A retomada da União
Capítulo 1
Se há um a vantagem em acharem que você está m orta é que fica m uito, m uito m ais fácil descobrir segredos e intrigas.
As desvantagens são óbvias: você não pode voltar para casa; não pode falar com ninguém que não estej a envolvido no plano m irabolante das pessoas que salvaram você; e acaba escondida no m eio de um a m ultidão, observando seu próprio funeral, incapaz de im pedir quem você am a de se m achucar com a ideia da sua perda.
Para um a pessoa que detecta m entiras e odeia falsidade, Hassam tem um a quantidade m uito grande de segredos. Enquanto observo as pessoas se acotovelarem no hall da prefeitura, de frente para um caixão onde está escrito ALMIRANTE ALEXANDER KLAUS, m e lem bro da prim eira vez que vi Hassam , quando o conheci, assim que voltam os da m issão na ilha dos dissidentes. A conversa que tivem os foi estranha, m as o que ele disse sobre Klaus ficou gravado na m inha m em ória: um hom em que nunca m ente e que sem pre cum pre suas prom essas. Claro que na época eu não havia feito a ligação, porque nem conhecia o Alm irante, m as os dias desde a explosão m e fizeram refletir e, ao buscar por pistas, ficou m uito óbvio de quem ele falava. Não que eu concorde. Ao que m e consta, Klaus era o m aior m entiroso de todos nós. Hassam diria que há um a diferença entre om issão e m entira, m as para m im é a m esm a coisa. Om itir que estou viva não torna as coisas m elhores. Ainda estou enganando m inha fam ília, deixando-os pensar que estou m orta.
Entro na procissão que circula a fileira de caixões. Há tantos que a m aior parte do térreo da prefeitura está tom ada por eles. Cam inho devagar entre as pilhas crescentes de flores, bichos de pelúcia e velas aglom erados na frente dos m ais ilustres; e quando paro na frente do caixão onde se lê SYBIL VARUNA, m eu estôm ago faz um a acrobacia biologicam ente im possível. Me sinto vazia, um a im postora, por deixar que todo m undo acredite que a pessoa dentro desse caixão sou eu. Ao m esm o tem po, é im possível não m e im aginar ali, deitada, pálida e sem as batidas incessantes do coração soando nos m eus ouvidos. Quantas vezes, nos últim os m eses, isso poderia ter realm ente acontecido? Eu sem pre estou um passo à frente da m orte, salva no últim o m inuto por um conj unto de coincidências. Se eu escorregar ou parar de correr, terem os outro funeral em breve, dessa vez de verdade. Minha nossa, eu realm ente estaria ali se não fosse por Hassam , e pensar nisso m e faz querer gritar e acabar com toda essa encenação.
Hassam m e encontra antes que eu surte de vez e m e tira da fila com a m ão firm e em m inhas costas.
– Lem bre-se de que seu obj etivo é proteger você e sua fam ília – ele sussurra em um tom calm o, e eu assinto, com m eus olhos voltados para o chão, enquanto navegam os pelo m eio da m ultidão.
Do lado de fora, avisto de longe Gunnar, o garoto que havia se j untado a nós nos túneis alguns dias antes. Suas m ãos estão irrequietas quando nos reunim os, e o m edo de que alguém m e encare e acabe quebrando a ilusão é visível em seus olhos enquanto aj eita o véu que cobre m eus cabelos. Não sei com o os outros m e veem , m as Gunnar havia m e garantido que ninguém m e reconheceria. Os dois garotos m e acom panham com o cães de guarda, e param os no lado oposto do hall, onde os caixões daqueles que não foram identificados estão enfileirados.
Fui a funerais por vezes suficientes para saber que este está quase no fim . O últim o havia sido o de Ava, quando vi que as coisas aqui não eram tão diferentes de Kali quanto eu im aginava. O ritual é o m esm o: a fam ília vela o corpo na com panhia das pessoas m ais próxim as – o que significa um a m ultidão, neste caso. Dizem algum as palavras para relem brar só as partes boas de quem partiu, e depois seis pessoas, nem m ais nem m enos, fazem a longa cam inhada até o cem itério, carregando o caixão nas costas, onde finalm ente o corpo descansará. Eu nunca aguentava ficar até o final, e nem sequer queria ter vindo neste, m as, se a expressão determ inada no rosto de Hassam é algum tipo de indicativo, nós ficarem os até o últim o m om ento de agonia.
Faz exatam ente quatro dias desde o atentado no com ício, então as feridas ainda estão bem abertas. Escuto pessoas cham ando o dia de “O Massacre Am arelo”, porque o núm ero de anôm alos m ortos continua crescendo. Durante esse período, fiz algum as descobertas: a energia elétrica havia voltado em Pandora e em outras cidades especiais da União no m om ento do com ício, então todas as pessoas, independentem ente de estarem lá ou não, assistiram aos acontecim entos do dia. Bem , não todos. O discurso de Klaus foi interrom pido alguns segundos antes dos tiros que o atingiram , com o se quem transm itisse soubesse exatam ente o m om ento em que iria acontecer. Minha boca fica seca quando lem bro do corpo do Alm irante caindo ao chão, com sua cam isa branca que estava ficando verm elha por causa do sangue, enquanto Hassam m e arrastava para longe do palco.
A interrupção poderia ser um a coincidência, m as os canais de TV fizeram um a longa cobertura do atentado, poucas horas depois do assassinato e da explosão. Fenrir, obviam ente, foi a estrela. Um m ártir, um sobrevivente. Fenrir com sua expressão devastada de tristeza, Fenrir em luto pela m orte de sua adorada assessora, Fenrir revoltado com a audácia dos hum anos, Fenrir, Fenrir, Fenrir, Fenrir. Não houve outro rosto que não o dele, num a estratégia cuidadosa para vender a ideia de que ele é o herói que os anôm alos precisam . Nosso salvador. Depois, a luz foi cortada novam ente, de form a abrupta e conveniente.
Meu esconderij o, a Estação de Em ergência, está preparado e equipado com alguns geradores que dão conta do recado por algum tem po. De lá, m ontam os um a escala para supervisionar as notícias. Eu norm alm ente fico grudada no rádio, buscando transm issões piratas que deem inform ações. Evito chegar perto da televisão, pois os únicos canais disponíveis agora são os dos hum anos, então sobra para Hassam , Gunnar e Hannah ficarem o dia inteiro m onitorando as notícias, um a m ais noj enta que a outra. Se Fenrir está num a cam panha para ser um herói, o cônsul está em penhado em fazer com que nós, anôm alos, pareçam os vilões. A explosão – seus porta-vozes dizem – não teve nenhum a ligação com os hum anos e foi obra de organizações anôm alas, cuj o único obj etivo é instaurar o caos e a desordem na nação. Houve um program a vil e noj ento, com andado por três hom ens loiros que esbravej avam ter sido “com provado” o envolvim ento dos anôm alos e dos dissidentes no atentado, em um a estratégia para enfraquecer a União e fazer com que o Im pério finalm ente ganhasse a guerra. É absurdo e risível, m as Maritza m e disse que entre os hum anos m uita gente acredita nisso.
Do outro lado do recinto, vej o um a aglom eração de pessoas e identifico o cabelo verm elho de Rubi, sentindo um aperto no peito. Seu sem blante está pesado e seus om bros, encurvados, dim inuindo sua altura em vários centím etros. Grudado a ela está Tom ás, e prendo a respiração quando o vej o soluçar, afundando o rosto no om bro da m ãe, desolado. Quero m e aproxim ar e consolá-los, dizer que estou bem , m as controlo m eu im pulso e olho para a bandeira da União estendida em um a das paredes, para os arcos bonitos que form am o teto da prefeitura, ou para a form a com o a luz se decom põe e cria pequenos arco-íris em cim a dos caixões.
Em m eu esforço para m e distrair, percebo Fenrir no púlpito m ontado no fundo do salão e afundo as unhas no braço de Hassam , arrancando sangue dos m eus lábios no esforço para não gritar de raiva ou j ogar obj etos explosivos contra o hom em . Ele segura m inha m ão com força, em solidariedade. Fenrir parece... feliz. Satisfeito com o que vê. Provavelm ente acha que ninguém o observa e traz no rosto seu sorriso predatório característico, com o um tubarão que escolhe qual das focas será sua próxim a vítim a. Está vestido de preto, com o a m aior parte das outras pessoas, m as há algo em sua postura que faz com que suas roupas pareçam m ais com em orativas que de luto. Nunca senti tanta vontade de resolver problem as de form a violenta quanto agora.
– Quero ver com o Andrei vai se m anter im passível ao lado dele – Hassam com enta num sussurro, num a tentativa de m e acalm ar, m as ele só m e deixa m ais tensa.
– Vai ser um desastre – respondo, virando o rosto na direção em que m eus am igos e m inha fam ília estão reunidos, do outro lado da sala. – Você tem certeza de que os outros... – com eço a falar.
– Sy bil... – ele responde com um suspiro, cansado. – Se eles tivessem sobrevivido, nós j á teríam os notícias a essa altura.
– Mas eu estou bem – insisto pela décim a vez. – Eles tam bém podem estar...
– Não se iluda. O plano que tínham os não dava m argens para que eles sobrevivessem . E, do j eito que as coisas aconteceram ... – Ele precisa lim par a garganta, m as m esm o assim a voz sai fraca, m eio rouca. – É im possível.
– Mas os caixões estão lacrados. Com o vam os saber... se realm ente tem alguém dentro deles? E se são as pessoas certas?
– Sy bil, por favor. – Sua expressão indica que o assunto é m uito m ais doloroso para ele do que para m im , e deixo de lado, apertando seu braço para confortá-lo.
Várias pessoas se sentam nas cadeiras atrás do púlpito onde Fenrir está, e reconheço praticam ente todas. Em um canto, Andrei está de m ãos dadas com seu pai, Charles, e com Sofia, e os três estão vestidos de preto. Charles levanta o queixo em desafio quando Fenrir os cum prim enta, num a postura beligerante. Eu sem pre tive a im pressão de que Andrei parecia m ais com a m ãe – tanto fisicam ente quanto em personalidade –, m as, hoj e, pai e filho vestem expressões gêm eas de provocação, e a hostilidade é quase palpável entre os Novak e Fenrir.
Sentados ao lado deles estão Leon e m inha fam ília adotiva. Leon tam bém está com um a expressão dura, e seus lábios estão com prim idos em um a linha fina de preocupação. Rubi está abraçada a Tom ás, parecendo j ovem dem ais, assustada dem ais. Dim itri observa a m ultidão com o um a águia, e seus cabelos escuros e lisos estão bagunçados com o se tivessem visto um pente pela últim a vez quinze anos antes. Será que Dim itri está procurando por m im ? Será que Andrei conseguiu passar m eu recado, de que estou bem e que voltarei em breve para casa?
Fenrir tam bém os cum prim enta e parte para um grupo de pessoas que não conheço, m as que parecem ser a fam ília do Alm irante. Há alguns adultos, m as são as quatro crianças que m e cham am atenção. São todas m eninas, e é quase com o se tivessem replicado o m eu nariz nelas. A m ais velha deve ter no m áxim o 12 anos e está agarrada a um a senhora idosa que parece ter m ais de 100 anos. É estranho saber que todas essas pessoas são m eus parentes, m esm o que eu não as conheça. Sinto um arrepio de m edo só de pensar que eles podem querer m e conhecer se souberem quem sou e que ainda estou viva.
– Senhoras e senhores, boa tarde. – A voz de Fenrir ressoa por todo o hall, grave e pesada, reverberando no m eu peito e m e tirando do devaneio. No instante em que encaro a fam ília de Klaus, ele retom a seu lugar no púlpito. A m ultidão se m ove com o um a onda para observá-lo. – Quatro dias antes, estávam os reunidos, cheios de esperança, para conversar sobre os rum os que querem os para os anôm alos. Eu e m eu adversário na disputa pelo Senado, Alm irante Alexander Klaus, estávam os cientes das dificuldades crescentes que enfrentam os nas últim as sem anas e decidim os nos unir para tentar fazer algo, iniciar algum tipo de m udança. Assim com o vocês, nós queríam os que o evento fosse um m arco, um sinal de transform ação bem claro para que o cônsul soubesse que nós não abaixaríam os a cabeça dessa vez.
Fenrir faz um a pausa. Ao m eu lado, Hassam prende a respiração, e o ódio em seus olhos é evidente. Gunnar continua nervoso, observando o recinto em busca de atividades suspeitas. Maritza, Hassam e Hannah não haviam deixado claro, m as é óbvio que, além de m estre das ilusões, o garoto é algum tipo de guarda-costas, alguém treinado para m anter os outros seguros.
– Mas o cônsul parecia ter outros planos para nós: o que era um sinal de esperança, ele transform ou em terror. Quem era um a figura de m udança, ele transform ou em cadáver. Não contente em tentar assassinar a sangue-frio, na frente de m ilhares de pessoas, nosso bravo Alm irante Alexander Klaus tam bém planej ou um atentado, que só pode ser descrito com o terrorista, para garantir que sua m ensagem fosse enviada: nenhum de nós im porta. – Seu tom de voz fica m ais alto, ele se inclina no púlpito, e sua som bra distorcida se avolum a na parede, ocupando-a quase toda. – E isso não é o pior, não. Ele tirou de nós nossos irm ãos, nossos filhos, nossos pais. Nossas crianças e nossos avós. Foi um dos atos m ais covardes que j á ocorreram na história da União. Apesar de todas as diferenças, o Alm irante Alexander Klaus era m eu am igo. E... – Aqui sua voz falha e ele engole em seco, analisando a m ultidão. Sua expressão é indecifrável quando ele e o pai de Andrei trocam olhares, e Fenrir am assa um papel em um a das m ãos, respirando fundo antes de continuar. – E eu perdi m inha assessora, m eu braço direito, um a pessoa que eu considerava com o m inha irm ã, assim , de graça. Não consigo parar de pensar no que poderia ter acontecido se eu a tivesse levado com igo quando fui buscar seu rem édio para dor de cabeça, em com o ela estaria conosco hoj e, com o estaria confortando seu m arido e seus filhos. A culpa m e consom e em alguns m om entos, e penso que deveria ter sido eu! Apenas eu! E não todas essas pessoas.
Fico enoj ada ao perceber com o o truque funciona e a atm osfera do funeral parece ser de pena e com paixão por Fenrir. Com o se ele fosse capaz de sentir culpa! É ridículo com o ele consegue m anipular as pessoas com palavras, com um teatro faj uto, cheio de sentim entalism o barato. Olho para Hassam ao m eu lado, para ver se ele dá algum indício da m entira que parece óbvia para m im no discurso, e sua expressão é de dor e desgosto. Im agino com o deve ser doloroso, acho que até fisicam ente, ter sua anom alia e estar no m esm o recinto que Fenrir.
– A m elhor m entira, Sy bil, é a m ais próxim a da verdade – ele sussurra para m im .
– Você está m e dizendo que Fenrir se sente culpado?
– Não sei. Ele costurou tão bem as m entiras e as verdades que sei que existem as duas no discurso, m as não sei qual é qual.
– Mas tem algo que posso fazer – Fenrir continua depois de m ais um a das suas pausas, olhando de form a incisiva para a m ultidão. – Algo que não é o suficiente para reparar nossa dor e fechar nossas feridas, algo que não conseguirá rem ediar o que j á aconteceu, m as que com certeza prevenirá m ais situações com o essa. Hoj e, em m em ória de todas as vidas que perdem os, prom eto que conquistarei todos os nossos direitos, nem que sej a à força. Eu farei todo o possível para que esse sacrifício não sej a em vão e que a dor da nossa perda tenha valido a pena. Meus sentim entos estão com todos vocês.
As pessoas parecem tocadas com o discurso, m as a escolha de palavras m e incom oda. Sacrifício? Ele se entrega, ali, e todos batem palm as fervorosam ente com a prom essa de vingança, com a prom essa de m ais sangue para pagar o sangue supostam ente derram ado pelos hum anos. Isso nunca dá certo e nunca acaba bem .
Hannah se j unta a nós no m om ento em que Fenrir se acom oda em um a das cadeiras. Seu cabelo cacheado está escondido atrás de um lenço preto com o o que uso, e ela veste um conj unto de roupas de luto com m anga com prida, apesar do calor. Seus olhos verdes m e analisam silenciosam ente, com o se m edindo m eu nível de nervosism o.
– Nós j á podem os ir, Hassam – ela sussurra para o irm ão. – O transporte está pronto e a rota é segura.
– Agora não – ele diz, sem tirar os olhos do palco. – Nós precisam os ficar um pouco m ais.
– Tem certeza? – Gunnar finalm ente fala, olhando para nós. – Não acho que m inha ilusão consiga durar depois que com eçarem a falar da Sy bil, e não é seguro ficarm os aqui m uito tem po. Não podem os arriscar.
– Quero ouvir o que eles têm a dizer. Não é a m esm a coisa ouvir pelo rádio, não dá para extrair inform ações do m esm o j eito. Não é só a voz ou o tom com o se fala, m as tam bém as expressões, a m aneira com o a pessoa se porta – Hassam responde, passando a m ão pelo cabelo. Sua anom alia é de extrem a utilidade para m om entos de crise e guerra e, nas m ãos erradas, poderia causar estragos terríveis. Sinto alívio por ele estar do nosso lado. Im agina do que Fenrir seria capaz com um poder desse? Quantas chantagens não faria? – Isso é inform ação im portante tam bém . Não podem os deixar nada passar.
– E nós não podem os arriscar... – Hannah aponta para m im . – Ela não está em condições de fazer um a fuga apressada.
– E estou com um pressentim ento ruim . Tem pessoas dem ais aqui, é um a ótim a oportunidade para... – Gunnar adiciona, e sua expressão séria form a um a ruga de preocupação na testa. – Só existem três saídas e tem um a fileira de caixões no m eio do cam inho da m aior porta. Para isso aqui virar um inferno, basta um em purrãozinho.
– Esperem lá fora, então. Eu encontro vocês depois.
– Você está m aluco se acha que vou deixar você ficar aqui sozinho depois do que Gunnar disse. – Hannah afunda as unhas no braço do irm ão. – Pense em você antes de fazer algo heroico, a gente j á viu com o isso acaba.
– Hannah. – O tom de Hassam é de aviso, quase um rugido, apesar de falar baixo para não ser ouvido por outras pessoas. – Eu sou seu superior nessa operação e não estou sugerindo que esperem lá fora, estou dando um a ordem direta.
– E eu estou desobedecendo um a ordem direta. – Ela cruza os braços, falando em um sussurro raivoso. – Ou você vai com a gente, ou nós ficam os aqui e com prom etem os a operação.
Os dois se encaram por vários instantes enquanto os observo, descrente. Gunnar suspira e balança a cabeça, m as tem um início de sorriso no rosto. Assim com o eu, ele tam bém está usando um a das suas ilusões, com o ele as cham a, e tanto seu cabelo quase branco quanto sua pele m orena estão escondidos em baixo de um a pele escura com o a de Leon, e um cabelo preto cacheado. Antes de virm os para cá, ele m e explicou um pouco m ais sobre sua anom alia: a m aior parte das pessoas não presta atenção direito nos arredores, então é fácil sugerir im agens para o cérebro sem que ninguém repare. Mas um pouco m ais de atenção consegue quebrar a sugestão, principalm ente quando se trata de pessoas. De certa form a, não é m uito diferente da anom alia de ficar invisível de Sofia. Posso não saber m uito sobre Gunnar, m as é óbvio que está inquieto porque tem m edo de ser reconhecido.
– Vam os fazer assim : eu levo a garota lá para fora e esperam os vocês dois no ponto de encontro. Quando tudo acabar, vocês nos encontram – Gunnar sugere, apoiando a m ão em m eu om bro. – O que você acha?
– Acho bom – respondo, olhando para Hassam . – Não quero ficar aqui para ouvir... as pessoas falando sobre...
Não com pleto a frase porque m encionar m eu nom e seria atrair atenção para m im , e Hassam suspira pesadam ente, ignorando o desgosto na expressão de sua irm ã.
– Certo. Se algo acontecer, voltem para a base e esperem lá por m ais instruções – o soldado finalm ente aceita. – Não arrisquem serem descobertos.
– Sim , senhor – Gunnar responde, com um leve tom de deboche na voz. Hassam realm ente precisa reavaliar sua posição de liderança se quiser ser levado a sério. – E você, vej a se consegue achar algo útil nessa falação toda.
Hassam revira os olhos, exasperado, e nós nos enfiam os na m ultidão, abrindo cam inho devagar pelas pessoas. Gunnar m antém a m ão em m eu om bro o tem po inteiro, sem m e deixar ir para m uito longe. Acho que Hassam contou a ele sobre a experiência horrível durante o com ício, em que nós havíam os nos perdido um do outro na m ultidão, e eu precisei ser guiada por Victor para sair da confusão. Gunnar é m ais alto do que os dois garotos, deve ter m ais de dois m etros, e, com m inha pouca altura, nós form am os um a dupla esquisita, m as extrem am ente eficiente para sair de lugares lotados.
Se acham os que a prefeitura estava cheia, não tínham os ideia de com o estava o lado de fora. Pessoas se esprem em para tentar ver algo do interior do prédio, form am um a m assa com pacta de corpos praticam ente im possível de transpor. Cada espaço que conquistam os é prontam ente ocupado por outra pessoa quando passam os, e o cheiro de suor im pregna m inhas narinas. Está quente, m ais quente do que qualquer tem peratura em Kali, e m al consigo respirar. Gunnar faz o possível para que as pessoas não esbarrem na m inha m ão enfaixada, m as evitar contato com outros seres hum anos é im possível nas condições em que estam os.
Quando finalm ente nos desvencilham os das pessoas e chegam os à esquina que é nosso ponto de encontro, m eu queixo cai assim que percebo a dim ensão do funeral: praticam ente toda a cidade de Pandora está aqui. Mais gente do que no com ício, m ais do que no Festival de Unificação. Daqui de fora não tem com o saber o que se fala lá dentro, m as as pessoas passam as inform ações em sussurros, aum entando aqui, om itindo ali. Mas o sentim ento da m ultidão é basicam ente o m esm o: ultraj e. Não são as m ortes que im portam para a m aior parte das pessoas, ou o que significam para os entes queridos daqueles que m orreram . É o ato, o desafio que foi j ogado para os anôm alos. Muitas pessoas deixaram o preto do luto de lado e estão aqui vestidas de am arelo, com orgulho, e reparo que todos elas parecem j ovens, com m enos de 25 anos.
Há um detalhe que m e escapa, m as que Gunnar aponta para m im com sussurros, de form a discreta: agentes escondidos em cim a dos telhados dos prédios. Quando os vej o, não consigo não procurá-los e perco a conta depois de um a dúzia. O m ais próxim o m e perm ite ver com distinção o triângulo azul que os m arca com o hum anos, e sinto um calafrio.
– Isso é ruim – com ento com Gunnar, depois de apontar para o hom em . – Muito ruim .
– Maldito Hassam e sua teim osia – ele xinga. – Nós j á deveríam os estar longe.
– Vai dar tudo certo, não se preocupe – eu digo, sem m uita convicção, pensando não em Hassam , m as em todas as pessoas que eu am o e que estão dentro daquele prédio. – Eles estão aqui só por segurança.
– Se você quer se iludir, não sou eu que vou te im pedir, m enina.
– Seu otim ism o é contagiante, viu?
– Sou realista. Se um a coisa pode dar errado, ela vai dar errado – o rapaz responde, se encostando no prédio atrás de nós. – Quando as coisas ficarem ruins, nós vam os em bora. Não vam os esperar pelos outros.
Concordo, observando o prédio com o coração na m ão. Quando as coisas ficarem ruins, ele disse, não se as coisas ficarem ruins. É questão de m inutos agora, e não resta m uito a fazer a não ser aguardar.