Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 34 de 40

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Vitória

Capítulo VIII

Entrementes, Heyst e Lena se aproximavam da cabana de Wang, caminhando com certa pressa. Heyst pediu à moça que esperasse e subiu a escadinha de bambu que conduzia à porta. A fumarenta casa estava vazia, tal como ele esperava, salvo um grande cofre de sândalo, muito pesado para que se pudesse retirá-lo dali às pressas. A tampa estava aberta, e o cofre nada mais continha. Wang levara consigo tudo que possuía. Sem se demorar mais dentro da cabana, Heyst voltou para junto da moca. Esta não lhe fez perguntas, com aquele seu estranho ar de saber ou de compreender todas as coisas,

— Sigamos adiante — disse ele.

E foi na frente, seguido pelo frufru da saia branca de Lena. Penetraram nas sombras da floresta, trilhando a senda habitual dos seus passeios. Embora o ar estivesse pesado entre os troncos retos e nus, as manchas de luz tremulavam no chão, e Lena, erguendo os olhos, viu muito no alto a agitação das folhas, o estremecimento superficial dos possantes galhos estendidos horizontalmente, na perfeita imobilidade da paciência. Duas vezes Heyst olhou para ela, por cima do ombro. Atrás do sorriso com que ela lhe respondia prontamente havia um fundo de paixão dedicada e concentrada, ardendo no desejo de uma satisfação mais perfeita. Passaram pelo sítio de onde costumavam desviar-se para o cume escalvado da colina central. Heyst, contudo, seguiu adiante, buscando o limite superior da floresta. Assim que deixaram o abrigo das árvores envolveu-os uma brisa e uma grande nuvem, tapando o sol, comunicou a todas as coisas um matiz sombrio especial. Heyst apontou para um caminho íngreme e irregular que sarjava a encosta da colina. Ia terminar numa barricada de árvores abatidas, obstáculo de concepção primitiva que muito trabalho devia ter custado a erigir naquele sítio.

— Isto — explicou Heyst no seu tom urbano — é uma barreira contra a marcha da civilização. Essa pobre gente que vive no outro lado não gostou dela, conforme lhe apareceu sob a forma da companhia de carvão — um grande passo à frente, segundo costumava chamar-lhe certa gente, com mal empregada confiança. O pé levado à frente tornou a recuar, mas a barricada ficou.

Continuaram a subir devagar. A nuvem tinha passado, deixando após si uma luz ainda mais rutilante a inundar a face do mundo.

— Isto é bem ridículo— prosseguiu Heyst, — mas o fato é que é um produto do medo sincero... medo do desconhecido, do incompreensível. Também é, de certo modo, patético. Desejo de todo o coração, Lena, que nós vivêssemos do outro lado.

— Oh, para, para! — gritou ela, segurando-lhe o braço.

Sobre o alto da barricada, da qual se iam aproximando, haviam empilhado novas ramadas recém-cortadas. As folhas ainda estavam verdes. Agitava-as uma branda viração que roçava pelo topo. Mas o que havia sobressaltado a moça era a descoberta de várias pontas de lança que surgiam entre a folhagem. Avistara-as de súbito e muito distintamente, embora elas não reluzissem ao sol, imóveis e com um aspecto ameaçador,

— E melhor que eu siga sozinho, Lena.

Ela puxava-o obstinadamente pelo braço. Mas ao cabo de algum tempo, durante o qual não cessou de fitar com expressão risonha os seus olhos terrificados, Heyst terminou por se desvencilhar.

— Isto é mais um símbolo que uma demonstração — arguiu ele, com modos persuasivos. — Espera aqui um momento. Prometo não me aproximar muito.

Como num pesadelo, ela viu Heyst galgar os poucos metros que restavam de caminho, com ar de quem não pretendia parar nunca mais; ouviu a sua voz, semelhante às vozes que ouvimos em sonhos, bradar palavras desconhecidas numa inflexão que não era deste mundo. Heyst estava apenas pedindo para falar com Wang. Não o fizeram esperar muito tempo. Refazendo-se da primeira palpitação de terror, Lena notou um farfalhar na cabeleira verde da barricada. Soltou um suspiro de alívio quando as pontas de lança recuaram para dentro e desapareceram da vista — hediondas coisas! Em certo ponto, fazendo face a Heyst, duas mãos amarelas afastaram as folhas e uma cara veio preencher a pequena abertura, uma cara dotada de olhos muito conspícuos. Era, naturalmente, a cara de Wang, mas sem deixar entrever o corpo a que pertencia, como essas caras de papelão que ela se recordava de ter contemplado, em criança, na vitrina de uma loja escura da Kingsland Road, em Londres, propriedade de um homenzinho misterioso. Essa cara, porém, em lugar de simples buracos tinha olhos que pestanejavam. Lena distinguia o bater das pálpebras. As mãos que tinham aparecido aos lados da cara, para conservar os ramos afastados, também não tinham a aparência de pertencerem a algum corpo físico. Uma delas segurava um revólver, arma que ela reconheceu por simples intuição, nunca tendo visto até então um objeto daquela espécie.

Encostou os ombros a um penedo perpendicular e conservou os olhos fitos em Heyst, com relativa calma, visto que as pontas de lança não o ameaçavam mais. Atrás das costas rígidas e imóveis do companheiro, via a fantástica cara de papelão de Wang» que mexia os lábios finos e fazia caretas que pareciam artificiais. A distância era muito grande para que pudesse ouvir o diálogo, que se travou em voz natural. Esperou pacientemente que ele terminasse. Seus ombros separaram-se da tepidez do penedo; de quando em quando parecia vir de cima um sopro de ar mais fresco, envolvendo-lhe a cabeça. Do fundo do barranco atulhado de vegetação, que tinha aos pés, subia o débil e sonolento zunzum dos insetos. Tudo estava muito sossegado. Lena não notou o momento exato em que a cabeça de Wang sumiu entre a folhagem, levando consigo aquelas fantásticas mãos. Com horror seu, as pontas de lança tornaram a surgir deslizando vagarosamente. Arrepiaram-se-lhe os cabelos, mas, antes que ela tivesse tempo de soltar um grito, Heyst, que parecia ter criado raízes no chão, virou-se repentinamente e começou a descer para junto dela. Os seus grandes bigodes não conseguiam ocultar um sorriso mau, porém, irresoluto. E quando se aproximou o bastante para poder tocar nela explodiu numa risada áspera:

— Ah! ah! ah!

A moça olhou para ele sem compreender. Heyst fez ponto no seu riso, e disse laconicamente:

— É melhor voltarmos pelo mesmo caminho.

Lena tornou a penetrar na floresta, em seguimento dele. O declinar da tarde enchera a floresta de sombras. Ao longe, uma réstia oblíqua de luz entre as árvores formava uma cortina que tapava a vista, e para além tudo era escuro. Heyst parou.

— Não há razão para nos apressarmos, Lena — diese no seu tom ordinário, sereno e polido. — Fomos mal sucedidos. Creio que tu sabes, ou pelo menos podes conjecturar, qual foi o fim que me trouxe aqui?

— Não, querido, não faço ideia — disse ela, sorrindo ao notar com emoção que o peito dele arquejava como se estivesse sem fôlego. Não obstante, Heyst tratou de dominar a sua voz, fazendo apenas breves pausas entre as palavras.

— Não? Eu vim à procura de Wang. Subi aqui... — Tornou a cortar-se neste ponto a respiração de Heyst, mas foi a última vez. — Trouxe-te comigo porque não queria deixar-te desprotegida, na proximidade daqueles indivíduos.

Súbito, arrancou da cabeça o capacete de cortiça e arrojou-o ao chão.

— Não! — gritou com violência. — Tudo isto é demasiado fantástico. E intolerável! Não posso proteger-te! Não tenho o poder de fazê-lo.

Cravou nela os olhos arregalados e depois correu em busca do chapéu, que tinha saltado para longe. Voltou olhando-a no rosto, que estava muito pálido.

— Devia pedir-te perdão destas excentricidades — disse ele, tornando a por o chapéu na cabeça. — Um gesto de infantil petulância! Sinto-me, com efeito, quase uma criança na minha ignorância, na minha impotência, em tudo salvo na horrível consciência de uma ameaça que paira sobre a tua cabeça... a tua!

— E a ti que eles querem --murmurou ela.

— Sem dúvida, mas desgraçadamente...

— Desgraçadamente... o quê?

— Desgraçadamente, não tive êxito com Wang — disse ele. — Não consegui tocar-lhe no coração chinês... se é que tal coisa existe. Disse-me, com a horrível razoabilidade das gentes do seu país, que não nos podia deixar passar a barreira porque seríamos perseguidos. Ele detesta lutas. Deu-me a entender que me atiraria com o meu próprio revólver sem o menor remorso, de preferência a arriscar por minha causa uma desagradável batalha com aqueles estranhos bárbaros. Esteve pregando sermão aos habitantes da aldeia. Eles o respeitam. E o homem mais notável que conhecem, e seu parente por afinidade. Compreendem a sua política. Aliás, só restara mulheres, crianças e alguns velhos na aldeia. Esta é a quadra do ano em que os homens saem a trabalhar nos navios mercantes. Mas ainda que estivessem aí seria a mesma coisa. Nenhum deles gosta de lutas... e muito mais com homens brancos! São um povo pacato e bondoso que me veria morrer com extrema satisfação. Wang pareceu considerar muito estúpida e desprovida de tacto a minha insistência... porque insisti, sabes? Mas um homem em perigo de se afogar agarra-se a qualquer palha. Falamos em malaio, de que entendemos os dois o suficiente.

— Os seus receios são idiotas — disse-lhe eu.

“— Idiotas? Está visto que sou idiota — replicou ele.

— Se eu fosse um homem de tino teria um grande armazém em Singapura, em vez de ser um cule numa mina, convertido em criado de todo serviço. Mas se o senhor não for embora com tempo, eu lhe meterei uma bala antes que fique escuro demais para poder enxergá-lo direito. Não o farei antes disso, Número Um, mas hei de fazê-lo então. Agora... termine o que tem para dizer!

— Muito bem — disse eu, já terminei no que me diz respeito; mas você não tem motivo para se opor a que a mem putih vá morar alguns dias com as mulheres de Orang Kaya. Darei um presente em prata, em pagamento do serviço. — Orang Kaya é o maioral da aldeia, Lena — acrescentou Heyst.

Ela considerou-o com assombro.

— Querias mandar-me para essa aldeia de selvagens? — perguntou com a voz presa. — Querias que eu te deixasse?

— Isso me deixaria com as mãos mais livres.

— Heyst espalmou as mãos e olhou um momento para elas, depois deixou-as pender aos lados do corpo. Lia-se a indignação mais na curva dos lábios dela do que nos seus olhos, que nem se moveram.

— Creio que Wang riu — continuou ele. — Emitiu um som semelhante ao grito do peru.

— Isso seria pior que tudo — me disse ele.

“Fiquei pasmo. Fiz-lhe ver que ele estava dizendo incongruências. O fato de te encontrares aqui ou acolá não fazia nenhuma diferença para eles, pois os homens maus, conforme os chama Wang, ignoravam a tua existência. Não cheguei precisamente a mentir, Lena, embora tivesse esticado a verdade a ponto de estalar. Mas esse chinês parece possuir uma perspicácia sobrenatural. Abanou a cabeça e disse-me que eles sabiam perfeitamente da tua existência. Fez-me uma careta horrível.”

— Não faz mal — disse a moça. — Eu não queria ir, e não iria mesmo.

Heyst tirou os olhos do chão para contemplá-la.

— Admirável intuição! Como eu insistisse com ele, Wang fez essa mesma observação a teu respeito. Quando ele sorri, a sua cara assemelha-se a uma caveira presunçosa. Foi mesmo essa a última coisa que ele disse. Voltei então.

Ela apoiou-se a uma árvore. Heyst lhe fazia face, na mesma atitude negligente, como se os dois se houvessem libertado do tempo e de todos os outros cuidados da terra. De súbito, muito acima das suas cabeças, o teto de folhagem sussurrou tumultuosamente para eles e depois silenciou.

— Uma ideia estranha essa tua, de me mandar embora — disse ela. — Mandar-me embora! Para quê? Sim, para quê?

— Pareces indignada — observou ele, distraído.

— E ainda mais para o meio desses selvagens! — prosseguiu Lena. — E pensavas que eu iria? Podes fazer de mim o que quiseres... mas isso não, isso não!

Heyst estendeu a vista pelas naves escuras da floresta. Tudo estava agora tão quieto que o próprio chão em que eles pisavam parecia exalar silêncio no meio das sombras.

— Por que te indignas? — obtemperou ele. — A coisa, afinal, não aconteceu. Desisti de argumentar com Wang. E aqui estamos nós, repelidos! Não só impotentes para resistir ao mal, mas incapazes de entrar em entendimento com os dignos emissários, os embaixadores extraordinários do mundo com o qual julgávamos ter cortado relações por muitos anos. E isto é mau, Lena, muito mau.

— É engraçado — disse ela, pensativa. — Mau? Creio que seja. Não sei bem se é ou não. Mas tu, tens certeza do que dizes? Falas como se não acreditasses nisso.

Considerava-o com expressão séria.

— Se tenho certeza do que digo? Ah, esse é que é o mal! Não sei falar como devia. À força de me refinar eliminei de mim mesmo todo senso de realidade. Eu disse à terra que me deu a vida: “Eu sou eu, e tu és uma sombra”. E por Júpiter que é verdade! Mas, ao que parece, ninguém pode pronunciar essas palavras impunemente. E aqui me encontro eu sobre uma Sombra habitada por Sombras. Quão impotente é um homem contra as Sombras! Como é possível intimidá-las, persuadi-las, resistir a elas, afirmar nossa existência diante delas? Perdi toda fé nas realidades... Lena, dá-me a tua mão.

Lena olhou-o surpresa, sem compreender.

— A tua mão! — exclamou ele.

Lena a estendeu. Heyst segurou-a com avidez, como desejoso de levá-la aos lábios, mas a meio caminho da boca soltou-a. Os dois ficaram algum tempo se olhando.

— Que tens, querido? — murmurou ela timidamente.

— Nem força, nem convicção — resmoneou Heyst de si para si, em voz fatigada. — Como enfrentarei este problema tão deliciosamente simples?

— Lamento — murmurou Lena.

— Eu também — reconheceu ele logo. — E o que há de mais amargo nesta humilhação é a sua completa inutilidade... que eu bem sinto, bem sinto!

Lena nunca o tinha visto dar semelhantes sinais de emoção. Os bigodes, sobre o seu rosto cheio de angústia, chamejavam na sombra. De repente ele falou:

— Teria eu coragem suficiente para me introduzir no meio deles à noite, com uma faca, e cortar-lhes as gargantas uma por uma, enquanto dormem? E o que estou perguntando a mim mesmo...

Ela se assustou, mais com a sua aparência insólita do que com as palavras, e disse com energia:

— Não procures fazer uma coisa assim! Nem penses nisso!

— A única arma que possuo é um canivete. Quanto a pensar nisso, Lena, ninguém pode governar os seus pensamentos. Não sou eu que penso. Alguma coisa dentro de mim é que pensa... alguma coisa estranha à minha natureza. Que foi?

Reparara nos lábios entreabertos e no olhar singular de Lena, que se desviara do seu rosto.

— Alguém nos está seguindo. Vi mexer-se uma coisa branca! — exclamou ela.

Heyst não voltou a cabeça. Limitou-se a olhar para o seu braço estendido.

— Não há dúvida que nos seguem. Estamos sendo observados.

— Agora não vejo nada — disse ela.

— E isso não importa — prosseguiu Heyst na sua voz ordinária. — Aqui estamos na floresta. Eu não tenho veemência nem o dom de persuadir. O fato é que é extremamente difícil ser eloquente diante da cabeça de um chinês que nos aparece no meio de uma galharia. Mas poderemos nós vaguear indefinidamente no meio destas árvores? Isto será um refúgio? Não! E que mais temos nós? Cheguei a pensar um instante na mina, mas ali também não poderíamos ficar muito tempo. Além disso, a galeria não é segura. Puseram-lhe esteios muito fracos. E as formigas têm trabalhado neles... as formigas, depois dos homens. Uma verdadeira armadilha. Só se pode morrer uma vez, mas há muitas espécies de morte.

A moça olhou receosa em torno de si, procurando o seguidor ou observador que tinha vislumbrado um instante entre as árvores. Mas, se esse homem existia realmente, havia-se escondido. Os olhos dela nada descobriram, a não ser as sombras que se adensavam naquelas vistas de pouco fundo, entre os pilares vivos que sustentavam o teto imóvel de folhas. Ela ergueu para o homem que estava ao seu lado um olhar expectante e terno, com um contido terror e uma espécie de admiração intimidada.

— Também pensei no bote desses homens — continuou Heyst. —Podíamos embarcar nele, e... mas é que tiraram tudo que havia dentro do barco. Vi os remos e os mastros num canto do quarto deles. Metermo-nos ao mar num bote vazio não seria mais que um recurso desesperado, ainda que ele fosse arrastado a uma boa distância entre as ilhas, antes de amanhecer. Seria apenas um processo complicado de suicídio... sermos encontrados mortos num bote, mortos pelo sol e pela sede. Um novo mistério do mar. Quisera saber quem nos encontraria! Davidson talvez; mas Davidson passou há dez dias para oeste. Uma manhã cedo eu o vi, do pier, cruzar ao largo.

— Não me contaste isso — disse ela.

— Ele devia estar-me olhando pelos seus grandes binóculos. Se eu tivesse levantado o braço, talvez... mas que quereríamos nós com Davidson naquela ocasião? Ele só voltará dentro de três semanas ou mais, Lena. Quem me dera ter levantado o braço naquela manhã!

— De que serviria isso? — suspirou ela.

— De que serviria? De nada, naturalmente. Nós não tínhamos pressentimentos. Esta ilha parecia ser um refúgio inexpugnável, onde podíamos viver sem ser perturbados e pouco a pouco nos iríamos conhecendo melhor.

— Talvez seja nas dificuldades que as pessoas podem conhecer-se melhor umas às outras — insinuou ela.

— Talvez — diese ele com indiferença. — Em todo caso, não teríamos ido embora daqui com ele, se bem me pareça que ele acudiria bastante pressuroso, e pronto para nos prestar qualquer serviço. Tal é a natureza daquele homem gordo... um tipo encantador. Não quiseste ir ao pier aquela vez que mandei por ele o chale da sra. Schomberg. Ele nunca te viu.

— Não sabia se tu querias que alguém me visse.

Heyst tinha cruzado os braços sobre o peito e deixava pender a cabeça.

— Quanto a mim, não sabia se tu desejavas ser vista por enquanto. Um mal-entendido, evidentemente. Um honroso mal-entendido. Mas agora, que importa isso?

Alçou a cabeça após um silêncio.

— Como esta floresta ficou escura! Entretanto, o sol não pode ter-se posto ainda.

Ela olhou em derredor. E, como se os seus olhos se tivessem aberto naquele momento, percebeu as sombras da floresta que as cercavam, não tanto de escuridão como de uma hostilidade muda, ríspida, ameaçadora. Fraquejou-lhe o coração naquele silêncio absorvente, e sentiu então a proximidade da morte, cujo hálito a envolvia juntamente com o homem que se achava ao seu lado. Se ouvisse uma súbita agitação das folhas, o estalido de um galho seco, o mais leve roçar, teria gritado. Mas repeliu essa fraqueza indigna. Tal como era, uma arranhadora de rabeca recolhida por um homem quando se achava à beira da infâmia, procuraria elevar-se acima de si mesma, triunfante e humilde — e então a felicidade a invadiria como uma torrente, jogando-lhe aos pés o homem que amava.

Heyst fez um leve movimento.

— É melhor pormo-nos a caminho, Lena, visto como não podemos passar toda a noite na floresta... nem em parte alguma, se vamos a isso. Somos os escravos desta infernal surpresa que nos foi armada por... devo dizer pelo destino?... pelo teu ou pelo meu.

Embora o homem tivesse rompido o silêncio, foi a mulher que se pôs à frente. À beira da floresta deteve-se, oculta atrás de uma árvore. Heyst veio ter com ela cautelosamente.

— O que é? Que estás vendo, Lena? — cochichou ele.

Era apenas uma ideia que lhe passara pela cabeça, respondeu ela. Hesitou um momento, dirigindo-lhe por cima do ombro o fulgor dos seus olhos cinzentos. Desejava saber se essa dificuldade, esse perigo, esse mal ou o que quer que fosse, que os fora buscar no seu retiro, não seria uma espécie de castigo.

— Castigo? — repetiu Heyst. Não podia compreender o que ela queria dizer com isto. Quando Lena explicou, ficou ainda mais surpreendido. — Uma espécie de vingança do céu encolerizado? — disse, admirado. — Vingança contra nós? Mas por que, então?

Viu o seu rosto pálido escurecer no crepúsculo. Ela havia enrubescido. Seu murmúrio escorria muito rápido. Era pelo modo como os dois viviam juntos... não era direito, não era verdade? Uma vida de pecado, porquanto ela não fora forçada a aceitá-la, não a tinham arrastado nem amedrontado. Não, não... viera para os braços dele por sua própria vontade, por um anseio pecaminoso da sua alma.

A comoção dele foi tão profunda que por um momento não pôde falar. Afim de esconder a sua perturbação, assumiu a sua melhor maneira heystiana.

— O quê? Os nossos visitantes são então os vingadores da moral, os agentes da providência? Este é, por certo, um ponto de vista original. Como eles ficariam lisonjeados se te pudessem ouvir!

— Agora estás caçoando comigo — disse ela, numa voz abafada que subitamente lhe faltou.

— Tens consciência do pecado? — perguntou Heyst gravemente. Ela não respondeu. — Porque eu não tenho — acrescentou ele; — juro perante o céu que não tenho!

— Tu! Tu és diferente. A mulher é a tentadora. Tu me recolheste por piedade. Fui eu que me atirei nos teus braços.

— Oh, estás exagerando, estás exagerando. Não foi tão mau assim — disse ele em tom de gracejo, mantendo com esforço a firmeza da voz. Já se considerava um homem morto, e no entanto forçado a fingir-se vivo para o bem dela, em sua defesa. Lamentou não ter um céu a que recomendar esse lindo e palpitante punhado de cinzas e de pó — cálido, vivo, sensível, e seu e desamparadamente exposto ao insulto, ao ultraje, à degradação, à infinita miséria do corpo.

Ela desviara os olhos do rosto dele e mantinha-se calada. Heyst tomou-lhe subitamente a mão passiva.

— Queres que seja assim? Queres? Bem, então confiemos juntos na misericórdia divina.

Ela sacudiu a cabeça sem olhá-lo, como uma criança envergonhada.

— Lembra — continuou Heyst, incorrigível na sua delicada zombaria, — que a esperança é uma virtude cristã, e por certo não hás de querer toda a misericórdia para ti mesma.

Diante dos olhos de ambos, no outro lado da clareira, o bangalô aparecia banhado numa luz sinistra. Uma inesperada lufada de vento frio fez ramalhar as copas das árvores. Ela retirou a mão e saiu para a clareira; mas não tinha andado três metros quando estacou, apontando para o lado do ocidente.

— Olha lá! — exclamou.

Atrás do promontório da Baía dos Diamantes, negras sobre o mar purpurino, empilhavam-se grandes massas de nuvens envoltas numa névoa de sangue. Uma fenda carmesim, qual ferida aberta, percorria-as em ziguezague, terminando embaixo numa poça vermelho-escura. Heyst lançou um olhar indiferente ao caos agourento do céu.

— Está se formando uma tempestade. Vamos ouvi-la a noite inteira, mas provavelmente não virá até aqui. Em geral as nuvens se aglomeram em redor do vulcão.

Lena não o escutava. Seus olhos refletiam as cores sombrias e violentas do pôr-do-sol.

— Isso não se parece muito com um sinal de clemência — disse devagar, como se falasse para si mesma. E continuou a caminhar às pressas, seguida por Heyst. Súbito, parou.

— Não me importa. Eu faria ainda mais do que isto. Algum dia me perdoarás. Terás de me perdoar!