Vitória
Capítulo IV
Isto foi obra de um hóspede que chegou uma bela manhã no paquete de carreira. Embarcara em Macassar, fazendo escala em Celebes, mas vinha de mais longe, do Mar da China, segundo soube Schomberg. Um nômade, evidentemente, como o era Heyst; mas pertencia a uma espécie diferente, e não andava só.
Schomberg, alçando os olhos da proa da sua lancha a vapor, com que ia buscar passageiros a bordo dos paquetes que chegavam, descobriu um par de olhos que o miravam fito do alto da amurada da primeira classe. Não era grande fisionomista. Para ele, os seres humanos ou eram alvo de mexericos escandalosos, ou recipientes de estreitas tiras de papel com o timbre do hotel: “W. Schomberg, proprietário; as contas são pagas mensalmente.”
E assim, na cara escanhoada, extremamente fina, que avançava por cima da amurada, Schomberg viu apenas a cara de uma “conta” possível. As lanchas dos outros hotéis também haviam encostado, mas ele obteve preferência.
— É o sr. Schomberg, não? perguntou a cara inesperadamente.
Para servi-lo — respondeu o hoteleiro, de baixo. Os negócios são os negócios, e suas fórmulas e praxes devem ser observadas, ainda quando nos tortura o peito varonil essa raiva surda que sucede à fúria da paixão ludibriada, como o rescaldo das cinzas às labaredas impetuosas.
Momentos depois, o dono da cara macilenta, embora bem formada, estava sentado à popa da lancha, junto com Schomberg. Tinha um corpo comprido e desengonçado. Reclinava-se em postura lânguida e ao mesmo tempo com os músculos retesados, prendendo com os dedos finos entrelaçados a perna que repousava sobre a outra. À sua frente ia outro passageiro, que o homem da cara escanhoada apresentara nestes termos:
— Meu secretário. O senhor deve dar-lhe um quarto contíguo ao meu.
— Podemos arranjar isso facilmente.
Schomberg timoneava com dignidade, os olhos fitos na frente, mas muitíssimo interessado nessas duas promissoras “contas”. A bagagem dos homens, um par de grandes malas de couro tornadas ruças pela idade e alguns pacotes menores, estava empilhada na proa. Um terceiro indivíduo — um ser cabeludo e indefinível — empoleirara-se modestamente em cima das malas. A parte inferior da sua fisionomia mostrava um desenvolvimento excessivo; a testa estreita e baixa, sulcada de rugas horizontais que denotavam falta de inteligência, encimava umas faces extremamente hirsutas e um nariz chato de largas ventas de gorila. Havia qualquer coisa de equívoco na aparência desse ente, cuja humanidade estava como que afogada em pelos. Também ele parecia ser um acompanhante do homem da cara escanhoada, e pelos modos viajara no convés com os passageiros indígenas, dormindo na tolda. O seu físico amplo e atarracado denotava grande vigor. Segurando as bordas da lancha, ostentava um par de braços notavelmente longos, terminados por grossas patas escuras e peludas, de aspecto simiesco.
Que faremos com esse meu homem? — perguntou a Schomberg o personagem principal. — Deve haver alguma estalagem nas proximidades do porto... alguma taberna onde lhe deem um colchão para dormir, hein?
Schomberg respondeu que havia uma casa dirigida por um mestiço de português.
— Criado seu? — perguntou.
— Sim, ele me acompanha. É um caçador de jacarés. Trouxe-o da Colômbia, sabe? Já esteve na Colômbia?
— Não — respondeu Schomberg muito surpreendido. — Caçador de jacarés? Esquisito ofício! Então o senhor vem da Colômbia?
— Sim, mas há muito tempo que saí de lá. Andei por numerosos lugares. Viajo para oeste, percebe?
— Por esporte, talvez? — sugeriu Schomberg.
Sim, pode chamar-lhe assim. Que lhe parece de seguir a trilha do sol?
— Compreendo... um cavalheiro que corre mundo — disse Schomberg, vigiando uma canoa à vela que lhe ia cruzar pela proa, e pronto para desviar a lancha com uma guinada do leme.
O outro passageiro fez-se ouvir repentinamente.
— Diabos levem essas embarcações indígenas! Estão sempre se atravessando no caminho dos outros.
Era um homem baixo e musculoso, com uns olhos que cintilavam e pestanejavam, voz áspera e uma cara redonda, sem expressão, ornada por um ralo e irregular bigode que se eriçava exoticamente sob a ponta do nariz rígido. Schomberg refletiu que o homem não tinha aspecto de secretário. Tanto ele como o seu comprido e descarnado patrão usavam o traje branco usual dos trópicos, com capacete de cortiça, sapatos brancos cobertos de alvaiade — tudo em ordem. A cabeluda e indefinível criatura empoleirada na bagagem, na proa, vestia camisa xadrez e calça azul de algodão. Lançava aos outros dois olhares atentos de animal amestrado.
— O senhor me deu preferência — disse Schomberg no seu tom viril. —
Conhecia o meu nome. Posso saber onde ouviram falar em mim, cavalheiros?
— Em Manila — respondeu prontamente o viajante. — Por um homem com quem joguei uma partida de cartas uma noite, no Hotel Castilla.
— Que homem? Não tenho amigos em Manila, que eu saiba — estranhou Schomberg, de cenho severo.
— Não lhe posso dizer o nome dele. Esqueci-o completamente. Mas não tenha cuidado. O homem não era nada seu amigo. Chamou-lhe todos os nomes que lhe vieram à cabeça. Disse Que o senhor espalhou uma porção de intrigas a respeito dele uma ocasião... em Bangkok, se não me engano. Sim, foi em Bangkok. O senhor já teve mesa comum em Bangkok, não é verdade?
Schomberg, atônito com a natureza da informação, só pôde enfunar ainda mais o peito e exagerar os seus ares de tenente da reserva. Mesa comum? Sim, por certo. Sempre tinha... para os clientes brancos. E nesta cidade também? Sim, aqui também.
— Então tudo vai bem. — O desconhecido desviou os olhos negros, cavernosos e magnéticos do barbudo Schomberg, que segurava o timão de metal com a palma da mão úmida. — O seu hotel é muito frequentado à noite?
Schomberg recobrara corta calma.
— Vinte talheres mais ou menos, em média — respondeu com calor, segundo convinha a um assunto que lhe tocava na corda sensível. — Devia haver mais, se esta gente compreendesse que é em seu próprio proveito. Muito pouco lucro tiro eu disso. Os senhores apreciam as mesas comuns?
O novo hóspede respondeu que gostava de um hotel onde pudesse conversar à noite com as pessoas da terra. Na falta disso, os serões eram horrivelmente enfadonhos. O secretário, em sinal de aprovação, emitiu um grunhido pasmosamente feroz, como se pretendesse devorar a gente da terra. Tudo isso parecia prometer uma longa estada, pensou Schomberg, satisfeito sob os seus ares graves. Mas depois, lembrando-se da moça que lhe fora roubada pelo último hóspede que fizera uma longa estada no seu hotel, rangeu os dentes por forma tão audível que os outros dois olharam admirados para ele. A convulsão momentânea do seu rubicundo semblante pareceu deixá-los mudos de surpresa. Trocaram um olhar rápido. Passado um momento, o homem da cara escanhoada atirou mais uma pergunta, no seu tom brusco e incerimonioso:
— Não tem mulheres no seu hotel, hein?
— Mulheres! — exclamou Schomberg indignado, mas também com algum susto. — Que quer dizer com isso? Que mulheres? Há a sra. Schomberg, naturalmente — acrescentou com indiferença altaneira, acalmando-se de súbito.
— Tudo irá muito bem se ela souber conservar-se no seu lugar. Não tolero mulheres perto de mim. Dão-me arrepios — declarou o outro. — São uma verdadeira praga!
Enquanto ele externava os seus sentimentos com esta veemência, o secretário tinha no rosto um sorriso feroz. O primeiro passageiro cerrou os olhos encovados, como se tivesse ficado exausto, e apoiou a cabeça ao suporte do toldo. Nesta altura faziam-se notar as suas pestanas compridas, femininas, as feições regulares, a linha acentuada da mandíbula e o queixo bem desenhado, dando-lhe um ar de distinção fatigada, gasta e depravada. Só tornou a abrir os olhos quando a lancha encostou ao cais. Ele e o outro homem de desembarcaram então rapidamente, subiram a um carro e mandaram tocar para o hotel, deixando Schomberg encarregado da bagagem e do seu singular companheiro. Este último, que mais parecia um urso amestrado e abandonado pelo seus donos do que um ser humano, seguia todos os passos do hoteleiro, caminhando nos seus calcanhares e resmoneando de si para si numa linguagem que era uma espécie de espanhol corrupto. O hoteleiro só se sentiu à vontade quando o deixou num covil escuro, onde um mestiço de português, majestoso e muito asseado, serenamente postado à porta, parecia saber perfeitamente como tratar com fregueses de todo gênero. Tomou das mãos da criatura o fardo atado com correias que ele levara estreitado contra o peito durante essas peregrinações numa cidade estranha, e atalhou as tentativas de explicação de Schomberg afirmando cheio de confiança:
— Compreendo muito bem, senhor.
— Ele é mais feliz do que eu — pensou Schomberg enquanto se afastava dando graças por estar livre da companhia do caçador de jacarés. Perguntava a si mesmo o que seriam esses indivíduos, sem poder formar uma conjectura plausível. Soube seus nomes naquele mesmo dia perguntando pessoalmente. “Para assentar nos meus livros”, explicou com atitude militar e formalista, peito enfunado, barba em evidência.
O homem da cara escanhoada, esparramado numa cadeira preguiçosa com seu ar de mocidade fanada, ergueu os olhos languidamente.
— O meu nome? Oh, ponha Mr. Jones simplesmente... um viajante. E este é Ricardo. — O homem bexigoso, que se jogara em outra preguiçosa, careteou como se alguma coisa lhe fizesse cócegas na ponta do nariz, mas não deixou a sua postura supina. — Martin Ricardo, secretário. Não precisa saber mais nada, precisa? Hein, o quê? Ocupação? Ponha... bem, ponha turistas. Já nos têm chamado nomes mais feios; não nos ofenderemos. E aquele meu homem... onde foi que o meteu? Oh, ele sabe tirar-se de dificuldades. Quando quiser alguma coisa há de tomá-la. Chama-se Pedro. Cidadão colombiano. Pedro... não sei se alguma vez teve outro nome. Pedro, caçador de jacarés. Sim, pagarei as suas despesas na hospedaria do mestiço. Não tenho outro remédio. O diabo do sujeito me é tão dedicado que se eu o despedisse era capaz de me esganar. Preciso contar-lhe como matei o irmão dele nas selvas da Colômbia? Bem, talvez em outra ocasião... é uma história bastante comprida. O que nunca deixarei de lamentar é não o ter matado, a ele também. Podia tê-lo feito então, sem muito trabalho. Um grande estorvo; mas às vezes é útil. De certo o senhor não vai por tudo isso no seu livro?
Os modos rudes e despachados e o tom desdenhoso de “Mr. Jones – simplesmente” desconcertaram Schomberg. Nunca lhe tinham falado assim na sua vida. Sacudiu a cabeça em silêncio e saiu, não precisamente atemorizado (conquanto fosse de natureza tímida sob o seu exterior varonil), mas positivamente mistificado e impressionado.