Vitória
Capítulo VII
Fora nesse instante preciso da conversação que Heyst se havia introduzido na presença de Mr. Jones e de seu secretário para adverti-los a respeito de Wang, conforme contara depois a Lena. Quando os deixou os dois entreolharam-se num silêncio admirado. Mr. Jones foi o primeiro Que falou.
— Martin!
— Sim, patrão?
— Que significa isto?
— É alguma manobra. Que me enforquem se entendo!
— Não pode com a astúcia dele? — perguntou Mr. Jones secamente.
— Isso não é mais que uma amostra do infernal descaramento desse tipo — rosnou o secretário. O senhor não acredita em tudo o que ele disse sobre o chinês, hein, patrão? É mentira.
— Não é preciso que isso seja verdade para ter um significado para nós. O importante é a vinda dele para nos contar isso.
— Julga que ele tenha inventado a história para nos meter medo?
Mr. Jones franziu o sobrolho, considerando o secretário com expressão pensativa.
— O homem parecia inquieto — disse ele, como se falasse consigo mesmo. — E se esse chinês tivesse mesmo roubado o dinheiro dele? O homem me pareceu muito preocupado.
— Simples esperteza dele, meu senhor — protestou Ricardo com veemência, pois não podia admitir a inquietadora ideia. — Acha provável que o china estivesse tão bem informado sobre o paradeiro do dinheiro? Pois se seria justamente disso que ele faria o maior segredo! Há outra coisa aí. Sim, mas que será?
— Ah ah, ah! — riu Mr. Jones espectralmente, aos gritinhos agudos. — Até hoje não me tinha visto em situação tão ridícula — continuou, com sepulcral equanimidade. — Foi você, Martin, quê me meteu nela. Em todo caso, eu também tenho culpa. Eu devia... mas estava enfastiado demais para fazer uso dos miolos, e os seus não merecem confiança. Você é uma cabeça esquentada!
Ricardo deixou escapar uma exclamação blasfematória de pesar. Não merecia confiança! Cabeça esquentada! Quase vertia lágrimas.
— Não lhe ouvi dizer mais de vinte vezes, meu senhor, desde que nos expulsaram de Manila, que nós precisaríamos de muito capital para explorar a costa oriental da África? O senhor sempre me dizia que para deixar bastante influídos aqueles funcionários e aqueles portugueses sovinas tínhamos de começar por perder muito. Não andava sempre pensando num meio de conseguir uma boa bolada? Como poderíamos consegui-la enfastiando-se o senhor naquele maldito lugarejo holandês, jogando a dois vinténs com une miseráveis empregadinhos de banco e gente dessa laia? Pois bem, eu o trouxe aqui, onde podemos arranjar dinheiro sonante, e em penca, por sinal — a juntou, entre os dentes cerrados.
Fez-se um silêncio. Cada um deles fitava os olhos num canto diferente do quarto. Súbito, batendo de leve com o pé no chão, Mr. Jones dirigiu-se para a porta. Ricardo foi ter com ele lá fora.
— Enfie o seu braço no meu, patrão — rogou em tom suave mas firme. — De nada serve denunciar-nos. Um doente bem pode sair para tomar a fresca, depois que o sol baixou um pouco, veja bem. Mas aonde é que o senhor quer ir? Por que saiu, patrão?
Mr. Jones estacou.
— Nem eu mesmo sei com certeza — confessou num murmúrio cavo, olhando atentamente para o bangalô do Número Um. — Isto é perfeitamente absurdo — disse em tom ainda mais baixo.
— É melhor voltar para dentro, patrão — insinuou Ricardo. — Que é aquilo? Aqueles estores não estavam baixados esta manhã. Aposto como ele está espiando agora por trás deles... o bruto fingido, manhoso, sorrateiro!
— Por que não vamos lá para ver se lhe descobrimos o jogo? — propôs Mr. Jones inesperadamente. — Ele terá de se explicar conosco.
Ricardo conteve um estremecimento de consternação, mas esteve um momento sem poder falar. Limitou-se a apertar instintivamente a mão de Mr. Jones contra o seu corpo.
— Não, patrão. Que iria o senhor dizer-lhe? Espera por acaso encontrar o fundo das mentiras desse sujeito? Como poderia obrigá-lo a falar? Ainda não chegou a hora de por as cartas na mesa. O senhor decerto não me julga capaz de recuar, hein? O china, claro que eu lhe meterei uma bala assim que o veja, como quem mata um cachorro. Mas quanto a esse sr. Heyst do inferno, ainda não chegou a sua hora. De nós dois, quem tem a cabeça mais sólida agora sou eu. Voltemos para dentro. O senhor está se expondo aqui. Imagine se ele se lembrar de atirar em nós! É um sonso, um hipócrita em quem não se pode confiar.
Mr. Jones deixou-se persuadir e tornou à sua reclusão. O secretário, contudo, ficou na varanda — afim, explicou ele, de ver se o china não andava espionando por ali, caso em que pretendia atirar mesmo de longe no labrego, enfrentando os riscos. A verdade era que ele queria estar só, longe dos olhos encovados do seu patrão. Sentia o desejo sentimental de entregar-se aos seus devaneios na solidão. Uma grande mudança se operara no sr. Ricardo desde aquela manhã. Uma boa metade da sua natureza, que a prudência, a necessidade e a lealdade tinham conservado adormecida, despertava agora tingindo-lhe os pensamentos e perturbando o seu equilíbrio mental com a visão de extraordinárias eventualidades, como, por exemplo, a possibilidade de um conflito ativo com o seu chefe. O aparecimento de Pedro com a sua notícia arrancou Ricardo a uma cisma envolta no presságio de complicações iminentes. Uma mulher? Sim, havia uma mulher, e era isto o que fazia toda a diferença. Depois de afastar Pedro e de ver desaparecer os capacetes de Heyst e de Lena entre os arbustos, ficou perdido em reflexões.
— Aonde poderiam eles ir assim? —, perguntava consigo.
A resposta que encontrou a sua sagacidade, empregada a fundo, foi: à procura do china. Ricardo não acreditava na deserção de Wang. Isto era uma ficção, e parte importante de um perigoso plano. Heyst tinha ido combinar nova manobra. Ricardo, porém, estava seguro de que a garota era por ele — aquela garota cheia de coragem, de perspicácia, de compreensão, uma aliada da sua própria casta! Voltou vivamente para dentro. Ms. Jones reassumira a sua postura, com as pernas cruzadas na cabeceira da cama e as costas apoiadas à parede.
— Alguma novidade?
— Não, meu senhor.
Ricardo pôs-se a caminhar sossegadamente pelo quarto, como se tivesse o espírito em paz com o mundo inteiro. Trauteava trechos de canções. Ao ouvir isto Mr. Jones ergueu as finas sobrancelhas. O secretário pôs-se de joelhos diante de uma velha mala de couro e, depois de remexer nela, tirou um espelhinho de mão. Esteve examinando a sua fisionomia com silenciosa absorção.
— Acho que vou fazer a barba — resolveu afinal, levantando.
Deitou um olhar de esguelha ao seu chefe e tornou a fazê-lo várias vezes durante a operação, que não tomou muito tempo. Continuou ainda a relanceá-lo com o rabo do olho depois, quando, tendo guardado os apetrechos de barbear, voltou a caminhar de um lado para outro no quarto, cantarolando novos trechos de canções desconhecidas. Mr. Jones mantinha uma imobilidade completa, comprimindo os lábios finos, os olhos velados. Suas feições pareciam esculpidas em madeira.
— Então o patrão tem vontade de jogar uma partida com esse velhaco? — disse Ricardo, parando subitamente e esfregando as mãos.
Mr. Jones não deu sinal de ter ouvido.
— Sim, por que não? Por que não lhe proporcionar essa experiência? O senhor se lembra daquela cidadezinha mexicana?... Como se chamava mesmo? Lembra-se daquele salteador que pegaram nas montanhas e condenaram a ser fuzilado? Ele jogou até mais de meia-noite com o carcereiro e com o xerife. Pois bem, este sujeito também está condenado. Convém que ele lhe dê alguma distração. Que demônio, um cavalheiro precisa divertir-se um pouco! E o senhor tem sido de uma paciência rara, patrão.
— Você é que ficou de uma volubilidade rara, de repente — observou Mr. Jones em voz enfastiada. — Que foi que lhe aconteceu?
O secretário cantarolou ainda um pouco, e disse:
— Tratarei de trazê-lo aqui para passar o tempo com o senhor esta noite, depois do jantar. Não se preocupe se eu não estiver aqui, patrão. Andarei farejando por aí... entende?
— Entendo — motejou Mr. Jones com ar lânguido. — Más que é que você tenciona descobrir no escuro?
Ricardo não respondeu. Depois de dar mais uma volta ou duas, desapareceu do quarto. Já não se sentia à vontade sozinho com o seu patrão.