Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 23 de 40

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Vitória

Capítulo VII

A explicação encontrava-se em dois fatos simples: primeiro, os ventos brandos e as fortes correntes do Mar de Java tinham arrastado o bote a esmo, até fazê-los perder parcialmente o rumo; e segundo, por algum extraordinário equívoco, uma das bilhas postas na embarcação pelo caseiro de Schomberg continha água do mar. Ricardo tratava de dar um tom patético às suas palavras. Remar trinta horas com remos de dezoito pés! E o sol! Ele se consolava amaldiçoando o sol. Tinham sentido o coração e os pulmões secarem dentro deles. E depois, como se isso não fosse bastante (queixava-se ele com amargura), tivera de gastar as poucas forças que lhe restavam golpeando o criado na cabeça com uma travessa. O idiota queria beber água do mar e não ouvia ninguém. Não havia outro meio de impedi-lo. Era preferível deixá-lo desacordado a vê-lo enlouquecer dentro do bote ou ser obrigado a matá-lo. O preventivo, administrado com força suficiente para romper os tampos a um elefante (gabava-se Ricardo) tivera de ser aplicado em duas ocasiões — na segunda quase com o pier à vista.

— O senhor já viu a belezinha — continuou o secretário, muito expansivo, encobrindo sob a sua loquacidade a falta de uma versão plausível que explicasse a viagem. — Tive de arrancá-lo à força deste cano. Abri de novo todas as feridas velhas que ele tinha na cabeça. O senhor viu com que força tive de bater. Ele é absolutamente incapaz de se dominar. Se não fosse a utilidade desse sujeito em certos serviços, eu deixaria que o patrão o matasse. Sorriu para Heyst à maneira Que lhe era peculiar, retraindo os lábios, e acrescentou como a segunda reflexão:

— E é o que acabará por acontecer se ele não aprender a se conter. Em todo caso, ensinei-lhe a ter cuidado por algum tempo!

E tornou a sorrir para o homem do pier. Seus olhos redondos não se tinham despegado do rosto de Heyst desde que começara a narrar a viagem.

— Então é esta a cara que tem o homem! — pensava Ricardo.

Não esperava encontrar um homem com esta aparência. Formara dele um conceito que compreendia — particularidade útil — Um ponto vulnerável qualquer. Esses solitários eram muitas vezes dados à bebida. Mas não... o homem não tinha cara de bêbado, nem se podiam descobrir sinais de fraqueza, de susto ou mesmo de surpresa, naquelas feições, naquele olhar firme.

— Estávamos mais mortos que vivos, e não pudemos trepar — continuou Ricardo. — Ouvi o senhor passar aí em cima, entretanto. Creio que gritei; pelo menos tentei gritar. Não me ouviu?

Heyst fez um sinal negativo, quase imperceptível, mas que não escapou aos olhos atentos de Ricardo.

— Tinha a garganta muito ressequida. Por último não nos atrevíamos nem a cochichar um para o outro. A sede sufoca um homem. Podíamos ter morrido debaixo deste pier, antes que o senhor nos achasse.

— Não podia imaginar onde se haviam metido —falou Heyst afinal, dirigindo-se aos recém-chegados. — Mas foram vistos logo que dobraram aquela ponta.

— Fomos vistos, é? — rosnou o sr. Ricardo. — Remávamos como máquinas, sem nos atrevermos a parar. O patrão ia ao timão, mas não tinha forças para falar. O bote meteu-se entre os barrotes do pier, chocou-se com alguma coisa e nós todos caímos para a frente. Bêbados... ah, ah! Completamente secos, isso sim! Gastamos o resto das nossas forças para chegar aqui, pode crer. Mais uma milha e estávamos liquidados. Quando ouvi os seus passos em cima tratei de me levantar, mas caí.

— Foi esse o primeiro ruído que ouvi — acudiu Heyst.

Mr. Jones, com a frente do casaco branco sujo empapado e colado ao peito, afastou-se do cano cambaleando. Escorou-se ao ombro de Ricardo, respirou fundo, ergueu a cabeça gotejante e abriu a boca num horrendo sorriso de amabilidade que passou despercebido ao pensativo Heyst. Atrás dele o sol, roçando pela água, semelhava um disco de ferro candente que se houvesse resfriado até assumir um tom vermelho-escuro, prestes a sair rolando em redor da chapa circular de aço que era o mar. Este, sob o céu que começava a escurecer, parecia mais sólido que as altas montanhas de Samburan, mais sólido que o promontório, cujo longo declive mergulhava na sua própria sombra, borrando os apagados reflexos da baía. O forte jorro de água que brotava do cano quebrava-se como estilhaços de vidro na borda do bote. Aquele chapinhar estertoroso e persistente acentuava o profundo silêncio do universo.

— Grande ideia, trazer a água para cá — disse Ricardo com admiração.

A água era a vida. Sentia-se agora com forças para correr uma milha inteira, saltar um muro de três metros, cantar uma canção. Dez minutos antes era pouco menos que um cadáver, liquidado, incapaz de se por em pé, de levantar uma mão, de lançar um gemido. Uma gota d’água fizera o milagre.

— Não teve a sensação de que era a própria vida que lhe escorria para dentro, meu senhor? — perguntou ele ao patrão, com uma vivacidade deferente mas forçada.

Sem responder uma palavra, Mr. Jones foi sentar-se à popa.

— Esse criado dos senhores não estará esvaindo-se em sangue aí embaixo, na proa? — perguntou Heyst.

Ricardo fez ponto nas suas exclamações extáticas sobre a virtude vivificante da água e respondeu em tom inocente;

— Ele? O senhor pode chamar isso de homem, se isso lhe agrada, mas ele tem o couro mais duro que o mais duro dos jacarés que caçava nos seus bons tempos. O senhor não sabe o que esse sujeito é capaz de aguentar, mas eu sei. Há muito que fizemos a experiência. Olá, Pedro! Pedro! — berrou ele com um vigor de pulmões que atestava o poder regenerador da água.

Um “Señor? pronunciado em voz débil, respondeu-lhe debaixo do pier.

— Que foi que eu disse? — tornou Ricardo triunfante.

— Não há nada que lhe faça mal. Está às mil maravilhas. Mas olhe, o bote está ficando alagado. Não poderá fechar essa torneira antes que afundemos? Já tem água quase pelo meio.

A um sinal de Heyst, Wang martelou na torneira e postou-se atrás do Número Um, empunhando a alavanca e imóvel como antes. Ricardo não estava talvez tão seguro da resistência de Pedro como afirmava, pois curvou-se olhando por baixo do pier, depois avançou para á proa, desaparecendo da vista. O jorro d’água, cessando repentinamente, produziu um silêncio que se tornou completo quando as últimas gotas terminaram de cair. O sol, ao longe, reduzira-se a uma chispa vermelha, luzindo muito baixo na muda imensidão do crepúsculo. Em volta do bote, a água ainda tinha uns tardios lampejos de púrpura. A figura espectral que estava à popa disse em voz lânguida:

— Este, mm... companheiro... mm... este meu secretário é um esquisitão. Receio que não nos estejamos apresentando sob uma luz muito favorável.

Heyst escutava. Era a voz convencional de um homem educado, salvo que revelava uma extraordinária falta de vida. Ainda mais estranha, porém, era a preocupação das aparências, que ele não sabia se o outro exprimia a sério ou por gracejo. A primeira alternativa era pouco verosímil naquelas circunstâncias, e ninguém gracejava em voz tão morta. Não havia para isso resposta possível, e Heyst nada disse. O outro continuou:

— Para quem viaja como eu, um homem desta espécie é extremamente útil. Não há dúvida que ele tem as suas pequenas fraquezas.

Heyst não resistiu à tentação de dizer:

— Realmente? Entre elas não se conta a fraqueza do braço, nem sentimentos exageradamente humanos, pelo que me é dado ver,

— Defeitos de gênio — explicou Mr, Jones da popa do bote.

O assunto desse diálogo, saindo nesse momento debaixo do pier para a parte visível do bote, defendeu-se numa voz cheia de vida e com modos que nada tinham de lânguidos. Eram, pelo contrário, muito vivos, quase jocosos. Pediu desculpas por contradizer. Nunca se enfurecia com “o nosso Pedro”. O sujeito era um índio extremamente forte e sem a menor inteligência. Isto o tomava perigoso, e era preciso tratá-lo de acordo, de maneira que ele pudesse compreender. Era incapaz de raciocínio.

— E assim — disse Ricardo a Heyst, com animação, — o senhor não deve se surpreender...

— Garanto — interrompeu Heyst — que o meu assombro com a chegada dos senhores nesse bote é tão grande que não deixa lugar para me surpreender com coisas de menor importância. Mas não seria melhor que desembarcassem?

— Isso é que é falar, cavalheiro!

Ricardo começou a azafamar-se pelo bote, e enquanto isso não cessava de falar. Sentindo-se incapaz de “tomar a medida” a este homem, estava inclinado a lhe atribuir poderes extraordinários de penetração, poderes que o silêncio, no seu entender, teria favorecido. Temia também que lhe fizessem alguma pergunta à queima-roupa. Não tinha nenhuma história pronta para contar. Ele e o seu patrão haviam protelado demais a consideração deste pormenor importante. Nos últimos dois dias os horrores da sede, assaltando-os inesperadamente, impediram-nos de deliberar. Para escaparem com vida tiveram de remar sem descanso. Mas o homem do pier, fosse ele parente do próprio diabo. havia de lhes pagar tudo que tinham padecido — pensava Ricardo com infernal alegria.

Nesse entrementes, patinhando na água que cobria o fundo do bote, Ricardo felicitava-se em voz alta por ter encontrado a bagagem seca. Empilhou-a na proa. Amarrou toscamente a cabeça de Pedro. Pedro não tinha motivo para resmungar. Pelo contrário, devia agradecer a ele, Ricardo, o fato de ainda estar com vida.

— Bem, agora, vou-lhe dar um impulso, paira o — disse ele jovialmente ao seu chefe, que ficara imóvel na popa.

— Todos os nossos trabalhos se acabaram para sempre... ou ao menos por algum tempo. Não é sorte encontrarmos um homem branco nesta ilha? Antes teria esperado um anjo do céu... hein, Mr. Jones? Bem, então... está pronto, meu senhor? Um, dois, três, upa!

Ajudado debaixo por Ricardo e de cima pelo homem mais inesperado que um anjo, Mr. Jones trepou para o pier e ficou ao lado de Heyst. Vacilava como um caniço. A noite que descia sobre Samburan convertera em densa sombra a ponta de terra e o próprio pier, e dava uma negra solidez à água parada, que se estendia para oeste até encontrar os derradeiros traços de luz. Heyst encarava assim os hóspedes que o mundo abandonado lhe mandara ao cair do dia. Os outros vestígios de luz que tinham ficado na terra se enfurnavam pelos olhos cavos do homem magro. Brilhavam ali, móveis e languidamente evasivos. As pálpebras palpitavam.

— O senhor está se sentindo fraco — disse Heyst.

— Sim, um pouco, no momento — confessou o outro.

Ofegando fortemente, vigoroso e desajudado, Ricardo içou-se para o pier com os pés e as mãos. Ergueu-se junto de Heyst e bateu com o pé nas pranchas, duas pancadas vivas e provocadoras, qual as pancadas que se ouvem por vezes nas escolas de esgrima, antes que os adversários tercem as armas. Não que Ricardo, o marinheiro renegado, tivesse algum conhecimento de esgrima. Suas armas eram o que ele chamava “pau de fogo” ou uma faca ainda mais plebeia, como a que naquele momento trazia engenhosamente apresilhada à perna. Achou nela. Seria bastante baixar rapidamente a mão, dar um corte debaixo para cima, empurrar o homem para dentro da água, e apenas o ruído de um mergulho perturbaria o silêncio da noite. Heyst não teria tempo para gritar. Seria um trabalho rápido e limpo, que condizia perfeitamente com o estado de ânimo de Ricardo. Mas reprimiu esse impulso selvagem. Á coisa não era tão simples assim. Era preciso representar a peça ao som de outra música, de compasso muito mais lento. Voltou ao tom de simplicidade tagarela.

— É. Eu também não me sinto tão forte como pensei, depois de beber. Grandes milagres faz a água! E arranjá-la aqui mesmo! Foi uma delícia hein, patrão?

Mr. Jones, diretamente interpelado, entrou no seu papel:

— Francamente, quando vi este pier numa ilha que parecia desabitada, não pude crer nos meus olhos. Duvidei. Pensei que fosse uma ilusão, até que o bote se meteu entre os barrotes, aí onde o senhor o vê.

Enquanto ele falava, numa voz fraca que não parecia ser deste mundo, o seu assecla, em acentos fortes e muito terrenos, inquietava-se com a bagagem que estava no bote, e gritava a Pedro:

— Vamos, passa os troços cá para cima! Mexe-te, hombre, senão terei que descer de novo para te dar uns cascudos nessas ataduras, seu urso resmungão!

— Ah, o senhor não acreditou na realidade do pier? dizia Heyst a Mr. Jones.

— Devias beijar-me as mãos!

Ricardo agarrou a velha mala de couro e deixou-a cair nas pranchas do pier com um baque surdo.

— Sim! Devias acender uma vela diante de mim, como vocês fazem aos santos na sua terra. Nenhum santo já fez tanto por ti como eu fiz, vagabundo ingrato. Vamos, sobe!

Ajudado pelo loquaz Ricardo, Pedro subiu ao pier, onde ficou algum tempo de quatro pés, abanando a cabeça hirsuta envolta em trapos brancos. Depois levantou-se desajeitadamente, parecendo-se, no crepúsculo, com algum animal de grande porte que se equilibrasse nas patas traseiras.

Mr. Jones começou a explicar a Heyst, languidamente, que estavam em situação muito precária naquela manhã quando descortinaram a fumaça do vulcão. Isto os animou a fazer mais um esforço para salvar suas vidas. Pouco depois avistavam a ilha.

— Ainda me restava bastante entendimento no cérebro torrado para modificar o rumo do bote — continuou a voz espectral. — Quanto a encontrar socorro, um pier, um homem branco... ninguém teria sonhado com isso. Simplesmente absurdo!

— Foi isso mesmo o que eu pensei quando o meu criado chinês me disse que tinha visto um bote com homens brancos a remar — disse Heyst.

— Uma sorte incrível — interpôs Ricardo, que lhes estava ao lado, escutando cada palavra com atenção ansiosa.

— Parece um sonho — acrescentou. — Um sonho delicioso!

Um silêncio envolveu os três homens, como se cada um deles receasse falar, sentindo a iminência de uma crise. Pedro, de uma banda, e Wang da outra, tinham o ar de espectadores interessados. Haviam surgido algumas estrelas no rastro da luz crepuscular que fugia. Uma leve brisa, tépida após o dia esbraseante, fez Mr. Jones tiritar dentro das suas roupas encharcadas.

— Posso deduzir, então, que há aqui um estabelecimento de brancos? — murmurou ele, estremecendo visivelmente.

Heyst saiu da sua meditação.

— Oh, tudo abandonado. Vivo aqui... a bem dizer, só. Mas ainda restam várias casas desocupadas. Acomodação não falta. É bom que... Wang, volte à praia e traga cá o vagonete.

Tendo dito estas últimas palavras em malaio, explicou cortesmente que eram instruções para o transporte da bagagem. Wang sumira-se na noite, sem ruído.

— Caramba! Até trilhos têm aqui — exclamou Ricardo em tom de admiração. — Nunca pensei!

— Explorávamos uma mina de carvão na ilha — disse o ex-administrador da Companhia de Carvão da Zona Tropical. — Isso são os destroços das nossas instalações.

Os dentes de Mr. Jones começaram a entrechocar-se a um novo sopro de vento, um mero suspiro vindo do poente, onde Vênus despedia os seus raios à beira do horizonte, qual lâmpada brilhante a pender sobre o túmulo do sol.

— Podíamos pôr-nos a andar — propôs Heyst. — O chinês e... ah... esse seu criado ingrato, o homem da cabeça quebrada, podem por as coisas no vagonete e trazê-las atrás de nós.

O conselho foi aceito em silêncio. A caminho da praia os três homens cruzaram-se com o vagonete, um simples ruído metálico que passou roçando por eles, impelido por Wang, apenas visível, e que corria silenciosamente. Nada mais que o som dos seus passos os acompanhava. Havia muito tempo que não se ouviam tantos passos juntos sobre aquele pier. Antes de penetrarem, no caminho Aberto entre as ervas, Heyst disse:

— Não posso convidá-los a participar do meu alojamento. — A polidez distante deste exórdio fez os dois estancar subitamente, como pasmados com alguma incongruência manifesta. — Lamentá-lo-ia muito — continuou ele — se não lhes pudesse oferecer um desses bangalôs vazios, à escolha, para sua residência temporária.

Voltou-se e mergulhou na senda estreita, seguido pelos outros em fila indiana.

— Esquisito começo! — cochichou Ricardo, aproveitando a ocasião, falando às costas de Mr. Jones que vacilava ao lusco-fusco, entre as duas paredes de ervas tropicais, quase tão esguio quanto elas.

Nessa ordem surdiram eles na clareira que Wang tinha aberto com o seu judicioso sistema de queimas periódicas. As casas sem luz, com seus tetos elevados, pareciam misteriosamente grandes e informes contra o cintilar das estrelas que se iam multiplicando. Heyst notou com satisfação a ausência de luz no seu bangalô. Parecia tão desabitado como os outros. Continuou a mostrar o caminho aos dois homens, pendendo para a esquerda. Sua voz tranquila soou na noite:

— Este aqui é o mais conveniente. Era o nosso escritório. Ainda há alguns móveis aí dentro. Tenho certeza de que os senhores encontrarão duas camas de campanha numa das peças.

O alto teto do bangalô erguia-se muito perto, escondendo o céu.

— Cá estamos. Três degraus. Como veem, há uma larga varanda. Desculpem se os faço esperar um momento. Creio que a porta está fechada com chave.

Ouviram-no a experimentar a fechadura. Depois encostou-se ao parapeito, dizendo:

— Wang nos trará as chaves.

Os outros esperaram, duas sombras vagas que quase se confundiam na escuridão da varanda, onde repentinamente se ouviu o bater aos dentes de Mr. Jones, logo reprimido, e um leve arrastar de pés de Ricardo. O guia e hospedeiro, com as costas contra a balaustrada, parecia olvidado da existência dos dois homens. De súbito moveu-se, murmurando:

— Ah, aí vem o vagonete.

Falou mais alto, em malaio, e recebeu a resposta: “Ya tuan”, vinda de um grupo indistinto que se divisava na direção dos trilhos.

— Mandei Wang buscar a chave e uma luz — disse ele, numa voz que não parecia vir de nenhuma direção especial: uma peculiaridade que desconcertou Ricardo.

Wang não se fez esperar muito tempo. Pouco depois avistava-se uma lanterna a oscilar na escuridão. Lançou um raio fugitivo sobre o vagonete parado, com a bagagem, por cima da qual se curvava o vulto de Pedro. Depois avançou para o bangalô e subiu os degraus. Após lidar na fechadura perra, Wang encostou o ombro à porta e esta cedeu ruidosamente, como que indignada por se ver assim violada ao cabo de dois anos de repouso. Da tampa inclinada de uma alta escrivaninha voou uma folha de papel esquecida e solitária, indo sentar graciosamente no chão.

Wang e Pedro entravam e saíam pela porta ultrajada, trazendo as coisas do vagonete, um a deslizar célere e o outro a cambalear pesadamente. Terminada, a acomodação da bagagem, Wang, a uma ordem calma de Heyst, fez diversas viagens aos depósitos, voltando com cobertores, provisões em lata, café, açúcar e um pacote de velas. Acendeu uma destas e grudou-a na beira da escrivaninha. Nesse meio tempo Pedro, que fora apresentado a um feixe de gravetos e algumas achas de lenha, pusera-se a acender fogo na frente da casa. Pendurou em cima das chamas uma chaleira cheia de água que Wang lhe estendeu impassível, na ponta do braço, como se o fizesse por cima de um abismo. Tendo recebido os agradecimentos dos seus hóspedes, Heyst desejou-lhes boa noite e retirou-se, deixando-os descansar.