Sempre haverá bastante vento para mover o bote; podem contar com isso. E depois... .
Os músculos do abdome lhe estremeciam sob a roupa, de alvoroço, impaciência e algo semelhante a um receio, cujo verdadeiro caráter ele não percebia com clareza. Aliás, não tinha desejo de investigá-lo. Ricardo olhava firme para ele, com os olhos a brilhar mais como pedras polidas do que como um tecido vivo.
— E depois? — inquiriu.
— E depois... ora, vão fazer uma surpresa a Herr Baron... ah ah!
Schomberg pareceu expelir à força as palavras e o riso, em voz rouca de baixo.
— E você acredita que ele tem toda a presa? — perguntou Ricardo, mais por descargo de consciência, pois o fato, considerado com agudeza sob todos os pontos do vista, lhe parecia extremamente provável.
Schomberg ergueu as mãos e tornou a baixá-las devagar.
— Como podia ser de outra forma? Ele ia voltar para a Inglaterra, e quando esteve aqui já ia de viagem. Pergunte a quem quiser. E possível que tivesse deixado o dinheiro na ilha?
— Ricardo estava imerso em reflexões. Subitamente, erguendo a cabeça, observou:
— Cinquenta horas no rumo de nordeste, hein? A rota é um pouco vaga. Já ouvi contar casos de navios que deixaram atrás um porto com informações melhores. Poderia falar da configuração da ilha? Mas com certeza você nunca a viu...
Schomberg confessou que não a tinha visto, no tom de um homem que se felicita por ter escapado a uma contingência desagradável. Não, certamente que não. Nunca tivera necessidade de ir lá. Mas que tinha isso? Podia dar ao sr. Ricardo um marco dos melhores. Riu nervosamente. Errar o porto! Desafiava quem quer que passasse a quarenta milhas de distância a deixar escapar o valhacouto do infame sueco.
— Que me diz de uma coluna de fumaça durante o dia e uma fogueira à noite? Há perto daquela ilha um vulcão em plena atividade... daria quase para guiar um cego. O que mais você deseja? Um vulcão ativo para dar o norte!
Estas últimas palavras foram proferidas num brado exultante. De súbito ele saltou em pé e cravou um olhar furioso na porta que dava para o interior do hotel. Esta se abrira e a sra. Schomberg, trajada para o serviço, defrontava-o na outra extremidade da sala. Demorou-se um momento com a mão no trinco, depois entrou e encaminhou-se para o seu posto, onde se sentou com os olhos fitos na frente, segundo o costume.