Vitória
Capítulo V
Quando ela abriu finalmente os olhos e sentou-se, Heyst levantou-se rapidamente para ir buscar o capacete de cortiça de Lena, que rolara para longe. Enquanto isso ela compunha o cabelo, enrolado no alto da cabeça em duas grossas tranças escuras, que se haviam desprendido. Heyst estendeu-lhe calado o capacete e esperou, como se relutasse a ouvir o som da sua própria voz.
— Seria melhor descermos agora — sugeriu em voz baixa.
Deu-lhe a mão para ajudá-la a por-te em pé. Queria sorrir, mas abandonou a intenção ao ver-lhe de mais perto o rosto, em que se estampava a infinita lassidão da sua alma. Na volta, para tomarem a senda da floresta, fez-se mister passar pelo sítio de onde se avistava o mar. O abismo fulgurante e vazio, a chama líquida e ondulante. a trágica brutalidade da luz fizeram-na suspirar pela noite amiga, com as suas estrelas suavizadas por algum austero sortilégio — pelo céu aveludado e a grande sombra misteriosa do mar, que infundem paz no coração alquebrado pelo dia. Cobriu os olhos com a mão. Atrás dela, Heyst falou com brandura:
— Continuemos, Lena.
Ela seguiu caminho em silêncio. Heyst observou que os dois nunca tinham saído durante as horas mais quentes do dia. Receava que isto não lhe fizesse bem. A solicitude do companheiro agradou-lhe e apaziguou-a. Sentia-se retornar progressivamente à sua verdadeira personalidade, à existência de uma pobre moça de Londres que tocava numa orquestra e fora arrancada às humilhações, aos sórdidos perigos da sua posição miserável, por um homem como não havia, nem podia haver, outro igual no mundo. Sentia tudo isso com exaltação, com desassossego, com íntimo orgulho — e com uma singular tremura do coração.
— Não me deixo abater facilmente por coisas como o calor — disse ela em tom decidido.
— Sim, mas não esqueças que não és uma filha dos trópicos.
— Tu também não nasceste nestas regiões — replicou Lena.
— Não, e talvez não tenha mesmo a tua resistência física. Sou um ser transplantado. Transplantado! Devia antes dizer desarraigado... uma condição antinatural de existência; mas um homem passa por suportar tudo.
Ela olhou para trás e recebeu um sorriso. Heyst recomendou-lhe que caminhasse sob o abrigo das árvores. A senda estava muito silenciosa e abafada, ressumbrante de calor embora resguardada da luz. De quando em quando eles divisavam, esbraseada pelo sol, a velha clareira da companhia onde se erguiam os cotos carbonizados das árvores, miseráveis e sinistros, sem lançar sombra. Atravessaram o espaço aberto em linha reta, na direção do bangalô. Acharam vislumbrar na varanda o vulto de Wang que desaparecia, embora a moça não tivesse certeza de que tinha mesmo visto algo se mexer. Heyst, esse, não duvidava.
— Wang nos estava esperando. Viemos atrasados.
— Sim? Pareceu-me avistar uma coisa branca, um momento, e depois não vi mais nada.
— É isso: ele some. É um dom muito notável que tem esse chinês.
— Eles são todos assim? — perguntou ela inquieta, com ingênua curiosidade.
— Não com a mesma perfeição — respondeu Heyst, que achara graça.
Notou, satisfeito, que a caminhada não a afogueara. As bagas de suor, na sua testa, eram como gotas de orvalho sobre a pétala alva e fresca duma flor. Considerou-lhe, com uma admiração crescente, a figura sólida e flexível, misto de graça e de força.
— Entra para descansar um quarto de hora. Depois o sr. Wang nos dará de Comer.
Tinham encontrado a mesa posta. Quando tomaram a se reunir e tomaram lugar à mesa, Wang materializou-se sem ruído, sem ser chamado, e fez o seu ofício. Findo o que, em dado momento deixou de ser visto.
Um grande silêncio pairava sobre Samburan: o silêncio do calor intenso, que parece prenhe de consequências trágicas, como o silêncio da meditação ardente. Heyst ficou sozinho na vasta sala. A moça, vendo-lhe apanhar um livro, recolhera-se ao seu quarto. Ele sentou-se debaixo do retrato do pai. Voltou-lhe à lembrança a abominável calúnia. Sentiu nos lábios o seu gosto, nauseoso e corrosivo como certas espécies de veneno. Veio-lhe o impulso de cuspir no chão, ingenuamente, por puro e simples nojo à sensação física. Sacudiu a cabeça, admirado de si mesmo. Não estava habituado a receber por essa forma as suas impressões intelectuais — refletidas em reações dos sentidos. Mexeu-se impaciente na cadeira e ergueu o livro com ambas as mãos à altura dos olhos. Era uma obra de seu pai. Abriu-o ao acaso e seus olhos pousaram-se no meio da página. Heyst pai tinha escrito sobre todas as coisas, em muitos livros — sobre o espaço e o tempo, sobre os animais e as estrelas, analisando ideias e ações, o riso e as carrancas do homem, e as visagens da sua agonia. O filho leu, mergulhando em si mesmo, compondo o semblante como se estivesse sob os olhos do autor. Sentia vivamente a presença do retrato, à sua direita, um pouco acima da sua cabeça: uma portentosa presença, enquadrada na moldura maciça ao centro da frágil parede de esteiras, com ar de exilado e ao mesmo tempo de quem estivesse em casa, deslocado e dominador, na imobilidade do perfil pintado.
E o filho lia:
De todos os estratagemas da vida, o mais cruel é o consolo do amor — o mais sutil, também, pois o desejo é a incubadora dos sonhos.
Voltou as páginas do pequeno volume, “Tormenta e Pó”, demorando os olhos aqui e além no texto entrecortado de reflexões, máximas, frases curtas, às vezes enigmáticas e outras eloquentes. Parecia-lhe ouvir a voz de seu pai, falando e silenciando para tomar a falar. Á princípio sob ressalta do, terminou por achar certo encanto na ilusão. Abandonou-se à ideia, em que acreditava a meio, de que alguma coisa de seu pai perdurava na terra, uma voz espectral e audível à sua própria carne. Com que estranha serenidade, mesclada de terrores, esse homem contemplava a inanidade universal! Nela mergulhara de cabeça para baixo, talvez para tomar mais suportável a morte — a resposta que vinha ao encontro de todas as interrogações.
Heyst mexeu-se, e a voz do fantasma calou. Mas os seus olhos detiveram-se na última página do livro:
Os homens de consciência torturada, como aqueles que são dominados pela imaginação criminosa, percebem muita coisa que os espíritos de índole mansa e resignada nem sequer suspeitam. Não são só os poetas que ousam baixar aos abismos infernais, ou mesmo que sonham com tal aventura. O mais apático dos seres humanos deve ter dito a si mesmo, numa ocasião ou noutra: “Tudo, menos isto!”
Todos nós temos os nossos momentos de clarividência. Não nos são muito úteis. O caráter do plano traçado não permite que isso, ou qualquer outra coisa, nos preste ajuda. Falando com propriedade, o caráter desse plano, a julgar pelos padrões que as suas próprias vítimas estabeleceram, é infame. Justifica os mais violentos protestos, e entretanto nunca deixa de esmagá-los, da mesma forma que esmaga o mais cego assentimento. O que se denomina perversidade, como aquilo a que se dá o nome de virtude, deve ser o prêmio de si mesma — afim de ser alguma coisa...
Com clarividência ou sem ela, os homens amam o seu cativeiro. À força desconhecida da negação preferem o miserável catre revolto da sua dependência. Só o homem tem o dom de cansar a nossa piedade; e contudo, acho mais fácil crer no infortúnio da raça humana que na sua malvadez.
Eram estas as palavras finais. Heyst depôs o livro nos joelhos. Ele ouviu a voz de Lena acima de sua cabeça curvada:
— Estás aí com um jeito de infeliz.
— Achei que dormias — tomou ele.
— Estava deitada, mas não pude pregar olho.
— O repouso te faria bem depois da caminhada. Não procuraste dormir?
— Já te disse que me deitei, mas não pude dormir.
— E não fizeste o menor ruído! Que falta de sinceridade! Ou será que querias ficar uns instantes sozinha?
Eu... sozinha! — murmurou Lena.
Notando que ela olhava para o livro, Heyst levantou-se para ir repô-lo na estante. Ao voltar-se viu que Lena se deixara cair na cadeira que sempre usava. Sua aparência fazia crer que a força a houvesse abandonado subitamente, deixando-lhe apenas a mocidade, que tinha um ar muito tocante, completamente à mercê do seu amigo. Aproximou-se da cadeira a passos rápidos.
— Cansada, hein? A culpa é minha, que te fiz subir tão alto e ficar tanto tempo fora. E num dia como este, sem vento nenhum!
Ela observava a sua atitude preocupada, em lânguida postura, os olhos alçados para ele mas, como sempre, indecifráveis. Por isto mesmo Heyst evitava de olhá-los. Esquecia-se na contemplação daqueles braços passivos, daqueles lábios indefesos e — força era voltar para eles — daqueles olhos muito abertos. Qualquer coisa de bravio, na sua cinzenta fixidez, o fazia pensar na escuridão glacial das altas latitudes. Sentiu um tremor quando ela falou. Todo o encanto da intimidade física se revelava subitamente na sua voz.
— Devias fazer um esforço para me amar! — disse ela.
Heyst teve um gesto de espanto.
— Um esforço! — repetiu. — Mas parece-me... — Interrompeu-se, dizendo de si para si que, se a amava, nunca lho tinha declarado expressamente. Simples palavras, que entanto lhe morreram nos lábios!
— Por que falas assim? — perguntou.
Ela baixou as pálpebras e desviou um pouco a cabeça.
— Eu nada fiz — disse a meia-voz. — Tu é que foste bom, solícito e terno para mim. Talvez me ames por isso... simplesmente por isso; ou talvez gostes de mim porque te faço companhia, e porque... bem! Mas às vezes quer-me parecer que nunca poderás amar-me por mim mesma, apenas pelo que sou, como se amam as pessoas quando o amor é para sempre.
Pendeu-lhe a cabeça sobre o peito.
— Para sempre — repetia baixinho. E, em voz ainda mais fraca, ajuntou súplice: — Faz um esforço, sim?
Estas últimas palavras (o som delas mais que o sentido) foram-lhe direito ao coração. Não sabia como responder, fosse por não ter prática de lidar com mulheres, fosse simplesmente pela congênita honestidade do seu espirito. Todas as suas defesas estavam já desbaratadas. A vida acabara por o encostar à parede. Mas pôde ainda sorrir, conquanto Lena não estivesse olhando para ele. Sim, conseguiu sorrir: o conhecido sorriso de Heyst, aquele sorriso de cortesia brincalhona tão familiar, nas ilhas, a homens de todas as espécies e condições.
— Minha querida Lena — disse ele, — está-me parecendo que o que tu queres é armar uma disputa perfeitamente inútil comigo... logo comigo!
Ela não se mexeu. Com o braço dobrado horizontalmente ele torcia as pontas do longo bigode, muito perplexo e muito masculino, envolto na atmosfera de feminilidade como numa nuvem, suspeitando de armadilhas e como que receoso de se mover.
— Devo reconhecer, entretanto — acrescentou, — que não há mais ninguém aqui; e suponho que um pouco de dissentimento é necessário à existência neste mundo.
Aquela mulher, sentada numa atitude de tão graciosa serenidade, era para ele como uma inscrição em língua desconhecida, ou, mais simplesmente, como qualquer texto para um analfabeto. Em capítulo de mulheres sua ignorância era absoluta. Faltava-lhe também esse dom de intuição que é alimentado na mocidade pelos sonhos e visões, exercícios com os quais o coração se adestra para as refregas deste mundo em que o próprio amor não repousa menos no antagonismo que na atração. Sua atitude mental era a de um homem que examina um documento que ele é incapaz de decifrar, mas que pode conter alguma revelação importante. Não sabia o que dizer. Só encontrou estas palavras para acrescentar:
— Nem mesmo compreendo o que fiz ou deixei de fazer para te afligir assim.
Calou-se, sentindo mais uma vez a imperfeição física e moral das relações de ambos — um sentimento que lhe fazia desejar constantemente a presença dela, diante dos seus olhos, sob as suas mãos, e que, quando ela estava longe, a tornava tão vaga, tão fugidia e ilusória, uma promessa que se não podia captar nem reter.
— Não! Não percebo com clareza o que queres dizer. Por acaso tens o espirito voltado para o futuro?
Acentuava o tom de gracejo ao interpelá-la assim porque tinha vergonha de pronunciar esta palavra. Mas todas as suas queridas negações o iam desertando, uma por uma.
— Porque, se é isso o que te inquieta, nada mais fácil que desembaraçarmo-nos de tal preocupação. No nosso futuro, como naquilo que se chama a outra vida, não há nada para nos causar receio.
Lena ergueu os olhos para ele. E, se a natureza tivesse feito esses olhos para exprimir outra coisa que não a candura apática, ele perceberia o quanto suas palavras a aterrorizavam, e também que a moça o amava mais arrebatada mente que nunca. Sorriu para ela.
— Tira do espírito toda preocupação com o futuro — insistiu. — Certamente não vais suspeitar, depois do que me contaste, que eu esteja ansioso por voltar ao seio da humanidade. Eu! Eu, assassinar o meu pobre Morrison! É possível que eu seja mesmo capaz de fazer o que eles dizem. A questão é que não fiz. Mas esse assunto é desagradável para mim. Devia ter vergonha de confessar isso... mas é assim! Esqueçamos. Tens o poder de me consolar de coisas piores, Lena, de transes mais abomináveis. Se esquecermos, não haverá aqui vozes que venham lembrar.
A moça erguera a cabeça antes de ele terminar.
— Nada perturbará a nossa solidão — prosseguiu Heyst. E, como se houvesse nos olhos alçados de Lena um apelo ou uma provocação, curvou-se e segurou-a por baixo dos braços, levantando-a da cadeira num abraço repentino e estreito. A vivacidade com que ela retribuiu esse abraço, fazendo-a parecer leve como uma folha, aqueceu-lhe nesse momento o coração mais do que já o tinham feito carícias mais íntimas. Não contava com esse impulso instantâneo que dormitava na sua atitude passiva. Nem bem tinha sentido os seus braços cingir-lhe o pescoço quando, soltando esta leve exclamação: “Ele está aí!”, Lena desprendeu-se e correu para o seu quarto.