Vitória

Joseph Conrad · Capítulo 24 de 40

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Vitória

Capítulo VIII

 

 

Heyst afastou-se devagar. Não havia luz ainda no seu bangalô, e isto lhe pareceu bom. Já não estava tão perturbado. Wang o precedera com a lanterna, como se tivesse pressa de fugir aos dois hóspedes e seu hirsuto fâmulo. A luz parara de dançar. Fora colocar-se, perfeitamente imóvel, junto aos degraus da varanda.

Heyst olhou casualmente para trás e viu outra luz: o fogo dos hóspedes. Um vulto negro e mal enjambrado inclinou-se monstruosamente sobre as chamas e mergulhou cambaleando na sombra envolvente. A água da chaleira tinha fervido, com toda probabilidade.

Levando gravada nos sentidos essa estranha visão de um ser cuja natureza humana era duvidosa, Heyst avançou um passo ou dois. Que poderiam ser esses homens que tinham tal criatura por criado? Deteve-se. A vaga apreensão de um futuro distante, em que via Lena inevitavelmente separada dele por diferenças profundas e sutis; a negligência céptica que acompanhara todos os seus ensaios de ação, como uma secreta ressalva da sua alma, abandonou-o. Já não era dono de si. Uma missão mais imperiosa e augusta lhe fora imposta. Aproximou-se do bangalô e, na orla da luz da lanterna, viu os pés de Lena e a fimbria do seu vestido. O resto da sua pessoa debuxava-se vagamente na sombra, até a cintura. Estava sentada numa cadeira e a escuridão do beiral baixo envolvia-lhe a cabeça e os ombros. Não se mexeu.

— Estiveste dormindo aqui, por acaso? — perguntou ele.

— Oh, não! Estava te esperando... no escuro.

Heyst, tendo subido a escada, apoiou-se a um dos pilares de madeira depois de afastar um pouco a lanterna.

— Estava pensando que foi bom não teres acendido luz. Mas não te enfastiaste de me esperar no escuro?

— Não preciso de luz para pensar em ti.

A encantadora voz da moça dava especial valor a esta resposta trivial, que também tinha o mérito de ser verídica, Heyst riu um pouco e disse que tivera uma aventura curiosa. Lena não fez nenhuma observação. Ele procurou desenhar mentalmente os contornos da sua postura serena. Uma mancha de luz baça, aqui e ali, deixava entrever a indefectível graça de atitude que era um dos seus dons naturais.

Estivera pensando nele, não porém em conexão com os recém-chegados. Admirara-o desde o primeiro dia; foi atraída pela sua voz quente, pelo seu olhar doce, mas achava-o muito maravilhoso e dificílimo de compreender. Ele dera sabor e movimento à sua existência, uma promessa mesclada de ameaças, e Lena não suspeitava que pudesse encontrar tais coisas na vida... pelo menos uma mulher acorrentada, como ela, pela miséria. Dizia a si mesma que não devia irritar-se demasiado com ele por ser muito metido consigo, e como que encerrado num mundo seu. Quando ele a estreitava nos braços, Lena sentia que esse abraço tinha uma grande força grande e refletida, que ele estava profundamente tocado e talvez não se cansasse dela muito depressa. Achava que o seu amigo lhe tinha dado a conhecer sentimentos de delicada alegria, que a própria inquietude que Heyst lhe causava era deliciosa na sua tristeza, e trataria de prendê-lo o mais tempo possível... até que os seus braços frouxos, a sua alma desalentada, não tivessem mais o poder de retê-lo.

— Wang, naturalmente, não está aqui? — disse Heyst de súbito.

Ela respondeu como que em sonhos.

— Largou a luz aí, sem parar, e foi embora correndo.

— Correndo? Hum! Bom, já tinha passado desde muito a hora de ir ter com sua mulher em casa. Mas ser visto a correr é uma espécie de degradação para Wang, perito na arte de desaparecer. Achas que foi algum susto que o fez desmentir a sua perfeição?

— Por que havia ele de se assustar?

A voz de Lena continuava sonhadora, algo incerta.

— Eu mesmo cheguei a ficar apreensivo — disse Heyst.

Ela não o escutava. A lanterna colocada aos seus pés projetava para cima as sombras do seu rosto. Seus olhos cintilavam, como que atemorizados e atentos, acima do queixo iluminado e do pescoço muito alvo.

— Sob minha palavra — refletiu Heyst em voz alta, — agora que não estou vendo esses sujeitos mal posso acreditar na sua existência!

— E quanto à minha? — perguntou ela, com tal presteza que Heyst teve o brusco recuo de um homem a quem assaltam de emboscada. — Quando não me vês, acreditas que existo?

— Se existes? Tens uma realidade cheia de encanto! Minha querida Lena, tu não conheces os teus próprios atrativos. Pois se bastaria a tua voz para te fazer inesquecível!

— Oh, não era a essa espécie de esquecimento a que eu me referia. Suponho que se eu morresse havias de te recordar de mim. Mas a quem aproveitaria isso? É enquanto estou viva que eu quero...

Heyst estava de pé junto à cadeira de Lena, um vulto varonil escassamente iluminado. Os ombros largos, o semblante marcial que era como um disfarce da sua alma desarmada, perdiam-se na treva, acima do plano luminoso em que estavam plantados os seus pés. Achava-se presa de uma perturbação com que ela nada tinha que ver. Lena não fazia uma ideia exata das condições de existência que lhe oferecera seu companheiro. Levada para aquela estagnação toda especial, permanecia alheia a esta, graças à sua ignorância.

Não podia, por exemplo, compreender o quão prodigiosamente inverossímil era a chegada desse bote. Não parecia pensar nisso. Talvez já houvesse esquecido o fato. Heyst resolveu, repentinamente, não lhe falar mais nele. Não porque evitasse alarmá-la. Como ele próprio não tinha nenhuma opinião definida, não imaginava que as suas explicações pudessem produzir nela um efeito preciso. Há nos acontecimentos uma qualidade que é percebida de modo diverso pelos diversos espíritos, e até pelo mesmo espírito em ocasiões diferentes. Qualquer homem dotado de consciência tem noção desta embaraçosa verdade Heyst bem via que a visita não podia augurar nada de bom. No seu presente estado de ânimo, que era de azedume para com toda a humanidade, considerava-a uma intrusão das mais irritantes.

Olhou da varanda na direção do outro bangalô. O fogo de gravetos se apagara. Nenhum clarão de cinzas, nem o mais leve fio de luz denunciava a presença dos forasteiros. As sombras mais negras na obscuridade, o silêncio absoluto, em nada traíam a estranha invasão. Como em todas as outras noites, reinava paz em Samburan. Tudo continuava como dantes, exceto — Heyst notou-o repentinamente — exceto que, durante talvez um minuto inteiro, enquanto tinha a mão apoiada à cadeira da moça, bem junto dela, olvidara a sua existência pela primeira vez desde que a trouxera para partilhar desta paz invencível e absoluta. Pegou a lanterna do chão, e toda a varanda tumultuou de movimentos silenciosos. Uma barra de sombra passou célere sobre o rosto de Lena, e a luz forte se fixou. sobre a imobilidade das suas feições, que eram como as de uma mulher que contempla uma visão. Os olhos estavam parados, os lábios postos numa expressão grave. O vestido, aberto ao pescoço, agitava-se levemente ao sopro da sua própria respiração.

— É melhor irmos para dentro, Lena — sugeriu Heyst em voz muito baixa, como a romper cautelosamente um sortilégio.

Lena ergueu-se sem dizer palavra e entrou, seguida dele. Ao passarem pela sala Heyst deixou a lanterna acesa sobre a mesa do centro.