A retomada da União
Capítulo 24
Tenho a im pressão de que esse dia é interm inável quando volto para m eu quarto. Sofia não está m ais lá, e eu m e deito, torcendo para que eu pegue no sono rápido. Mas a ansiedade é m aior e tenho a im pressão de que estou confinada; o quarto é pequeno dem ais para conter todos os m eus m edos e frustrações. Pego os diários que pertenceram à Cassandra na tentativa de buscar algum conforto na vida dos m eus pais, m as m e sinto sozinha com o nunca. Quero voltar para m inha fam ília adotiva, e percebo que se tem um lugar que eu considero com o m inha casa, é onde m orei pelo últim o ano. Sinto saudades das vozes dos m eus pais adotivos conversando enquanto tento dorm ir, de Tom ás com o um furacão pela casa, sem pre com algum a coisa para fazer. Sinto falta da com ida de Dim itri e do hum or de Rubi. Se vovó Clarisse puder ficar conosco, acho que seria perfeito. Todas as pessoas que m ais am o no m esm o lugar.
Acabo adorm ecendo agarrada aos diários, m as acordo de supetão no que parecem m inutos depois, com o m ovim ento da porta fechando, incerta se houve algum barulho ou não. Me levanto, desorientada, sem nem saber quanto tem po se passou desde que adorm eci e abro um a frestinha da porta, vendo a cabeça loira no corredor. Está um silêncio sepulcral quando eu o cham o baixinho para não acordar os outros.
– Andrei?
Ele se vira e vem até m im , com um desenho de sorriso no rosto. Apesar disso, as bolsas em baixo dos seus olhos estão escuras e ele parece tão exausto quanto eu. Meu coração dá um salto. Eu o abraço, aninhando m inha cabeça contra seu queixo, ouvindo seu coração bater no m eu rosto. Sinto um a urgência de tocá-lo, de beij á-lo, de garantir que está realm ente bem . Ele m e em purra para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si e fico nas pontas dos pés para beij á-lo, pressionando-o contra a parede. Meus dentes roçam contra os seus lábios, e ele retribui com a m esm a intensidade, invertendo nossas posições e pressionando os quadris nos m eus. Solto um gem ido abafado, frustrada por estar com um a das m ãos enfaixadas e não poder tocá-lo m elhor, e, só para m e provocar, Andrei sobe a m ão de onde m e abraça na cintura, acariciando m inhas costelas até chegar dolorosam ente perto dos m eus seios. Eu m ordo seu lábio inferior, e ele dá um a risada rouca, do fundo da garganta.
– Minha nossa, com o senti saudades – sussurra, se desvencilhando dos m eus lábios e beij ando m eu queixo, suas m ãos descendo para os m eus quadris. – Com o foi a m issão?
– Não quero falar sobre isso agora – respondo, desviando os olhos para sua blusa preta. – Com o você está?
– Então som os dois, porque a últim a coisa que quero no m om ento é m e lem brar... – Ele fecha os olhos e se afasta de m im , sentando na cam a e levando a m ão às têm poras. Não sei se é efeito da luz do quarto, m as ele parece m ais velho, com o se os poucos dias em que ficam os separados tivessem adicionado anos em suas costas. Me acom odo ao seu lado, envolvendo sua m ão na m inha.
– Shh, não precisam os nos lem brar de nada. – Tento acalm á-lo e ele passa um braço pelos m eus om bros, m e pressionando contra a lateral do seu corpo. O toque da sua pele contra m eu braço m e traz ideias, nenhum a delas relacionadas ao estado em ocional de Andrei no m om ento.
– Me desculpa – ele sussurra no m eu cabelo e não tenho certeza do m otivo pelo qual precisa do m eu perdão. – Eu deveria voltar para o m eu quarto, preciso estar bem para am anhã. Só queria te ver hoj e.
– Não vá – eu peço, segurando-o antes que se levante. – Estou m e sentindo... esquisita. Não quero ficar sozinha.
– Quer que eu fique aqui até você dorm ir? – pergunta, arrum ando um a m echa de cabelo atrás da m inha orelha, e eu seguro sua m ão, m e inclinando em sua direção até ficar m ilím etros de distância dos seus lábios.
– Por favor – eu sussurro, encostando a testa na dele. – Com o está vovó Clarisse? Eu quis ir vê-los, m as achei que iria atrapalhar.
– Ela está bem . Cansada. – Ele suspira e volta a sentar ao m eu lado, m e aninhando em seus braços. – Não tem com o não falar disso, não é? Nós não sabem os se Lisandra vai reagir à m edicação que estam os dando. Nada do que descobrim os faz sentido, e Clarisse acha que talvez os outros, os que Cléo trouxe, evoluam para o m esm o quadro de Lisandra depois de um tem po.
– Vocês acham ... – Hesito ao ver a expressão de desânim o de Andrei, m as com um m eneio ele pede que eu continue. – Vocês acham que ela vai ficar boa?
– Espero que ela fique bem . Ela, o bebê e Yohan. Você sabe qual é a história deles? – pergunta, arrum ando m eu cabelo atrás da orelha. – Ela foi resgatada do Im pério por Idris, quase com o Sofia, e depois decidiu voltar com o inform ante, se passando por outra pessoa e casando com um hom em que tinha acesso às pesquisas. No Im pério, é bem com um um a m ulher anôm ala se casar com um hom em hum ano, porque eles acham que lim pa a linhagem , e ela conseguiu se aproveitar disso. Mas aí... o que era arranj ado acabou virando real.
– Soa com o um dos livros de que Ava gostava. – Eu m e arrependo praticam ente no m om ento em que falo, escondendo o rosto na blusa de Andrei. – Desculpa.
– Ela foi denunciada por algum vizinho e isso foi o suficiente para que fosse presa e transform ada em cobaia. Não é o final feliz que essas histórias norm alm ente têm – ele com pleta, com um suspiro. – Eles até conseguiram fugir, m as até chegarem aqui...
– Final feliz é um luxo que a m aior parte de nós não tem , Andrei. – Abro um a das suas m ãos, traçando as linhas com os dedos. – Eu quase m orri na m issão.
Sinto-o prender a respiração e ficar tenso por alguns instantes, antes de soltá-la devagar e segurar m eu pulso com um a das m ãos.
– Você realm ente sabe dar notícias com im pacto. O com bo “final feliz é difícil e eu quase m orri” foi m uito bom , parabéns. – Sinto um a das suas m ãos m e apertar nos quadris e ele levanta m eu rosto. – Você está bem ? Com o isso aconteceu?
– Fiz algo sem pensar – digo, desviando o olhar. – Mas salvei pessoas!
– Isso porque eu pedi para você não ser im pulsiva. – Ele parece chateado, m as consigo ver o sorriso se form ando em seu rosto.
– Sim , você pediu. – Reviro os olhos. – Achei que estava sendo engraçadinho, porque o im pulsivo da história é você.
– Eu m e divirto tanto com essas ideias que você tem de m im . – O sorriso é óbvio em sua voz. – Não sou im pulsivo, só tom o decisões erradas. É bem diferente.
– Baseadas no seu im pulso, olha...
– Não, não é assim . – Andrei balança a cabeça e levanta m eu rosto, dando um beij o na ponta do m eu nariz. – Eu sei exatam ente o que estou fazendo quando tom o um a decisão. Eu j á ponderei todos os detalhes e todas as possibilidades, m as sou um pessim ista. Se algo tiver que dar errado, vai dar. E aí tom o um a decisão que na m aior parte das vezes é a que não deveria ter tom ado.
– Eu nunca pensei por esse lado – digo. – Mas acho que faz sentido.
– Sobre isso, tem ... tem algo que queria te contar. – Sua voz fica nervosa, e eu toco seu rosto.
– O que foi?
– Você lem bra da festa de Fenrir, que aconteceu dois séculos atrás? – Concordo e ele continua. – Lem bra da m enina que eu encontrei?
– Tatiana?
– Você é péssim a para nom es, m as viu a m enina um a vez e lem bra dela. – É adorável com o ele parece nervoso enquanto fala isso e m e contenho para não beij á-lo. – Óbvio.
– Áquila disse que ela é sua ex-nam orada – eu revelo e tenho certeza de que nunca vi Andrei ficar tão verm elho tão rápido.
– Ele devia cuidar da vida dele e m e deixar em paz – bufa. – Mas... é. Mais ou m enos. Você sabe que eu m udei para a escola no início do ensino m édio? Claro que sabe, Naoki com certeza te contou.
– Foi por causa dela? – Me afasto para vê-lo m elhor e ele se aj eita na cam a, passando a m ão pelo cabelo.
– Em partes. Na escola que eu estudava antes, as pessoas eram horríveis. – A dor que ele sente ao lem brar disso é visível. – Mas com eçou pequeno: alguém ouviu m inha risada e com eçou a im itar. Depois, descobriram quem era m inha m ãe e com eçaram a insinuar coisas. Depois, com eçaram a fazer chacota com m eu pai. Não havia nada que eu fizesse que a escola toda não ficasse sabendo, e chegou em um ponto que eu só queria desaparecer. Aí Tatiana surgiu.
Sinto um a pontada de ciúm es e não tenho certeza se quero ouvir o resto da história. Mas o que Andrei diz explica m uito sobre seu com portam ento quando o conheci, e quando lem bro de com o a turm a se com portava com ele quando cheguei a Pandora, fico irritada. As pessoas não davam nem um a chance para que Andrei m ostrasse a pessoa leal, inteligente e divertida que é.
– Ela era do tim e de natação da escola e, sim , era um lugar que tinha m ais do que duas pessoas com anom alias associadas à água – ele continua. – Ela era a única am iga que eu tinha. E aí as coisas ficaram estranhas. Nós com eçam os a nos ver com frequência e... Bem , um dia ela m e cham ou para encontrá-la na piscina da escola num fim de sem ana e eu não achei nada estranho porque tinha 14 anos e era idiota.
Sua pausa m e faz perceber que a pior parte da história está por vir e estendo a m ão que ele segura com força, com o se eu fosse um a âncora.
– Um dos garotos, o que m ais pegava no m eu pé, a convenceu de fazer o convite para eles pregarem um a peça em m im . Eu ainda não entendo o porquê. Não entendo o que fiz de tão m ortalm ente errado para que ele e seus am igos m e odiassem tanto. – Ele balança a cabeça, olhando para baixo. Sua próxim a frase é depreciativa, em um tom bem -hum orado. – Mas pelo m enos serviu para eu ter certeza de que afogado eu não m orro.
– Andrei... Isso é terrível.
– Não tão ruim quanto o que você deve ter passado. Ou Sofia. Ou Leon – Andrei declara, soltando m inha m ão. – Só acho que tinha que te contar isso.
– Não tem nem com o com parar. Cada um de nós teve um a experiência diferente, Andrei, m as nenhum a é m ais relevante que a outra. Se doeu, se você se sente m al com isso, é im portante. – Ele deixa que eu m e aproxim e, e m e inclino, beij ando-o suavem ente nos lábios. – Mas obrigada por com partilhar isso com igo.
– Só queria que você soubesse que tudo está bem m elhor agora. – Andrei passa um dedo pelos m eus lábios. – Mesm o com ... tudo isso. Mesm o com o que aconteceu com a m inha m ãe. Ando exercitando m ais o m eu otim ism o.
Beij o seus dedos e suas m ãos, seu queixo, o canto da sua boca, e a pele branca do seu pescoço. Sinto sua pulsação acelerar sob m eus lábios enquanto cubro a m aior quantidade de pele que consigo e fico extrem am ente contente quando ele m e puxa para seu colo, suas m ãos tão ousadas quanto m eus beij os. Mas ele se afasta, ofegante, e suas bochechas estão verm elhas quando m e encara.
– Eu deveria ir em bora, você está cansada – diz, m as não se m ove um centím etro.
– Não! – exclam o e abaixo os olhos, falando com um a intensidade inesperada. – Quero que você m e lem bre que ainda estou viva.
Andrei fica tão sério que não consigo não rir, escondendo o rosto na curva do seu pescoço.
– Agora você só está m e zoando – ele diz, escondendo o riso. – Você quer ver algo realm ente engraçado?
E não tenho oportunidade para responder, porque as m ãos dele estão na m inha barriga, fazendo cócegas, e eu estou gargalhando e m e contorcendo, tentando m e desvencilhar. É inj usto porque só tenho um a das m ãos livre e faço cócegas de volta, em purrando-o com os pés. Andrei lem bra que estam os no m eio da noite e vam os acordar todo m undo e tentam os prender o riso, m as ele não aj uda e continua m e fazendo rir. Não tenho certeza se estou ofegante por causa das risadas ou por causa do seu toque, que fica cada vez m ais gentil até que ele m e beij a. Eu o puxo contra m im , m inha m ão encontrando a pele das suas costas por debaixo da cam isa, seu gem ido reverberando contra m inha garganta. Minha pele parece pegar fogo em todos os lugares que toca e eu odeio as cam adas de tecido entre nós, odeio a tipoia no m eu braço, que m e im pede de explorar o desenho das suas costas perfeitam ente.
Andrei m e aj uda a tirar sua cam isa e salpico beij os em seu pescoço e na cicatriz do tiro que levou quando fugíam os da ilha dos dissidentes, seguindo o cam inho de pelos da sua barriga com a m ão. Sinto o calor das suas m ãos contra a m inha cintura, acariciando m inha pele, seu desej o im itando o m eu. Nos beij am os novam ente e ele m e puxa contra si, m eus quadris roçando contra os seus deliberadam ente. Minha cam isa se j unta à dele no chão depois de algum a dificuldade e várias risadas abafadas por beij os, m as Andrei para, m e afastando um pouco. Meu coração está batendo na garganta e solto um ruído de protesto, com m edo de que ele pare agora, que diga que tudo é um erro e que não deveríam os estar fazendo isso. Mas a form a com o m e olha m e deixa m ais ofegante ainda e ele dá um sorriso travesso, quase com o um desafio.
– Você lem bra o que eu te disse no dia em que com eçam os a nam orar? – ele pergunta com a voz rouca, seu dedão acariciando distraidam ente a lateral dos m eus quadris.
– Que você gostava de m im ? – pergunto, m e inclinando em sua direção enquanto m inha m ão desce perigosam ente perto do cós da sua calça.
– Não, não foi isso.
– Que você pensou em m il m aneiras de m e beij ar? – tento novam ente, um sorriso se form ando no m eu rosto.
Ele concorda com a cabeça, pressionando os lábios contra a curva do m eu pescoço, enquanto suas m ãos acariciam m inhas coxas sobre a calça do pij am a. Sinto que vou derreter quando seus lábios descem pela m inha pele, e m ordo os lábios para não fazer barulho quando ele m e pressiona no colchão da cam a, m inhas pernas envolvendo seus quadris. Eu o provoco e ele parece se divertir, seus lábios encontrando os m eus com sofreguidão enquanto m e pressiona m ais. As finas cam adas de tecido que nos separam desaparecem com o que por m ágica, e Andrei só pausa por um segundo para colocar proteção antes de continuar. Acho que vou explodir, a sensação de sentir sua pele na m inha assim é enlouquecedora. É esquisito e perfeito ao m esm o tem po, toda a afeição, saudade e frustração, todos os m eus sentim entos expostos sem nem precisar de um a palavra sequer.