Vitória
Capítulo X
O observador era Martin Ricardo. Para ele a vida não era uma renúncia passiva, mas uma guerra rica de atividade. Não desconfiava da vida nem lhe tinha repugnância, e muito menos se sentia inclinado a suspeitar dos seus desencantos. Mas tinha viva consciência das múltiplas possibilidades de fracasso que ela encerrava. Embora estivesse muito longe de ser um pessimista, não era um homem de ilusões ingênuas. Detestava o insucesso, não só pelas suas consequências desagradáveis e perigosas, mas também por motivo das lesões que ele produzia no seu amor-próprio. Tratava-se, ainda mais, de um empreendimento todo especial, planejado por ele mesmo e cheio de novidade. Não se encaixava, por assim dizer, na sua especialidade — salvo de um ponto de vista moral, que não lhe dava cuidados. Era por estas razões que Martin Ricardo tinha perdido o sono.
Após vários tremores de frio, para combater os quais bebera chá quente em abundância, Mr. Jones parecia ter caído em profunda modorra. Desanimara decididamente as tentativas do seu fiel secretário para conversar. Ricardo escutava-lhe a respiração regular. Para o patrão, estava muito bem. Ele considerava tudo isso uma espécie de esporte, o que era natural num cavalheiro. Mas, a todo custo, era preciso levar a cabo esta empresa importante e melindrosa, em que tanto a honra como a segurança pessoal estavam em jogo. Ricardo levantou-se silenciosamente e pôs-se a caminhar pela varanda. Não podia ficar quieto na cama. Precisava de ar e tinha, além disso, a impressão de que, ante a energia do seu ardor, a escuridão e o silêncio cederiam algum segredo aos seus ouvidos.
Reparando na noite constelada, tornou a recuar para a escuridão espessa. Resistiu ao impulso insistente de sair e aproximar-se furtivamente do outro bangalô. Seria loucura pôr-se a rondar à noite em terreno desconhecido. E para que, se não simplesmente para aliviar a sua opressão? A imobilidade lhe pesava nos membros com uma vestimenta de chumbo, E contudo, não queria renunciar. Persistia naquela vigilância infrutífera, O habitante da ilha conservava-se tranquilo.
Foi nesse momento que os olhos de Ricardo surpreenderam o rastro vermelho do charuto — uma surpreendente revelação de que o homem estava acordado. Não pôde conter um “Olá!” proferido em voz baixa, e pôs-se a avançar para a porta, cosendo-se com a parede, Era bem possível que o homem já tivesse saído para a frente da casa, afim de melhor observar a varanda, Na realidade Heyst, depois de jogar fora o charuto, voltara para dentro como quem desiste de um trabalho improfícuo. Mas Ricardo imaginou que ouvia leves pisadas na clareira e ocultou-se depressa dentro do quarto. Respirou então, e meditou algum tempo. Depois disso procurou às apalpadelas uma caixa de fósforos sobre a escrivaninha alta, e acendeu uma vela, Tinha de comunicar ao seu patrão ideias e reflexões de tanta importância que se fazia absolutamente necessário observar na fisionomia do ouvinte o efeito do que ia dizer. Julgara primeiramente que podia adiar a discussão desses assuntos para quando amanhecesse. Mas a vigília de Heyst, descoberta de forma tão inesperada, dera-lhe de súbito a convicção de que não lhe seria mais possível dormir naquela noite.
Foi o que disse ao seu patrão. Quando a pequena chama em forma de punhal rompeu parcialmente a escuridão, Mr. Jones tornou-se visível, a repousar sobre uma cama de campanha, num canto distante da peça. Uma manta de viagem cobria-lhe o corpo descarnado, até a cabeça, que descansava sobre uma segunda manta enrolada à guisa de travesseiro. Ricardo sentou-se no chão cruzando as pernas, junto à cama baixa, de maneira que Mr. Jones — cujo sono não seria talvez tão profundo como parecia — encontrou, ao abrir os olhos, o rosto do secretário no mesmo nível que o seu.
— Hein? Como é? Não poderá dormir esta noite? Mas ao menos deixe-me dormir, a mim! Que diabo de agitação!
— Porque esse sujeito também não dorme... aí está. Diabos me levem se ele não estava matutando ainda há pouco! Que necessidade tem ele de pensar altas horas da noite?
— Como é que você sabe disso?
— Ele tinha saído, patrão... saiu para fora tarde da noite, Eu o vi com estes olhos.
— Mas como pode você saber que ele se levantou para pensar? — perguntou Mr. Jones. -— Podia ser outra coisa qualquer... uma dor de dentes, por exemplo. E afinal quem me diz que você não sonhou tudo isso? Não tratou de dormir?
— Não, senhor. Nem quis ficar deitado.
Ricardo contou ao patrão a sua vigília na varanda, e a descoberta que a terminara. Concluía que um homem acordado alta noite, a fumar um charuto, devia estar refletindo.
Mr. Jones ergueu-se sobre um cotovelo. Este sinal de interesse confortou o fiel auxiliar.
— Está me parecendo que é tempo de pensarmos um pouco também — ajuntou Ricardo, com mais firmeza. Por muito que tivessem vivido juntos, as variações de humor do patrão ainda eram motivo de ansiedade para a sua alma simples.
— Você anda sempre fazendo alvoroto — observou Mr. Jones com tolerância.
— Sim, mas nunca sem motivo, não é mesmo? Isto o senhor não pode negar. O meu modo de considerar as coisas pode não ser de um cavalheiro, mas também não é de um idiota. O senhor mesmo o tem dito algumas vezes.
Ricardo animava-se, e ia tomando um tom argumentativo. Mr. Jones interrompeu-o com paciência.
— Com certeza você não me acordou para falar de si?
— Não, senhor. — Ricardo ficou um minuto calado, prendendo a ponta da língua entre os dentes. — Sobre mim mesmo, não poderia contar-lhe nada de novo — continuou. Havia na sua voz um tom de satisfação divertida, que desapareceu quando ele prosseguiu: — É sobre esse homem aí que temos de conversar. O sujeito não me agrada!
Não notou o pálido sorriso que encrespou os lábios do seu patrão.
— Não? — murmurou Mr. Jones, cujo rosto ao se reclinar sobre a mão ficou na mesma altura que o ápice da cabeça de Ricardo.
— Não, senhor — disse este sublinhando as palavras. A vela, colocada na outra extremidade do quarto, projetava na parede a sombra negra e monstruosa do secretário. — Ele... não sei bem como dizer... ele não parece ser muito afável.
Mr. Jones concordou com os seus modos lânguidos:
— Parece ser um homem muito senhor de si.
— Isso mesmo. Senhor de... — Ricardo sufocava de indignação. — Em dois tempos faria sair essa senhoria por um buraco entre as costelas, se não fosse um trabalho especial!
Mr. Jones devia ter feito lá suas reflexões, pois perguntou:
— Acha que o homem está desconfiado?
— Não vejo de que é que ele pode desconfiar — ponderou Ricardo. — Mas o fato é que estava lá fora, pensando. E em que podia ele pensar? O que foi que o tirou da cama a estas horas? Pulgas não havia de ser.
Talvez a má consciência — insinuou. Mr. Jones, pilheriando.
O fiel secretário, presa de irritação, não percebeu o gracejo. Replicou agastado que consciência era coisa que não existia. Medo, sim, existia; mas não havia motivo para aquele sujeito se amedrontar. Reconhecia, entretanto, que ele podia ter ficado inquieto com a chegada dos forasteiros, por causa dos tesouros que devia ter escondido em alguma parte.
Ricardo olhou para os lados, como se receasse ser ouvido pelas sombras de que a luz escassa cobria o quarto inteiro. Seu patrão murmurou calmamente:
— E quem sabe se aquele hoteleiro não lhe mentiu quando falou nele? Talvez seja um pobre diabo qualquer.
Ricardo sacudiu levemente a cabeça. A teoria de Schomberg sobre Heyst tornara-se nele uma convicção profunda, que absorvera tão naturalmente como uma esponja se embebe de água. As dúvidas de Mr. Jones eram a negação leviana de uma coisa evidente. A voz de Ricardo, porém, conservou-se no mesmo ronrom costumeiro, sob o qual se pressentia um rosnido.
— Estou admirado com o senhor! Esse é o jeito de todos os mansos, de todos os hipócritas deste mundo. Quando a presa vem se oferecer à gente, não há ninguém que deixe de agarrá-la. E eu não condeno os outros por isso. E o jeito como essa gente procede que me aborrece. Lembre-se de como ele se desfez daquele seu camarada! Mandar um homem morrer de um resfriado na sua terra... aí está um desses truques de homem sem fibra. E o senhor acha que um sujeito capaz disso não se apossaria com toda a hipocrisia do que lhe passasse debaixo das mãos? E esse negócio do carvão, o que foi? Pura velhacaria de homem sem sangue... hipocrisia, aí está! Não, não senhor! O que se deve fazer é arrancar-lhe a coisa com toda a limpeza possível. Esse é o trabalho — e não é tão simples como parece. Imagino que o senhor tenha considerado tudo antes de se resolver a fazer esta viagem.
— Não. —A voz de Mr. Jones, cujos olhos estavam fitos ao longe, era quase imperceptível, — Não pensei muito nesse assunto. Estava enfastiado.
— Isso é verdade: enfastiado até a raiz dos cabelos. Eu estava num desespero na noite em que aquele maricão barbudo começou a me falar neste sujeito. Por casualidade, mesmo. Pois patrão, aqui estamos nós, depois de termos escapado por um tris. Ainda me sinto todo mole, mas não importa: eu me cobrarei de tudo nele!
— O homem vive sozinho aqui — observou Mr. Jones num murmúrio cavo.
— Sim, de certo modo. Bastante só. Pode-se dizer que ele está sozinho.
— Mas há o chinês.
— Sim, há o china — concordou Ricardo, que parecia pensar noutra coisa.
Estava resolvendo consigo se seria aconselhável falar na mulher. Acabou decidindo-se pela negativa. A aventura já era bastante difícil sem ferir a sensibilidade do cavalheiro com quem ele tinha a honra de estar associado. Era melhor que a revelação viesse por si mesma. Poderia jurar então que nada sabia da mulher.
Era desnecessário mentir. Bastava conservar-se calado.
— Sim — murmurou pensativamente, — há esse china, é verdade.
No fundo, sentia uma espécie de respeito ambíguo pela misoginia exagerada do seu patrão, como se esse horror à presença feminina fosse uma espécie de moralidade depravada — mas sempre uma moralidade, visto como redundava em vantagem. Afastava muitas complicações indesejáveis. Não presumia compreender aquilo. Não tentava mesmo estudar essa idiossincrasia do seu chefe. Sabia apenas que as suas inclinações, bem diferentes, não o tornavam mais feliz nem mais tranquilo. Ignorava qual seria a sua sorte se andasse sozinho pelo mundo, completamente senhor de si. Felizmente, era um subordinado — não um escravo assalariado, mas o companheiro de um gentleman — e isto lhe impunha certas restrições. Sim, o modo de ser de Mr. Jones em geral simplificava as coisas, não se podia negar. Mas era claro que também podia complicá-las — como no caso presente, já bastante delicado na opinião de Ricardo. E o pior de tudo era que não se podia prever com exatidão o efeito que produziria a descoberta.
Essas coisas não são naturais, refletia ele com certo azedume. Como fazer planos com aquilo que está fora da natureza? Em tais casos não há regras que nos sirvam de base. O fiel companheiro de Mr. Jones-simplesmente, prevendo numerosas dificuldades de ordem material, resolveu ocultar a seu amo a existência da mulher; e ocultá-la também às suas vistas, enquanto fosse possível. Infelizmente, parecia ser questão de poucas horas, e para dar o devido andamento ao negócio seriam precisos alguns dias. Uma vez tomado o primeiro impulso, não receava que o seu cavalheiro o desertasse. Como muitas vezes sucede com aqueles que não conhecem lei alguma, a fé de Ricardo em dados indivíduos era simples e irrestrita. O homem precisa ter algum apoio na vida.
De pernas cruzadas, perfeitamente silencioso e um pouco curvado, parecia um bonzo a meditar sobre a sílaba sagrada “Om”: uma notável ilustração da falsidade das aparências, pois o seu desprezo do mundo tinha um caráter severamente prático. Ricardo nada tinha de oriental, salvo a pasmosa imobilidade da sua postura. Mr. Jones também estava muito quieto. Afundara a cabeça na manta enrolada, deitado de flanco e com as costas para a luz. Nessa posição, as sombras que se acumulavam nas cavidades dos seus olhos faziam-nos parecer completamente vazios. Quando falou, sua voz espectral não teve de percorrer senão algumas polegadas para alcançar a orelha esquerda de Ricardo.
— Por que não diz alguma coisa, já que me acordou?
— Não sei se o senhor estava dormindo tão profundamente como procurava fazer crer — disse Ricardo, impassível.
— Também não sei — tornou Mr. Jones. — Em todo caso, estava descansando sossegadamente.
— Venha cá! — disse Ricardo num cochicho alarmado.
— O senhor por acaso estará começando a enfastiar-se?
— Não.
— Ora muito bem! — continuou o secretário, grandemente aliviado. — Posso garantir-lhe que não há motivo para isso — murmurou em tom grave. — Tudo menos isso! Se eu me demorei a falar não é porque não haja muito assunto para conversa. Assunto há de sobra.
— Que é que você tem? — exclamou o patrão. — Vai ficar pessimista agora?
— Eu? Não, senhor! Não sou desses que mudam do pensar. Pode chamar-me os nomes feios que quiser, mas sabe muito bem que eu não sou um jeremias.
Ricardo mudou de tom.
— Se me demorei a falar, é porque estava pensando no china, patrão.
— Realmente? Pois perdeu o seu tempo, meu caro Martin. Os chineses são impenetráveis.
Ricardo reconheceu que talvez fosse assim. Em todo caso, um china em geral não tinha grande importância, por mais impenetrável que fosse. Mas um barão sueco não o era... não podia ser! Tais barões andavam por aí às dúzias.
— Não compreendo como ele pode ser tão pacato — observou Mr. Jones, numa meia-voz sepulcral.
— Em que sentido, patrão? O homem não é uma lebre, já se vê. Não poderia hipnotizá-lo, como eu lhe vi fazer a muitos castelhanos e outros cidadãos sem fibra, quando era preciso obrigá-los a obedecer.
— Não espere por isso — murmurou Mr. Jones em tom sério.
— Eu não, meu senhor, se bem que o seu olhar tenha uma força extraordinária. Essa é que é a verdade.
— O que eu tenho é uma extraordinária paciência — observou Mr. Jones secamente.
Um apagado sorriso perpassou os lábios do fiel Ricardo, que nem sequer ergueu a cabeça.
— Não quero abusar do senhor, mas este trabalho não se parece com nenhum outro dos que nós temos discutido.
— Talvez não. Em todo caso, consideremo-lo assim.
O tom deste assentimento parcial refletia um tédio ante a monotonia da vida, que mexeu com os nervos do ardente Ricardo.
— Pensemos no modo de agir — retrucou ele com certa impaciência. — Esse homem é muito esperto. Lembre-se da maneira como ele tratou aquele seu camarada. O senhor já ouviu falar em tamanha baixeza? E a astúcia desse animal... uma astúcia sórdida e sem fibra!
— Não comece a pregar moral, Martin — advertiu Mr. Jones. — Ao que me é dado julgar pelo que lhe contou aquele hoteleiro alemão, a história parece revelar certa dose de caráter, e uma rara independência das ideias comuns. Isso é muito notável, se é que é verdadeiro.
— Sim, sim! Muito notável. Mas não deixa também de ser uma grande baixeza — resmoneou Ricardo com obstinação. — Eu me consolo em pensar que ele há de receber o troco, e de um modo que não espera!
A ponta da sua língua pareceu adquirir vida própria durante um instante, como se procurasse nos seus lábios comprimidos o gosto dessa vingança feroz. Era sincera a indignação de Ricardo ante essa violação a sangue frio, lenta, prolongada numa duplicidade de anos inteiros, do princípio elementar da lealdade devida a um companheiro. A vilania tem os seus cânones como a virtude, e o ato, tal como ele o imaginava, revestia-se de um horror adicional pela marcha vagarosa dessa traição atroz e covarde. Mas Ricardo também compreendia o juízo cultivado do seu amo, um cavalheiro que considerava todas essas coisas com o privilegiado desprendimento de um espírito culto e de uma personalidade elevada.
— Sim, ele é esperto e astuto — murmurou o secretário entre os seus dentes afiados.
— Vá para o diabo! — disse ao seu ouvido o tranquilo murmúrio de Mr. Jones. — Diga logo o que importa.
Ricardo obedeceu, pondo de lado as suas reflexões. Havia entre os dois homens uma similaridade de espírito — entre o proscrito dos seus próprios vícios e o aventureiro cheio de desdém provocador, da agressividade de um animal de presa que considera suas vítimas naturais todas Ri criaturas pacíficas da terra. Ambos, pontudo tinham bastante astúcia, e ambos compreendiam que haviam mergulhado nessa aventura sem um suficiente estudo dos pormenores. Aquela figura de homem solitário, longe de todo socorro, avultava indefesa e fascinante no meio do mar, enchendo-lhes inteiramente o campo de visão. Antes não parecera haver nenhuma necessidade de pensar. “Eram três contra um”, como dissera Schomberg.
Mas agora a coisa não parecia tão simples, diante da solidão que envolvia esse homem como uma couraça. A ideia que o secretário expressou ao seu modo: “Agora que estamos aqui não parecemos muito adiantados”, foi tacitamente aceita pelo patrão. Era muito fácil — refletiu Ricardo em voz baixa e confidencial — estripar um sujeito ou meter-lhe uma bala no couro, quer ele estivesse só ou acompanhado. Mas...
— Ele não está só — disse Mr. Jones em voz apagada, na postura de um homem que se prepara para dormir. — Não esqueça o chinês.
Ricardo teve um ligeiro tremor.
— Ah, sim... o china!
Esteve a ponto de falar na mulher. Mas não! Queria que o patrão continuasse firme e sereno. Em relação a essa mulher, começavam a se agitar em seu cérebro vagos pensamentos que mal ousava encarar de frente. Ela não podia ser grande coisa, refletia. Podia meter medo nela. Havia ainda outras possibilidades. Mas quanto ao china, era possível discuti-lo francamente.
— O que eu estou pensando é isso, patrão — continuou em tom sério: — Temos aqui esse homem. Ele não é nada. Se não quiser se portar direito, nós o acomodamos. Nada mais fácil. Mas há também a presa, que não está no bolso dele.
— Espero que não — murmurou Mr. Jones.
— Igualmente. É muita coisa, já sabemos. Mas se ele estivesse sozinho não se preocuparia muito com isso... com a segurança da presa. O que faria era simplesmente guardar tudo na caixa ou na gaveta que achasse mais à mão.
— Você acha?
— Sim, senhor. Para manter um olho na coisa, como quem diz. E por que não? Ninguém enterra as suas coisas, a não ser que tenha boas razões para isso. Boas razões, hein?
— Pois é. Um homem não é uma toupeira, que diabo!
Firmado na sua experiência, Ricardo garantiu que esse homem não era um animal cavoucador. Os próprios avarentos raramente enterravam os seus tesouros, a não ser que tivessem motivos excepcionais para isso. Na situação em apreço, de um homem que vivia só numa ilha, a companhia de um chinês constituía uma excelente razão. Gavetas ou caixas não seriam garantia suficiente contra um china a espreitar com seus olhos tortos. Não, senhor. Mas um cofre... um bom cofre de escritório! E o cofre estava ali, naquela sala.
— Aqui nesta sala há um cofre? Não reparei — murmurou Mr. Jones.
Era porque o cofre estava pintado de branco, como as paredes da sala; além disso, tinham-no encafuado a um canto, na sombra. Ao desembarcarem, Mr. Jones estava cansado demais para observar o que quer que fosse. Mas Ricardo notará logo o retângulo característico. Quisera poder dizer também que o fruto da traição, da duplicidade e de todas as abominações morais de Heyst se achava ali. Mas não, o raio da coisa estava vazia.
— Pode ser que ele tenha guardado tudo aí numa ocasião ou noutra — comentou ele, sombrio. — Mas depois tirou.
— O homem escolheu outra casa para morar — tornou Mr. Jones. — E por falar nisso, que quereria ele dizer quando falou em certas circunstâncias que não lhe permitiam hospedar-nos no outro bangalô? Lembra-se disso, Martin? As palavras me pareceram enigmáticas.
Martin, que bem se lembrava e sabia ser a frase motivada pela presença da mulher, tardou um pouco a responder:
— Alguma astúcia dele, patrão. E não há de ser a pior, tão pouco. E aquele seu modo de não nos fazer perguntas... isso também é astúcia. Um homem tem de sentir curiosidade, e ele não é diferente dos outros. Entretanto, faz como se não estivesse ligando. Ele está preocupado: do contrário, o que estaria fazendo tarde da noite com aquele charuto, matutando? Isso não me agrada!
— Pode ser que estivesse observando a nossa luz, tão intrigado com a nossa falta de sono como nós com a sua — insinuou gravemente o patrão de Ricardo.
— Pode ser, meu. senhor. Mas isto é muito importante para ser discutido no escuro. E que mal têm a luz? Podemos arranjar uma explicação. Estamos com a luz acesa tarde da noite porque... ora, porque o senhor não se sente bem. O senhor não se sente bem, aí está! E vai ter que fingir-se doente mesmo.
Ocorrera esta ideia de repente ao fiel auxiliar, como um bom meio de conservar o seu amo afastado da mulher o maior tempo possível. Mr. Jones acolheu a sugestão sem bulir, sem que no fundo das suas órbitas estremecesse sequer aquele lampejo pálido e fixo, que era o único sinal a revelar vida e atenção no seu corpo emaciado. Mas Ricardo, logo que deu voz à lembrança feliz, descobriu nela outras possibilidades mais adequadas aos seus fins, e de maior vantagem prática.
— Com a aparência que o senhor tem, não será difícil — prosseguiu ele naturalmente, como se não tivesse havido pausa alguma, sempre respeitoso mas franco, com perfeita singeleza de ânimo. — Basta o senhor ficar tranquilamente deitado na sua cama. Eu reparei no olhar meio surpreendido que ele lhe lançou quando estávamos no pier.
A estas palavras, que eram um tributo ingênuo ao seu aspecto físico, ainda mais sugestivo da sepultura que da doença, formou-se uma prega naquele lado do rosto de Mr. Jones que estava exposto à luz baça da vela. Era um sorriso silencioso, uma ruga semicircular, profunda e sombria, ligando a asa do nariz à base do mento. Ricardo que notara com um olhar de esguelha esse jogo fisionômico, sorriu também com simpatia, ganhando coragem.
E o senhor são como um touro! — continuou ele, — Diabos me levem se eu conseguir convencer qualquer um de que o senhor não está doente, ainda que jure por todos os meus santos! Precisamos de um dia ou dois para estudar o negócio e tomar o pulso desse hipócrita.
Os olhos de Ricardo permaneciam fitos nas suas pernas cruzadas. O chefe aprovou com a sua voz mortiça.
— Talvez seja uma boa ideia.
— Quanto ao china, não tem importância. Podemos aquietá-lo quando quisermos.
Uma das mãos de Ricardo, que repousava com a palma para cima sobre as suas pernas cruzadas, fez um gesto rápido como uma estocada, que a enorme sombra do braço repetiu na parte mais baixa da parede. Esse movimento quebrou o encanto da perfeita quietude que reinava no quarto. O secretário considerou meditativamente a parede, de onde a sombra havia desaparecido. Era fácil aquietar qualquer um, acentuou ele. Não pelo mal que o china fosse capaz de fazer, mas pela influência que a sua companhia podia exercer sobre o procedimento da vítima. Um homem! O que era um homem? Podia-se estripar um barão sueco, ou então meter-lhe uma bala no couro, tão facilmente como a outro qualquer. Mas era exatamente isto que deviam evitar, até ficar conhecido o esconderijo onde ele guardava o tesouro.
— Não acredito que o tenha posto em algum buraco, naquele bangalô — argumentou Ricardo com genuína ansiedade.
Não. Uma casa pode pegar fogo, acidental ou propositadamente, enquanto dormem os seus habitantes. Estaria debaixo dela... ou em alguma frincha, algum interstício? Algo lhe dizia que não. As sobrancelhas de Ricardo contraíram-se com a ânsia do esforço mental. O seu couro cabeludo parecia mover-se nessa lida torturante de vãs suposições.
— Que diabo, a gente não é nenhum bebê! — disse ele respondendo às objeções de Mr. Jones. — Estou pensando no que faria em lugar dele. Ele não pode ser mais sabido do que eu.
— E você sabe o que faria?
Mr. Jones parecia observar a perplexidade do companheiro com um divertimento oculto sob a sua fúnebre compostura.
Ricardo não deu importância à pergunta. Todas as suas faculdades estavam absortas na visão física do tesouro roubado. Visão esplêndida e quase palpável! Vários saquinhos de lona amarrados com cordel fino, revelando na sua distensão bojuda a forma discoide das moedas — moedas de ouro, sólidas, pesadas, eminentemente portáteis. Talvez fossem cofres de aço com arabescos engastados na tampa, ou então uma caixa de latão com filetes negros e uma alça no topo, cheia sabe-se lá de que. Notas de banco? Por que não? O sujeito estivera fazendo preparativos para voltar à Inglaterra, e por certo metera nos cofres coisa que valia a pena.
— E ele pode ter escondido isso em qualquer parte aí fora em qualquer parte! — exclamou Ricardo em voz abafada. — Na floresta...
Era isso! A luz fosca da vela mudou-se temporariamente em trevas, trevas de floresta à noite, com o clarão de uma lanterna iluminando uma figura que cava ao pé de uma árvore. Ao lado dela, com certeza, outra figura segurando a lanterna... uma figura feminina! A mulher!
O prudente Ricardo sufocou uma exclamação profana e pitoresca, metade de alegria e metade de apreensão. O homem teria confiado na garota? Confiança ou desconfiança, devia ser completa! Com as mulheres não pode haver meias-medidas. Não concebia que um homem confiasse apenas parte dos seus segredos a uma mulher que tinha com ele relações tão íntimas, e vivendo em condições tão especiais, numa solidão em que as maiores confidências não pareciam perigosas, visto como não havia ali ninguém a quem ela o pudesse trair. Ademais, em noventa por cento dos casos, um homem confia na sua amante. Mas em qualquer caso, a presença dela seria um fator favorável ou desfavorável do problema? Eis a questão!
Grande, na verdade, era a tentação de consultar o seu chefe, discutir o importante fato e obter a sua opinião. Ricardo resistiu, mas a agonia desse solitário conflito mental era extremamente aguda. Uma mulher num problema é um fator incalculável, mesmo que tenhamos alguma base para fazer conjecturas. Que dizer então quando nem sequer a vimos ainda!
Por muito velozes que fossem os seus pensamentos, ele achou que não convinha prolongar por mais tempo o silêncio. Apressou-se a dizer:
— E o senhor nos vê daqui, patrão, o senhor e eu, cada um com a sua pá na mão, obrigados a esgaravatar em toda esta maldita ilha?
Fez com o braço um leve movimento expressivo, que a sombra ampliou num gesto imenso.
— Isto parece bastante desanimador, Martin — murmurou o amo impassível.
— Não devemos desanimar, e acabou-se! — retorquiu o auxiliar. — Ainda mais depois de tudo que tivemos de aguentar naquele bote! Isso até seria...
— Não encontrou qualificativos. Muito calmo, fiel e contudo astuto, exprimiu por forma enigmática as suas novas esperanças.
— Há de surgir alguma coisa para nos por na trilha. O que não podemos é precipitar o trabalho. Pode contar comigo para tirar proveito da menor oportunidade que se apresentar. O senhor, porém... o senhor deve tratar o homem com muito jeito. Quanto ao resto, pode confiar em mim.
— Sim, mas o que eu desejaria saber é em que confia você.
Na nossa sorte — volveu o fiel Ricardo. .— Não fale mal da sorte. Poderia deitar tudo a perder.
— Você é um diabo supersticioso. Não, eu não falarei mal da sorte.
— Muito bem, patrão. Também não faça pouco dela nos seus pensamentos. Não se deve brincar com a sorte.
— Sim, a sorte é uma coisa delicada — concordou Mr. Jones num murmúrio sonhador.
Houve um breve silêncio, que Ricardo cortou com voz discreta e cautelosa:
— Por falar em sorte, creio que nós podíamos convencê-lo a jogar umas voltas com o senhor... piquet de dois ou écarté, visto como o senhor anda achacado e não pode sair... uma coisinha para passar o tempo. Quem sabe se ele não é um desses tipos apaixonados que depois de começarem a jogar...
— Isso será possível? — tornou o patrão friamente. — Diante do que sabemos da vida dele... o que se passou com aquele sócio, por exemplo?
— É verdade, patrão. É um animal de sangue frio. Um tipo insensível, desumano, um sujeito...
— Outra coisa improvável é que ele se deixe depenar. Não estamos lidando com um criançola que se possa levar com lisonjas e conversinhas, ou que se deixe intimidar. Esse homem é um calculador.
Ricardo compreendeu claramente a verdade desta definição. Tinha pensado num joguinho pequeno, só para entreter o inimigo enquanto ele, Ricardo, investigava os arredores.
— O senhor até podia perder algum dinheiro para ele, patrão — insinuou.
— É verdade.
Ricardo meditou um instante.
— Ele também me dá a impressão de ser um homem capaz de encrencar quando a gente menos espera. Que é que o senhor acha? Não lhe parece capaz de armar encrenca... se desconfiasse de alguma coisa, bem entendido? Mais capaz disso que de disparar, hein?
A resposta foi imediata:
— Oh, sem dúvida alguma, sem dúvida alguma!
— Gosto de saber que o senhor tem a mesma opinião que eu. O sujeito é uma animal encrenqueiro e nós não devemos facilitar... isto é, enquanto eu não descobrir a coisa. Depois...
Ricardo calou-se, sinistro na sua imobilidade. De repente levantou-se com um movimento rápido e, abstraído e sorumbático, contemplou o patrão aos seus pés. Mr. Jones não se mexeu.
— Há uma coisa que me preocupa — começou Ricardo a dizer em voz abafada.
— Só uma?— foi o fraco comentário que partiu do corpo imóvel sobre a cama.
— Queria dizer: uma coisa que me preocupa muito mais que todas as outras.
— A notícia é grave.
— Sim, bem grave. São esses... como se está sentindo o patrão? Não irá enfastiar-se? Eu sei que esses acessos lhe vêm de repente, mas o senhor pelo menos deve saber...
— Martin, você é um imbecil.
A cara apreensiva do secretário se iluminou.
— Sério, patrão? Pois eu fico contentíssimo em saber... Desde que o senhor não se enfastie, tudo irá bem.
Para estar mais à fresca, Ricardo tinha aberto a camisa e enrolado as mangas. Com os pés nus atravessou furtivamente o quarto, caminhando para a vela. A sombra da sua cabeça e dos seus ombros cresceu na parede oposta, para onde estava virado o rosto de Mr. Jones-simplesmente. Voltando a cabeça por cima do ombro com um movimento felino, Ricardo olhou as costas magras do espectro que repousava na cama, e depois apagou a vela.
— Até me estou divertindo, Martin — disse Mr. Jones no escuro.
Ouviu o som de uma palmada na coxa e a exclamação jubilosa do seu ajudante:
— Ótimo! Assim é que se fala, meu senhor!