A retomada da União

Bárbara Morais · Capítulo 16 de 39

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A retomada da União

Capítulo 16

 

Cléo m e busca logo cedo, antes de todos acordarem . Vam os direto para a grande garagem por onde cheguei, e ela m e leva até um a sala no fundo, que eu não tinha visto antes. É um a bem pequena, com três cadeiras, um m apa da União e vários papéis; de listas de inventários a relatórios com o os que se acum ulam na sala de Idris. Cléo pede para eu m e sentar com um gesto e se acom oda na cadeira do outro lado, a m esa entre a gente, com o um a representação óbvia da distância entre nós duas. Apesar disso, ela trouxe um m ingau espesso de aveia e um pedaço de torrada para m eu café da m anhã, e com o tudo com calm a. E isso acontece sem que um a palavra sej a trocada entre nós.

– Esperava que você fosse diferente – ela quebra o silêncio, por fim , quando term ino m eu café da m anhã. – Mais com o seu pai.

Eu a encaro, exigindo todo o m eu autocontrole para não j ogar a colher no m eio de sua testa. Talvez enfiá-la em seu nariz surtisse um efeito m elhor. Não estou com disposição para ouvir besteira, e a encaro com um a fúria tão grande que ela se encolhe.

– Eu sem pre idolatrei m eu irm ão. Sem pre foi um herói para m im , sem falha algum a. Onde sou explosiva, ele era paciente. Onde sou teim osa, ele era m aleável. Nossa avó sem pre disse que para usar nosso poder direito é preciso ser com o a água, e era exatam ente com o ele era. E achei que você seria exatam ente com o ele. – Seu tom é m elancólico e dá para perceber a dor em sua voz enquanto fala, com o se eu a tivesse m agoado de algum a form a.

– Não sei de onde tirou essa ideia – respondo, tentando ser o m ais fria possível. – Passei m ais tem po com você do que com o Alm irante durante m inha vida inteira.

– Você tam bém é com o a água, m as de form a diferente – ela continua, se virando para m im com o se eu nunca tivesse falado. – Alexander era com o um lago, sereno e preciso, ciente das suas lim itações. Você é com o um a tem pestade, às vezes gentil, às vezes volátil, sem pre se adaptando aos lugares em que cai, im possível de ser aprisionada. Você não tem um a vontade tão rígida com o a m inha. E isso m e frustra. Por que você não pode ser com o ele? Por que você tem que ser um a criatura com pletam ente diferente e absurda, que não se encaixa direito em lugar algum ?

– Achei que você estava m e elogiando, e aí você vem e m e insulta.

– Não é um insulto. Estou pedindo desculpas. – Ela se inclina sobre a m esa, m e observando. – Joguei em você m inhas próprias frustrações, m esm o sem você ter culpa de nada. Isso atrapalhou nosso relacionam ento, e eu gostaria que m e desse um a segunda chance para nos conhecerm os m elhor quando você voltar da m issão. Você viria com igo, m as Idris foi categórica em colocá-la na equipe de Juan.

– Talvez possam os conversar quando eu voltar – respondo, sem olhar para ela, incerta sobre com o proceder. Ela não sabe que pedi para não ir com ela? E se acha que vai ser fácil m udar m inha prim eira im pressão, está redondam ente enganada.

Hassam entra na sala, quebrando o silêncio desconfortável entre nós duas, satisfeito por m e encontrar. Ele repassa alguns detalhes da m issão com Cléo, sobre horários de guardas e com o agir. Aparentem ente, irem os em cam inhões roubados do exército, e um grupo de pessoas se passará por refugiados transferidos de cam pos, e o outro, por soldados responsáveis pela transferência. Som os dois grupos distintos que irão atacar e conquistar sim ultaneam ente as duas fazendas, im pedindo que um a alerte a outra. No segundo grupo, há m ais um cam inhão, com andando por Cléo, que irá para um centro de pesquisa próxim o à fazenda, para dom iná-lo tam bém . Nós tem os que ser precisos e cronom etrar bem nosso tem po, porque se houver algum a discrepância nas ações, poderem os com prom eter todo o andam ento da m issão.

As outras pessoas chegam aos poucos e, quando vej o o chefe do nosso grupo, o encaro longam ente. Eu o havia visto no dia da assem bleia, e quanto m ais olho, m ais tenho certeza de que j á o vi antes. Juan nos orienta com um a enorm e precisão, adicionando detalhes da m issão, dos quais Hassam e Cléo tom am nota. Quando ele pede para nós, que vam os nos passar por refugiados, vestirm os os uniform es cinzentos e puídos dos cam pos, percebo que sei onde o vi antes. Ele é um dos hom ens que invadiram nosso trem quando íam os para a m issão na ilha, o que parecem ter acontecido m ilênios atrás, para roubar rações. Ele não dem onstra m e reconhecer, e fico em dúvida, porque tenho quase certeza de que m e viu naquele dia.

De repente, fico nervosa e puxo Hassam para um lado, trazendo Hannah, que tam bém está na m issão conosco, de brinde.

– Eu vou atrapalhar tudo. Não deveria ter pedido para vir – falo baixo e Hannah franze a testa. Hassam olha para o grupo e para m im , abaixando m ais ainda seu tom de voz.

– Nosso roteiro é diferente do resto. Eu, você e Hannah estam os j untos e você não vai nos atrapalhar.

– Mas a m inha m ão... – insisto, apontando com o queixo para a tipoia. – Se acontecer algum im previsto serei inútil.

– Na pior das hipóteses a gente te usa com o escudo hum ano – Hannah fala num tom tão sério que eu e Hassam olham os para ela, chocados. Então ela dá um sorriso. – Pessoal, por favor. Sy bil teve praticam ente o m esm o treinam ento que a gente em Kali, é óbvio que consegue m anter o nosso pique.

– Se acalm e – Hassam aconselha, colocando a m ão em m eu om bro. – Tudo vai dar certo.

Eu concordo, m as não fico m ais calm a. Quando vej o vovó Clarisse na entrada do túnel, com Andrei ao seu lado, todo de preto, acho que vou explodir de nervosism o. Cam inho até eles, observando com o canto do olho a m ovim entação dos outros que tentam esconder facas e utensílios no próprio corpo. Vovó tem um a expressão dura, observando-os com um interesse quase científico. Andrei não tira os olhos de m im , seus lábios fechados de form a intensa, e sinto m inha pulsação acelerar.

– Eu vim para te desej ar um bom trabalho – ele diz e eu paro à sua frente, m e sentindo um pouco intim idada. Acho que nunca o vi dessa form a. – Porque se eu te desej ar sorte, quer dizer que não acredito que você tenha chances.

– Eu estarei de volta antes que você possa sentir m inha falta – respondo tentando aparentar um a confiança que não sinto, e j unto m inha m ão com a dele. Ele a leva aos lábios.

– Não faça nada im pulsivo – ele m urm ura, m e puxando m ais para perto. – Mas faça o que puder para garantir que o cônsul se arrependa do que fez.

– Obrigada. – Sinto um a gratidão im ensa por suas palavras e encosto a cabeça em seu om bro, abraçando-o. Ele levanta m eu rosto com a m ão e m e beij a suavem ente, m e apertando contra si.

– Prom eta que vai voltar sã e salva – ele sussurra no m eu ouvido, colocando m eu cabelo atrás da orelha.

– Eu prom eto – sussurro de volta, beij ando-o na bochecha. Ele vira o rosto no últim o m om ento e m e beij a novam ente, dessa vez de form a m ais intensa. Vovó Clarisse lim pa a garganta em algum lugar atrás de nós e nos soltam os, m inhas bochechas verm elhas. – Com o está a paciente?

– Do m esm o j eito – ele sussurra, apertando m inha m ão. – Estam os fazendo o possível para que m elhore.

– Tom e cuidado – digo. – Lem bre vovó Clarisse de beber água e de com er, ela tende a se esquecer dessas coisas quando está cuidando dos doentes.

– Sim , senhora – diz e se inclina na m inha direção, dando um beij o na m inha bochecha. – Esse foi Leon que m andou. Sofia disse que não precisa vir se despedir porque você vai voltar daqui a pouco.

Estou sorrindo quando vovó Clarisse nos apressa, fazendo um gesto para que m e aproxim e. Olho m ais um a vez para Andrei e ele aperta m inha m ão, antes de fazer um sinal para que eu a siga.

Me despeço de vovó Clarisse com um abraço apertado antes de m e j untar aos outros. Hannah m e puxa para cam inhar ao seu lado, j unto ao nosso grupo de refugiados falsos, todos m ais ou m enos da nossa idade, vestidos de cinza e com as feições típicas dos filhos da guerra, de Kali. Com o núm ero de refugiados que Idris abrigava, que vinham das fazendas ou de Kali, era fácil forj ar dois cam inhões cheios de pessoas que pareciam ter vindo de lá.

Na frente, pessoas com uniform es do exército nos guiam , sem nenhum a m arca de suas anom alias nas fardas. Além de Juan vej o que Gunnar está conosco. Há m ais três m ulheres com o uniform e nos esperando na garagem , reunidas na porta de um dos cam inhões e, com surpresa, vej o que um a delas é Reika. Ela acena para m im quando m e vê, e Abena coloca a cabeça para fora do cam inhão, fazendo um sinal de que está tudo pronto. Todas as pessoas de quem fiquei próxim a nos últim os dias estão envolvidas nessa m ovim entação e sinto um frio no estôm ago.

– Os que vão se passar por anôm alos, com Cléo e Reika nesse cam inhão – Juan diz, enquanto aj eita luvas de couro nas m ãos. – Os que vão para o cam po ao norte, com Abena, Daniel e Yuuna, naquele cam inhão. E os outros, do cam po ao leste, com igo e com Gunnar, por aqui.

Sigo Gunnar, um pouco satisfeita de ter escapado do grupo de Cléo na últim a hora. Não sei com o seria se tivesse que enfrentá-la em um a situação de estresse. A fazenda para onde vam os é a m aior de Arkai, onde fica o centro adm inistrativo de todo o sistem a, e as provas para incrim inar o cônsul de vez devem estar lá. Hannah m e aj uda a subir no cam inhão, m e em purrando até o final para que caiba todo m undo. Som os vinte e cinco e, quando Hassam entra, por últim o, m al existe ar para respirar. Gunnar fecha a traseira do cam inhão e ficam os na penum bra, a única luz vindo de pequenas frestas na lataria do veículo, provavelm ente desenvolvidas para que a carga – no caso, pessoas vivas – não m orresse asfixiada. Pelo m enos estam os todos sentados.

Ficam os horas assim , um grudado no outro. Apesar do clim a de tensão, um garoto puxa conversa e, quando vej o, estam os todos trocando experiências. A m aioria do grupo é de sobreviventes de Kali, desertores do exército – com o eu descobri, era o caso de Hassam agora – ou fugitivos das fazendas de refugiados, insatisfeitos com as condições precárias do trabalho no cam po. Percebo que Idris não espalhou a notícia dos arquivos, porque ninguém parece tão irritado quanto eu. Hassam é o m ais inquieto, e m e pergunto se contou para sua irm ã o m otivo de estarm os aqui.

Depois de algum as horas, o calor fica insuportável. Infelizm ente, há poucos anôm alos no cam inhão e nenhum com habilidade parecida com a de Idris, o que poderia aj udar a esfriar o ar e aliviar a tem peratura am biente. Um a garota próxim a a m im fica com a respiração m ais acelerada e seguro sua m ão, identificando os sinais de um ataque de pânico. Sussurro palavras para tentar acalm á-la e ela afunda a cabeça nos j oelhos, buscando se controlar. Faço perguntas sobre a vida dela, o que a deixa m ais calm a, e descubro que se cham a Nara.

O fedor de suor e de m edo é dom inante quando o cam inhão finalm ente para. É quase noite e andam os por m uito, m uito tem po. Me levanto com a aj uda de Hannah e m e encosto contra a parede quente de m etal, tentando enxergar algo do lado de fora através de um a fresta. Há um a cerca de aram e farpado com um a placa e levo um susto quando alguém bate contra a lateral onde estou, o barulho ressoando dentro da caçam ba.

Ouço um a risada e m e sento, nervosa, ao ouvir a voz de Gunnar e a de um desconhecido do outro lado, j unto com os sons da porta abrindo. Hassam olha para nós com um a expressão determ inada e posso sentir a tensão no ar. A luz do lado de fora nos cega e escondo m eu rosto. É agora. Se não conseguirm os passar daqui, nada dará certo.

– São esses, os 25 – Gunnar fala num tom entediado. – Com o um dos cam pos de trigo m orreu, eles ficaram sem serventia.

– Não sei de quem foi a ideia de trazê-los para cá, estam os cheios – o desconhecido responde e m eu coração acelera. – Que fedor. Não era de se esperar m enos desses porcos.

Se ele tivesse dado um chute em cada um de nós teria doído m enos do que suas palavras. Porcos? Nós passam os o dia inteiro aqui dentro, ninguém poderia cheirar a rosas e perfum es na m esm a condição.

– Ordens são ordens. – A voz de Gunnar parece m ais tensa e eu levanto o rosto, vendo que o soldado subiu no para-choque do cam inhão e está olhando para cá.

– Eles estão ficando cada vez m ais m alucos com essa história dos anôm alos, não estão? – o hom em diz, chutando um a das pessoas m ais próxim as para poder ficar em pé do lado de dentro do cam inhão. Ele pega a arm a do coldre e consigo sentir todos prendendo a respiração, apreensivos. – Se eu fosse o governo, resolvia isso em dois m inutos.

Ele coloca a arm a na cabeça de um dos rapazes, que o encara seriam ente. Seu dedo vai para o gatilho e Hannah aperta m inha canela, enfiando as unhas na m inha perna.

– Pou! – O hom em aperta o gatilho e sinto Gunnar se m over antes de vê-lo, só que nada acontece. O soldado dá um a gargalhada alta, com o se aquilo fosse a coisa m ais divertida do m undo, antes de chutar o garoto. – Você quase se cagou de m edo, devia ter visto a sua cara de porco quando achou que ia m orrer.

– Por favor, nós precisam os rem ovê-los rapidam ente. – Gunnar tem um a voz de aço e, m esm o sem conhecê-lo m uito bem , sei que está se controlando o m áxim o possível para não atacar o hom em . Sei que eu estou.

– Oliveira! – Um outro soldado hum ano aparece na porta do cam inhão e vej o os sinais que o m arcam com o um capitão. Sua expressão é quase assassina e direcionada ao hom em que está dentro do cam inhão. – Quem o autorizou a inspecionar os novos integrantes da nossa fazenda? Desça até aqui e volte para suas funções.

– A orientação é ver se a carga está correta, senhor. – Oliveira salta do cam inhão, parando na frente de seu superior com um a continência.

– E não aterrorizá-los. Volte ao seu posto, tudo está certo com esse cam inhão.

– Sim , senhor. Com licença, senhor.

O capitão o acom panha com os olhos e, depois, quando encara Gunnar e Hassam , percebo que sabe. Será que ele é um dos nossos agentes infiltrados? Pede desculpas pelo com portam ento do seu subordinado e aj uda Gunnar a fechar a porta, prendendo-nos aqui dentro novam ente. O cam inhão volta a andar e algum as pessoas se m ovim entam para ver com o está o garoto que foi alvo de Oliveira.

Quando param os novam ente, som os obrigados a descer do cam inhão e form ar um a fila num pátio im enso. Estam os rodeados por três prédios baixos, de três andares, cinzentos e com a tinta descascando. Há um galpão com equipam entos de fazenda e, no horizonte, por onde posso ver, existem cam pos de plantações cuj os nom es não tenho ideia. As m eninas vão para um lado e os m eninos, para o outro, enquanto um a tenente nos inspeciona. Estam os todos apreensivos, porque m uitos de nós têm arm as brancas escondidas em vários lugares do corpo. Um a revista sim ples nos entregaria, m as ninguém se incom oda com isso. É com o se não acreditassem que poderíam os ser ousados a ponto de chegarm os ali arm ados, j á que som os porcos sem valor algum . Em vez disso, a análise é outra: para qual tipo de trabalho som os bons.

– Esse aqui tem braços m uito m agros, vai para as sem entes – a m ulher ordena, passando pela fila. – Bom para dirigir tratores. Esse aqui deve capinar m uito bem , m ande-o para o terceiro andar. Esse aqui... hum , m ande-o para o centro adm inistrativo. Ele será de bom uso lá.

É com o se fôssem os produtos e ela estivesse escolhendo o m elhor, olhando na vitrine. Ela separa quatro de nós para o centro adm inistrativo: eu, Hassam , Hannah e Nara, a garota que estava ao m eu lado no cam inhão. Não sei com o souberam que precisávam os ficar j untos, porque a m ulher parece alheia ao que som os e ao nosso plano, que se baseia em nos m isturarm os aos outros e aguardar o sinal do outro cam po para tom ar e controlar o lugar. Estam os contando com o fato dos refugiados residentes nos aj udarem , j á que a quantidade de guardas é bem m enor que a de refugiados. É estranho com o um a figura de poder faz com que você esqueça sua força.

Gunnar desaparece j unto com o chefe da nossa m issão, passando para o prédio no centro, rindo e conversando com outros soldados. A tenente pede que alguém nos leve até o centro adm inistrativo, a quase dez m inutos de cam inhada dali. Conform e andam os, o sol com eça a baixar no horizonte. Som os quatro para um e poderíam os derrubar o soldado guia facilm ente. Fico surpresa com a confiança que eles têm em nós.

O centro adm inistrativo é um prédio redondo, de apenas um andar, ao lado de um grande arm azém . Consigo sentir o cheiro de gram a recém -cortada e de grãos quando entram os no edifício. Observam os todos os detalhes: cada curva, cada cam inho, cada desvio. Nosso aloj am ento é no subsolo, e não é m uito diferente de um a cela: hom ens ficam de um dos lados da barra de m etal, m ulheres do outro. Os beliches são em m enor quantidade do que o núm ero de pessoas, e há apenas um vaso sanitário e um a pia, em um canto, sem privacidade algum a. A cela em que fiquei quando voltei da m issão na ilha dos dissidentes era infinitam ente m elhor do que isso e sinto noj o. Essas pessoas vêm para cá em busca de condições m elhores, com o coração cheio de esperança, trabalham de graça plantando com ida para abastecer a população da União e são tratadas com o se não valessem nada. Com o se fossem escravos sem sentim entos. Minhas pernas trem em quando penso que esse poderia ter sido o m eu destino.

Som os trancados no lugar e Hannah m e segura contra ela, observando enquanto o soldado sobe e desaparece pela escada. Tam bém tem a m ão no om bro de Nara, de form a possessiva, com o se estivesse nos protegendo. Consigo ver as m eninas da cela nos m edindo com desconfiança, considerando se devem se m over de seus lugares ou não, com o gatas selvagens. Por fim , um a delas salta da cam a de cim a de um dos beliches e se aproxim a, fazendo com que todas as outras cheguem perto.

– De onde vocês vieram ? – um a delas pergunta, passando a m ão na blusa de Hannah. – Estão tão suj as, vão precisar de um banho antes que venham buscar vocês.

– Oh, coitadinha, j á chegou estragada – outra diz, puxando suavem ente m inha tipoia. – Se j á vem estragada, não tem problem a quebrar.

– Eu j á te vi antes – a prim eira com enta, se aproxim ando de Nara. – Não te vi? Você parece m uito com alguém que eu conheço.

O que aconteceu com essas pessoas? Nenhum a delas parece ser m uito m ais velha do que Hassam , com pouco m ais de 20 anos, m as todas têm a m esm a expressão vidrada, os m esm os gestos estranhos. Não aparentam m uita coisa em com um , a não ser o tom de pele. Algum as têm os olhos claros, com o Hannah, outras tem os lábios cheios de Nara, outras têm os m eus quadris largos, m as não há um padrão. O que, só de nos ver, fez com que a tenente quisesse nos colocar aqui?

Da cela ao lado, escuto um assobio e as garotas cam inham até lá, nos arrastando com elas. Nara se agarra à Hannah, não sei se assustada ou ansiosa, e eu seguro as barras. Do outro lado, os garotos em purram Hassam na nossa direção. Não consigo entender por que estão fazendo isso, até que a porta se abre novam ente e quatro soldados entram . Então percebo que eles estão nos escondendo. É com o se fossem um cordão protetor à nossa volta, im pedindo que nos encontrem no m eio de todos. Eu m e encolho contra as barras e Hassam segura m inha m ão, com o se eu precisasse de conforto.

E aí entendo: os soldados abrem as duas celas e ninguém se m ove. Dois deles cam inham até os m eninos, dois até as m eninas, e abrem um sorriso tão assustador que m e encolho, tentando m e esconder m ais. Eles puxam um a garota e ela olha para baixo enquanto é apalpada, as m ãos de um soldado passam pelas curvas do seu corpo, pelos seus seios, pelos seus quadris. Sinto noj o, e desvio os olhos. Isso é tão, tão doente. Tão doente que Hassam precisa m e segurar para que eu não faça nada im pulsivo.

– Shh, estam os m uito perto agora – ele sussurra para m im e m ordo os lábios, segurando lágrim as de raiva.

Eu poderia ter sido um a dessas garotas. Se m eu navio não tivesse afundado, se m eu cam inho não tivesse sido desviado. Eles vendem esses lugares com o um a segunda chance, um a oportunidade para um a vida m elhor, com trabalho digno e a possibilidade de viver de form a decente, m as é apenas m ais um a m entira. Só m ais um a propaganda bonitinha para esconder a verdade, para nos induzir a vir até aqui satisfazer todas as necessidades deles. Não consigo decidir o que é pior na visão da União: os anôm alos ou os refugiados. Dos anôm alos ainda há m edo, porque possuím os poderes que ninguém com preende bem . Mas e quem vem de Kali para cá, sem nada a não ser esperança? Eles não são ninguém , só m ais um a peça na engrenagem da União.

Olho para Hassam e fico irritada quando percebo sua expressão neutra. Tenho certeza de que sabia disso, de que sabe sobre todo o abuso que os refugiados passam em lugares com o esse. Por isso não pareceu m uito surpreso ou revoltado quando leu os docum entos. O que m ais ele sabe? O pânico de Nara durante o cam inho m e parece m ais do que j ustificado, e ela ter decidido estar aqui dem onstra um a coragem im ensa. Procuro por ela na m ultidão e vej o que está com o rosto escondido nos om bros de Hannah, provavelm ente nervosa dem ais para encarar essa situação. Será que fugiu porque era um a dessas garotas, porque j á passou por isso?

O suplício acaba quando escolhem cinco de nós: três garotas e dois garotos. O cordão apertado de m eninas nos em purrando contra as grades se afrouxa e um a delas m e senta em um a das cam as, ficando ao m eu lado, m assageando a m arcas brancas que as barras deixaram em m eus dedos. Hannah e Nara estão na cam a ao lado, e um a das garotas passa a m ão no cabelo de Nara, acalm ando-a.

– Vocês vieram nos salvar, não foi? – a m enina ao m eu lado sussurra, e fico surpresa. Olho para Hannah e Nara, m as as duas não parecem ter ouvido. – Shhh, eu não conto pra ninguém .

– Com o você...?

– A garota ali. O nom e dela é Nara, não é? – ela se aproxim a m ais, ficando m uito perto de m im . Suprim o a vontade de m e afastar, porque acho que ela vai se ofender. – Ela estava aqui quando eu cheguei, m as depois sum iu. E agora voltou. Vocês vieram nos tirar daqui.

Levo um dedo aos lábios, pedindo que m antenha silêncio, e ela concorda com a cabeça, anim adam ente. Um a das garotas vai até o centro do quarto e explica com o funciona a rotação de cam as. Quem é escolhida sem pre fica com um a cam a, e não no chão, e todas precisam zelar pela lim peza do lugar se não quiserem ser punidas. Além disso, elas saem para passear ao sol um a vez por dia, por vinte m inutos, e se alguém se com portar m al, ficam os presas aqui em baixo por tem po indeterm inado com o punição para todas. A com ida é controlada e vem duas vezes por dia, de m anhã e à tarde, e a garota ressalta com o é im portante com er. Suponho que haj a algum tipo de punição para isso tam bém .

Hannah faz m ais perguntas sobre a rotina, sobre quais guardas lidam com o grupo, sobre quanta vigilância tem os, sobre a existência ou não de câm eras de segurança ou sim ilares. Aparentem ente, as garotas são bem livres, desde que sigam as regras fora da cela. Não há vigilância constante e o centro não possui nenhum m onitoram ento rem oto. Em bora sej a um a boa notícia para nós, não consigo parar de pensar nas atrocidades que podem acontecer sem que ninguém saiba.

– Não se preocupe, o novo capitão não deixa m ais essas coisas acontecerem – a garota diz, reconhecendo a preocupação em m eu olhar.

Aos poucos, a novidade da nossa presença vai se dissipando e elas voltam às suas atividades norm ais, que variam de j ogar baralho, a conversar com os garotos pelas barras que separam os dois côm odos. Eu e Hannah nos sentam os na m esm a cam a, observando-as em silêncio. Essa é a pior parte: esperar a hora certa. Se nos m overm os rápido dem ais, podem os colocar tudo a perder. Se dem orarm os m uito, perdem os a chance de agir. Mas, por enquanto, tem os tem po.