A retomada da União
Capítulo 32
É quando percebo que eles estavam esperando que tentássem os fugir. Os gritos de Naoki não parecem afetar Brian e Elena com o nos afetaram , e tenho certeza de que usam algum tipo de proteção nos ouvidos. Faz m uito sentido quando penso, porque quando Fenrir iria nos deixar tão livres assim ? Puxo Leon e tento guiá-lo pelo túnel, m as ele tropeça nos trilhos e em um a pedra, com pletam ente desorientado. Eu saco a arm a de choques e a deixo próxim a ao m eu corpo, de form a discreta. Brian dá um sorriso desdenhoso.
– Vocês acharam m esm o que não teríam os um plano de contenção? Fenrir sabe que você tende a dar trabalho. – Ele tira um a corda do bolso e a brande com o se fosse um chicote, se divertindo. – Sy bil, você poderia ter colaborado desde o início. Você poderia ter se j untado a nós naquele dia em que te convidei, na sua casa. As coisas seriam diferentes.
– Leon provavelm ente está surdo. Você realm ente acha que vale a pena? Ele é seu am igo antes de qualquer um de nós! – Eu soo ultraj ada e m e aproxim o m ais de Leon, sentindo sua m ão em torno do m eu braço.
– Existem sacrifícios que precisam ser feitos por um bem m aior – Brian se j ustifica e se aproxim a de um a vez, decidido a acabar com a situação rapidam ente.
Eu m e esquivo de seus braços, em purrando-o com o om bro na direção da parede. O garoto tropeça nos trilhos e se desequilibra, quase caindo, e eu m e solto de Leon, aproveitando o m om ento de fraqueza para fazer o que queria desde que descobri que ele foi o responsável por capturar Rubi e Dim itri: dar um soco exatam ente no m eio da sua cara. Quando m eu punho bom encontra seu rosto, ouço o som de pele contra pele e sinto dor, m as fico satisfeita quando vej o que o garoto está atordoado, com o se não soubesse o que aconteceu. Os nós dos m eus dedos latej am , m as não m e arrependendo nem por um segundo. O garoto parece ultraj ado e olho para Naoki com o canto dos olhos, esperando algum a reação, m as ela não vem .
– Esse foi m eu m ais sincero agradecim ento por ter nos ferrado – digo, e ele se levanta de um a vez, irritado e, agora, não hesito em encostar a arm a de choques em seu antebraço e apertar o gatilho.
Os eletrodos o atingem em cheio e ele solta um grito quando a descarga elétrica percorre seu corpo, sua boca se tornando um círculo perfeito enquanto ele trem e e cai, desacordado. Largo a arm a de um a vez, assustada. Não esperava a intensidade do choque e m e aproxim o do garoto, checando sua pulsação. Por m ais que estej a com raiva, não quero que ele m orra.
Mais atrás, no corredor, Elena revelou que sua anom alia é bem útil para conter pessoas: ela controla cordas. Gunnar conseguiu se esquivar da que prendia seu pescoço, m as as outras estão o perseguindo com o se fossem cobras, se enrolando em suas pernas e seus braços e ele parece m ais concentrado em escapar delas do que em derrotar Elena. Observo Áquila se aproxim ar, se arrastando por um a das paredes, e se j ogar contra a garota sem nenhum aviso. Elena tropeça na tentativa de se esquivar do garoto e bate a cabeça no trilho de ferro, desm aiando. É o suficiente para que Gunnar pegue as cordas com as m ãos e rapidam ente am arre a garota. Ele tam bém arrasta o corpo desacordado de Brian e usa o resto da corda para prendê-lo j unto aos trilhos e à Elena.
Volto para Leon e seguro seu braço, percebendo que os poucos m inutos em que ficam os separados foram o suficiente para que ele entrasse em pânico. Ele m e agarra, sua respiração acelerada e eu passo a m ão nas suas costas, testando sua audição. Lim po seus ouvidos com a bandagem do m eu pulso e percebo que o sangue estancou, para m eu alívio.
– Com o estam os? – Gunnar se aproxim a e vej o que está apoiando Áquila em um dos braços, que parece m inúsculo com a diferença de altura entre os dois. – Isso é sangue?
– Eu acho que não consigo m ais ouvir. – A voz de Leon é alta, m as sai fraturada, m orrendo no final. Eu o seguro com força, afundando as unhas na sua pele e ele m e procura no escuro, com dificuldade. Gunnar se vira para Naoki com um a expressão de fúria e eu não tenho tem po de contê-lo antes que vá para cim a dela com um a disposição assassina.
– Gunnar! – berro, m as o grito de Naoki engole m inha voz, nos atingindo com o se fosse algo físico. Sinto a pressão m udar nos m eus ouvidos, Leon solta um grito e se abaixa e eu o protej o com m eu corpo, abraçando-o na tentativa de abafar o som .
Gunnar tam bém se encolhe, tapando os ouvidos. A garota se cala e levanta a m ão, com um gesto claro para que não se aproxim e. Gunnar se levanta, cam baleante, andando na direção dela só para que a garota grite novam ente, sua voz desaparecendo no m eio do grito e se transform ando só em pressão, tornando difícil respirar. Sinto as paredes ao m eu redor vibrarem .
– Áquila, a im peça! – Minha voz sai abafada e estranha e procuro o garoto no túnel, m as não o acho em lugar algum . Será que ele está fugindo sem nós? Será que essa é um a arm adilha e com eti um erro ao confiar nele? De repente, todo o m eu plano parece fraco dem ais para dar certo, e sinto que é aqui, num túnel desativado e desconhecido, que vam os m orrer. Leon se agarra m ais a m im , com o se sentisse m inha insegurança.
Por estar m ais perto, Gunnar sofre o pior dos efeitos, m as ainda assim consegue avançar, um passo de cada vez. Naoki tom a fôlego e Gunnar se aproxim a m ais, antes de m ais um grito praticam ente j ogá-lo na parede do outro lado. Mas então, percebo um a m ovim entação no túnel atrás dela e levo um susto, assim com o ela, quando Áquila aparece por trás e a segura pelas m ãos. Naoki dem ora alguns segundos para entender o que está acontecendo e logo seus gritos de defesa se tornam choram ingos de dor. Ela tenta se soltar das m ãos de Áquila, m as ele a segura com firm eza, fazendo-a se sentar no chão.
Minha cabeça parece rodar quando m e levanto, m as preciso m e certificar de que Áquila não a está m achucando, apesar de tudo. Gunnar ainda se recupera e eu puxo Leon, que m e segue com passos cam baleantes e incertos. Áquila levanta os olhos quando m e vê se aproxim ar, sua testa coberta por um a cam ada fina de suor, e percebo que está usando sua anom alia. Naoki tenta se desvencilhar de Áquila, m as logo desiste e só encosta a testa nos j oelhos, incapaz de se concentrar em qualquer outra coisa que não sej a respirar fundo.
– Eu fiz o m esm o que fiz com você – Áquila explica, sua testa franzida em concentração.
– Naoki. – Eu m e abaixo perto dela, deixando a m ão de Leon sem pre no m eu om bro, e prendo o cabelo da garota com um a das m ãos. – Você precisa lutar contra Felícia. Ela fez algo com você, e Áquila está tentando te aj udar, m as você precisa ter força e aguentar a dor.
– Sy -Sy -Sy bil – ela fala com lábios trêm ulos e segura com força nas m ãos de Áquila, com o se aquilo fosse aj udá-la. – Le-Leon está bem ? Eu sinto m uito, eu devia ser forte...
– Shh, não fale nada. Só... m elhore – digo, sentindo um aperto no peito. A respiração de Naoki fica laboriosa, sua pele queim a sob m eu toque e m e lem bro de Victor, nos prim eiros dias em que esteve conosco. Gunnar para ao nosso lado, segurando a lanterna, e parece estar em um dilem a.
– Não podem os perder m ais tem po. Eu posso carregá-la, m as precisam os ir. – Seu tom é praticam ente um pedido de desculpas. – Sy bil, você consegue guiar Leon?
– Eu não posso soltá-la ainda – Áquila avisa, em um tom hesitante. – Você consegue carregá-la e m e aj udar? Não vam os te atrasar?
Gunnar assente e os dois garotos fazem um a dança esquisita para não m achucar Naoki ao m esm o tem po em que Áquila continua segurando suas m ãos, com um a expressão de concentração no rosto. Ela parece um passarinho ferido, encolhida nos braços de Gunnar, apoiando Áquila com as m ãos. Eu m e levanto, seguro o braço de Leon e seguim os num ritm o lento e cuidadoso que só contribui para aum entar m inha ansiedade. Logo, os sons abafados do choro de Naoki se j untam aos nossos passos no túnel e ouço Áquila sussurrar algo para tentar acalm á-la. Não m e escapa a ironia de nossas brigas terem com eçado porque ela queria estar m ais próxim a do garoto e, agora, ela finalm ente tem o que quis, m as num m om ento com pletam ente inadequado.
Passam os pela estação abandonada de República e m udam os de rum o no próxim o entroncam ento, em direção ao prédio do Senado. Gunnar nos guia, pois sabe de cor o m apa dos túneis. As paredes vão ficando m ais estreitas e o teto m ais baixo, com o se estivéssem os subindo um a ram pa. Gunnar para de repente e j oga a luz da lanterna para cim a, ilum inando um a escotilha de m etal suj a de sangue. A tensão é palpável enquanto Gunnar repousa Naoki no chão, ao lado de Áquila, e tenta abri-la, usando m ais força do que o esperado. E quando a porta se abre com um estrondo, algo cai pendurado. Dou um passo para trás horrorizada.
Vej o prim eiro as roupas, a calça verde-oliva com o a que eu, Gunnar e Leon estam os vestindo, a blusa preta. Os óculos de grau caem no chão com um tilintar e a cabeça se curva para o lado num ângulo não natural, o peso sustentado pela corda em torno do seu pescoço.
Cléo.
Cleópatra Klaus, m inha tia. Morta.
Suprim o um grito e m e afasto, tropeçando em Leon e quase nos derrubando no processo. Meu coração parece prestes a explodir e não consigo entender por que ela está aqui assim , dessa m aneira. É m inha culpa? Fenrir a m atou por causa da m entira que contei para tentar nos salvar? Gunnar grunhe algo horrível e a desam arra com m ãos trêm ulas e m ovim entos nervosos, deitando-a no chão com o se houvesse algum a form a de salvá-la. Leon sente o trem or em m inhas m ãos e m e segura, alheio a todo o dram a que se desenrola, e sinto os olhos de Áquila sobre m im com o se o garoto antecipasse um a explosão.
– Cléo. – Ouço Gunnar cham á-la, sacudindo-a com o se fosse trazê-la de volta à vida. Um dos seus braços repousa de form a flácida contra o chão e consigo ver a palavra TRAIDORA m arcada com tinta verm elha em sua pele. Por um m om ento horrível, tenho certeza de que Idris descobriu o que ela fez e a puniu por isso.
Mas então Gunnar encontra um papel no bolso da m ulher e o tira, seu rosto se contorcendo em em oções que não consigo entender. Não ouso m e m exer, m as ele estende o papel para m im , com um a expressão indecifrável. Eu o pego, incerta, e ele direciona a lanterna para que eu possa ler: “Um presente para Idris”. Minhas m ãos estão trem endo e eu m al consigo ler o resto do bilhete: “Traidores não m erecem perdão. Fenrir”.
Sinto-m e anestesiada e am asso o papel em um a das m ãos. Som os todos tolos, achando que podem os im pedir Fenrir de algum a form a. Cléo havia se j untado a ele por qual m otivo? Para quê? Havia colocado tudo em risco assim para acabar m orta, de qualquer form a. Olho para seu corpo pálido e soluço, sentindo os olhos arderem e preciso de m uita força de vontade para não chorar. A única certeza que tenho é de que a próxim a sou eu.
– Você sabe de algo. – Gunnar se levanta de um a vez, a m uralha que é seu tórax bloqueando m inha visão. – Por que ele m atou Cléo? O que significa esse bilhete?
Não consigo arranj ar palavras para respondê-lo e desvio o olhar, m e apertando contra Leon com o se pudesse m e esconder da dor nos olhos de Gunnar. Leon passa a m ão pela m inha cabeça, visivelm ente confuso, m as se m antém calado.
– Ela entregou os m apas dos túneis para o m eu... para Fenrir. – Áquila vem ao m eu resgate e eu olho para baixo, fugindo da reação de Gunnar. – Cléo alertou sobre o plano do com ício, sobre o plano de vocês. Ela entregou Sy bil para Fenrir e deixou que os outros m orressem .
– Você está m entindo! – Gunnar ruge, vencendo o pequeno espaço até onde Áquila e Naoki estão. – Ela nunca faria isso. Com o ela entregaria o próprio irm ão e a própria sobrinha? Pare de inventar histórias.
– Não estou inventando nada! – Áquila se defende e Gunnar parece dobrar de tam anho, ainda m ais assustador. Vej o quando o garoto solta Naoki e usa a m ão para se proteger, num m ovim ento autom ático, com o se j á tivesse feito isso várias vezes antes.
– Gunnar, ele está falando a verdade. – Finalm ente encontro palavras e Gunnar se vira na m inha direção, a confusão visível em seu rosto. Ele acredita em m im o suficiente para não m e questionar por nenhum segundo. – Pelo m enos sobre m e entregar para Fenrir. Provavelm ente todo o resto é verdade tam bém , eles falaram sobre acordo.
– E por que ela faria isso? – ele pergunta, olhando para o corpo da m ulher no chão. – Cléo nunca, nunca seria capaz de nos trair. Ela está conosco desde que tinha sua idade, desde que libertou um grupo de fugitivos do Im pério e se j untou Idris. Ela acredita no que fazem os.
– Acreditava – Áquila corrige e, quando sente que estam os prestando atenção nele, lim pa a garganta. – Talvez tenha algo a ver com o m arido dela...?
Eu não faço ideia do que está falando, m as Gunnar fica pálido e se afasta, com o se aquilo fosse inform ação dem ais para processar. A única luz que resta é a que vem da porta acim a de nós. Fecho os olhos de Cléo antes de m e j untar aos outros. É a única gentileza que posso fazer por ela agora.