Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 25 de 40

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Vitória

Capítulo IX

Naquela noite a moça acordou, pela primeira vez na sua nova vida, com a sensação de ter sido abandonada a si mesma. Acordou de um aflitivo sonho de separação, cujo motivo não conseguia compreender, e o instante do despertar não lhe trouxe conforto. Persistia o desolado sentimento de solidão. E, com efeito, estava só. A luz de uma lamparina evidenciava o fato, à maneira vaga e misteriosa dos sonhos. Mas aquilo era a realidade. Ficou extremamente inquieta.

Alcançou num ápice a cortina que tapava o vão da porta e ergueu-a com mão firme. As condições da vida de ambos em Samburan tomavam absurda qualquer espionagem, e aliás isto era alheio à sua natureza. Não a movia um impulso de curiosidade, mas de franco susto, a angústia e o temor do seu sonho que se prolongavam. Não podia ser muito tarde. A chama da lanterna ardia vigorosamente, listrando de grossas barras negras o assoalho e as paredes da sala. Ela não saberia dizer se esperava ou não encontrar ali a Heyst. Mas viu-o imediatamente, em pé junto à mesa, de pijama, com as costas para a porta. Entrou sem ruído, com os pés descalços, deixando cair a cortina atrás de si. Algo de característico na aparência de Heyst fê-la dizer, quase num sussurro:

— Está procurando alguma coisa?

Ele não a ouviu entrar; mas não se sobressaltou com o inesperado cochicho. Limitou-se a fechar a gaveta da mesa e, sem mesmo olhar por cima do ombro, perguntou calmamente, aceitando a presença da moça como se ela conhecesse todos os seus passos:

— Escute: tem certeza de que Wang não passou por esta sala hoje à noite?

— Wang? Quando?

— Depois de deixar aí a lanterna,

— Oh, não. Ele saiu correndo. Eu o estava observando.

— Ou talvez antes... enquanto eu falava com esses homens do bote? Não sabe? Não pode me dizer?

— Não creio. Saí para a varanda no pôr do sol e fiquei lá até você voltar.

— Ele pode ter entrado um instante pela varanda dos fundos.

— Não ouvi barulho nenhum — disse ela. — Qual o problema?

— É natural que não ouvisse. Ele sabe como caminhar mais silenciosamente que uma sombra, quando quer. Creio que esse sujeito seria capaz de nos roubar os travesseiros enquanto dormimos. É até possível que ele tenha estado aqui há dez minutos.

— O que acordou você? Algum barulho?

— Não posso afirmar. Geralmente não se sabe o que nos acorda. Mas acha isso provável, Lena? De nós dois você é quem tem o sono mais leve. Um ruído forte o bastante para me acordar teria acordado você também. Tentei não fazer barulho. O que acordou você?

— Não sei... um sonho, talvez. Acordei chorando.

— Sonhava com o quê?

Heyst, com a mão apoiada na mesa, virara-se para ela, a grande cabeça descoberta entroncada num musculoso pescoço de lutador. Ela deixou a pergunta sem resposta, como se não a tivesse ouvido.

— Está procurando o quê? — perguntou, com expressão muito séria.

Seus cabelos escuros, penteados para trás, estavam dispostos em duas tranças, para dormir. Heyst notou a bela forma da sua testa, ampla e digna, de uma alvura sem lustro. Era uma fronte escultural. Ele passou por um momento de intensa admiração, que veio interromper pensamentos de bem diversa ordem. Ao parecer, nunca cessaria de descobrir coisas novas na moça, e nos momentos mais impróprios.

Ela vestia apenas um sarong de algodão, de fabricação doméstica — uma das poucas aquisições de Heyst anos antes nas Celebes, onde se faziam esses tecidos. Tinha esquecido completamente o objeto até Lena aparecer na ilha, e ela o encontrara no fundo de um velho baú de pau de sândalo, dos tempos anteriores a Morrison. Aprendera depressa a enrolá-lo sob os braços, prendendo-o com uma torcida segura, como fazem as malaias do campo quando tomam banho de rio. Tinha os ombros e os braços nus. Uma das tranças, que caía para a frente, parecia quase negra sobre a brancura da pele. Como era mais alta do que a média das mulheres malaias, o sarong ficava nela bem acima dos tornozelos. Firmemente plantada no chão, entre a mesa e a cortina, os pés alvejavam como mármore na sombra da esteira que cobria o assoalho. O pendor dos seus ombros, em que a luz batia em cheio, o torneio delicado e vigoroso dos braços caídos ao longo do corpo, e mesmo a sua imobilidade, tinham algo de estatuário, o encanto da obra de arte tensa de vida. Não era muito alta (Heyst, no começo, chamava-a em seus pensamentos “essa pobre garotinha”), mas assim revelada, sem a mesquinha banalidade do seu vestido branco da orquestra, envolta no singelo sarong, havia na sua forma e nas proporções do seu corpo algo que fazia pensar na maquete de uma estátua de proporções heroicas.

Ela avançou um passo.

— Deu por falta de quê? — perguntou de novo.

Heyst virou-se completamente de costas para a mesa. As barras de sombra no chão e nas paredes, reunindo-se na sombra do teto, eram como os varões de uma jaula em torno deles. Desta vez foi Heyst quem não deu ouvidos à pergunta.

— Diz que acordou assustada?

Lena caminhou para ele, exótica e no entanto familiar, com as espáduas e o rosto alvos de mulher surgindo do sarong, como se o traje fosse um feérico disfarce. Mas a sua expressão era de seriedade.

— Não! — respondeu. — Era antes aflição. Você não estava lá, sabe, e eu não sabia por que me deixou. Um sonho horrível... o primeiro que tenho, por sinal, desde que...

— Acredita em sonhos, por acaso?

— Conheci uma mulher que acreditava. Pelo menos, cobrava um xelim para explicar o significado deles.

— Quem sabe você pergunta a ela o que significa esse sonho? — perguntou Heyst, gracejando.

— Ela morava em Camberwell. Era uma velha horrível!

Heyst riu, um pouco contrafeito.

— Sonho é loucura, minha querida. São as coisas que acontecem no mundo enquanto dormimos que desejaríamos compreender.

— Sentiu falta de alguma coisa nessa gaveta — disse ela, positiva.

— Nesta ou em outra. Procurei em todas as gavetas e acabei voltando à primeira, como se costuma fazer. Tenho dificuldade de acreditar no testemunho dos meus sentidos, mas o fato é que não está aí. Bem, Lena, tem certeza de que não...

— Nunca toquei em coisa alguma nesta casa a não ser no que você me deu.

— Lena! — exclamou ele.

Esse revide a uma acusação que ele não fizera afetou-o dolorosamente. Era o que teria dito um criado, um subalterno exposto a suspeitas — ou, em todo caso, um estranho. Sentiu raiva por se ver tão mal compreendido, desencantado por ela não perceber instintivamente o lugar que ele secretamente lhe reservava em seus pensamentos.

— Depois de tudo — ele pensou — ainda somos estranhos um para o outro.

Mas teve pena dela e falou com calma:

— Eu ia perguntar se tem certeza de que não há mesmo razão para desconfiar que o chinês tenha entrado aqui esta noite.

— Suspeita dele? — perguntou Lena, franzindo as sobrancelhas.

— Não há ninguém mais de quem suspeitar. Pode até dizer que tenho certeza.

— Não quer me dizer o que é? — inquiriu ela no tom sereno de quem toma nota de um fato.

Heyst limitou-se a sorrir ligeiramente.

— Não é nada de muito precioso, quanto ao valor monetário — respondeu.

— Achei que fosse dinheiro.

— Dinheiro! — exclamou Heyst, como se a ideia fosse completamente absurda. A surpresa de Lena foi tão visível que ele se apressou em acrescentar: — Há, naturalmente, algum dinheiro em casa... ali naquela escrivaninha, na gaveta da esquerda. Não está fechada à chave. Pode-se puxá-la para fora. A tábua dos fundos gira sobre si mesma, formando um pequeno compartimento. Um esconderijo muito simples, quando a gente o conhece. Descobri-o por acaso, e guardo ali a nossa provisão de libras. O tesouro, minha querida, não é grande o bastante que necessite de uma caverna.

Fez uma pausa, riu muito baixo e retribuiu o olhar firme de Lena.

— Quanto às moedas de prata, alguns florins e dólares, sempre guardei nessa gaveta. Não tenho dúvida nenhuma de que Wang sabe disso. Mas ele não é ladrão, e foi por isso que eu... Não, Lena, o que está faltando não é dinheiro nem joias; e é justamente isso o que torna o fato interessante... ao passo que um furto de dinheiro não teria menor interesse.

Ela respirou forte, aliviada por saber que não era dinheiro. Tinha no rosto uma expressão de grande curiosidade, mas não fez mais perguntas a Heyst.

Deu-lhe apenas um de seus sorrisos brilhantes.

— Como não fui eu, tem de ser Wang. Devia obrigá-lo a devolver.

Heyst ouviu este conselho ingênuo e prático sem nada responder, pois o objeto desaparecido da gaveta era seu revólver.

Era uma arma grande, que ele tinha por muitos anos, e da qual nunca fizera uso. Desde que os móveis tinham vindo de Londres o revólver repousava naquela gaveta. Para ele, os verdadeiros perigos da vida não eram aqueles que se podem combater à bala ou com uma espada. Aliás, nem seu físico nem suas maneiras pareciam bastante inofensivos para expô-lo a fáceis agressões.

Não sabia dizer a razão que o fizera ir alta noite procurar na gaveta. Saiu da cama num ímpeto repentino, o que nele era muito insólito. Surpreendeu-se sentado no leito, completamente acordado. A moça dormia junto dele, com o rosto voltado para o outro lado: um vulto vago e caracteristicamente feminino na penumbra. Sua imobilidade era completa.

 

Nessa parte do ano não havia mosquitos em Samburan, e as bandas dos mosquiteiros estavam apanhadas. Heyst atirou as pernas para o chão e maquinalmente se pôs em pé. Ignorava por que razão o fazia. Não desejava despertá-la, e o leve rangido da cama lhe parecera soar muito alto. Virou-se apreensivo, esperando que Lena se mexesse. A mulher, porém, continuava a dormir. Olhando para ela, Heyst viu-se também deitado ali, mergulhado no sono e : — coisa que lhe ocorria pela primeira vez na vida — completamente indefeso. Esta novíssima impressão dos perigos do sono fizeram-no pensar repentinamente no revólver. Saiu do quarto com passos silenciosos. A leveza da cortina que afastou ao passar, e a outra porta, escancarada sobre o negror da varanda (o telhado descia muito baixo, tapando as estrelas), deram-lhe a sensação de se achar perigosamente exposto — a que, não sabia. Abriu a gaveta. Ao vê-la vazia rompeu-se o fio das reflexões. Murmurou:

— Impossível! Deve estar em outra parte!

Procurou lembrar-se do lugar onde tinha posto a arma. Mas os balbucios da sua memória não foram animadores. Depois de vasculhar todos os receptáculos e recantos com bastante espaço para conter um revólver, convenceu-se de quê ele não estava naquela peça da casa. Na outra, muito menos. O bangalô consistia em dois quartos e uma profusão de varandas ao derredor. Heyst saiu para a varanda.

— Foi Wang, não há a menor dúvida — meditava ele com o olhar perdido nas trevas. — Apoderou-se do revólver, por algum motivo.

Nada lhe garantia que o chinês fantasma não se materializaria de repente ao pé da escada, ou em qualquer outra parte, para abatê-lo com um tiro certeiro. O perigo era tão inevitável que não valia a pena atormentar-se com isso, como não vale a pena preocupar-se alguém com a precariedade da existência humana em geral. Heyst refletiu sobre esse novo risco. Desde quando se achava à mercê daquele esguio dedo amarelo pousado num gatilho? Ou seria com outro fim que o chinês surripiara o revólver?

— Matar e herdar — pensou Heyst. — Nada mais simples!

Tinha, contudo, acentuada repugnância a ver um assassino no pacato hortelão.

— Não, não foi para isso. Wang podia ter feito mil vezes a coisa nestes doze meses ou mais que vivemos juntos aqui.

Heyst partia da suposição de que Wang se tivesse apossado do revólver quando ele estava ausente de Samburan. Chegado, porém, a este ponto das suas cogitações, mudou de pensar. Adquiriu a certeza de que o revólver desaparecera na tarde daquele dia, ou quem sabe mesmo se já de noite. Não restava dúvida que fora Wang! Mas por quê? No passado, pois, não houvera perigo algum. Todo o perigo estava no futuro.

— Agora ele tem a minha vida nas mãos — pensou Heyst, sem nenhum nervosismo.

Tudo que sentia era uma curiosidade que o fazia esquecer-se de si mesmo, como quem considera a situação crítica de uma pessoa estranha. Mesmo este interesse, porém, já começava a dissipar-se quando ele olhou para a direita e avistou os vultos familiares dos outros bangalôs erguendo-se na noite, e lembrou-se dos três sedentos chegados no bote. Wang dificilmente se arriscaria a cometer tal crime em presença de outros brancos. Era uma excelente ilustração do princípio da “proteção do número”, que de certo modo era desagradável a Heyst.

Sorumbático, voltou para dentro e plantou-se diante da gaveta vazia absorto numa meditação profunda é insatisfatória. Tinha resolvido não dizer palavra de tudo isso à sua companheira quando ouviu atrás de si a voz dela. Embora colhido de surpresa, Heyst resistiu ao impulso de voltar-se, pensando que ela podia ler-lhe no rosto a sua perturbação. Sim, fora colhido de surpresa, e por isso mesmo a conversação dos dois não tomou o rumo que teria tomado se ele estivesse preparado para a pergunta que Lena lhe fez à queima-roupa. Devia ter dito logo: “Não perdi nada.” Deplorou que a tivesse deixado ir ao ponto de lhe perguntar se perdera alguma coisa. Fez ponto na conversa dizendo negligentemente:

— É uma coisa de pouco valor. Não te inquietes com isso... não vale a pena. O melhor que tens a fazer é voltar para a cama, Lena.

Ela retirou-se contrariada, e em chegando à porta perguntou:

— E tu?

— Vou fumar um charuto na varanda. Ainda não tenho sono.

— Então não te demores.

Heyst não respondeu. Vendo-o permanecer imóvel, com a testa franzida, Lena deixou cair a cortina devagar.

Heyst acendeu com efeito um charuto, antes de sair de novo para a varanda. Olhou por baixo do beiral afim de ver, pelas estrelas, se a noite ia muito adiantada. A noite parecia arrastar-se vagarosamente. Não saberia dizer por que motivo isto o aborrecia. Nada esperava do dia; mas tudo que o cercava tornara-se ilógico, movediço e cheio de uma vaga premência, impondo-lhe uma obrigação mas sem lhe indicar qualquer linha de ação definida. Tudo isso lhe causava um agastamento desdenhoso. O mundo exterior invadira a sua vida privada, e ele não sabia o que tinha feito para merecer isso, como ignorava por que culpa atraíra sobre si a horrível calúnia a respeito de suas relações com o pobre Morrison. Não podia esquecer aquilo. A história chegara ao ouvido de alguém que necessitava ter a mais absoluta confiança na retidão da sua conduta.

— E ela só duvida em parte — pensou, com um sentimento de profunda humilhação.

Esta espécie de traição parecia ter-lhe roubado parte das suas forças, como uma punhalada. Não se sentia disposto a fazer nada: nem exigir explicações de Wang sobre o desaparecimento do revólver, nem indagar dos forasteiros quem eram e como tinham vindo parar ali. Jogou longe o charuto em brasa. Mas Samburan deixara de ser um lugar solitário onde ele podia fazer o que lhe viesse à cabeça. A parábola ardente que a bagana descreveu na escuridão foi avistada de outra varanda, à distância de uns vinte metros. Foi interpretada como um sintoma importante por um observador ávido de sinais, e cujos sentidos estavam tão aguçados que por pouco não ouvia crescer a erva.