A retomada da União

Bárbara Morais · Capítulo 6 de 39

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A retomada da União

Capítulo 6

 

Quando m e acalm o, vovó Clarisse m ostra o cam inho que tenho de fazer para chegar ao longo corredor de concreto onde ficam os dorm itórios. O clim a ainda está pesado entre nós, e ela aponta onde ficam o banheiro e os arm ários coletivos com uniform es e roupas, ordenadas por tam anho, sem m uita conversa. Há um a diversidade im ensa de blusas, m as as calças e as botas são todas iguais. Vovó Clarisse pergunta se quero com er, e recuso.

Minha m ochila j á está no quarto onde vou ficar, um cubículo com um a cam a, um a m esinha e um a cadeira. Acho estranho que eu fique sozinha, m as não pergunto nada para vovó. Ainda não estou bem o suficiente para conversar, incerta sobre com o m e sentir quanto a ela.

Gasto todo o tem po de descanso lendo os diários com as capas verm elhas de Cassandra, im pressionada com o as coisas fluem bem , apesar do sono. Além dos diários que Klaus m e entregou no dia do com ício, vovó Clarisse m e deu m ais dois, de capa preta, além de um sapatinho verm elho de bebê que Cassandra fez, os únicos pertences que deixou antes de m orrer. Os relatos form am um retrato quase com pleto dos 18 aos 24 anos da m inha m ãe, com um ou dois anos faltando no m eio. É fascinante.

Quando abro um dos cadernos pretos, um a carta cai no m eu colo e a abro, sentindo o coração na boca enquanto a leio.

Querida Sybil,

Espero que não me odeie. Minha avó – sua bisa, Dafne – diria que tentar mudar o futuro e se preparar para ele é uma contradição, porque você está supondo que ele vai acontecer de qualquer forma, mas espero que meus sonhos sobre você não se tornem realidade. Espero que tudo não passe dos devaneios de uma mulher grávida doente, com medo pela sua filha. Também espero que Clarisse realmente tenha te dado esse nome, ou vou parecer ainda mais idiota para você.

Alguns dias, só quero saber se vou viver o suficiente para conseguir ver seu rosto, e fico pensando em um futuro alternativo, em que eu consiga sobreviver a essa doença terrível que destrói meus pulmões pouco a pouco, e volte para Alexander com você em meus braços. Com certeza, ele gostaria de sair da Marinha para se dedicar integralmente a você. Eu não. Não consigo imaginar uma vida sem a brisa do mar em meu rosto, presa ao chão como uma flor extremamente exótica que sempre anseia por mais. Espero que Clarisse me enterre perto do mar.

Ah, mas esta carta é sobre você e não sobre mim. Você deve estar se perguntando: por quê? Por que eu fiz isso, por que pedi para uma pessoa desconhecida te criar numa cidade no meio do nada, em Kali, correndo todo tipo de risco? Por que eu escolhi te esconder de seu pai, te privar de uma infância com todos os benefícios que uma criança tem no Continente Pacífico? Você não viu o que eu vi, ninguém viu. Meus sonhos estão cada vez piores, e embora eu nunca te veja de frente, eu sei que é você. A dor e o sofrimento são palpáveis, além do desespero que você sente. Eu acordo atordoada, com lágrimas nos olhos, pensando nas formas de te proteger mesmo sem estar com você.

O medo tem sido meu companheiro nesses dias e a única solução que me dá paz é essa. Clarisse é uma mulher maravilhosa que já te ama, mesmo que você nem sequer tenha nascido, e te criará tão bem quanto eu a teria criado. Tenho certeza de que ela te protegerá com unhas e dentes, da forma como eu a teria protegido. E se por algum acaso ela tenha te entregado esta carta, não a odeie. Ela só cumpriu o pedido de uma mulher moribunda, só tentou te manter a salvo.

Seja audaciosa e corajosa, tenha compaixão e não deixe nunca, jamais, que te façam duvidar do seu valor. Siga o que acha ser certo e seja quem dita as regras da sua própria vida. Não fuja das suas obrigações, mas saiba dosar quanto sacrifício cada um dos seus compromissos vai custar. O amor é como um animal nas suas entranhas, se aninhando em seu coração e cavando buracos em seu peito, e você sentirá tentada a matá-lo. Mas ele vale a pena, cada segundo.

Não faça nada que eu não faria.

Eu te amo, não se esqueça.

Com pesar,

Cassandra

PS: Por favor, diga a seu pai que eu sinto muito. E que eu não deixo de pensar nele nem por um segundo sequer.

Por m ais raiva que tenha sentido quando soube da história, não deixo de sentir com paixão por ela. É tão palpável o m edo que ela tinha, que eu queria poder voltar no tem po e dizer que estou bem . Volto à leitura dos diários, fascinada com a form a com o ela escreveu, com o se soubesse que um dia alguém fosse lê-los. Em algum ponto, paro de pensar nela, no Alm irante e em seus am igos com o pessoas reais, e eles se tornam personagens em m inha cabeça, personagens de quem gosto m uito. Klaus com eça irritante, um segundo-tenente um pouco arrogante, rigoroso dem ais com seus recrutas; m as ele é a única pessoa que ouve Cassandra quando ela tem os sonhos. Ela os descreve vividam ente em seus diários, com considerações do que podem significar. Alguns são m ais im pressões do que fatos, enquanto outros são im agens, com o film es que passam em sua cabeça. Acho difícil identificar quais são visões e quais são frutos do seu subconsciente, m as ela parece saber que eles são fatos, que realm ente vão acontecer.

Meu estôm ago ronca depois de um tem po e largo os diários. Deveria ter deixado m eu orgulho de lado e aceitado a oferta de com ida de vovó Clarisse. Agora não faço ideia de onde posso ir para com er. Cam inho pelo corredor, tentando ouvir barulho atrás das portas, m as não há nenhum . Será que estou sozinha aqui? Que horas são? Não sei se é dia ou noite, não sei nem onde estam os. Essa incerteza m e deixa ansiosa e com eço a abrir as portas, descobrindo quartos coletivos com vários beliches e indícios de que estão ocupados. Deve ser o m eio do dia, então.

– Sy bil? – Hannah aparece de um dos côm odos no fim do corredor, parecendo cansada. – Ah, eu sabia que era você. Está tudo bem ?

– Sim . – Vou até ela, aliviada por encontrar alguém conhecido. – Eu... bem , estou m eio perdida. Não com i nada desde que cheguei e...

– Ah, você quer saber onde fica o refeitório? Que sorte a sua, estava planej ando ir para lá daqui a pouco. – Ela abre a porta e faz um sinal para eu entrar. – Deixa só eu trocar de roupa que te ensino a chegar lá.

O dorm itório é bem , bem m aior do que o quarto em que estou, com fileiras de beliches com três cam as, todas com sinais de ocupação. A cam a de Hannah é a m ais próxim a da porta e está toda revirada, com os lençóis se arrastando pelo chão e as coisas que trouxe acum uladas em um canto. Ela se arrum a rapidam ente, atrás de um a divisória no fim do quarto e, quando volta, só cobre sua bagunça com um lençol, com o se isso a fizesse desaparecer.

– Abena não gosta de bagunça – ela oferece com o explicação enquanto saím os do quarto.

– Ah, agora sim , ela nunca vai perceber nada – brinco e a garota sorri.

– Ela não vai brigar com igo, m eu aniversário foi esta sem ana – fala sem pensar, e toda a descontração vai em bora.

Eu e ela fazem os aniversário com um dia de diferença. O m eu foi no dia do com ício e olha só o presentão que eu recebi. O de Hannah foi um dia depois, quando ainda estávam os tentando entender o que aconteceu. O pesar na expressão da garota ao m eu lado é visível e não consigo im aginar a dor que está sentindo. Além de esposa de Maritza e assessora do Alm irante, Lupita tam bém era quem cuidava de Hannah. Com o eu m e sentiria se Rubi m orresse assim ? Só o pensam ento faz m eu peito se apertar e dou um m eio-abraço estranho em Hannah para tentar confortá-la.

– Eu sinto m uito – sussurro.

– Eu que peço desculpas. – Ela m e aperta contra si antes de se afastar. – Vam os, se você está com a m esm a fom e que eu, vam os acabar com o estoque de com ida.

Nós seguim os em silêncio. Viram os à esquerda e à direita até chegarm os num corredor m ais largo, cheio de m esas com vários rádios, m apas e outras coisas, com pessoas correndo apressadas de um lado para o outro. Algum as delas cum prim entam Hannah e m e encaram , e seguim os, as m esas sendo substituídas por grandes arm ários e várias portas adj acentes, os sons das conversas se m isturando e ecoando pelo túnel.

– O que é este lugar? – pergunto, curiosa, quando chegam os ao fim do corredor, em um a sala im ensa que é um refeitório im provisado. O teto é bem m ais alto do que o do corredor, form ando arcos de pedra sim étricos. Ao longo do côm odo, há alcovas com alguns m urais apagados pelo tem po, e fica óbvio que nem sem pre foi um refeitório.

– Ah, são túneis de guerra! – Hannah explica, em polgada, enquanto m e guia para o lugar m ais elevado no fundo da sala, onde a com ida está servida em grandes tinas. – Estam os no sudeste de Arkai, podem os ver a Frankia daqui. Antigam ente, era um a ótim a posição de defesa da ilha, quando ainda não éram os um só país e, ao longo das guerras, eles foram construindo m ais e m ais túneis aqui para acom odar o exército. Lá em cim a tem um a ruína de um castelo que tem m ilênios, m as não usam os porque não querem os ser identificados.

Eu pego um dos pratos e tento absorver a inform ação enquanto Hannah m e aj uda a servir um a porção de batatas recheadas. Os corredores parecem bastante antigos, realm ente, m as com o é que existe um a estrutura tão grande assim sem que ninguém repare? Sigo Hannah até um a das m esas, onde ela senta de frente para m im e parte um pedaço de pão, m olhando-o em sua sopa. Duas garotas se aproxim am e a cum prim entam com entusiasm o.

– Você deve ser Sy bil, então – um a delas diz, sentando-se ao m eu lado com seu prato. Ela tem a pele negra com o a de Leon e um cabelo lindo, enorm e e cheio de volum e. – Sou Abena, m uito prazer. Aquela ali é Reika, não dê ouvidos a ela, é terrível!

– Eu não fiz nada! – Reika diz, se acom odando ao lado de Hannah. Ela parece um pouco m ais velha que nós, com os olhos estreitos com o os de Naoki e um cabelo liso, preso em um a trança. – Pelo Criador, Abena, dá para você esquecer isso?

– Quem sabe em algum m om ento, daqui a três m il anos – ela retruca e se vira para m im , falando de um j eito conspiratório. – Você sabia que Reika roubou m inhas botas novinhas? Sem nem m e consultar! Ela pegou e usou, assim . Sorte a sua que você chegou agora e tem um quarto só para você!

– Já te disse que não foi assim ! Eu não sabia que eram suas, as coisas não têm nom e e você deixou no arm ário coletivo. Sy bil, ignore Abena, ela é louca – Reika fala, e percebo que tem o m esm o sotaque aberto de Sofia. Olho para Hannah, confusa, m as ela continua com endo, se divertindo com as duas.

– Eu – Hannah as interrom pe, repousando o talher no prato – estava contando para Sy bil sobre a fortaleza.

– Oh, ela é m aravilhosa, não é? – Abena pergunta, apoiando os cotovelos na m esa e olhando para cim a. – As adaptações que eles fizeram ao longo do tem po foram m uito boas. Por exem plo, este refeitório costum ava ser um a capela.

– O que é extrem am ente herege – Reika adiciona, enquanto tira o m iolo do seu pão e separa a casca. – Por isso eu gosto de vocês.

Abena e Hannah riem , m as continuo com endo, m e sentindo por fora. As três prosseguem m e explicando não só as m odificações que foram feitas, m as tam bém pedaços de inform ação que consigo j untar para fazer um a im agem m ais clara dessa “rede de proteção”. O fluxo de pessoas no refeitório fica cada vez m aior e noto que chegam os bem na hora do j antar. São pessoas de todas as idades, m as há um a grande quantidade de adolescentes, que se acom odam em grupos nas m esas. Não há o m esm o entusiasm o das duas garotas que conheci, e o clim a da refeição é pesado, silencioso dem ais para a reunião de um grupo desse tam anho. Várias pessoas parecem olhar para m im e para Hannah, fazendo algum gesto, algo para indicar que sabem quem som os e o que aconteceu.

– Am anhã, todos os grupos estarão aqui – Abena fala, cham ando m inha atenção. – Foi o prazo que Cléo deu quando saiu para buscar com ida, não foi?

– Idris fará a assem bleia com ou sem ela – Reika responde. – E ela está m arcada para am anhã à noite, então é m elhor que chegue a tem po.

– Assem bleia? – pergunto, olhando para Hannah.

– Nós vam os discutir os últim os acontecim entos e descobrir o que vam os fazer agora – Hannah oferece com o explicação. – Idris nos orienta, m as só avançam os com um plano se consultarm os a todos. Mas raram ente alguém discorda de Idris.

– É um bom sistem a. Você sabe se... – Eu hesito, olhando para o prato na m inha frente, alterando a pergunta que estou m orrendo de vontade de fazer. – Se Leon vai chegar a tem po da Assem bleia?

– Hassam voltou para buscá-los e planej a estar de volta a tem po, sim . Meu irm ão idiota não quis nem descansar e deixar para outra pessoa, precisa ele m esm o garantir a segurança dos novos recrutas. – O tom de Hannah é de chacota, m as percebo que está preocupada. Devo ter feito um a careta, porque ela aperta m inha m ão boa para m e confortar. – Não fique preocupada, nós tem os outras rotas além daquele túnel. Dem ora um pouco m ais, m as pelo m enos não correm os o risco de ser detectados.

Espero que ela estej a certa. Não só quanto à segurança, m as no uso do plural. Por m ais que eu goste de Hannah, não é a m esm a coisa estar com ela e estar com Leon e Andrei. Estar nessa m esa no m eio desse m ar de desconhecidos m e deixa ansiosa, e preciso dos m eus am igos para servirem com o um a âncora.

Quatro dias longe deles e eu j á estou com saudades. Quem é essa pessoa e o que ela fez com a Sy bil?