A retomada da União
Capítulo 21
Saím os de m adrugada e chegam os à fortaleza bem cedo. Nós a encontram os, para nossa surpresa, exatam ente com o a deixam os: em polvorosa. Som os recebidos por um grupo agitado de adolescentes m ais j ovens que eu, que observam com olhos arregalados enquanto Hassam e Gunnar tiram nossos prisioneiros da parte de trás do cam inhão. E parecem três vezes m ais ansiosos quando percebem que Cléo não está conosco. Hassam m anda que eu vá prim eiro, enquanto eles escoltam os prisioneiros, e obedeço sem reclam ar.
O corredor principal está um caos, o dobro de pessoas penduradas nos rádios ouvindo e anotando as inform ações. Parece que eles ficaram ali a noite toda, pelas m anchas de café seco espalhadas pelas m esas. Alguém sai correndo na direção da sala de Idris e esbarra em m im , quase m e derrubando e não se im portando em pedir desculpas. Parece que nos seis dias que passam os fora algo terrível aconteceu, e fico ansiosa. De um a das m esas, um a m enina se levanta e percebo que é Sofia, com os olhos arregalados, surpresa por m e ver aqui. Ela larga o fone de ouvido que está usando e acotovela as pessoas até chegar em m im e m e abraçar com um a força que eu não sabia que ela tinha.
– Você está bem ! – ela grita de um j eito quase histérico. – Não acredito que você voltou sã e salva.
– Estou bem sim . – Tento consolá-la, m as m e lem bro da expressão de Hannah e de com o disse que quase m orri, e engulo em seco. – O que está acontecendo? Por que estão acordados a essa hora?
– Um m onte de coisas. – Ela m e aperta m ais contra si. – Algum as cidades especiais com eçaram a se declarar independentes e aliadas de Fenrir, e ele com eçou a ficar m aluco! Parece que nos últim os dois dias ele prendeu um as duzentas pessoas que eram contra ele em Pandora.
– O quê?
– E a paciente da ala m édica piorou, a que chegou antes de você ir. Tem quase três dias que não vej o Andrei nem as m eninas. Nem Clarisse, porque eles m al saem de lá. – Ela afunda o rosto em m eu om bro, nervosa. – E você não voltava nunca e não tínham os nenhum a notícia, e foi horrível, ainda bem que você está aqui agora.
Passo a m ão pela cabeça da garota, atordoada com a quantidade de inform ações em tão pouco tem po. Vej o Hassam , Hannah e Gunnar tentando entender o caos que está o corredor, e eles logo nos alcançam . Sofia m e solta com um a expressão séria.
– Preciso voltar para m inha posição, m as vocês devem ir encontrar Idris im ediatam ente – ela diz de form a tão adulta que tenho vontade de apertá-la novam ente. – Procuro você daqui a pouco, quando m eu turno acabar.
Ela volta ao seu posto, colocando os fones nos ouvidos e arrum ando o cabelo cacheado com um a das m ãos. Gunnar a observa com a expressão triste, e suspira pesadam ente enquanto cam inham os na direção da sala de Idris.
– O que foi? – Hannah pergunta, encostando a m ão em seu braço.
– É só que... ela é tão novinha. Não deveria estar preocupada em m onitorar as frequências de rádio em busca de inform ações, ela devia estar, sei lá, se divertindo em algum lugar seguro. – Ele balança a cabeça. – Eu odeio o que som os forçados a fazer.
Nenhum de nós responde e Hassam se adianta, batendo na porta da sala de Idris. Nós entram os ao seu com ando, e ela parece surpresa em nos ver. Ela e Maritza estão sentadas de frente para o grande m apa na parede e percebo que pinos em várias cidades foram trocados do azul para o verm elho. As duas parecem exaustas, com o se não dorm issem há alguns dias.
– Vocês não sabem com o estou feliz por terem voltado – Idris fala, se levantando e fazendo um gesto para sentarm os. – Com o foi a m issão? O que aconteceu? Onde está Juan?
– Cléo... ela não te inform ou? – Hassam parece confuso e olha para as próprias m ãos. – Juan... nós o perdem os. Estávam os em contato com Cléo desde que tom am os o cam po, e ela disse que iria reportar tudo a você, além de ter nos orientado a deixá-los... Acho que houve algum problem a no cam inho.
– Espero que tenha sido isso – Idris fala, com um suspiro pesado. – Com o foi tudo? Quem ficou lá para aj udar os refugiados?
Gunnar e Hassam fazem um relatório dolorosam ente m inucioso, m e deixando m ais inquieta a cada m inuto. Quero sair e ver com o Leon está, quero invadir a ala m édica e m e certificar de que Andrei e vovó Clarisse estão bem . Preciso arrum ar um a form a de entrar em contato com Pandora, para ter certeza de que Dim itri, Rubi e Tom ás estão a salvo. Se Fenrir com eçou a prender pessoas que são contra ele, com certeza eles estariam entre os prim eiros. Ao m esm o tem po, estou exausta e quero dorm ir por dois dias seguidos, ainda não recuperada da extravagância que fiz na fazenda.
– Vocês conseguiram o general Rhy s? – O tom espantado de Maritza m e tira de m eus devaneios e, quando levanto o rosto, vej o um m isto de adm iração e confusão. – Com o ele estava lá exatam ente no dia em que decidim os invadir? Que coincidência conveniente.
– Duas hipóteses: ou o general não confiou em quem está vazando as inform ações do nosso plano, ou é do interesse de quem o inform ou que ele fosse pego. – Idris j unta as duas m ãos, num a postura reflexiva. – Nós vam os ter que adiantar nosso plano, Mari. Cham e o responsável da sua equipe de pesquisa, precisam os decidir em quem vam os apostar para ser o novo cônsul e levar as inform ações até a pessoa.
Espero que Idris nos dispense, m as ela apenas se volta para o m apa e franze a testa, extrem am ente preocupada. A situação parece estar fugindo do controle rápido dem ais.
– Todos os pinos verm elhos são as cidades especiais que se declararam independentes. Algum as se subm eteram à Fenrir, outras estão por conta própria. Em todas elas há algum tipo de liderança, alguém que tom ou a dianteira e tenta organizar as coisas – explica. Os pinos verm elhos são m ais ou m enos um terço das cidades, espalhadas por todo o m apa. Sinto um frio na barriga. – Estou conversando com alguns deles, m as o que m ais nos espanta é o fato do cônsul não ter feito nada quanto a isso ainda. O exército não foi m obilizado, não houve m ais nenhum a sanção. Em Pandora, eles invadiram um a parte de Prom eteu e expulsaram os hum anos, e não houve nenhum a reação.
– Você acha... que ele está escondido? – pergunto, curiosa. – Que está com m edo e não sabe o que fazer?
– Eu não acho nada – Idris responde de form a enigm ática, ao se virar para nós. – Nosso plano atualm ente é esse: Maritza irá convencer alguém a se candidatar ao cargo de cônsul assim que Fornace for deposto. Não vai dem orar m uito para isso acontecer, do j eito que está. Quando assum ir, essa pessoa declara o estado de Fenrir inconstitucional e negocia a paz com ele.
– Você acha que Fenrir vai negociar? – Hassam pergunta, insolente.
Idris não tem a oportunidade de responder porque Maritza volta, trazendo Leon à tiracolo. O garoto parece tão acordado quanto Sofia, e deduzo que ninguém na fortaleza deve estar dorm indo. Quando percebe que estou na sala, cam inha até m im e segura no m eu om bro com firm eza, com o se eu fosse fugir, e seguro sua m ão.
– Sei que disse que tinham até o fim da sem ana, m as preciso de um nom e hoj e. – Idris se vira para Leon. – Precisam os adiantar o plano.
Leon engole em seco e Maritza sussurra um encoraj am ento para que ele se pronuncie.
– Conversei com Maritza sobre isso ontem ... Acho que tem os a candidata ideal: Petra Am ani – explica, e Idris pede que continue. – Ela tem um a boa articulação política, principalm ente com os senadores do sul, e é líder da pouca oposição que o cônsul encontra no que aprova. Não parece ter m edo de peitá-lo, e é um a das m aiores vozes de Bantu, sua província natal. Além disso, é am igável com Fenrir e tem todas as ferram entas para conseguir negociar com o hom em .
– Petra Am ani – Idris repete, pensativa. – Petra Am ani. Hnm m , Sy bil, por favor, traga aquele livro para nós.
Faço com o pede, cam inhando até sua m esa e levando para ela com dificuldade o livro que apontou. Idris pega o tom o das m inhas m ãos sem nenhum esforço e o abre no final. Consigo ver que é um a im agem parecida com a que Fenrir m e m ostrou quando o encontrei em sua casa, o m apa da União com as fotos de todos os senadores em cim a. Me inclino e vej o que o livro é um daqueles que de aros grossos, em que você pode incluir capítulos extras, e fala sobre a história do Senado. Provavelm ente contém todas as com posições do nosso corpo diretivo desde o início da União.
– Hum , sim . Ela parece boa. Segunda candidatura, não é ingênua, m as ainda não está cética. Vocês acham que ela irá colaborar?
– Eu não sei... acho que deveríam os perguntar para Victor – Leon sugere, inquieto.
– Podem os fazer isso, m as ainda não sabem os até que ponto a influência de Felícia o atinge – Maritza explica. – E o garoto clam a que Petra não se lem bra dele. Precisam os descobrir o que aconteceu se quiserm os ter algum avanço nesse sentido.
– Ele m elhorou? – pergunto, curiosa.
– “Melhorou” é um exagero, m as sim , ele consegue ficar em pé e a febre cedeu. – Maritza parece pensativa.
– Eu tenho um a pergunta... – Hassam fala, olhando para Gunnar, que faz um sinal de encoraj am ento para que continue. Por algum m otivo, tenho certeza de que os dois j á discutiram sobre isso antes. – Não é perigoso ter um a consulesa que é suscetível... a sej a lá o que Felícia fizer? É um a abertura inadm issível.
– Nós vam os descobrir e reverter, não im porta o que sej a – Idris afirm a, categórica. – Assim que Lisandra ficar boa, poderem os voltar nossa atenção para investigar o que Victor tem .
– Com o ela está? – interrom po, ansiosa por qualquer notícia que sej a. Meus m otivos para perguntar são egoístas, porque estou m ais preocupada com vovó Clarisse e com Andrei, e fito Leon com o canto do olho.
Idris afunda na cadeira, em um a postura de derrota, e Maritza desvia do m eu olhar, com o se estivesse envergonhada. Leon aperta m eu om bro, para m e confortar, e vej o que m eus com panheiros de m issão estão tão confusos quanto eu. Por um m om ento, m inha im aginação corre louca, criando cenários em que Andrei pegou a doença ou aconteceu algo com vovó Clarisse e ninguém quer m e contar, e m ordo m eu lábio inferior com força para conter a ansiedade.
– Estam os esperando Cléo para tentar fazer algum avanço – Idris responde com um a voz pesada. – Lisandra está piorando a cada dia. Ela pediu para Clarisse tentar salvar o bebê, m as sua avó está esperando Cléo chegar nas próxim as 24 horas.
Fico em silêncio, encarando intensam ente o tecido da calça nos m eus j oelhos. Meu coração dói e m e pergunto onde está Cléo que não chegou ainda. Vej o a m esm a pergunta estam pada no rosto dos m eus com panheiros, e Hannah cruza os braços, séria.
– Você acha que aconteceu algo com Cléo? Será que ela foi pega? – A ansiedade em sua voz é evidente.
– Espero que não. – Idris passa a m ão pelo rosto, num gesto de preocupação, e suspira pesadam ente. – Tudo bem , você tem razão, Leon.
– Eu tenho razão? – Leon parece surpreso e aponta para si m esm o. – O que eu disse?
– Não terem os tem po para investigar Victor. E ainda precisam os descobrir m ais sobre o que afeta Lisandra e com o tratá-la. Podem os extrair o m áxim o de inform ação do garoto enquanto ele se recupera – Idris fala. – Sim , é a m elhor coisa a se fazer. Vão descansar, vocês quatro. Leon, avise Victor que ele deve estar aqui logo depois do alm oço.
Quando saím os da sala, a prim eira coisa que Leon faz é m e dar um abraço apertado. Sinto que está trem endo e o aperto contra m im , tentando acalm á-lo.
– Eu não disse aquilo – sussurra, defensivo. – Você ouviu, não ouviu?
– Sim , Leon. – Eu o acalm o, achando graça na sua ansiedade. – Você só a levou a pensar naquilo. A gente sabe que não foi você que sugeriu.
– Ficou parecendo que eu não m e im porto com Victor – fala, ansioso. – Mas eu m e im porto. Por isso acho que devem os perguntar a ele.
– Shh, não precisa ficar agitado – respondo falando baixo, de um j eito calm o.
– Eu... – ele com eça e ouço-o soltar um suspiro pesado, com o quem desiste. – E você? Com o está? Com o foi na m issão?
– Foi... – eu com eço, m as de repente sinto m uita, m uita, m uita vergonha por ter m e arriscado da form a que fiz. Ao m esm o tem po, sinto um a pontada de orgulho por não ter deixado que todas aquelas pessoas m orressem . Mas não acho que Leon vá entender. – Bom . Eu não sei, foi estranho. Não tive tem po para pensar sobre isso ainda.
– Eu posso contar tudo para você se quiser, Leon – Hassam fala e m e assusto, porque achei que ele havia ido em bora com Hannah e Gunnar. – Sy bil precisa trocar a bandagem do braço dela e descansar um pouco, ela se desgastou m uito.
Consigo ver o dilem a no rosto de Leon: ele quer ficar com igo e m e convencer a falar, m as sabe que é m ais provável que Hassam lhe conte tudo. Consigo ver o raciocínio e a espiral de esperança e m edo que passa pelo m eu am igo em poucos segundos. Hassam está olhando tão intensam ente para Leon que parece estar tentando convencê-lo m entalm ente de que ir com ele é a m elhor opção. Eu fico na ponta dos pés e sussurro:
– Vai. A gente se encontra m ais tarde.
– Tem certeza? Eu posso ir com você e...
– Leon, só vai. Depois m e conta o que aconteceu. – Eu o em purro gentilm ente. Ele parece hesitante, m as faz um sinal com a cabeça para que Hassam o siga, e vej o o outro rapaz esconder um sorriso enquanto eles descem o corredor na direção dos dorm itórios.
Me encosto na parede, exausta. Mas a um idade das m inhas bandagens volta a incom odar e, quando levanto um a parte delas, o fedor é quase insuportável. Ao m esm o tem po em que estou m orrendo de vontade de ir até a ala m édica, não para trocar m inha bandagem , m as para ver vovó e Andrei, tenho m edo do que vou encontrar quando chegar lá. Inevitavelm ente, m e lem bro de Ava, de com o a garota pode estar em algum lugar do Im pério sofrendo os m esm os efeitos colaterais, m orrendo aos poucos, rodeada por pessoas que não a conhecem e que não a veem com o nada além de um a cobaia.
Penso na reação de Andrei quando soube que Ava havia sido curada com sucesso – a vontade de ir salvá-la, de fazer algo. Talvez ele estej a certo. Talvez evitar que o Im pério continue com os testes é o que devem os fazer, depois de im pedi-los aqui.
Mas quando lem bro com o sou tão pequena, tão insignificante neste cenário enorm e de guerra, m e sinto im potente, confusa, frustrada. Eu queria tanto que as coisas pudessem se resolver do dia para a noite, com o num passe de m ágica. Será que existe alguém com um a anom alia com o essa, em algum lugar? Alguém que possa m udar a realidade com um estalar de dedos? Isso m e faz agir. Se eu tenho tem po para ficar sonhando acordada, ainda tenho disposição para ir até a ala m édica e enfrentar sej a lá o que estiver acontecendo.