Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 20 de 40

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Vitória

Capítulo IV

Com os joelhos dobrados, Lena apoiou neles os cotovelos e segurou a cabeça com ambas as mãos.

— Está cansada de ficar sentada aqui? — perguntou Heyst.

Um meneio negativo de cabeça, quase imperceptível, foi a única resposta.

— Por que está tão séria? — continuou ele. E logo refletiu que a seriedade habitual tornava-se, com o correr do tempo, muito mais suportável que a constante alegria. — Entretanto, essa expressão lhe fica muito bem — acrescentou, não por diplomacia mas porque, dada a tendência do seu gosto pessoal, a frase traduzia a verdade. — E enquanto eu tiver certeza de que não é o tédio que te dá esse ar severo, estou disposto a ficar aqui sentado, olhando você, até que queira ir embora.

E assim era. Estava sob a ação do encanto inédito daquela vida em comum, a surpresa da novidade, a vaidade lisonjeada com a posse desta mulher; pois tal há de ser por força o sentimento de todo homem, a menos que tenha deixado de ser homem. Os olhos dela moveram-se na sua direção, pousaram-se nele, depois, voltaram a fixar-se na penumbra densa que se estendia ao pé dos troncos eretos das Arvores, cujas espalhadas frondes iam lentamente recolhendo a sua sombra. O ar tépido agitava-se levemente em torno da sua cabeça imóvel. Inspirada por algum obscuro receio de se trair, ela abstinha-se de olhar para o companheiro. Sentia, no âmago do seu ser, o desejo irresistível de se entregar a ele mais completamente, por algum ato de absoluto sacrifício. Mas isso parecia de todo alheio aos pensamentos de Heyst. Era um ente estranho, sem necessidades. Lena sentiu os seus olhos fixos nela. E, como ele se conservasse tímido, disse inquieta (pois ignorava o que aqueles silêncios significavam):

— Então foi morar com esse amigo — com esse bom homem?

— Excelente rapaz — respondeu Heyst, com uma presteza que a surpreendeu. — Mas foi uma fraqueza minha. No fundo eu o fazia contra a vontade, mas ele não me queria largar, e eu não podia explicar. Era um desses homens a quem não se pode explicar coisa alguma. Era extremamente sensível, e seria bárbaro espezinhar os seus sentimentos delicados com a franqueza rude que se faria necessária no caso. O seu espírito era como um quarto de paredes brancas, puro, mobilado, digamos, com meia dúzia de cadeiras de assento de palha, que ele estava sempre a colocar e a deslocar em variadas combinações. Mas eram sempre as mesmas cadeiras. Achei extremamente fácil viver com ele; mas depois agarrou-se a essa ideia do carvão... ou antes, a ideia do carvão tomou conta dele. Penetrou no quartinho pouco mobilado de que acabo de falar, e sentou-se ao mesmo tempo em todas as cadeiras. Impossível desalojá-la, compreendes! Ia fazer a sua fortuna, a minha, a fortuna de toda a gente. No passado, em certos momentos de dúvida que inevitavelmente assaltam um homem resolvido a nunca se deixar enredar pelas absurdidades da existência, eu perguntara muitas vezes a mim mesmo, com um terror momentâneo, de que modo a vida iria colher-me no laço. E o modo foi esse! Ele persuadiu-se de que não podia fazer nada sem mim. E teria eu agora a coragem de repudiá-lo e arruiná-lo? Bem, uma manhã — quisera saber se ele se ajoelhou para rezar naquela noite! — certa manhã, cedi.

Heyst arrancou com violência um tufo de capim seco e jogou fora com um gesto nervoso.

— Cedi — repetiu.

Virando os olhos para ele sem mexer a cabeça, a moça notou a enérgica expressão do rosto, com esse intenso interesse que a pessoa de Heyst despertava tanto em seu espírito quanto em seu coração. Mas a emoção passou depressa, deixando-lhe na fisionomia apenas uma expressão melancólica.

— É difícil resistir quando nada nos importa — observou ele. — E talvez eu não esteja isento de certo espírito de travessura. Divertia-me em andar dizendo coisas tolas e estafadas. Nunca fizeram tão bom conceito de mim, nas ilhas, como quando me pus a papaguear nesse vasconço comercial, como o mais rematado idiota. Palavra, creio que fui até respeitado durante algum tempo. Aparentava a gravidade de um juiz: tinha de ser leal ao homem. Fui, do começo ao fim, absolutamente leal, na medida das minhas forças. Julgava que ele entendesse um pouco desse assunto do carvão. E, se percebesse que ele não entendia nada... bem, não sei o que poderia fazer para por um dique àquilo. De uma maneira ou outra, via-me na obrigação de ser leal. É possível que a sinceridade, o trabalho, a ambição e o próprio amor sejam apenas tentos no jogo lamentável ou mesquinho da vida, mas quando pegamos as cartas na mão temos que ir até o fim da partida. Não, não há razão para que a sombra de Morrison me persiga. O que é isso? Lena, por que me olha assim? Não se sente bem?

Heyst fez menção dese levantar. A moça estendeu a mão para detê-lo, e ele ficou sentado examinando-a, apoiado num braço, observando a sua indefinível expressão de ansiedade, que fazia supor que ela não pudesse respirar.

— O que aconteceu? — insistiu ele, sentindo uma estranha aversão a se mexer, a tocar nela.

— Nada. — Lena engoliu em seco, penosamente. — Claro que isso é impossível. Qual foi o nome que disse? Não ouvi bem.

— Nome? — repetiu Heyst, atônito. — Só falei em Morrison. É o nome do homem de que estava falando. O que tem isso?

— E quer dizer que ele era seu amigo?

— Ouviu o bastante para julgar por si mesma. Já conhece tão bem quanto eu a natureza das nossas relações. A gente destas regiões guiava-se pelas aparências, e se bem me lembro, sempre nos chamaram de amigos. As aparências... que outra coisa se pode exigir, quem pode ter melhor? Na verdade, melhor é impossível, e outra coisa não há.

— Está tratando de me confundir com essa conversa — protestou ela. — Não pode levar isso na brincadeira.

— Não? Sim, é verdade, não posso. É pena. Talvez fosse melhor — disse Heyst, num tom que ele chamaria de melancólico. — A não ser que se possa esquecer essa estúpida história.

Antes que sua testa clareasse completamente, voltou aquele leve jeito brincalhão das maneiras e da fala, como um hábito em que se adestrara.

— Mas por que me olha tão fixamente? Oh, eu não me oponho a isso, e tratarei de não me perturbar. Seus olhos...

Olhava-os no fundo, e, para dizer a verdade, havia naquele momento esquecido por completo o finado Morrison.

— Não! — exclamou de súbito. — Que mulher impenetrável, você, Lena, com esses olhos cinzentos! As janelas da alma, como disse não sei que poeta. O sujeito devia ser vidraceiro de profissão. O fato é que a natureza soube resguardar muito bem sua alma tímida.

Quando ele se calou a moça saiu do assombro, respirando forte. Heyst ouviu a voz dela, cujos variados encantos julgava conhecer tão bem, dizer com uma inflexão nova para ele:

— E esse sócio morreu?

— Morrison? Sim, como já disse, ele...

— Nunca me disse.

— Não? Pensei que houvesse dito; ou antes, pensei que você sabia. Acho impossível que alguém, entre as pessoas com quem falo, ignore que Morrison morreu.

Ela baixou as pálpebras, e Heyst espantou-se de notar no seu rosto uma expressão que era quase de horror.

— Morrison! — murmurou Lena em tom aterrado. — Morrison!

Sua cabeça tombou no peito. Não podendo ver o rosto dela, Heyst percebia, pela voz, que por uma razão qualquer esse nome prosaico lhe despertava profunda emoção. Uma ideia lhe atravessou o espírito: teria ela conhecido Morrison? Mas a simples diferença de origem de ambos tornava o fato extremamente improvável.

— Isto é extraordinário! — disse ele. — Já ouviu falar nesse nome?

Lena moveu diversas vezes a cabeça, em pequenos meneios afirmativos, como se não pudesse fiar-se na sua voz nem se atrevesse a olhar para ele. Estava mordendo o lábio inferior.

— Conheceu alguém com esse nome? — perguntou ele.

A moça respondeu com um sinal negativo. Afinal falou, em voz sacudida, como a exercer violência contra algum receio ou dúvida. Disse a Heyst que ouviu falar no homem.

— Impossível! — volveu ele, positivo. — Está enganada. Não pode ter ouvido falar nele. Isso é...

Interrompeu-se ao refletir que era perfeitamente inútil falar assim. Não se discute com o impalpável,

— Mas eu ouvi mesmo. Só que na ocasião não sabia, nem podia adivinhar que estavam falando de seu sócio.

— Falando de meu sócio? — repetiu Heyst devagar,

— Não. — Ela parecia quase tão perplexa, quase tão incrédula, quanto ele próprio. — Não. Na realidade estavam falando de você, mas eu não sabia.

— Quem eram eles? — perguntou Heyst alterando a voz, — Quem estava falando de mim? Onde foi isso?

À primeira pergunta erguera o busto. Ao fazer a última estava de joelhos diante dela, e as cabeças de ambos encontravam-se no mesmo nível.

— Ora, naquela cidade, naquele hotel! Onde mais podia ser? — disse ela.

A ideia de ser comentado pelos outros era sempre nova para Heyst, no conceito simplista que fazia de si mesmo. Pelo espaço de um momento, a sua surpresa foi tão grande como se ele se julgasse uma mera sombra a deslizar no meio dos homens. Além disto, nutria a convicção quase subconsciente de ser inacessível à bisbilhotice ilhoa.

— Mas primeiro disse que eles falaram de Morrison — observou à moça, pondo-se de cócoras, já pouco interessado. — É singular que tivesses ocasião de ouvir essas conversas! Eu achava que você nunca via nenhum habitante da cidade, salvo quando estava no tablado.

— Esqueceu que eu não morava com as outras? Depois das refeições elas se recolhiam ao Pavilhão, mas eu tinha de ficar no hotel, costurando ou fazendo outra coisa, na sala onde eles conversavam.

— Não me veio à lembrança. A propósito, ainda não me disse quem eram eles.

— Ora, aquele horrível animal de cara vermelha — disse ela, com toda a veemência do asco que lhe causava a simples lembrança do hoteleiro.

— Oh, Schomberg! — murmurou Heyst despreocupadamente.

— Ele falava com o patrão... com Zangiacomo, quero dizer. Eu tinha de ficar sentada na sala. Às vezes aquele demônio de mulher não me deixava sair. Estou falando na sra. Zangiacomo.

— Eu tinha adivinhado — murmurou Heyst. — Ela gostava de atormentar você de muitas maneiras. Mas é realmente singular que o hoteleiro falasse de Morrison com Zangiacomo. Se bem me lembro, ele o via raras vezes, profissionalmente. Conhecia bem melhor muitos outros.

A moça teve um leve estremecimento.

— O nome dele foi o único que ouvi. Afastava-me daquela gente o mais que podia, ia para o fundo da sala. Mas quando aquele animal começava a berrar eu não podia deixar de ouvir. Antes nunca tivesse ouvido nada. Se eu saísse da sala, não creio que a mulher me matasse; mas me passaria uma horrível descompostura, me ameaçaria e xingaria. Pessoas dessa espécie, não há nada que as faça parar quando sabem que a gente não tem ninguém. Não sei por que, mas as pessoas más, verdadeiramente más, aquelas que a gente está vendo que são más, me aterrorizam. É o modo como procuram espezinhar os outros. Tenho medo da malvadeza.

Heyst observava as mutáveis expressões da sua fisionomia. Animou-a com profunda simpatia, e também um pouco divertido.

— Compreendo perfeitamente. Não precisas pedir desculpa da grande sensibilidade que tens para a malvadez sem entranhas. Neste ponto eu me pareço um pouco contigo.

— Não sou muito corajosa — disse ela.

— Bem! Eu mesmo não sei o que faria, que atitude tomaria diante de uma criatura que me parecesse a encarnação do mal. Não se envergonhe disso.

Ela suspirou, ergueu o seu olhar pálido e cândido, com uma expressão tímida no rosto, e murmurou:

— Não parece ter interesse em saber o que ele disse.

— A respeito do pobre Morrison? Não podia dizer nada de mal, pois o coitado era a inocência em pessoa. E além disso, como sabe, está morto e nada mais pode prejudicá-lo.

— Mas se estou dizendo que era de você que ele estava falando! — exclamou ela. — Dizia que o sócio de Morrison começou por arrancar tudo que ele tinha e depois... e depois... foi o mesmo que assassiná-lo... mandou-o não sei aonde para morrer!

— Acreditou nisso de mim? — perguntou Heyst, após um momento de absoluto silêncio.

— Não sabia que era você. Schomberg estava falando num sueco. Como podia saber? Foi só quando você começou a me contar como veio para cá...

— Já ouviu a minha versão. — Heyst forçava-se a falar com calma. — Então era esse o aspecto que tinha a coisa vista de fora! — murmurou.

— Lembro-me de ouvir o hoteleiro dizer que todos aqui conheciam essa história — acrescentou a moça, com a respiração presa.

— É estranho que isso me magoe! — meditou Heyst em voz alta. — Entretanto, é assim. Pelo jeito, sou tão tolo como essa gente toda que conhece a história... e sem dúvida acredita nela. Não se lembra de mais nada? — disse à moça com sombria polidez, — Ouvi muitas vezes falar na vantagem moral de vermos a nós mesmos como os outros nos veem. Continuemos a nossa pesquisa. Lembra de mais alguma coisa que todos soubessem?

— Oh! Não ria! — gritou ela.

— Eu ri? Garanto que não dei por isso. Não perguntarei se acredita na versão do hoteleiro. Deve por certo conhecer o valor dos juízos desse homem.

Ela desenlaçou as mãos, moveu-as de leve e tornou a cruzar os dedos como antes. Protesto? Assentimento? Não iria revelar mais nada? Ele sentiu alívio quando a ouviu falar naquela voz cálida e maravilhosa, que em si mesma bastava para confortar e fascinar os corações, e que a tornava adorável.

— Ouvi essas coisas antes de nos falarmos. Depois esqueci. Naquela ocasião tudo me saiu da memória, e dei graças a Deus por isso. Para mim era o começo de uma vida nova com você... você sabe. Quem me dera ter esquecido também quem eu era... Seria melhor assim. E por pouco não esqueci.

O acento vibrante das últimas palavras emocionou-o. A moça parecia falar, a meia voz, de algum encantamento maravilhoso, em termos misteriosos que tivessem um sentido especial. Heyst refletia que, se ela pudesse falar-lhe numa língua desconhecida o teria fascinado completamente pela mera beleza da voz, que sugeria profundezas infinitas de sentimento e sabedoria.

— Mas — continuou Lena — parece que o nome me ficou gravado no espírito, e quando você falou nele...

— Desfez-se o encanto — murmurou Heyst com desapontamento e irritação, como que desenganado em alguma esperança.

A moça, do lugar onde estava, um pouco acima dele, observou com um olhar imóvel o silêncio abstraído do homem de quem, agora, dependia totalmente. Até então não tivera consciência nítida deste fato porque nunca se sentira suspensa do seu braço, entre os abismos do céu e da terra. E se ele se cansasse do fardo?

— E, além disso, ninguém acreditou jamais naquela lenda!

Heyst lançou esta exclamação abrupta que a fez abrir ainda mais os olhos, dando uma impressão de imensa surpresa. Era um efeito puramente mecânico, pois ela não ficara surpreendida nem intrigada. Na verdade, nunca o compreendera melhor, desde que o conhecia.

Ele riu desdenhosamente.

— Em que estou pensando? Como se me importasse o que se tem dito ou acreditado, desde o começo do mundo até o dia do juízo!

— Até hoje não tinha ouvido seu riso — observou Lena. — E esta é a segunda vez.

Heyst ergueu-se em pé, dominando-a de toda a sua altura.

— Isso é porque, quando um coração é violado como você violou o meu, a porta fica aberta a todo tipo de fraquezas: a vergonha, a cólera, indignações e temores estúpidos — e o riso estúpido também. Como interpreta esse riso?

— Não era alegre, certamente — disse ela. — Mas por que se zanga comigo? Está arrependido de ter me tirado daqueles brutos? Eu disse quem era. Aliás, você mesmo podia ver.

— Céus! — murmurou Heyst, que novamente se tornara senhor de si. — Asseguro que eu via muito mais do que me podia dizer. Via muita coisa de que você nem sequer suspeita ainda. Mas você não é transparente de todo.

Tornou a sentar-se no chão ao seu lado e tomou-lhe a mão. Ela perguntou com brandura:

— O que mais quer de mim?

Heyst ficou silencioso por algum tempo.

— O impossível, suponho — disse em voz muito baixa, como de quem faz uma confidência, e apertando a mão que tinha na sua.

A mão não lhe retribuiu a pressão. Heyst sacudiu a cabeça como para enxotar aquele pensamento, e a juntou em voz mais alta e alegre:

— Nem mais nem menos. E não é porque faca pouco do que já me deu. Oh, não! É porque dou tanto valor a esta minha propriedade que ela nunca me parecerá completa, Sei que isso é absurdo. Já não me pode negar nada.

— Na verdade, não posso — murmurou ela, abandonando a mão passiva na dele, que a apertava com força. — Apenas desejaria dar mais alguma coisa, algo de melhor, ou o que quer que você deseje.

Tocou-o o acento sincero destas palavras simples.

— Vou dizer o que pode fazer: me dizer se terias vindo comigo do mesmo modo se soubesse de quem estava falando aquele abominável idiota do hoteleiro. Nada menos que um assassino!

— Mas eu não conhecia você — exclamou ela. — Além disso, tive o bom senso de compreender o que ele dizia. Não era na realidade um assassinato. Nunca acreditei que fosse isso.

— O que o levou a inventar essa atrocidade? — disse Heyst. — Ele parece ser um animal estúpido. E, com efeito, é estúpido. Como chegou a forjar essa história? Terei cara de vil? Terei o egoísmo criminoso estampado na fisionomia? Ou será isso uma coisa tão comum à raça humana que se possa afirmar de qualquer pessoa?

— Não se tratava de um assassinato — insistiu ela gravemente.

— Sei. Entendo. Era pior ainda. Quanto a matar um homem, o que seria relativamente honesto... bem, foi coisa que nunca fiz.

— Por que o faria? — perguntou ela em voz alarmada.

— Minha boa menina, não sabe a espécie de vida que eu tenho levado por essas terras inexploradas, nas selvas. E difícil dar uma ideia. Há homens que não se viram em situações tão desesperadas como as que vivi, e que foram obrigados a... a derramar sangue, segundo a expressão usual. Até nas selvas há proveitos a tirar, e eles tentam certa gente. Eu, porém, não tinha ambições, não tinha planos... nem mesmo uma grande firmeza de espírito que me tornasse obstinado. Deixava-me levar simplesmente, ao passo que os outros seguiam, talvez, alguma direção. O fato de olhar com indiferença todas as metas e caminhos torna um homem mais cordato, por assim dizer. E posso afirmar, com verdade, que nunca dei importância, já não digo à vida (pois desde o começo desdenhei aquilo que se chama por esse nome), mas ao fato de estar vivo. Não sei se isso é o que os homens chamam de coragem, mas duvido muito que seja.

— Você! Você não tem coragem? — protestou ela.

— Francamente, não sei. Não tenho essa espécie de coragem que está sempre a ansiar por uma arma, pois nunca desejei usar uma nessas disputas em que um homem se envolve às vezes, da maneira mais inocente. As dissenções que levam os homens a matarem-se uns aos outros são, como todas as suas demais ações, as coisas mais lamentáveis e desprezíveis quando as consideramos depois de passadas. Não, nunca matei um homem e nunca amei uma mulher — nem sequer em pensamento, nem sequer em sonhos.

Levou a mão de Lena aos lábios e deixou-os pousar nela durante algum tempo, enquanto a moça se lhe achegava um pouco mais. Após o demorado beijo Heyst não soltou a mão.

— Matar, amar... os maiores triunfos da vida sobre um homem! E eu não tenho experiência de um nem de outro. Deve perdoar qualquer coisa que possa ter parecido descabida no meu procedimento, inexpressiva nas minhas falas, inoportuna nos meus silêncios.

Mexeu-se desassossegadamente, um pouco desapontado com a atitude da companheira, porém considerando-a com indulgência e sentindo, nesse momento de perfeita serenidade, que ao lhe segurar a mão abandonada alcançara uma comunhão mais íntima que em qualquer ocasião anterior. Mas, mesmo nessa hora, perdurava nele um sentimento de imperfeição, ainda não de todo vencido — e que parecia nunca poder ser vencido — da fatal imperfeição de todas as dádivas da vida, que faz delas uma ilusão e uma cilada.

De repente, apertou-lhe a mão com cólera. A sua equanimidade, delicadamente jocosa, produto da bondade e do desdém, morrera com a perda da sua amarga liberdade.

— Diz que não foi um assassinato! Tem razão. Mas quando me fez falar há pouco, quando mencionei o nome de Morrison e compreendeu que era de mim que eles tinham dito essas coisas, mostrou uma singular emoção. Eu notei.

— Fiquei um pouco chocada — disse ela.

— Com a vileza do meu procedimento?

— Eu não seria capaz de julgar. Não, por preço nenhum.

— Sério?

— Seria o mesmo que ousar julgar tudo o que existe. — Lena fez, com a outra mão, um gesto que parecia abarcar a terra e o céu. — Eu não faria isso.

Houve então um silêncio, rompido afinal por Heyst. — Eu! Eu, causar maldosamente a morte do meu pobre Morrison! — exclamou ele. — Eu, que não tinha ânimo para melindrá-lo! Eu, que respeitei sua própria loucura! Sim, essa loucura cujos destroços pode ver daqui, junto ao pier da Baía dos Diamantes. Podia fazer outra coisa? Ele teimava em me considerar seu salvador. Estava sempre repetindo as expressões de sua eterna gratidão, a tal ponto que me fazia arder de vergonha. Que podia eu fazer? Ele pretendia me pagar com este maldito carvão, e eu o acompanhava como quem toma parte nos brinquedos de uma criança. Não me ocorria a ideia de humilhá-lo, como a ninguém ocorre a ideia de humilhar uma criança. Que adianta falar nessas coisas? É natural que essa gente não compreendesse a verdadeira natureza das nossas relações. Mas que tinham eles a ver com isso? Matar o bom Morrison! Ora, é menos criminoso, menos vil (não direi menos difícil), matar um homem do que explorá-lo assim. Compreende isso?

Ela inclinou a cabeça de leve, mas diversas vezes e com evidente convicção. Os olhos de Heyst demoravam-se no rosto de Lena, expectantes e com um começo de ternura.

— Mas nenhuma dessas coisas eu fiz — continuou ele. — Qual é então o motivo dessa emoção? Limita-se a confessar que não poderia me julgar.

Lena, voltou para ele os seus velados olhos cinzentos, que nada viam e onde não se deixava adivinhar a sua admiração.

— Eu disse que não posso — murmurou.

— Mas achava que não há fumaça sem fogo! — O tom de gracejo mal escondia a sua irritação. — Qual não deve ser o poder das palavras, ainda quando mal ouvidas— porque não escutou com muita atenção, não foi mesmo? Que palavras foram essas? Que invenção diabólica as fez sair da garganta mentirosa daquele idiota? Se puder lembrar, talvez elas me convencessem também.

— Eu não escutei — protestou ela. — Que me importava o que dissessem de uma pessoa que eu não conhecia? Ele estava dizendo que nunca tinham visto dois amigos tão afeiçoados como vocês dois; e no fim, depois de tirar tudo dele e se candar dele, deu-lhe um pontapé mandando-o à Inglaterra para morrer.

Estas palavras alheias, m sua voz pura e encantadora, vibravam de indignação mesclada de algum outro sentimento. Calou-se de súbito e abaixou as longas pestanas escuras, como que mortalmente fatigada, numa prostração de todo o seu ser.

— Naturalmente, por que não se cansava dessa ou de qualquer outra... companhia? Você não é como os outros, e... e o pensar nisso fez com que eu me sentisse triste de repente. Mas a verdade é que não achava mal nenhum de você, eu...

Um movimento brusco do braço dele, repelindo-lhe a mão, cerceou o fio das suas palavras. Heyst perdera novamente o domínio de si. Teria gritado se isso estivesse na sua índole.

— Não, esta terra deve ser a sementeira oficial de calúnias, destinada a abastecer o universo inteiro! Sinto-me enojado de mim mesmo, como se houvesse caído num monturo. Puf! E você... só sabe dizer que não quer me julgar, que...

Ela ergueu a cabeça a esta invectiva, embora Heyst não olhasse para ela.

— Não sinto mal nenhum em você — repetiu. — Não seria possível sentir.

Ele fez um gesto que queria dizer:

— Isto basta.

Sentia, no corpo e na alma, uma reação nervosa contra a ternura. De súbito, sem transição, detestou-a. Mas foi um momento apenas. Lembrou-se de que Lena era bonita e, além disto, tinha na intimidade uma graça toda sua. Possuía o segredo da personalidade que excita... e se esquiva.

Saltou em pé e pôs-se a caminhar de um lado para outro. Dentro em pouco a sua fúria oculta se desfazia em pó, como uma casa carcomida, deixando após si o vazio, a desolação e o pesar. O seu ressentimento não tinha por alvo a moça, mas a própria vida — esse laço, o mais comum de todos, em que se sentia apanhado, vendo com clareza a cilada suprema, e sem encontrar consolação na lucidez do seu espírito.

Girou nos calcanhares e, caminhando para ela, deixou-se cair no chão ao seu lado. Sem lhe dar tempo para fazer um movimento, ou mesmo para voltar a cabeça na sua direção, tomou-a nos braços e beijou-lhe a boca. Sentiu o travor de uma lágrima que lhe ficara presa nos lábios. Nunca a tinha visto chorar. Era como um novo apelo à sua ternura, uma nova sedução. A moça voltou os olhos, afastou-se subitamente e desviou o rosto. Fez um gesto imperioso para que a deixasse em paz. Heyst, porém, não lhe obedeceu.