A retomada da União

Bárbara Morais · Capítulo 26 de 39

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A retomada da União

Capítulo 26

 

Nos dias que se seguem , Idris desaparece, trancada em seu escritório, ocupada com algo que ninguém sabe o que é. Nem Cléo consegue entrar, e ela desconta toda a frustração nos m eus treinos. As m anhãs são dedicadas a um treinam ento físico praticam ente m ilitar, que é três vezes m ais difícil por causa do m eu braço enfaixado. Depois do alm oço, ela m e explica um conceito e m e dá m eia hora para tentar dom iná-lo. Até consigo avançar rápido, m as nem por isso ela deixa de explodir um a vez por dia antes de recuperar a calm a. Sofia pede para se j untar a nós na prim eira parte, e é bom ter alguém com quem conversar.

Fico surpresa ao perceber que até gosto de Cléo. Apesar do seu pavio curto, ela explica bem e não vê problem a em fazer m onólogos, o que é m aravilhoso porque posso só ignorar o que está falando e não preciso nem fingir que estou ouvindo. Além disso, gosto das histórias das m issões que fez e de com o conseguiu escapar por um fio um m onte de vezes.

Tam bém não ouvim os nenhum a notícia de Maritza, o que deixa todos m uito apreensivos. A história do confronto de Cléo nos túneis se espalhou, causando inquietação, e ela organiza grupos para patrulhar os túneis m ais próxim os da fortaleza e garantir que não vam os ser descobertos. Não há nada para fazer a não ser esperar, esperar, esperar, e o tem po parece lento. Os dias e as noites duram eternidades. A m eia hora que passo na enferm aria todos os dias para trocar m inha bandagem é um dos poucos m om entos que tenho para ver vovó Clarisse, que parece cada vez m ais exausta. Às vezes Andrei vem com ela, às vezes não. Dessa vez, ela está só, e seus olhos estão em oldurados por olheiras. As várias rugas de preocupação que apareceram ao redor dos seus lábios se j untaram às poucas que j á tinha. Mas ela parece satisfeita quando Ziba tira m inhas faixas e m inha m ão está quase sem nenhum hem atom a.

– Lisandra está bem ? – pergunto, com o sem pre, e m e encolho de dor quando Ziba testa um dos m ovim entos da m inha m ão.

– Ela continua na m esm a – vovó responde. – Os avanços que tivem os no laboratório não deram resultado nenhum , estam os tentando olhar as coisas por outros ângulos.

– E os outros? – pergunto, e ela m assageia as têm poras.

– Três com eçaram a apresentar sintom as com o os de Lisandra, e estam os aplicando o m esm o tratam ento, m as em bora não se agravem , tam bém não m elhoram – Ziba responde por ela, olhando para m im e m ovendo m eu pulso, m e fazendo gem er de dor. Não sei porque ela está decidida a m e torturar hoj e, se nos outros dias o exam e praticam ente não doeu. – Mexa o pulso assim . – Sigo as instruções da m édica e sinto um choque percorrer m eu braço, e m ordo os lábios para não gritar. Ela segura m eu braço em suas m ãos, usando seu poder e pedindo que eu repita o m ovim ento. A dor não dim inui em nada e ela suspira.

– Eu tenho um a boa e um a m á notícia – Ziba declara ao se levantar. – Seus dedos estão bons e o braço tam bém , então podem os tirar a m aior parte da sua faixa. A m á notícia é que o seu pulso não está curado, e você precisa ficar com ele enfaixado.

Concordo e ficam os em silêncio enquanto a m édica term ina o trabalho. Quando ela sai, depois de vários agradecim entos m eus, vovó se senta na cadeira onde Ziba estava e tira algo do bolso do seu j aleco para m e entregar. Pego os obj etos com os dedos recém libertos e encaro por alguns segundos antes de sentir o calor no m eu rosto.

– Isso é...

– Antes que você ache que Andrei chegou na ala m édica contando vantagem , eu praticam ente coagi ele a contar. Ele tam bém não foi m uito discreto na hora de pegar preservativos, então dei alguns para ele. Mas o m ais im portante para você é isso aqui. – Ela pega a cartela de com prim idos. – Não é o m elhor contraceptivo que existe, m as é o que tem os aqui. Você tom a um por dia, conform e o seu ciclo m enstrual. Não esqueça de tom ar todo dia.

– Obrigada – m urm uro, constrangida.

– Ah, não fique com vergonha. É com pletam ente natural, o im portante é que vocês se m antenham seguros. Vocês são m uito novos para terem filhos e precisam tom ar cuidado com doenças, sem pre – ela apazigua, segurando m inha m ão esquerda na dela. – E eu sei que Andrei não é desse tipo de pessoa, m as se algum dia você estiver com alguém que insista para que você não use nenhum tipo de proteção, contra a sua vontade, você não deve ceder. Existem m ilhares de concessões que precisam os fazer num relacionam ento, m as essa não é um a delas.

– Certo – falo, ainda sem j eito. – Obrigada por se preocupar com igo.

– Eu te am o, com o não m e preocuparia? – Vovó sorri. – E se você precisar conversar sobre qualquer coisa com igo, qualquer dúvida, qualquer sentim ento que não estej a entendendo, pode m e procurar. Mesm o se eu estiver ocupada, consigo arrum ar um tem po. Você sem pre foi m uito fechada e, aqui, não parece ter nenhum a am iga com quem conversar. Ah, não proteste. Sem pre está grudada em Leon, Andrei ou Sofia, nunca com ninguém m ais. Você pode não se sentir confortável de falar sobre suas dúvidas com eles ou com Sofia, que é m uito nova, então venha até m im .

– Tem Hannah – tento m e defender, m esm o que eu saiba que ela tem razão.

– Bem , se ela tam bém quiser conversar com alguém m ais velho, vocês duas podem vir até m im – ela diz e se levanta, m e puxando para um abraço. – Eu soube que está treinando com Cléo.

– Hoj e é o dia dos assuntos constrangedores – eu brinco, abraçando-a de volta. – Sim , estou.

– Ela não está te perturbando, está? – pergunta, e tenho vontade de rir, porque sua preocupação m e faz sentir com 6 anos de idade.

– Não, ela está se com portando direitinho. Agora que tenho dedos livres, provavelm ente vai arrum ar um a form a nova de m e torturar, m as ela j ura que é necessário – respondo, desviando o olhar.

– Se é im portante para você ficar bem , deve obedecê-la. – Em bora eu não tenha contado para vovó Clarisse diretam ente sobre o que havia acontecido na m issão, algo em sua voz m e dá certeza de que ela descobriu de algum a m aneira. – Pelo m enos ela parou de insistir que vocês se com portem com o um a fam ília?

– Às vezes ela fala algo assim , m as acho que percebeu que não gosto – digo e m e afasto. – Minha fam ília é você. Você, Rubi, Dim itri e Tom ás. Você vai ficar conosco quando tudo acabar?

– Não sei. Eu honestam ente não faço a m ínim a ideia. Adoraria poder ficar com as m eninas aqui, m as... e as outras? As que estão em algum lugar e precisam ser protegidas? – ela responde com pesar, arrum ando o m eu cabelo. – Mas eu adoraria conhecer essas pessoas que se tornaram tão im portantes pra você.

– Com o elas estão? Carine e as outras? Eu m al as vi desde que cheguei e foi m uito estranho revê-las.

– Bem . Sarai descobriu a anom alia dela, estou esperando que as outras duas tam bém o façam – ela responde com um sorriso enigm ático e eu dem oro algum tem po para processar o que disse. Me lem bro de Am ita, um a das garotas do orfanato que descobriu que era anôm ala sobrevivendo à um a m ina terrestre. Nina, a m ais velha de todas nós, que era m inha m elhor am iga, foi transferida de unidade no exército, algo que dificilm ente acontecia em início de carreira. A sucessão de nom es e rostos, e a m aneira com o Vovó Clarisse nos ensinava a sem pre m anter a calm a, a nunca fazer nada m uito arriscado... Tudo faz sentido em um a frase.

– Nós... todas nós? – pergunto, em basbacada. – Todas nós som os anôm alas?

– Algum as fam ílias em Kali preferem abandoná-las do que criá-las só para serem recrutadas pelo exército antes m esm o de virarem adultas. E eu as escondo, tento dar outra opção à elas – explica, e eu preciso m e apoiar em algum lugar para não cair. – Você foi a única que não foi encontrada nessa situação.

– Elas seriam m onstrinhos de rua se você não as salvassem ? – Só quando pergunto percebo que terrível é a expressão que usam em Kali para os bandos de crianças anôm alas que vivem nas ruas, se virando de qualquer form a para sobreviver. – Não, finge que não usei esse nom e. Elas m orariam na rua se você não fizesse nada?

– Provavelm ente nem conseguiriam sobreviver ao prim eiro ano – diz e eu m e aproxim o dela, abraçando-a.

– Obrigada por ser tão generosa.

Vovó Clarisse faz cafuné em m im , com o se eu ainda fosse um a criança, m as o m om ento é interrom pido pelas batidas na porta. Andrei parece um fantasm a, com o j aleco branco m anchado de verm elho e um a expressão assom brada. Não precisa falar nada para que vovó Clarisse se m ovim ente rapidam ente, atravessando a distância até a enferm aria, onde Lisandra está, com o um a tem pestade, eu e Andrei na sua cola. Ela nem sequer reclam a que estou aqui, de tão preocupada que está.

– Cham e a equipe m édica! – exclam a para Andrei antes de fechar a porta na sua cara. O garoto não hesita e sai correndo, m e deixando na frente do quarto confusa e sem saber com o agir. Sou um a intrusa, m as quero saber se posso aj udar.

Me agacho ao lado da porta, observando a m ovim entação nervosa de pessoas sem atrapalhar. Depois de um tem po, um hom em é praticam ente expulso do quarto e o reconheço com o quem acom panhou Lisandra até aqui, provavelm ente seu esposo, Yuhan. Ele está lim po e m ais arrum ado, com a barba feita, m as seu rosto é um a m áscara de desespero. Ele olha para m im e para a porta nervosam ente e, quando percebe que não vão cham á-lo para dentro, se abaixa ao m eu lado, m e olhando intensam ente.

– O que está acontecendo? – ele pergunta para m im e fico surpresa que ele m esm o não saiba.

– Eu não faço ideia. Achei que você soubesse...

Ele engole em seco, desolado, e senta no chão, esticando um a perna.

– Sabia que estava bom dem ais para ser verdade – com enta baixinho, olhando para cim a e cobrindo o rosto com um a das m ãos.

Fico em silêncio e abraço m eus j oelhos, sem saber com o consolá-lo. Eu sinto o peso dos seus sentim entos, o m edo e o desespero se transform ando em palavras m urm uradas de um a prece contínua para o Criador, no idiom a cheio de vogais e inflexões que é m ais utilizado no Im pério. Ele parece se agarrar às palavras com o se fossem oferecer algum conforto e, depois de um tem po, o cântico m e acalm a tam bém . Em situações com o essa, em que não há nada a fazer, em que tudo parece perdido, parece ser bom ter alguém a quem recorrer, um a entidade abstrata que ofereça conforto. É um a face que m e agrada m ais do que a ideia de que estam os sendo policiados o tem po inteiro.

Depois do que parece ser um a eternidade, vovó Clarisse sai do quarto com um a expressão que j á vi várias vezes e seguro o braço do hom em com o reflexo, num a tentativa fútil de im pedir as palavras que sei que estão por vir.

– Eu sinto m uito – vovó m urm ura e observo que seu j aleco está salpicado de sangue.

– Nem o bebê? – ele pergunta, com um tom de cortar o coração.

– Lisandra ficou instável m uito rápido e fizem os tudo para tentar salvá-la. Quando vi que não havia chances, nós tentam os retirar o bebê m as... – Ela balança a cabeça, entristecida. – Eu sinto m uito.

Se há um som para um coração partido, é o que o hom em faz quando recebe a notícia, um urro anim alesco entre a raiva e a dor. Sinto vontade de chorar com ele e encosto em seu om bro. Fico surpresa quando ele se agarra a m im em desespero, suas lágrim as encharcando o tecido da m inha cam isa. Cada soluço faz com que ele estrem eça por inteiro e eu passo a m ão em seu cabelo, sentindo m inhas próprias lágrim as se j untarem às dele. É com o se a perda do hom em fosse grande dem ais para ele aguentá-la sozinho, e com eço a m e lem brar de Ava e m e descontrolo. Não é certo pensar nisso, m as o que aconteceu com Lisandra e seu bebê é o que nos espera se não vencerm os essa luta.

Não sei ao certo quando é que Idris aparece e nos força a levantar. O hom em parece destruído quando a líder o leva para longe, sussurrando palavras de conforto. Ninguém parece bem , e o hum or na fortaleza é gélido e cortante. A notícia da m orte da m ulher se espalha rapidam ente e vou atrás de Hannah e Sofia quando vovó Clarisse e Andrei se trancam no laboratório para um a reunião. Sofia está pior do que eu, e nós três nos encolhem os em um canto do seu quarto, m urm urando bobagens com o distração e esperando.

Parece que essa é única coisa que sabem os fazer.