Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 6 de 40

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Vitória

Capítulo V

Sucedeu atrasar-se Davidson de dois dias na viagem de volta; coisa de pouca monta sem dúvida, mas o comandante fez questão de ir logo à terra, na hora mais calmosa da tarde, para procurar Heyst. O hotel de Schomberg ficava atrás de um vasto muro que encerrava um jardim, algumas árvores grandes e, sob a larga ramada destas, um “salão” aparte, “próprio para concertos e outras representações”, segundo escrevia Schomberg em seus anúncios. Nos dois pilares de tijolo que flanqueavam o portão, cartazes rasgados, com os farrapos esvoaçantes, anunciavam em grossas maiúsculas vermelhas: “Concertos todas as noites”.

A caminhada fora longa e esbraseada por um sol infernal. Davidson ficou a enxugar o rosto e o pescoço alagados naquilo que Schomberg chamava a “piazza”. Várias portas abriam para ela, mas todas as cortinas estavam descidas. Não se via alma viva, nem mesmo um dos criados chineses nada mais que um grupo de cadeiras e mesas de ferro pintado. A solidão, a sombra, o silêncio melancólico — e uma leve brisa traiçoeira. que vinha de sob as árvores e bem inesperadamente provocou em Davidson um ligeiro arrepio, esse arrepio dos trópicos que, especialmente em Surabaya, significa muitas vezes a febre e o hospital para o branco incauto.

O prudente Davidson tratou de se refugiar na sala escura mais próxima. No crepúsculo artificial, atrás das mesas de bilhar encapadas, uma forma branca ergueu-se de duas cadeiras onde estivera estendida. O meio da tarde, findo o almoço na mesa comum, eram as horas de lazer de Schomberg. Aproximou-se devagar, majestoso, circunspecto, na defensiva, a grande barba loura cobrindo o peito qual uma couraça. Não gostava de Davidson, que nunca lhe fora um freguês muito fiel. Ao passar por uma das mesas premiu uma campainha e perguntou com um ar distante, muito oficial da reserva:

— Deseja?

O bom Davidson, ainda a enxugar o pescoço suado, respondeu com simplicidade que viera buscar Heyst, conforme o combinado.

— Não está!

Apareceu um chinês, acudindo à campainha. Schomberg virou-se muito severamente para ele:

— Atenda o cavalheiro.

Davidson tinha que ir. Não podia esperar. Rogava apenas fosse comunicado a Heyst que o Sissie partiria à meia-noite.

— Não — está — aqui, estou-lhe dizendo!

Davidson deu uma palmada apreensiva na coxa.

— Bom Deus! No hospital, suponho. (Conjectura assaz natural num lugar tão assolado pela febre).

O tenente da Reserva limitou-se a espichar os beiços e alçar as sobrancelhas sem olhar para o outro. Esta expressão podia significar qualquer coisa, mas. Davidson abandonou confiadamente a ideia do hospital. Todavia, precisava encontrar Heyst antes da meia-noite.

— Esteve parado aqui? — perguntou.

— Sim, parou aqui.

— Sabe dizer-me onde está agora? — prosseguiu Davidson placidamente. No íntimo começava a ficar ansioso, pois tomara a Heyst a afeição de um protetor voluntário. Eis a resposta que obteve:

— Não sei dizer. Isso não é da minha conta — acompanhada de majestosas oscilações de cabeça, como se o hoteleiro aludisse a algum mistério terrível.

Davidson era a placidez personalizada. Era este o seu natural. Não demonstrou os seus sentimentos, que não eram favoráveis a Schomberg.

— “Tenho certeza de descobrir no escritório dos Tesman”, pensou. Mas fazia muito calor, e se Heyst estivesse no porto já devia saber que o Sissie tinha entrado. Era até possível que houvesse subido a bordo, onde podia gozar uma frescura que era negada à cidade. Sendo um homem corpulento, Davidson buscava em toda parte a fresca e tendia para a imobilidade. Deixou-se ficar, como que irresoluto. Schomberg, a porta, olhava para fora e fingia perfeita indiferença. Não pôde mantê-la, contudo. Voltou-se subitamente para dentro e perguntou com raiva brusca:

— Queria falar com ele?

— Pois claro — tornou Davidson. — Combinamos de nos encontrarmos...

— Não se incomode. Ele agora não se importa com isso.

— Não?

— O senhor pode julgar por si mesmo. Não o encontrou aqui, não é verdade? Pode fiar-se no que lhe digo. Não se preocupe com ele. É um conselho de amigo.

— Obrigado — disse Davidson, intimamente sobressaltado com aquele tom selvagem. — Creio que vou sentar um pouco e beber alguma coisa, afinal de contas.

Não era esta a resposta esperada por Schomberg. Gritou brutalmente:

— Boy!

O chinês se aproximou, e depois de indicar o cliente com um aceno de cabeça o hoteleiro saiu resmungando. Davidson ouviu-lhe ranger os dentes ao sair.

Schomberg ficou sozinho com as mesas de bilhar, como se o hotel estivesse sem hóspedes. A sua placidez era tão genuína que não se entregou a apreensões descabidas com respeito à ausência de Heyst ou aos modos misteriosos de Schomberg. Considerava tudo isso com a astúcia que lhe era própria Acontecera qualquer coisa, e repugnava-lhe sair para tomar informações, tolhido como estava pelo pressentimento de que poderia ser esclarecido ali mesmo. Na parede que lhe fazia frente havia um cartaz com os dizeres: “Concertos Todas as Noites”, igual aos do portão mas bem conservado. Leu-o descuidosamente e notou surpreendido que se tratava de uma orquestra feminina, coisa pouco comum naquela época. “Excursão de Zangiacomo no Oriente — Dezoito Figuras”. O anúncio dizia que a orquestra tivera a honra de executar o seu seleto repertório diante de várias autoridades coloniais, bem como de paxás, xeques, principais Indígenas, S. A. o sultão de Mascate, etc., etc.

Davidson teve pena das dezoito senhoras que compunham a orquestra. Não ignorava o que fosse aquele gênero de vida, a sordidez e os incidentes brutais dessas tournées dirigidas pelos tais Zangiacomos, que muitas vezes eram tudo menos músicos. Enquanto considerava o cartaz abriu-se uma porta às suas costas e entrou a mulher que passava por ser esposa de Schomberg, e sem dúvida o era. Conforme observara alguém certa ocasião, com cinismo, era muito desgraciosa para ser outra coisa. A crença de que o marido a maltratava abominavelmente fundava-se na sua expressão assustada. Davidson tirou o chapéu. A pálida sra. Schomberg fez-lhe uma inclinação de cabeça e instalou-se imediatamente atrás de uma espécie de balcão elevado, de frente para a porta e com um espelho e várias filas de garrafas às costas. Usava um penteado complicado, com dois cachos no lado esquerdo do pescoço ossudo. O vestido era de seda. Viera para entrar em serviço. Por uma razão ou outra Schomberg exigia isto dela, conquanto a mulher não aumentasse em nada os atrativos do estabelecimento. Ali ficava sentada, entre a fumaça e a bulha, como um ídolo entronizado, de tempos a tempos sorrindo estupidamente para as mesas de bilhar, sem falar com ninguém e sem que ninguém lhe falasse. O próprio Schomberg não se interessava por ela senão para lhe fazer alguma carranca súbita e totalmente imotivada. Fora isto, até os chineses ignoravam a sua existência.

A hoteleira havia interrompido as reflexões de Davidson. Como estavam sós, o seu silêncio e aquela imobilidade esgazeada deixaram-no contrafeito. Tinha a compaixão fácil. Pareceu-lhe grosseria não prestar atenção à mulher.

— Esta gente está hospedada aqui? — perguntou indicando o cartaz.

Tão desacostumada estava ela de ouvir os fregueses dirigir-lhe a palavra que ao som da voz de Davidson deu um pulo na cadeira. Davidson contou-nos depois que ela pulara exatamente como um boneco de pau, sem perder a sua rígida imobilidade. Nem sequer moveu os olhos. Respondeu desembaraçadamente, se bem que até os seus lábios pareciam feitos de pau.

— Passaram um mês. Já foram embora. Tocavam todas as noites.

— Boa orquestra, não?

A isto ela não respondeu. Continuou a olhar fito para a frente, e o seu silêncio desconcertou Davidson. Parecia não tê-lo ouvido — o que era impossível. Talvez houvesse traçado a si mesma a regra de nunca emitir opiniões, ou então fora adestrada por Schomberg, por motivos domésticos, em guardá-las para si. Mas Davidson sentia-se na obrigação de conversar. Disse pois, interpretando a seu modo aquele silêncio surpreendente:

— Entendo... não é grande coisa. Orquestras como essa raramente têm muito valor. Com certeza são italianas, sra. Schomberg, a julgar pelo nome do chefe?

Ela abanou a cabeça.

— Não. Na realidade ele é alemão, mas tinge o cabelo e a barba de preto para se fazer passar por italiano. Negócios... Zangiacomo é nome falso.

— É um fato curioso — disse Davidson. Como trazia a cabeça cheia de Heyst, lembrou-lhe que ela podia ter conhecimento de outros fatos. Era esta uma descoberta assombrosa para quem quer que olhasse a sra. Schomberg. Ninguém suspeitara jamais que ela possuísse um espírito, digo a menor capacidade de pensar. Éramos inclinados a considerá-la uma coisa — um autômato, um manequim dos mais feios, com um dispositivo para inclinar a cabeça uma vez por outra e sorrir estupidamente de quando em quando. Davidson examinou-lhe o perfil, o nariz achatado, a face côncava E o olho protuberante, fixo, que nunca pestanejava. Perguntou consigo: isso falou há pouco? Falará de novo? Era tão emocionante como procurar conversar com um mecanismo. Um sorriso bailou nas nédias feições de Davidson: O sorriso de um homem que faz um experimento divertido. Tornou a interrogá-la:

— Mas as outras componentes da orquestra deviam ser italianas, não eram?

Não tinha desejo de sabê-lo, naturalmente. Queria apenas ver se o mecanismo funcionaria de novo. Funcionou. Disse que não. Eram mulheres de todas as nacionalidades, ao que parecia. O manequim fez uma pausa, com um dos olhos salientes posto lá fora, na “piazza”. Depois continuou na mesma voz baixa:

— Havia até uma inglesa.

— Coitada! — disse Davidson. — Suponho que essas mulheres não sejam, no fundo, mais que escravas. O tal sujeito da barba pintada seria um homem decente, a seu modo?

O mecanismo permaneceu silencioso. O espírito simpatizante de Davidson tirou as suas conclusões.

— Vida abominável a dessas pobres mulheres — disse ele. — A inglesa era moça, sra. Schomberg? Algumas dessas tocadoras de orquestra não são nada crianças.

— Bastante moça — articulou a voz baixa emitida pela fisionomia impassível da sra. Schomberg.

Davidson, assim animado, disse que tinha pena dela. Apiedava-se facilmente dos outros.

— Para onde foram daqui? — inquiriu.

— Ela não foi com o resto. Fugiu.

Foi esta a nova revelação obtida por Davidson. Despertou-lhe um interesse novo.

— Bom, bom! — exclamou placidamente. E, com o tom seguro de um homem que conhece a vida: — Com quem?

A imobilidade da sra. Schomberg dava-lhe a aparência de uma pessoa que escuta com atenção. Talvez escutasse realmente. Mas Schomberg devia ter ido terminar a sesta em alguma peça distante. O silêncio era profundo, e durou o bastante para se tornar inquietador. Afinal, entronizada acima de Davidson, ela terminou por cochichar:

— Aquele seu amigo.

— Ah, a senhora sabe que eu vim aqui procurar um amigo — tornou Davidson, esperançoso. — Não me quererá dizer?...

— Já lhe disse.

— Hein?

Foi como se um véu se erguesse diante dos olhos de Davidson, descobrindo alguma coisa em que ele não podia acreditar.

— Não pode ser isso! — exclamou. — Ele não é homem para fazer semelhante coisa.

Mas as últimas palavras saíram em voz desfalecida. A sra. Schomberg não bulia com a cabeça nem um centímetro. Davidson, depois que o choque o fez aprumar-se na cadeira, sentiu-se todo mole.

— Heyst! Um perfeito cavalheiro! — tornou a exclamar com voz fraca.

A sra. Schomberg não pareceu ouvi-lo. Essa pasmosa ocorrência não correspondia de certo modo à ideia que Davidson fazia de Heyst. Este nunca falava em mulheres, nunca parecia pensar nelas ou sequer lembrar-se da sua existência. E de repente... uma coisa assim! Fugir com uma qualquer, uma tocadora de orquestra!

— Se me dessem um piparote eu teria caído — dizia-nos Davidson algum tempo depois.

Mas já então começara a considerar com indulgência ambas as partes da assombrosa transação. Em primeiro lugar, refletindo bem, não estava absolutamente seguro de que isso deslustrasse o cavalheirismo de Heyst. Enfrentava de cara séria os nossos sorrisos, francos ou discretos. Heyst levara a moça para Samburan, e isto não era nenhuma brincadeira. A solidão e as ruínas do posto haviam impressionado a alma simples de Davidson. Não se casavam com os comentários frívolos daqueles que nunca tinham visto a ilha. Aquele pier negro projetando-se da selva para o mar; aquelas cumeeiras de casas abandonadas, assomando entre a erva crescida! Uf! A gigantesca e funérea tabuleta preta com as iniciais da Companhia, a emergir ainda de um matagal bravio, como inscrição cravada sobre uma sepultura (o grande monte de carvão abandonado na base do pier) aumentava a desolação geral.

Assim pensava o sensível Davidson. A moça devia estar muito descrente da vida para acompanhar um desconhecido a tal sítio. Heyst, sem dúvida, lhe dissera a verdade. Era um cavalheiro. Mas não havia palavras que descrevessem as condições de existência em Samburan. Falar em ilha deserta era pouco. Aliás, quando um homem era jogado a uma ilha deserta... bem, não tinha outro remédio. Mas que uma moça, violinista de orquestra ambulante, passasse ali um dia, um único dia, satisfeita, era coisa inconcebível. Só de ver aquilo havia de assustar-se, de gritar.

De quanta simpatia são capazes esses homens fortes e tranquilos! Davidson estava abalado até as profundezas do seu ser. E via-se facilmente que quem o preocupava era Heyst, Perguntamos-lhe se havia passado ultimamente por lá.

— Claro que sim. Sempre passo... cerca de meia milha da costa.

— Não viu ninguém?

— Não, ninguém. Nem uma sombra.

— Você apitou?

— Apitar! Acham-me capaz de fazer semelhante coisa?

Não admitia sequer a possibilidade de tão injustificável intrusão.

— Mas então como sabe que eles estão lá? — era a pergunta que isto provocava naturalmente.

Heyst confiara à sra. Schomberg um bilhete para Davidson — umas poucas linhas a lápis num papelzinho amarrotado. Dizia que uma necessidade imprevista o obrigava a ausentar-se antes do dia aprazado. Pedia a indulgência de Davidson para essa aparente descortesia. A senhora do hotel (aludindo à sra. Schomberg) lhe descreveria as circunstâncias, se bem, naturalmente, não pudesse explicá-las.

— Que havia para explicar? — perguntava Davidson com ar dúbio. — Ele agradou-se dessa violinista e...

— E ela dele, ao que parece — sugeri.

— Mas como foi rápido! — refletiu Davidson. — Como pensa você que isso terminará?

— Pelo arrependimento, suponho. Mas como veio ele a escolher a sra. Schomberg para confidente?

Porque, na verdade, um boneco de cera parecia mais prestativo que aquela mulher que todos nós estávamos habituados a ver presidir às duas mesas de bilhar, rígida, sem expressão, sem voz, sem olhos para enxergar.

— Pois ela ajudou a moça a fugir — respondeu Davidson voltando para mim os olhos inocentes, arregalados pelo constante estado de assombro em que essa história o havia mergulhado, como esses choques. de terror ou de pesar que às vezes deixam suas vítimas atacadas de tremor nervoso. Aparentemente, jamais conseguiria vencer a impressão.

— A sra. Schomberg atirou o bilhete de Heyst no meu colo, enrolado num canudinho, enquanto eu estava sentado sem suspeitar de nada — prosseguiu Davidson. — Assim que caí em mim do meu espanto perguntei-lhe que papel podia ter desempenhado naquilo, para Heyst deixar o recado com ela. Então, mais parecendo uma figura pintada que uma mulher viva, ela murmurou, apenas bastante alto para que eu ouvisse:

“— Eu os ajudei. Reuni as coisas dela, fiz uma trouxa com o meu chalé e joguei-a no pátio por uma janela dos fundos. Eu mesma.

“Aquela mulher que se diria não ter coragem para bulir com o dedo mindinho! — dizia Davidson, maravilhado, na sua voz serena que ofegava ligeiramente. — Que lhes parece isto?”

Pareceu-me que ela devia ter nisso algum interesse pessoal. Quem iria atribuir um impulso de compaixão àquele ser tão sem vida? Impossível supor, também, que Heyst a houvesse subornado. Por grandes que fossem as suas posses, não bastariam para tanto. Ou quem sabe se a movia essa paixão desinteressada das pessoas Que adoram entregar uma mulher a um homem, e que nas rodas respeitáveis são chamadas casamenteiras?... Um exemplo dos mais singulares!

— Com certeza era uma trouxa pequenina — observou Davidson ainda.

— Suponho que a moça seja muito atraente —. disse eu.

— Não sei. Ela passava miséria. Creio que não possuía mais que alguma roupa interior e um ou dois desses vestidos brancos que elas usam para tocar.

Davidson seguiu o fio dos seus pensamentos. Supunha o fato inédito na história dos trópicos. Onde se encontraria alguém capaz de roubar uma tocadora de orquestra? Sem dúvida, havia aqui e ali sujeitos que se engraçavam com alguma um pouco mais bonita — mas não para fugir com ela. Meu Deus» não! Para isso era preciso um doido como Heyst.

— Reflitam no que isso significa — continuou Davidson em voz presa, dando tratos à imaginação com a sua invencível placidez. — Procurem compreender! Aquelas cismas solitárias em Samburan lhe deram volta ao juízo. Ele não considerou um só instante no que fazia, do contrário não o teria feito. Nenhum homem no seu juízo perfeito... Como poderá terminar uma coisa dessas? Que fará ele com a moça no fim? Isso é loucura.

— Você diz que ele está louco. Schomberg afirmava que ele devia passar fome na ilha. De modo que talvez ainda termine comendo a moça — insinuei.

Segundo nos disse Davidson, a sra. Schomberg não tivera tempo para entrar em minúcias. Era, na verdade, de admirar que os tivessem deixado sós por tanto tempo. As sonolentas horas da tarde se iam escoando. Ressoaram passos e vozes na varanda... perdão, na piazza. Arrastar de cadeiras, tinido de campainha. Eram os fregueses que chegavam. A sra. Schomberg estava rogando apressadamente a Davidson (sem olhar para ele) que não dissesse nada a ninguém, quando o seu murmúrio nervoso foi interrompido no meio de uma palavra. Schomberg entrou por uma portinha interna, o cabelo e a barba penteados, mas as pálpebras ainda inchadas da sesta. Olhou com expressão suspicaz para Davidson e até relanceou os olhos para a sua mulher, mas despistaram-no a placidez natural de um e a sistemática imobilidade da outra.

— Mandaste as bebidas? — perguntou de cara amarrada.

Ela não abriu a boca, pois naquele momento o chefe dos garçons chineses aparecia com uma bandeja carregada, a caminho da varanda. Schomberg foi até a porta e cumprimentou os fregueses, mas não lhes fez companhia. Ficou a atravancar metade da porta, com as costas para a sala, e ainda se achava ali quando Davidson, decorrido algum tempo, se levantou para ir embora. Ouvindo o ruído da cadeira Schomberg voltou a cabeça, viu-lhe tirar o chapéu para sua mulher, ser correspondido com uma inclinação automática do cabeça acompanhada de um sorriso estúpido, e tornou a desviar os olhos. Tinha um ar de dignidade altaneira. Davidson parou à porta, muito sutil na sua simplicidade.

— É pena que o senhor não me queira explicar a ausência do meu amigo — disse ele. — O meu amigo Heyst, sabe. A única coisa que me resta fazer agora, suponho, é pedir informações no porto. Tenho certeza que hei de saber alguma coisa por lá.

— Peça informações ao diabo! — replicou Schomberg entre dentes.

O propósito de Davidson ao dirigir a palavra ao hoteleiro era principalmente dissipar as suspeitas que ele pudesse ter quanto à sra. Schomberg. Mas de bom grado teria também colhido mais pormenores sobre a aventura de Heyst, considerada sob um novo ponto de vista. Foi uma ideia bem inspirada, e teve um êxito surpreendente, pois o ponto de vista do hoteleiro era horrivelmente injurioso. De súbito, no mesmo tom rouco e sinistro, entrou a chamar Heyst de uma porção de nomes (dos quais “porco-cachorro” não era o pior), e com tanta veemência que chegou literalmente a sufocar. Aproveitando a primeira pausa, Davidson, cujo temperamento podia aguentar maiores embates, ponderou à meia voz em tom de branda repreensão:

— Não é razoável encolerizar-se assim. Ainda que ele tivesse fugido com a sua caixa...

O enorme hoteleiro adiantou a cabeça, e sua cara furibunda quase tocou na de Davidson.

— A minha caixa! A minha... ele... Ouça, Capitão Davidson! Ele fugiu com uma mulher. Que me importa a mulher? Não tenho nada com ela.

Proferiu uma palavra infamante que fez Davidson estremecer. Era o qualificativo que Schomberg dava à mulher. Reiterou a afirmação de que não tinha nada com ela. O que lhe importava era o bom nome da sua casa. Por toda parte onde estivera estabelecido tinha hospedado “artistas” no seu hotel. Uns o recomendavam aos outros. Mas que iria acontecer agora, quando fosse sabido que os diretores de trupe corriam o risco de perder elementos femininos na sua casa... na sua casa! E justamente quando tinha gasto setecentos e trinta e quatro florins para construir um salão de concertos no recinto! Isso era coisa que se fizesse num hotel respeitável? Que descaro, que indecência, que falta de vergonha, que desacato! Vagabundo, impostor, embusteiro, canalha, Schweinkund!

Segurara Davidson por um botão do casaco, detendo-o à porta, exatamente na linha de visão da sra. Schomberg. Davidson relanceou um olhar furtivo naquela direção, pensando em fazer-lhe algum sinal tranquilizador, mas a mulher parecia tão inconsciente, quase sem vida, ali empoleirada, que ele achou não valia a pena. Desprendeu com placidez o botão dos dedos do hoteleiro. Ante isto, sufocando uma derradeira praga, Schomberg desapareceu no interior da casa para tratar de recuperar a calma na solidão. Davidson saiu para a varanda. O explosivo incidente da porta não passara despercebido aos outros fregueses. Davidson conhecia um deles, e fez-lhe um aceno de cabeça ao passar. Mas o seu conhecido interpelou-o:

— O homem está com sangue de bugio, hein? Anda assim desde aquele dia.

E riu alto, enquanto todos os outros sorriam. Davidson parou.

— Pois é.

Estava, segundo nos disse depois, cheio de resignação atônita. Mas este sentimento, é desnecessário dizê-lo, não era mais visível aos outros Que as emoções de uma tartaruga quando recolhe a cabeça na casca.

— Isto me parece despropositado — murmurou pensativamente.

— Ah, mas eles tiveram uma pega! — tomou o outro.

— O quê? Houve luta?... Luta com Heyst? — perguntou Davidson, muito perturbado se bem que um tanto incrédulo.

— Heyst? Não, entre esses dois... o chefe da orquestra, o sujeito que trouxe as mulheres, e o nosso Schomberg. Na manhã depois daquela noite o signor Zangiacomo virou bicho e atirou-se ao nosso amigo. Foi como lhe digo! Os dois rolaram engalfinhados no chão, aqui nesta varanda, depois de se perseguirem por toda a casa, batendo as portas, e as dezessete mulheres aos gritos na sala de jantar. Os chineses ganharam as árvores... Ó João! Você trepa árvore para ver briga, hein?

O boy, impassível com os seus olhos de amêndoa, emitiu um grunhido desdenhoso, terminou de esfregar a mesa e se retirou.

— Pois foi uma pega das boas, e quem começou foi Zangiacomo. Olha, aí vem Schomberg. Escute, Schomberg, ele não se atirou a você quando achou falta da pequena, porque você tinha exigido Que as artistas se misturassem com o público durante os intervalos?

Schomberg tornara a aparecer à porta. Adiantou-se para a varanda. Seu porte era majestoso, mas tinha as narinas extraordinariamente dilatadas e dominava a sua voz com visível esforço,

— Claro. Era só para ajudar o negócio. Eu lhe impus condições especiais apenas em atenção aos senhores. Tinha em vista os meus fregueses regulares. Nesta cidade não se tem nada que fazer à noite. Creio, cavalheiros, que todos ficaram satisfeitos por ter uma ocasião de ouvir boa música; e que mal há em oferecer um refresco de framboesa ou outra coisa qualquer a uma senhora? Mas aquele sujeito — aquele sueco — embelecou a menina. Embelecou toda a gente aqui. Há anos que o venho observando. Hão de lembrar-se de como ele embelecou Morrison,

Fez abruptamente meia-volta, como se estivesse numa parada, e se afastou. Os fregueses instalados em redor da mesa entreolharam-se silenciosos. Davidson mantinha-se na atitude de um espectador. Podiam-se ouvir da varanda os passos de Schomberg, que percorria meditativo a sala de bilhar.

— E o mais engraçado — tornou o homem, que falara antes, guarda-livros inglês empregado numa casa holandesa — o mais engraçado é que ainda não tinha dado nove horas, naquela manhã, quando os dois tocaram juntos de carrinho para o porto, em procura de Heyst e da pequena. Eu os vi andar por lá tomando informações. Não sei o que pretendiam fazer à garota, mas pareciam dispostos a cair sobre o seu amigo Heyst, Davidson, e matá-lo ali mesmo no cais.

Nunca, disse ele, tinha visto coisa tão estapafúrdia. Os dois investigadores, colaborando febrilmente para o mesmo fim, arregalavam os olhos um para o outro com incrível ferocidade. Cheios de ódio e desconfiança, embarcaram numa lancha e percorreram todo o porto de navio em navio, fazendo enorme sensação. Os comandantes dos navios, vindo à terra pela tarde, referiam singulares episódios de invasão e queriam saber quem eram os dois malucos desaforados que andavam a bordo de uma lancha, aparentemente à procura de um homem e uma moça, e contando uma história sem pés nem cabeça. Em geral tinham sido mal recebidos, e mesmo o imediato de um navio americano escorraçara-os com desabrida violência.

 

Entrementes, Heyst e a moça achavam-se já a algumas milhas do porto, pois haviam embarcado à noite numa das escunas dos Tesman, que zarpara rumo a leste. Isto veio a saber-se depois, por intermédio dos barqueiros javaneses que Heyst ajustara as três da manhã com esse fim. À escuna dos Tesman levantara ferro ao amanhecer, com a brisa da terra, e provavelmente ainda se achava à vista pelas nove horas. Entretanto os dois perseguidores, depois da aventura com o imediato americano, resolveram voltar à terra. Ao desembarcar tiveram outra altercação violenta, em alemão. Mas não houve pugilato desta vez, e finalmente, deitando-se olhares de feroz animosidade, subiram juntos a um carrinho — evidentemente no razoável propósito de dividir as despesas — e abalaram, deixando no cais uma pequena multidão pasmada, composta de europeus e indígenas.

Depois de ouvir esta espantosa história Davidson afastou-se da varanda do hotel, que começava a encher-se com os fregueses habituais de Schomberg. A proeza de Heyst formava o assunto geral das conversas. Nunca esse incompreensível indivíduo fora alvo de tanta bisbilhotice, parecia-lhe. Não! Nem ao ser fundada a Companhia de Carvão, quando a sua efêmera posição de homem público lhe atraíra as críticas tolas e a inveja obtusa de quanto vagabundo e aventureiro havia nas ilhas. A conclusão tirada por Davidson foi que o povo gostava de discutir esse gênero de escândalo mais que qualquer outro.

Perguntei-lhe se, em fim de contas, considerava aquilo Um escândalo assim tão grande.

— Meu Deus, não! — disse o excelente homem que, pessoalmente, era incapaz de qualquer desvio de conduta. — Mas eu, por exemplo, não faria tal coisa, ainda que não fosse casado.

Não ia nisto nenhuma condenação subentendida, mas antes uma espécie de mágoa. Davidson compartilhava da minha suspeita: aquilo devia ter sido, em essência, a libertação de uma cativa. Não que nós fossemos duas almas românticas a tingir o mundo com as cores do nosso temperamento; mas tanto um como outro éramos bastante argutos para ter percebido, desde muito, que Heyst o era.

— Eu não teria coragem para isso — continuou ele. — Vejo as coisas sob todas as faces, por assim dizer; mas Heyst não é assim, do contrário teria medo. Ninguém leva uma mulher para um deserto sem que venha a arrepender-se tarde ou cedo, de um modo ou de outro. E o cavalheirismo de Heyst só serve para agravar a situação.