Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 36 de 40

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Vitória

Capítulo X

Ela passou por Heyst como se na verdade estivesse ofuscada por algum clarão secreto, lívido e consumidor, onde se dispusesse a penetrar. A cortina da alcova caiu em dobras rígidas por detrás dela. O olhar vazio de Ricardo parecia observar os revoadas de uma mosca no ar.

— Escuro como diabo lá fora, não? -— murmurou ele.

— Mas não tão escuro que me impedisse de ver esse criado dos senhores rondando por aí — tomou Heyst, em tom comedido.

— O que, Pedro? Ele pouco tem de homem, como sabe: se não fosse assim eu não gostaria tanto do camarada.

— Muito bem. Chamemo-lo então o seu digno parceiro.

— É. Bastante digno para o serviço que pedimos dele. Grande ajuda é o Pedro numa refrega. Grunhir e morder... ah, meu amigo! Então o senhor não quer que ele ande por aí?

— Não quero.

— Quer que eu o mande embora? — insistiu Ricardo, com uma afetação de incredulidade que Heyst aceitou calmamente, se bem que o ar parecesse tornar-se mais pesado dentro da sala a cada nova palavra que se pronunciava.

— E isso. Quero que o mande embora.

Esforçava-se por falar com calma.

— Meu Deus! Isso é coisa de somenos. Pedro não tem grande serventia aqui. O assunto que interessa ao meu chefe pode ser resolvido em dez minutos de conversa razoável com... com outro cavalheiro. Conversa sossegada!

Levantou de repente os olhos, que se tinham feito duros e fosforescentes. Heyst não moveu um só músculo. Ricardo deu parabéns a si mesmo por não ter trazido o revólver. Não sabia o que seria capaz de fazer, tamanha era a sua exasperação.

— O senhor quer que eu mande embora o pobre, o inofensivo Pedro antes de levá-lo para falar com o patrão... é isso? — disse ele afinal.

— Sim, é isso.

— Hum! Está se vendo — tornou Ricardo com venenoso subentendido — que o senhor é um cavalheiro. Mas todas essas fantasias de cavalheiro são capazes de azedar os bofes de um homem simples. Em todo caso... o senhor vai desculpar-me.

Levou os dedos à boca e solfou um assobio que parecia introduzir uma agulha de ar sólido a perfurar o tímpano da orelha que lhe estivesse mais próxima. Embora gozasse imensamente a careta involuntária de Heyst, Ricardo ficou sentado com uma cara perfeitamente séria enquanto esperava pelo efeito da chamada.

Pedro surdiu com uma impetuosidade extraordinária, agreste e primitiva. A porta escancarou-se com estrondo, e a selvagem figura que ela revelou parecia pronta a devastar a sala em meia dúzia de saltos. Mas Ricardo ergueu a mão espalmada, e a criatura entrou tranquilamente. As manoplas entrecerradas balançavam-se-lhe diante do corpo curvado enquanto ele caminhava. Ricardo olhava-o com expressão truculenta.

— Você vá para o bote, entendeu? Agora mesmo!

— Os olhinhos vermelhos do monstro domesticado piscaram com penosa atenção entre o pelame da cara

— E então? Por que não vai? Já esqueceu a linguagem humana? Não sabe mais o que é um bote?

— Si, bote — gaguejou a criatura com ar de dúvida.

— Pois bem, vai para lá... para o bote, no pier. Toca para lá e deita-te, faze o que quiseres mas não durmas... até ouvir o meu assobio, e então corre para cá. São estas as ordens. Marcha! Toca, vamos! Não, por aí não: pela porta da frente. E nada de caras feias!

Pedro obedeceu com desengonçada alacridade. Depois que ele foi embora, desapareceu dos olhos de Ricardo aquele brilho feroz e desapiedado e a sua fisionomia assumiu, pela primeira vez naquela noite, a expressão de um gato doméstico que está sendo observado.

— O senhor poderá vê-lo até entrar no matagal, se quiser. Está escuro demais, hein? Por que não vai com ele até lá, então?

Heyst fez um gesto de vago protesto.

— Nada me assegura quo ele vá ficar lá. Quanto à ida não tenho dúvida, mas e um ato sem garantia.

— Aí está! — disse Ricardo encolhendo os ombros filosoficamente. — Para isso não há remédio. A não ser que meta uma bala no nosso Pedro, ninguém pode ter absoluta certeza de que ele ficará num lugar mais tempo do que entende. Mas sossegue, ele vive apavorado com o meu mau gênio. É por isso que eu faço cara de papão quando falo com ele. E contudo, não seria capaz de atirar nele... não, a menos que estivesse num desses acessos de raiva que fazem um homem atirar num cachorro de estimação. Olhe, meu senhor! Isto é jogo limpo. Eu não pisquei o olho a ele para mandá-lo fazer outra coisa. Ele não se mexerá do pier. Vamos agora, meu senhor?

Houve um breve silêncio. Os músculos da mandíbula de Ricardo se contraiam agourentamente. Seus olhos deslizavam com expressão voluptuosa de um lado para o outro, cruéis e cismados. Heyst reprimiu um movimento repentino, pensou um instante e disse:

— Vai ter que esperar um pouco.

— Esperar um pouco! Esperar um pouco! Por quem ele toma a gente... por estátua ? — rosnou Ricardo em voz semiaudível.

Heyst entrou na alcova e bateu a porta atrás. Como vinha da sala iluminada, não pôde de início enxergar coisa alguma. Teve, contudo, a impressão de que a moça se levantava do chão. A cabeça dela destacou-se de repente contra a escuridão menos densa da janelinha, muito vaga, simples indicação de uma forma redonda e sem rosto.

— Vou lá, Lena. Vou enfrentar esses patifes.

Heyst surpreendeu-se ao sentir dois braços que lhe pousavam nos ombros.

— Julgava que tu... — começou.

— Sim, sim! — sussurrou a moça apressadamente.

Não se agarrava a ele, nem mesmo tentava puxá-lo para si. Suas mãos apertavam-lhe os ombros, e Heyst teve a sensação de que ela lhe fitava o rosto no escuro. Podia agora ver também alguma coisa do seu semblante — uma forma oval sem feições — e distinguir-lhe vagamente o vulto nas trevas, um contorno sem linhas definidas.

— Tu tens aí um vestido preto, não e mesmo, Lena? —perguntou falando depressa, e tão baixo que ela mal o podia ouvir.

— Sim... um vestido velho.

— Muito bem. Veste-o sem demora.

— Mas por quê?

— Não é por luto! — Havia algo de imperioso neste murmúrio levemente irônico. Podes encontrá-lo no escuro e vesti-lo?

— Lena respondeu que podia, que ia tentar. Ele ficou esperando, muito quieto. Imaginava os movimentos que ela fazia lá no fundo do quarto, mas os seus olhos, já acostumados à escuridão, não a divisavam mais, e quando ela falou sua voz o surpreendeu pela proximidade. Tendo feito o que ele pedira Lena aproximara-se, invisível.

— Bem! Onde está aquele véu roxo que eu vi por aí? — perguntou ele.

Como resposta, um leve sussurro de pano.

— Onde está? —repetiu ele, impaciente.

Sentiu-lhe o bafo inesperadamente nas faces.

— Aqui, nas minhas mãos.

— Ótimo! Escuta, Lena. Assim que eu sair daqui com esse horrível biltre, tu escapas pelos fundos... imediatamente, sem perda de tempo!... e dás uma volta correndo para a floresta. Será essa a tua oportunidade, enquanto nos afastamos. Estou certo de que ele não me largará. Corre para a floresta, atrás da orla de arbustos, entre as árvores grandes. Hás de encontrar, com certeza, um sítio de onde possas ver de frente a porta da varanda. Receio por ti; mas com esse vestido preto e quase todo o rosto oculto pelo véu escuro, desafio qualquer um a que te descubra antes de amanhecer. Espera na floresta até que eu traga a mesa para diante da porta e vejas três velas, das quatro, apagarem-se, e uma tornar-se a acender... ou, se as luzes se apagarem aqui enquanto estiver observando, espere até que eu acenda três velas e torne a apagar duas. Quando vir um desses sinais volta correndo o mais depressa possível, porque isso quer dizer que estou à espera aqui.

Enquanto ele falava a moça tinha tomado uma das suas mãos. Não a apertou. Segurou-a com frouxidão, como que timidamente, caridosamente, Era um simples contato, o contato de quem desejasse certificar-se de que ele estava ali, de que era um ente real e não uma mera sombra mais escura no meio das trevas. O calor daquela mão deu a Heyst uma sensação estranha e íntima de toda a pessoa dela. Teve de fazer esforço para recalcar uma emoção de nova espécie, que quase o enervava. E, inflexível, continuou a cochichar:

— Mas se não vir sinal nenhum, não pense — por medo, curiosidade, desespero ou esperança — em voltar para cá. E logo que começar a amanhecer siga pela borda da clareira até encontrar a senda. Não espere mais, porque provavelmente estarei morto.

A palavra murmurada “Não!” penetrou em seu ouvido como se fosse formada no ar e viesse flutuando.

— Conhece o caminho — prosseguiu ele. — Vai até a barricada e procure Wang... sim, Wang. Que nada te detenha! — Pareceu-lhe que a mão da moça tremia um pouco. — O pior que ele te pode fazer é dar-te um tiro; mas não o fará. Tenho a convicção de que ele não o fará, se eu não estiver contigo. Fica com os aldeões, com os selvagens, e não receies nada. Causarás mais terror a eles do que eles medo a ti. Davidson aparecerá antes que se passem muitos dias. Fica vigiando a passagem de um vapor. Inventa um sinal qualquer para chamá-lo.

Ela não respondeu. A impressão do silêncio pesado e torvo, vinda do mundo exterior, parecia entrar no quarto e enchê-lo; era a sensação de uma infinidade opressiva, sem vida e sem .luz, como se o grande coração do mundo houvesse cessado de pulsar, como se houvesse chegado o fim de todas as coisas.

— Compreendeste? Fugirás daqui — murmurou Heyst, premente.

Lena levou a mão dele aos lábios e soltou-a. Heyst ficou surpreendido.

— Lena! — exclamou a meia voz,

Lena se afastara. Ele não ousava confiar em si mesmo — nem sequer para pronunciar uma palavra.

Ao virar-se para sair do quarto ouviu um baque em algum ponto da casa. Para abrir a porta tinha de erguer primeiro a cortina. Fê-lo com o rosto voltado para trás. Um tenuíssimo fio de luz, penetrando pelo buraco da fechadura e uma ou duas frinchas, bastou para que ele a avistasse claramente, toda de preto, de joelhos no assoalho, com a cabeça e os braços atirados sobre a guarda da cama — toda enlatada, na desolação de ama pecadora aflita. Que seria? Cruzou pela mente de Heyst a suspeita de que houvesse em tudo aquilo muitas coisas que ele não compreendia. O braço dela, desprendendo-se da guarda da cama, acenou-lhe para que se afastasse. Ele obedeceu e saiu, cheio de inquietação.

A cortina ainda não cessara de balouçar atrás de Heyst quando ela se pôs em pé e chegou-se rente à porta, à escuta de sons, numa postura curvada e trágica de atenção furtiva, apertando o peito com uma mão, como para comprimi-lo, para abafar os latejos do coração. Heyst surpreendera o secretário de Mr. Jones contemplando a sua escrivaninha fechada. Talvez Ricardo estivesse a pensar na maneira de arrombá-la. Ao voltar-se repentinamente mostrou uma cara tão convulsa que Heyst se deteve pasmado com o branco daqueles olhos revirados que pestanejavam horrivelmente, como se o homem estivesse sofrendo de convulsões internas.

— Pensei que o senhor não vinha mais — resmoneou Ricardo.

— Eu não sabia que tinha tanta pressa. Mesmo que a sua viagem de volta dependa desta conversação, segundo diz, duvido que ousem fazer-se ao mar numa noite como esta — disse Heyst, fazendo sinal a Ricardo para que o precedesse no caminho.

O secretário saiu logo da sala, caminhando com felinas ondulações dos ombros e dos quadris. Havia algo de cruel no absoluto mutismo da noite. A grande nuvem que cobria metade do céu estava suspensa diante deles, como uma enorme cortina a esconder ameaçadores preparativos de violência. No momento em que os pés dos dois homens tocaram no solo veio um rumor de trás da nuvem, precedido de um clarão rápido e misterioso que alumiou as águas da baía.

— Ah! — disse Ricardo. — Está começando.

— Talvez não venha a ser nada, em fim de contas — observou Heyst, que avançava a passos firmes.

— Não! Deixe que venha! — replicou Ricardo com ferocidade. — Estou em disposição para isso!

Quando os dois homens alcançaram o outro bangalô o rumor modulado e distante passara a um rosnar contínuo, enquanto os pálidos relâmpagos, qual ondas de fogo frio, inundavam a ilha e afastavam-se em rápida sucessão. Ricardo, inesperadamente, subiu correndo os degraus e enfiou a cabeça pela abertura da porta.

— Aqui está ele, patrão! Segure-o o mais tempo que puder... até que me ouça assobiar. Já encontrei a pista.

Atirou estas palavras para dentro do quarto com incrível rapidez e afastou-se para deixar passar a visita. Teve, porém, de esperar um considerável momento, pois Heyst, percebendo-lhe a intenção, afrouxara desdenhosamente o passo, e quando entrou no quarto foi com um sorriso, o sorriso de Heyst, a esconder-se sob o seu bigode marcial.