A retomada da União
Capítulo 17
A m anhã traz m ais um a dupla de soldados para o subsolo, dessa vez, carregando um carrinho com vários pratos de com ida. Me lem bro da prim eira vez em que vi Hassam , quando estávam os assustados após a m issão, sem saber o que fazer, com m edo pelo nosso destino. Eles distribuem um prato com um m ingau ralo, cinzento e sem gosto, prim eiro para as m eninas, depois para os m eninos. Nós fazem os um a fila e eles esperam até que todos term inem para ter certeza de que ninguém ficou com algum talher no quarto. Não há dúvidas: é um a prisão.
Dem oram algum as horas até que outra pessoa apareça, dessa vez um a m ulher nos m eados de seus 30 anos, que cam inha pelas barras do côm odo, olhando para nós com o se fossem os criaturas em um zoológico. As garotas sussurram , incom odadas com a m udança na rotina. A m ulher abre a porta da nossa j aula, e seus olhos nos encontram .
– O capitão solicita a presença das novatas – ela ordena, fazendo um gesto em nossa direção. – Não dem orem , vocês precisam tom ar banho antes de ir encontrá-lo.
Nos levantam os, ansiosas. Eu deduzi que o hom em está do nosso lado, m as e se for apenas im pressão? E se ele pediu para irm os até lá para... Prefiro não pensar. Nara aperta m eu braço enquanto cam inham os. Seguim os a m ulher até o outro extrem o do côm odo, onde a m aior parte dos garotos está reunida, e a m ulher convoca apenas Hassam .
Ela nos leva até um banheiro onde só existem chuveiros, sem nenhum a divisória entre eles e nenhum a separação entre hom ens e m ulheres. Com gestos rígidos, diz que tem os dez m inutos para nos lim parm os e vestirm os as roupas que estão em pilhadas em um a m esa ao lado da porta. Olho para m eus com panheiros e Hassam vira de costas, tirando sua blusa. Me recuso a tom ar banho aqui, neste lugar. Eu posso ficar um dia ou dois sem passar por essa hum ilhação.
Para m inha felicidade, a m ulher volta em m enos de um m inuto, com as bochechas verm elhas e parecendo apressada. Ela m anda Hassam se vestir novam ente e avisa que não há tem po para o banho, nos guiando apressadam ente para um a sala no fundo do prédio. Nos deixa lá dentro e fecha a porta atrás de nós.
É um alm oxarifado, com arquivos e arm ários que vão até o teto, com gavetas largas e fundas. São fileiras e fileiras deles, até perder de vista. A sala deve ser do com prim ento do prédio, e ouço o barulho de botas pisando no chão antes de ver seu dono se aproxim ar. Em vez do capitão, encontram os Juan, o líder da nossa operação.
– Venham com igo – com anda, im paciente, cam inhando pelos corredores form ados pelo m etal dos com partim entos em um ziguezague, num ritm o que é um pouco com plicado de acom panhar.
No fundo da sala, há um hom em am arrado num a cadeira, com um a m ordaça. Quando nos vê, com eça a se debater, com o se estivesse com m edo. Juan para à sua frente e lhe tira a m ordaça só para levar um a cuspida na cara pelo hom em . Em resposta, com a m esm a m ão que desam arrou o pano de sua boca, bate em seu rosto, deixando um a m arca verm elha na bochecha branca do hom em .
– Eu nunca, nunca, nunca vou falar nada para você – o prisioneiro diz, com um a raiva latente na voz. – Nunca.
– Você não precisa nos dizer nada – Hassam declara, cruzando os braços. – Já sabem os de tudo o que precisam os.
Troco olhares com as outras m eninas e todas elas parecem tão confusas quanto eu. Hassam sabe quem é esse prisioneiro? O outro hom em faz um gesto para nós o seguirm os, m as quando vou em sua direção, m anda que eu volte para onde Hassam está. Obedeço, parando ao lado de Hassam , com um a postura parecida com a dele.
– Conte para ele. O que nós sabem os? – Hassam se vira para m im , com um sinal para que eu fale. Não sei o que quer que eu diga, m as tento m esm o assim .
– Nós sabem os o que você faz com os refugiados. Com o os usa, com o os m altrata. Quantos m orreram por sua culpa, e não por doença, com o você clam a. – É um blefe e tanto, m as observo na expressão do hom em que pareço ter acertado algo.
– I-isso é m entira – o hom em gaguej a.
– Hum , se o m arechal descobre – Hassam provoca, coçando o queixo.
– Se o m arechal descobre vocês, im postores, aqui... – devolve –, vocês vão desej ar nunca terem nascido.
– E se ele nos m andou até aqui? – digo, entrando no j ogo e gostando. – E se ele ouviu os rum ores e... bem , nós estam os num a situação difícil, não estam os? Um a história dessa desm oralizaria dem ais o cônsul.
– Ele não faria isso. – O hom em fica pálido, nos encarando. – Vocês são... Não, isso não é possível.
– Não é possível? Tem certeza? – Hassam pergunta, cruzando os braços com um sorriso divertido. – Você acha que ele chegou ao topo da hierarquia m ilitar m andando flores e docinhos para quem o atrapalha?
O hom em arregala os olhos e percebo que está m exendo suas m ãos furtivam ente, tentando se desam arrar, então coloco a m ão na cintura, encarando-o. Não consigo assustá-lo porque m inha outra m ão está num a tipoia, m as espero que ache que é algum tipo de disfarce, que tem os algum a arm a escondida ali.
– Mesm o que você se solte, não vai conseguir chegar m uito longe – declaro, pragm ática. – Nós som os m ais rápidos que você.
Ele para e olha para os próprios j oelhos. Entendi o suficiente para saber que esse hom em era o capitão anterior, e que o atual provavelm ente é só um dos nossos agentes infiltrados. Mas com o esse idiota conseguiu ser pego para início de conversa?
– Nós precisam os de todas as ordens do general Rhy s – Hassam pede, abaixando-se na frente do hom em . – Essa é a condição do m arechal para que você não sofra o pior da punição.
Consigo ver o m om ento em que o interrogado entende o que está acontecendo, e franze a testa, olhando para cim a.
– Deixa ver se eu entendi: o m arechal, líder de todo o exército da União, enviou vocês, que m al saíram das fraldas, para pegar todas as ordens que seu braço direito m e m andou ao longo dos anos; e para m e punir – ele repete, com tom de desdém . – Vocês acham que sou burro ou o quê?
Me j unto a Hassam e dou um chute bem dado em um a das pernas da cadeira, assustando os dois, e m e inclino na direção do hom em , apoiando a m ão no espaldar.
– Você quer um doce pela descoberta? – pergunto. – Você tem duas alternativas: ou nos aj uda de bom grado ou nos aj uda à força. Qual você prefere?
– Não tenho m edo de vocês. – Ele praticam ente cospe na m inha cara e eu m e afasto, olhando para Hassam .
– Nós podem os te oferecer proteção, se precisar – ele diz de form a razoável. – Tenho certeza de que não fala por estar assustado com as consequências.
– Não falo porque não colaboro com desordeiros – responde, olhando para m im . – E com o vocês vão m e obrigar? Se eu com eçar a gritar...
– Ninguém vai desconfiar de nada – digo, inclinando a cabeça um pouquinho, m al fazendo esforço para esconder a raiva que sinto. – Ninguém sabe que você está aqui... por outro lado, suponho que sej a norm al ouvir gritos de reuniões privativas entre refugiados e soldados.
– É m inha últim a oferta – Hassam fala, se j untando a m im . – Você não quer ver o que ela pode fazer.
Os olhos do prisioneiro passam de m im para Hassam , nos m edindo. Depois, olha na direção em que o líder e as m eninas seguiram m ais cedo. Espero que eles estej am procurando as pistas que precisam os para denunciar publicam ente o cônsul, e que tenham m ais sucesso do que nós. Por fim , o hom em nos observa com os olhos sem icerrados.
– Vocês são anôm alos – deduz. – Ou estão blefando.
– Você quer descobrir qual é a verdade? – pergunto, cruzando os braços.
– Eu acho que é um blefe.
Olho para Hassam e ele parece preocupado. Quando encosto a m ão no braço do hom em , m e pergunto se eu deveria ter algum receio sobre o que vou fazer, m as não sinto nada. Mesm o sem ter m uito controle da m inha anom alia, não é com o se eu fosse m atá-lo. E, pelo que esse hom em fez enquanto estava no com ando, m erece um a punição m uito m aior.
Me lem bro da aula com Cléo e Reika e encaro o hom em , sentindo a textura da sua pele em baixo da m inha, seus pelos ásperos contra a palm a da m inha m ão. Ele tem um sorriso de desdém que desaparece rapidam ente quando olha para onde o toco e percebe o craquelado em sua pele. Ele m e encara, assustado, e dou m eu sorriso m ais doce. Depois, tenta se esquivar, m as eu o seguro com firm eza enquanto vej o o m edo aum entar em seu rosto.
– Você entendeu? – Largo-o, lim pando a m ão na roupa que estou vestindo. – Isso é só um pouco do que posso fazer se você não nos aj udar.
Ele assente e Hassam o coloca em pé. Sinto seu olhar sobre m im e não sei se está m e j ulgando ou se há algum tipo de orgulho em sua expressão. Eu o ignoro e com eço a perguntar coisas que podem nos aj udar. O hom em balbucia algum as localizações, espalhadas pelo prédio. Ele tenta m entir no início, m as Hassam o confronta im ediatam ente. Resignado, ele explica que a m aior parte das ordens do general Rhy s está na sala de com ando, em um com partim ento escondido em baixo da m esa de m adeira que utilizava.
Nós levam os o hom em até onde Juan e as outras estão, no fundo da sala. Descubro que Hannah derreteu um a porta de m etal de um lugar que parece um a caverna de tesouro, com o as que os piratas têm em livros. Várias caixas cheias de coisas estão espalhadas, com itens que vão de am uletos e broches a pilhas de roupas. Fica óbvio que são os pertences dos refugiados que chegam aqui, e m e controlo para não descontar a raiva no nosso prisioneiro. Eles vasculham as caixas atrás de algo, m as o hom em ri e diz que não vão encontrar nada ali.
Nosso com andante cam inha até ele e levanta seu rosto com força, a m arca dos seus dedos fica gravada nas bochechas do hom em . Eu encosto em seu braço para que pare, m as ele m e ignora.
– Não sei o que eles fizeram para te convencer, m as se você m entir ou nos enganar, o que eu farei vai ser três vezes pior – ele vocifera e o prisioneiro se encolhe. – O que você fez com essas pessoas vai parecer brincadeira de criança quando eu term inar.
– Nós precisam os nos m over rápido. Não vão acreditar por m uito tem po que realm ente estam os... com o outro capitão – lem bra Hannah, engolindo em seco. Ela finalm ente m e vê e fica alguns segundos olhando para a m ancha no braço do prisioneiro e para m im , surpresa. – O que aconteceu?
– Nada – falo, dando de om bros. – Persuasão.
– Ela é um a aberração, foi isso que aconteceu – o prisioneiro fala com noj o e, com o resposta, Juan lhe dá outro tapa na cara. Me encolho, sem saber se pela violência das palavras ou do golpe.
– A dela é a m ais branda entre as nossas aberrações, então cuidado com a língua – o hom em fala, em purrando-o para cam inhar. – Vá na frente.
Hassam verifica se o corredor está vazio para poderm os seguir com segurança. É o m eio da m anhã, então a m aior parte dos funcionários está ocupado supervisionando os refugiados em seus trabalhos. O centro adm inistrativo parece um prédio abandonado, com corredores desocupados e um silêncio sepulcral. É exatam ente com o na fortaleza dos dissidentes que invadim os: todos estão tão seguros de que não haverá nenhum im previsto, de que ninguém é louco o suficiente para invadir e tom ar seus segredos, que m al há vigilância.
Penso nisso um pouco cedo dem ais, porque quando nos aproxim am os da sala de com ando, ouvim os passos vindos em nossa direção. Hassam puxa o prisioneiro e o coloca entre ele e Hannah, obrigando-o a abaixar a cabeça. Juan faz com que nós cam inhem os na frente, eu e Nara, escondendo m elhor o antigo capitão. Viram os no corredor e vem os um a m ulher e um hom em conversando descontraídos, com o se fosse um dom ingo no parque. Fico tensa e desvio o olhar, torcendo para não repararem em nada diferente.
– Para onde você está os levando? – a m ulher pergunta, m as continuam os andando.
– Para o capitão. Pediu que eu lhe m ostrasse os m elhores dos que eu trouxe, então aqui estam os.
– O novo capitão? – o outro soldado diz, trocando olhares com a m ulher. – Eu achei que ele não gostasse desse tipo de com portam ento.
– Provavelm ente ele viu algo que o atraiu – é a resposta que Juan dá, fazendo um gesto para continuarm os.
– Vocês não vão parar? Estão achando que são donos do lugar para ficar andando assim ? – a m ulher diz para nós, com um tom de desdém .
Nós param os m ais à frente e nos j untam os num grupinho, o nervosism o óbvio. Nosso prisioneiro com eça a se m exer entre Hannah e Hassam e, quando olho para trás, vej o que está prestes a abrir a boca. Os dois irm ãos o seguram com tanta força que é possível ver as m arcas verm elhas em seus braços e no exato m om ento em que Hannah com eça a usar seu poder de aquecim ento, o prisioneiro olha para ela, o ódio em seus olhos quase palpável.
– Você abre a boca e fica pior. – Escuto ela rosnar baixinho para ele, que parece se resignar com o fato de ser um prisioneiro.
– Bem curioso – o soldado continua a conversa, alheio ao nosso dram a. – Mas, ah, se o capitão quer ter seu prazer agora, não som os nós que vam os incom odar.
Juan se despede com um gesto de cabeça, fazendo um sinal para cam inharm os m ais rápido. Chegam os ao fim do corredor e ele abre a porta, surpreendendo o capitão, que está em sua sala. O entendim ento da situação vem rápido, fazendo-o trancar a porta atrás de nós.
– Façam o que tem que fazer – fala, com um tom am argo.
Hannah em purra o prisioneiro para frente e faz com que ele aponte os lugares onde estão escondidos o que precisam os. Na m esa, a últim a gaveta só pode ser aberta com um a com binação de abertura das outras gavetas, em distâncias m ilim etricam ente calculadas para dar a im pressão de que a sala está bagunçada. Hassam segue as orientações e encontra um caderno grosso.
Depois, atrás de um a das estantes que preenchem um a parede, há um livro grosso, oco, preenchido com tiras finas de papel, com vários tipos de furos, em frequências diferentes. Com certeza são m ensagens codificadas, ordens de superiores ou registros da com unicação entre os cam pos. Depois, há um cofre escondido no chão, em baixo de um tapete, e Hannah derrete aos poucos sua tam pa, até conseguir abri-la sem precisar do código. Existem inúm eros papéis, alguns docum entos com a foto do velho capitão sob diferentes nom es, e alguns rolos de dinheiro. Tenho a im pressão de que descobrim os algo além do que estávam os esperando quando colocam os tudo em cim a da m esa, encarando aquilo com descrença.
– O que significa isso, Capitão Oswald!? – o atual capitão exclam a, olhando para nosso prisioneiro. – Eu sabia que você estava fazendo algo errado, m as isso...
– Eu achei que vocês soubessem – Oswald desdenha, fazendo gozação com o que Hassam lhe disse antes.
– Não isso – Juan fala, passando pelas diversas identidades falsas em cim a da m esa, em choque.
Abro o livro preto, passando os olhos por listas e listas de nom es e datas, acom panhadas de valores. Algum as páginas têm lugares e datas, relatando claram ente viagens que Oswald fez. Da m etade em diante, é um com pilado de correspondências e m em orandos que o hom em enviou para o general Rhy s, sej a quem for, em Prom eteu, relatando a superpopulação do cam po. Elas datam de m ais ou m enos dez anos atrás, e j unto a elas está um balanço de quantas pessoas fazem o quê em qual lugar. Isso pode nos aj udar, m as estou confusa quanto a todo o resto.
– Isso é um registro contábil – Juan diz, vendo o livro preto por cim a do m eu om bro. Depois, fulm ina Oswald com os olhos. – Não acredito.
– O quê? – pergunto, confusa, olhando para cim a.
– Você vendia pessoas – ele continua, sem olhar para m im . – Você vendia pessoas.
Oswald olha para baixo parecendo nada culpado, apesar de toda a raiva direcionada a ele. Em um m inuto estam os estupefatos, sem saber com o agir e, no outro, Juan está em cim a do prisioneiro, pressionando-o contra a parede até que sua respiração fique curta e ofegante. Ele o bate contra a parede um a vez, a cabeça de Oswald quica com o um a bola de basquete. Um fio de sangue escorre da boca do ex-capitão e ele solta um a risada fria, com o se toda aquela situação fosse engraçada. Leva um soco no rosto, que é acom panhado de um som alto de osso quebrando, e tenho certeza de que seu nariz j á era. Os golpes seguintes são acom panhados do barulho oco da cabeça batendo contra a parede e só depois do quinto soco alguém consegue se m over para im pedi-lo. Hannah dá um grito e Hassam segura Juan pela gola da cam isa, separando-o do prisioneiro, que cai sentado no chão com o um boneco de pano.
– Hassam , m e solte – ele vocifera, em purrando o garoto. – Eu vou m atá-lo.
– Não. – Apesar de todo o esforço do líder, Hassam é m ais alto e m ais forte que ele e o em purra contra a parede, um braço contra seu peito. – Acalm e-se, Juan. Respire fundo, conte até dez, controle sua raiva.
Juan está escarlate, e tem um a veia saltada em sua testa, pequenos indícios da fúria que deve estar sentindo. Eu não sei com o ele consegue processar a inform ação tão rápido, porque ainda estou anestesiada. Com o assim vendia pessoas? Para onde? Para o quê? Para m im parece m ais plausível os navios servirem de isca para os dissidentes exterm inarem os refugiados do que isso. Eu entendo a dinâm ica de m atar e m orrer m uito m elhor do que a de exercer controle e poder.
– Obrigado por salvar a m inha vida – Oswald agradece com um a voz anasalada, cuspindo um a grande quantidade de sangue no chão.
– Não foi por você, foi por ele – Nara, a outra garota, explica, se aproxim ando. – Você m erece m il vezes m ais do que isso.
– Você... – O prisioneiro levanta o rosto, com um a expressão de surpresa apesar de todo o estrago em seu rosto.
– Ah, você se lem bra. – Ela se agacha à frente dele e o hom em estica a m ão para tocá-la, o que ela desvia com um tapa. – Não ouse encostar um dedo em m im .
– Eu achei que você estava m orta.
– Eu tam bém – diz, com um sorriso assustador. – Aparentem ente o senhor não consegue fazer nenhum trabalho direito.
Hannah se aproxim a de m im , fazendo um gesto para que eu a aj ude a guardar as evidências em um a caixa. Apesar de estarm os concentrados, e de Hassam ainda segurar um Juan irado contra a parede, a conversa entre Nara e o outro hom em dom ina o côm odo.
– Isso é vingança? Por isso você os trouxe até m im ? – O tom inj ustiçado que usa m e em brulha o estôm ago, e Nara se levanta, cruzando os braços. – Eu fui tão bom para você...
– Bom ? – Ela ri, de form a quase m aníaca. – Não quero nem im aginar o que teria feito se tivesse sido m al.
– Eu só estava seguindo ordens.
– Suas ordens envolviam nos estragar até o ponto de não haver reparo e depois nos j ogar no m eio do m ato para os corvos nos devorarem ? – pergunta, com ódio na voz e sinto que ela está se controlando para não m achucá-lo fisicam ente.
– Elas não eram tão específicas assim . – Oswald pressiona o nariz com a palm a das m ãos, que ainda estão am arradas. – Mas nós fom os bons para vocês. Os outros faziam pior.
– Pior? – digo, sem m e conter levantando a cabeça, encarando-o com raiva.
Quando o hom em abre a boca para m e responder, a porta da sala se abre e um a garota não m uito m ais velha do que eu, vestida com o uniform e dos soldados, entra esbaforida na sala, com as bochechas verm elhas e um papel na m ão. Ela com eça a falar e para de um a vez ao ver a cena, extrem am ente confusa. Sua reação é sair correndo, m as eu e Hannah som os m ais rápidas, segurando-a e fechando a porta. Ela se debate e o capitão se aproxim a, m andando que a soltem os.
– O que foi, Júlia? – ele pergunta e ela olha para nós, desconfiada. – Pode falar, eles estão do nosso lado.
– O general Rhy s, senhor! – ela exclam a, entregando o papel para ele. – Ele veio inspecionar a estrutura e quer se encontrar com o senhor, está vindo para cá exatam ente nesse m om ento. Pedi para a tenente Kira acom panhá-lo e ela o está enchendo com dados e inform ações sobre nossa produtividade, m as não tem os m uito tem po.
– Com o!? – O capitão parece confuso e olha para nós. Hassam solta Juan da parede, tom ando o controle da situação quase im ediatam ente.
– Essa é um a ótim a oportunidade para pegá-lo tam bém e usá-lo com o testem unha. Traga-o para cá, nós vam os prendê-lo j unto com o esse noj ento do Oswald. Mas precisam os que a rebelião com ece antes do com binado.
– Nós precisam os fazer tudo sincronizado, Hassam – Juan fala, com certo esforço para sua voz não sair num rosnado. – Não podem os atacar antes.
– Podem os sim , se garantirm os que ninguém vai acionar as outras fazendas – Hassam explica e m e pego concordando. – Sy bil, você vai com essa garota até a plantação para dar o sinal. Enquanto isso, nós ficam os de tocaia e aprisionam os o general aqui. Quando tudo estiver bem , venha nos buscar para prosseguirm os com a m issão.
Fico tensa com a súbita responsabilidade, m as aceito a tarefa. Júlia olha para m im , apreensiva, e faz um sinal para que eu saia da sala. Cam inham os com passos largos e ninguém questiona nossa presença. Quando saím os do centro adm inistrativo, as silhuetas de um casal fardado estão se aproxim ando pelo m esm o cam inho que pegam os. A m ulher é a tenente que fez a triagem assim que chegam os e cam inha com um a postura de deferência em relação ao outro hom em . Eu o reconheço quase im ediatam ente: é o m esm o que recebeu os arquivos solicitados na m issão na ilha dos dissidentes, quando Fenrir nos libertou do Centro de Apoio. O m esm o que tinha nos libertado em troca de um favor de Fenrir. Sinto seu olhar sobre m im enquanto nos aproxim am os, m inha m ão suando com a possibilidade dele m e reconhecer. Quando passam os por eles, ele para, seu olhar ainda m e seguindo.
– É a segunda que vej o suj a – reprova, e eu suspiro, em alívio.
– Ela está indo para o banho depois de um dia de trabalho pesado – m inha acom panhante j ustifica, m as o general Rhy s não parece com prar a ideia.
– Vocês j á a enviaram para m im ? – questiona. – O rosto dela m e parece conhecido.
Meu passo fica m ais lento e a garota m e segura pelo braço, m e forçando a continuar cam inhando. Com o é que Hassam não pensou nisso? Com certeza ele sabia quem era o tal general Rhy s, que ele estava presente durante as com plicações após m inha m issão e deveria ter considerado isso ao m e escolher para dar o sinal. Hannah era um a candidata m elhor para esse papel. Minha ansiedade fica cada vez m aior e quando ele m anda que eu pare e espere, tenho certeza de que é agora que tudo está perdido. Im agino Andrei recebendo a notícia de que m orri, ficando devastado, e fecho a boca, travando a m andíbula em frustração.
– Eu te conheço. – Ele invade m eu espaço pessoal e encosta em m eu rosto, levantando-o para vê-lo m elhor. Seu olhar é distante, tentando recuperar a m em ória. – Você é um a das m eninas...?
A pergunta fica no ar e vej o as duas outras m ulheres se em pertigarem , nervosas. A tenente com certeza tam bém está no nosso esquem a, pelos olhares que troca com a m enina m ais j ovem , e procuro um a j ustificativa que ele possa considerar plausível.
– Não, senhor – falo com m eu tom m ais hum ilde, olhando para os botões de sua cam isa e m e controlando para não cuspir em sua cara. – Eu não o conheço, senhor. Talvez tenha sido m inha irm ã...? Nós éram os m uito parecidas.
Ele considera m inhas palavras, m e forçando a encará-lo. É esse o m om ento, se ele não acreditar... não sei o que fazer. Ele tem tam anho e força o suficiente para m e quebrar em duas, se for necessário, e se as duas m ulheres o atacarem , com certeza outros guardas se aproxim arão e serem os descobertas. Mas estam os com sorte: depois de alguns segundos de inspeção, ele m e larga, satisfeito com m inha explicação.
Assim que retom a seu cam inho, esfrego m inha bochecha onde ele tocou, tentando m e livrar da sensação. A form a com o m e olhou, com um a m istura de noj o e desej o, e o seu toque, tão possessivo, com o se eu fosse m ais um obj eto para ser utilizado a seu bel-prazer fazem com que m e sinta suj a, errada. Quanto m ais cedo libertarm os todos, m elhor.
O cam inho se abre depois de alguns m etros, ficando cada vez m ais largo até se bifurcar. Passam os pelo pátio onde aconteceu a triagem e continuam os andando. À esquerda há um im enso cam po de trigo, e enorm es colheitadeiras silenciosas trabalham com diligência. À direita, ficam cam pos verdes que, a essa hora do dia, estão cheios de ovelhas se alim entando, alheias ao que está prestes a acontecer. Seguim os para a direita, na direção de um estábulo, e um cheiro ruim preenche o ar.
– Esterco, dos anim ais. A gente usa com o adubo – a garota explica ao ver m inha careta e, logo depois, passam os por um galpão onde o cheiro é quase insuportável. Dez ou m ais pessoas trabalham , acum ulando m ais cam adas de fezes à pilha.
É ali que ela m e deixa, apontando na direção dos silos que ficam m ais à frente, onde os grãos colhidos ficam arm azenados à espera dos cam inhões que os levam em bora. São estruturas redondas enorm es, ilum inadas durante a noite por holofotes que as fazem parecer gigantes guardando as fronteiras da fazenda. A ideia é usá-los para dar o sinal às pessoas j á cientes do levante, que estão no cam po e que darão o sinal para quem está nos outros lugares, até todos se unirem e im obilizarem os soldados.