Vitória
Capítulo XIII
Mr. Jones, depois de atirar por cima do ombro do Heyst, julgara conveniente se retirar. Como o espectro que era, desaparecera sem ruído da varanda. Heyst entrou titubeante na sala e olhou em derredor de si. Todas as coisas que se achavam ali — os livros, o brilho fosco da prata velha que conhecia desde criança, o próprio retrato na parede — pareciam vagas, insubstanciais, cúmplices mudas num assombroso enredo de sonho que terminava numa ilusão de despertar, com a impossibilidade de jamais tomar a cerrar os olhos. Olhou para a moça, com esforço e com terror. Ainda sentada na cadeira, ela curvara-se muito baixo sobre os joelhos, escondendo o rosto nas mãos. Heyst lembrou-se repentinamente de Wang. Como era claro tudo isto — e imensamente divertido! Imensamente!
Lena aprumou-se um pouco, depois recostou-se no espaldar, e, tirando as mãos do rosto, apertou-as ambas de encontro ao coração, como se a emocionasse, profundamente o vê-lo ali a olhar para ela com uma torva e horrorizada curiosidade. Heyst sentiria pena dela se a expressão triunfante do seu rosto não lhe produzisse um choque que destruía o equilíbrio dos seus sentimentos. Lena falou com um acento de alegria selvagem:
— Eu sabia que tu voltarias a tempo! Já não corres perigo. Consegui! Nunca, nunca permitiria que ele... — Morreu-lhe a voz, enquanto seus olhos brilhavam para ele, como o sol quando rompe a neblina. — Que ele a levasse de novo. Ó meu bem-amado!
Ele inclinou gravemente a cabeça e disse no seu tom polido:
— Não há dúvida que agiste por instinto. As mulheres receberam a sua arma própria. Eu era um homem desarmado, e vejo agora que toda a minha vida o fui. Podes glorificar-te na tua habilidade e no profundo conhecimento que tens de ti mesma. Mas parece-me que a outra atitude, que sugeria vergonha, tinha o seu encanto. Porque és cheia de encantos!
O júbilo desapareceu do rosto dela.
— Não deves zombar de mim agora. Eu não sei o que é vergonha. Estava agradecendo a Deus de todo o meu coração pecador, por me ter permitido fazer isto... por te haver dado a mim desta maneira... oh, meu amado... inteiramente meu, afinal!
Ele a olhava como doido. Timidamente, Lena procurou desculpar-se por ter desobedecido às instruções que ele lhe dera para que se pusesse a salvo. Cada modulação da sua encantadora voz lhe rasgava o peito, e o doloroso da sensação mal lhe permitia compreender as palavras. Voltou as costas para a mulher, mas uma súbita pausa, um extraordinário desfalecimento da voz dela, o fez girar sobre os calcanhares. Sobre o alvo pescoço a cabeça da moça pendia como, sob uma rajada cruel, uma flor murcha pendo na sua haste. Ele reteve o fôlego, olhou-a de perto e julgou ler nos seus olhos alguma terrível compreensão. No momento em que as suas pálpebras caíam, como se um poder invisível as tivesse ferido de cima, Heyst a ergueu da cadeira e, sem prestar atenção a um tinido metálico no assoalho, carregou-a para o outro quarto. O abandono daquele corpo o assustava. Depois de a deitar na cama tornou a sair correndo, tomou um candelabro de quatro ramos que se achava em cima da mesa e correu de novo ao quarto, arrancando com um puxão furioso a cortina que pendia estupidamente no seu caminho. Mas depois de por o candelabro sobre a mesinha de cabeceira, ficou absolutamente ocioso. Não parecia restar-lhe mais nada que fazer. Segurando o queixo com a mão, olhava atentamente para o rosto imóvel de Lena.
— Ela foi apunhalada com esta coisa? — perguntou Davidson, que ele subitamente viu de pé ao seu lado, mostrando-lhe a faca de Ricardo. Heyst não pronunciou uma só palavra de reconhecimento ou de surpresa. Deitou apenas um olhar mudo a Davidson, um olhar cheio de inexprimível horror. Depois, como que tomado de um furor repentino, pôs-se a rasgar a frente do vestido da moça. Ela permanecia insensível sob as suas mãos, e Heyst proferiu um gemido que fez Davidson estremecer interiormente. Era o surdo queixume de um homem que cai golpeado na cabeça, no escuro.
Os dois homens ficaram lado a lado, olhando lugubremente para o pequeno orifício negro que a bala de Mr. Jones tinha aberto sob o túmido peito, de uma alvura deslumbrante e como que sagrada. O peito arfava levemente, tão levemente que só os olhos do amante podiam distinguir essa débil palpitação de vida. Heyst, calmo e com o rosto completamente desfigurado, caminhando pelo quarto sem fazer ruído, preparou um pano molhado e estendeu-o sobre a insignificante ferida, em torno da qual apenas ligeiros traços de sangue maculavam o encanto e a fascinação daquela carne mortal.
— Às pálpebras de Lena estremeceram. Ela olhou sonolentamente em redor de si, serena, como que apenas fatigada com os esforços da sua tremenda vitória, a conquista do ferrão da morte a serviço do seu amor. Mas os seus olhos arredondaram-se, bem acordados, quando ela avistou a adaga de Ricardo, o despojo da morte vencida, que Davidson segurava ainda inconscientemente.
— Me dá! — disse ela. — É minha.
Davidson depôs-lhe o símbolo da sua vitória nas débeis mãos estendidas para ele com o gesto inocente de uma criança que pede com avidez um brinquedo.
— Para você — suspirou ela, virando os olhos para Heyst. — Não mate ninguém.
— Não — disse Heyst, tomando a adaga e depositando-a suavemente no peito de Lena, cujas mãos caíram sem forças ao longo do corpo.
Esvaiu-se o débil sorriso de seus lábios profundos e a cabeça afundou-se-lhe no travesseiro, assumindo a majestosa palidez e a imobilidade do mármore. Mas um ligeiro e horrível tremor percorreu os músculos que pareciam imobilizados para sempre na sua transfigurada beleza e, com uma energia assombrosa, ela perguntou em voz alta:
— Que é que eu tenho?
— Foste baleada, minha querida Lena — disse Heyst em voz firme enquanto Davidson, ouvindo a pergunta, voltava-se para apoiar a testa à coluna do pé da cama.
— Baleada? E verdade, pareceu-me que alguma coisa me tinha atingido.
A trovoada cessara finalmente de reboar por sobre Samburan, e o mundo das formas materiais já não estremecia sob as estrelas que começavam a apontar no céu. O espírito da moça, que se ia evolando da terra, agarrava-se ao seu triunfo, convicto da realidade dessa vitória sobre a morte.
— Acabou-se! — murmurou ela. — Não acontecerá mais nada! Oh, meu amado — exclamou em voz débil, — eu te salvei! Por que não me tomas nos teus braços e não me levas para longe deste lugar solitário?
Muito curvado sobre ela, Heyst amaldiçoava os requintes da sua alma que mesmo nesse momento não deixavam desprender-se-lhe dos lábios o grito sincero do amor, na sua infernal desconfiança da vida. Não ousava tocar-lhe, e a moribunda já não tinha forças para lançar-lhe os braços ao pescoço,
— Quem mais teria feito isto por ti? — murmurou ela gloriosamente.
— Ninguém no mundo — respondeu Heyst, num murmúrio de desespero que não mais procurava esconder.
Lena tentou sentar-se no leito, mas só conseguiu soerguer a cabeça do travesseiro. Com um movimento vagaroso e terrificado, Heyst logo lhe passou o braço sob o pescoço. Imediatamente ela se sentia aliviada de um peso intolerável, e abandonou-se-lhe satisfeita, na infinita fadiga da sua tremenda façanha. Exultante, via a si mesma estendida na cama, vestida de preto, e envolta numa paz profunda; enquanto ele, inclinando-se sobre ela com um sorriso bondoso e gracejador, estava pronto para erguê-la nos braços rijos e recebê-la no santuário intimo do seu coração — para sempre! O arrebatamento que lhe invadia todo o ser expandiu-se num sorriso de felicidade inocente e pueril; e com essa divina radiação nos lábios ela soltou o último alento, triunfante, buscando o olhar dele nas sombras da morte.