A retomada da União
Capítulo 34
Áquila nos leva pelo labirinto de corredores do Senado, explicando que estam os na área de serviços. Meu coração parece um tam bor no peito, a cada corredor que viram os tenho certeza de que vam os encontrar algum guarda, algum tipo de resistência, m as não encontram os nada. Param os no pé de um a escada de serviço que sobe em espiral, com degraus m inúsculos, e Gunnar sobe na frente, m e aj udando a guiar Leon. A audição do garoto não voltou ao estado hipersensível de sem pre e fico apreensiva em levá-lo conosco, m as a alternativa é deixá-lo sozinho e nunca faria isso.
Eu sou a prim eira a avistar a garota com um a arm a com prida, parecida com um a lança. Ela está um andar acim a e, se abaixar os olhos, consegue nos ver. Seguro Gunnar pela cam isa, im pedindo-o de prosseguir e faço um gesto para que fique em silêncio. Outra m enina se j unta a ela e m e inclino, tentando não ser vista, observando que as duas guardam um a pequena porta. Áquila segue a direção do m eu olhar e fica pálido quando as vê, com o se algo terrível estivesse esperando por nós e, com o se fosse um im ã, atrai a atenção de um a.
– Cuidado! – Áquila berra segundos antes da garota apontar a arm a para nós e dispará-la.
Cham as irrom pem da ponta da lança, lam bendo o corrim ão da escada e preenchendo o vão entre os degraus. Em purro Leon contra a parede com o reflexo, sentindo o calor das labaredas nas m inhas costas, protegendo-o com o posso. Gunnar solta Áquila e pula dos degraus de três em três, apagando as pequenas cham as que atingem sua cam isa com tapas rápidos, e ouço o baque surdo logo antes que as cham as parem .
Praticam ente puxo Áquila e Leon para subirm os tam bém , e é a vez de Leon m e segurar. Ele faz um gesto com a cabeça para baixo e, quando olho, fico horrorizada em ver a quantidade de garotos com blusas am arelas que se aglom eram ao pé da escada, iniciando a subida. De onde vieram ? Com certeza estavam em algum lugar próxim o, só esperando serem cham ados.
– Subam , subam , subam . – Puxo Leon pelo braço, forçando-o a subir os degraus com m ais rapidez. O garoto tropeça algum as vezes, ainda confuso, e Áquila fica para trás depois de alguns degraus. Volto para buscá-lo, m as ele só faz um sinal para continuarm os.
Só quando finalm ente chego ao fim da escada percebo que o chão está escorregadio, coberto por um a cam ada de gelo. Se a prim eira garota caiu fácil, a segunda é um a resistência form idável, usando sua arm a para criar o gelo que cobre o chão. Gunnar, porém , não está em lugar nenhum , escondido por um a de suas ilusões.
– Não adianta se esconder! Não preciso te ver para te congelar – ela am eaça, brandindo sua lança com determ inação.
– Por que você não tenta me congelar? – Atraio sua atenção e m e afasto de Leon e de Áquila. Os passos nos degraus parecem m ais próxim os e fico nervosa, sabendo que é questão de segundos até que nos alcancem . – Duvido que consiga.
Ela não gasta tem po contando vantagem e só aponta a arm a na m inha direção, soltando um j ato de gelo. Eu tento sair do cam inho rapidam ente, com m edo de arriscar e acabar m e m achucando, m as escorrego no gelo e sou atingida bem no om bro, sendo lançada contra a porta com a força do golpe. O ar falta nos m eus pulm ões e preciso respirar algum as vezes para recuperar o fôlego, m as só sinto a um idade no m eu om bro, nada de frio. Agradeço m entalm ente pela m inha anom alia enquanto observo m inha adversária ficar confusa por não ter causado efeito algum . Gunnar aparece logo atrás dela e a derruba no gelo com a arm a da outra garota.
– Eles estão quase aqui! – Áquila fala, assustado, e Gunnar j oga a lança na direção dele. O garoto segura a arm a em um reflexo e olha para ela com o se fosse algo de outro m undo. – O que eu faço com isso?
– Engole – Gunnar sugere, im paciente, enquanto verifica se a garota está desacordada m esm o. – Im peça-os de chegar até aqui antes que possam os fugir!
Consigo reunir forças para m e levantar ao m esm o tem po em que Áquila aponta as cham as na direção dos degraus. A porta atrás de m im é de m adeira reforçada e está recoberta com um a crosta fina de gelo. Testo abri-la só por desencargo de consciência e, quando não consigo, Gunnar m e entrega a arm a de gelo e tom a o m eu lugar, agindo com um pouco m ais de violência. Ele chuta o trinco da porta, fazendo-a soltar algum as farpas. Precisa de tem po para conseguir abri-la e, pela expressão de pânico no rosto de Áquila, não é um luxo que terem os.
Leon se solta dele e tenta cam inhar em nossa direção, escorregando algum as vezes, m as sem cair. Eu o guio até a parede m ais próxim a da porta, entregando a arm a em sua m ão e m ostrando onde pode ativá-la, e m e j unto a Áquila, esticando o pescoço para espiar a escada. Os degraus abaixo de nós têm dez, talvez quinze garotos da Aurora, cada um deles carregando um a lança ou algum a outra arm a, e em bora as cham as não os m achuquem , os m antêm distantes.
– Gunnar! É m elhor você fazer isso nos próxim os cinco segundos se não quiser ter que enfrentar um a horda de lança-cham as. – Eu o apresso e ouço só um grunhido com o resposta. – Leon, o aj ude! Vocês dois são fortes o suficiente para quebrar a m açaneta.
Gunnar pausa por um segundo, com o se nem sequer tivesse considerado a aj uda de Leon com o um a possibilidade, e tenho vontade de socá-lo. Não sei se o que m ais m e irrita é o fato de achar que pode fazer tudo sozinho ou com o dá a entender que Leon não tem capacidade para aj udá-lo. Ele pode não estar ouvindo bem , m as ainda é tão capaz quanto Gunnar.
– Merda! – Áquila xinga e m e em purra na direção dos outros, com pressa.
Dem oro para entender que a arm a que estava usando parou de funcionar e percorro o curto espaço para m e j untar a Gunnar e Leon na tentativa de arrebentar a porta. Só conseguim os quando nós quatro nos j ogam os contra ela, abrindo-a de supetão. Leon m e im pede de cair e Gunnar se j oga, fechando a porta com seu peso, tentando im pedir que alguém entre por ali atrás de nós. Nós precisam os dar um j eito de m antê-los longe, m as quando presto atenção nos m eus arredores, m e esqueço de tudo.
Se os corredores são im pressionantes, o parlam ento em que o Senado se reúne é extravagante. Um a cúpula im ensa deixa a luz solar entrar, ilum inando as pinturas belíssim as de crianças aladas brincando entre as nuvens do teto. As paredes parecem ser feitas de ouro e sangue fresco, e o sol da tarde destaca cada um dos intrincados padrões gravados nas pilastras de sustentação. Estam os em um ponto m ais alto, escondidos por um a delas.
Abaixo de nós se estendem várias fileiras de cadeiras elegantes cobertas com veludo verm elho, entrem eadas por escadas de m árm ore branco. No centro, o sol ilum ina o cabelo de Fenrir, deixando-o com um a aura quase sobrenatural. Felícia está ao seu lado, com um a expressão serena, acom panhada de um Victor cabisbaixo. Há um pequeno grupo da Aurora ao redor de dois prisioneiros. Identifico a cabeça calva do cônsul quase im ediatam ente, m as quando vej o os fios loiros bagunçados do segundo prisioneiro, sinto com o se m eu coração parasse.
Andrei?
O que Fenrir está fazendo com Andrei aqui? Com o o encontrou? O garoto levanta o rosto e vej o o sangue que escorre do seu nariz, que está curvado num ângulo não-natural. Fecho m eus punhos e m e contenho para não descer até lá e arrancá-lo das garras de Fenrir.
Meus olhos vagam pelo resto do côm odo, procurando rotas de fuga e tentando form ular um plano. Ao redor do círculo m ais externo de cadeiras existem portas duplas de m adeira escura e, na frente de cada um a delas, um a dupla de guardas vestidos de am arelo, com as arm as estranhas com o as dos nossos perseguidores. Eu reconheço algum as e, quando tento m e lem brar de onde, a m em ória do porão de Fenrir vem à tona. Um arsenal. Agora faz sentido.
Os círculos m ais internos estão todos ocupados por pessoas bem -vestidas, com ternos im pecáveis e cabelos alinhados, e, de onde estou, consigo ver vovó Clarisse sentada em um a das prim eiras fileiras, apreensiva. Ao seu lado, reconheço os dois prisioneiros que capturam os nos cam pos de refugiados e procuro m ais intensam ente por outros indícios de m em bros do Sindicato na m ultidão, sem identificar m ais ninguém .
Isso m e deixa nervosa: será que Hannah conseguiu avisá-los sobre Fenrir?
Será que têm um plano para contê-lo? Por que vovó Clarisse e Andrei estão aqui e m ais ninguém , nem Maritza?
O clim a do lugar é tenso, m as ninguém ousa agir, nem Fenrir, nem os senadores, com o se estivessem se m edindo, considerando o próxim o passo. Alguém atrás de Gunnar ruge e o garoto se desencosta da porta. Noto um a fina cam ada de suor cobrindo sua testa quando nos esconde atrás da pilastra com seu corpo. Um dos soldados de Fenrir sai pela porta e nos procura, m as seus olhos passam rapidam ente por nós, iludido pela anom alia de Gunnar. Outros o seguem e ele faz um sinal para que se espalhem no círculo externo, se j untando aos outros guardas. Fenrir olha em direção à porta e sinto um calafrio com seu sorriso. Ele parece pronto.
– É um prazer estar reunido com vossas excelências num a ocasião tão interessante. – A voz de Fenrir ecoa pelas paredes e parece que está falando ao m eu lado. – Entendo que estão discutindo o futuro da União e, em bora não tenha sido convidado, senti que o Estado Anôm alo deveria estar presente. Com o prova das m inhas boas intenções, trago seu cônsul, que foi capturado enquanto tentava fugir para encontrar um dos seus contatos no Im pério.
– Estado Anôm alo? – Um dos senadores se levanta, de um j eito presunçoso. – Quanto tem po você acha que dura depois que nos organizarm os, Fenrir? Me diga, honestam ente.
– Ofereço m inha am izade e sou tratado com esse tipo de desdém – fala Fenrir, com um a calm a extraordinária. – Eu lhe devolvo a pergunta: quanto tem po Vossa Excelência acha que os hum anos duram depois que nos atacarem ? Dois dias? Três?
– Você não deveria se esquecer de seu lugar. – A resposta do hom em é gélida e eu m e encolho com o desprezo em sua voz. – A m eia dúzia de truques que as suas aberrações sabem fazer não adiantam nada em com paração com o nosso poder de fogo. Se você quer j ogar este país em um a guerra civil, vá em frente. Te garanto que irem os ganhar.
– Parem agora. – Um a m ulher se levanta do lado oposto ao prim eiro senador, com um a postura quase régia. Ela m e parece conhecida, e suponho que sej a Petra. Seus olhos estão em Fenrir, com um a expressão neutra. – Senador Fuller, por favor, m antenha a com postura. Senador Vilhj alm sson. – Ela pronuncia o nom e com o Vi-rral-m sson, com um r forte, e fico confusa por alguns instantes antes de entender que é o sobrenom e de Fenrir. – Vossa Excelência ainda tem um lugar em nossas fileiras caso queira colaborar.
– Estou colaborando, Senadora Am ani – Fenrir responde, fazendo um gesto para que tragam o cônsul até os seus pés. Felícia se afasta do pai, parando do outro lado do senador anôm alo. – Mas não tenho interesse em abandonar os m eus à m ercê de pessoas com o o Senador Fuller. Eu venho para aj udá-los a resolver seus problem as.
– Se você veio para nos aj udar, por que estam os aqui com o seus prisioneiros, Fenrir? – Petra abandona a polidez quase im ediatam ente, com um tom inquisitivo, apontando para os garotos de am arelo com a m ão. – Você planej a nos coagir e transform ar a União em União Anôm ala? Você quer se tornar o novo cônsul?
– É feio fingir que não com partilha das m inhas am bições, Petra – Fenrir fala de m odo condescendente, esticando a m ão para Felícia. A garota lhe entrega um a faca e fico tensa, sem saber o que fará a seguir. – Acho que não fui claro em m inha m ensagem . Não voltarei atrás, não m e curvarei perante vocês, m as m e colocarei exatam ente no lugar que m ereço. E se vocês não colaborarem , o destino de vocês será o m esm o do nosso am igo cônsul.
– Ele não vai... – Áquila com eça a falar quando Fenrir estica o pescoço do cônsul e eu afundo as unhas em seu braço, incapaz de desviar os olhos do centro do plenário.
Todos na cúpula levantam e m urm uram horrorizados e, antes que alguém possa im pedir, vej o a poça verm elha se acum ulando no m árm ore branco do chão do Senado, circundando o corpo que Fenrir acabou de soltar com o um saco de batata podre. Felícia dá um passo para trás para não se suj ar, e Victor a levanta com o se não pesasse nada. Sugo o ar, fazendo um barulho patético quando processo o que aconteceu.
Fenrir m atou o cônsul. Na frente de todos. No m eio do Senado.
Com o parte de um espetáculo grotesco, o hom em não parece se incom odar com o sangue que se acum ula no couro preto do seu sapato, desafiando o Senado com a cabeça erguida, a faca suj a nas m ãos, os respingos verm elhos em seu terno cinza bem cortado. Sua postura é tão beligerante que acho que vai gritar um desafio, m as ele se m antém em silêncio enquanto o caos quebra com o ondas ao seu redor. Andrei tenta se levantar para não se suj ar, m as um garoto da Aurora o em purra com força contra o chão, e o sangue do cônsul se acum ula no tecido das suas calças. Todas as autoridades parecem anestesiadas, sem saber com o agir agora, e Fenrir se aproveita da situação rapidam ente:
– Com todos vocês com o testem unha, m e declaro Protetor do Povo! – anuncia, sua voz o único som no plenário. – Por ter elim inado a am eaça para a União, por ter protegido os m ais fracos com o m anda nossa Constituição, sou o m elhor para exercer o papel. E com o Protetor do Povo, m inha prim eira ação será dissolver o Senado. Os senhores podem retornar para suas províncias de origem .
– Você não pode fazer isso! – Um a m ulher se levanta abruptam ente da cadeira e, quando abre a boca para continuar, ela cai com um grito, atingida por um tiro no om bro. Na direção do tiro, vej o um hom em um pouco m ais velho do que os outros m em bros da Aurora com um fuzil, pronto para atirar em quem proteste a seguir.
– Quem irá m e im pedir? – Fenrir desafia, olhando para Petra com desdém . – Senadora Am ani? Quer ter a honra?
Um a das antigas religiões da União acreditava na glória da batalha, no m om ento em que o deus da guerra abençoava alguns guerreiros com força e vontade extraordinárias, tornando-os invulneráveis e descontrolados. É o que parece acontecer com Gunnar: a provocação de Fenrir é o estopim , e ele nem sequer olha para nós enquanto desce as escadas para o centro do plenário com um grito de batalha que faz reverberar as paredes, dezenas de cópias dele surgindo atrás de si com o um a ilusão enquanto avança, tom ando os degraus com o um enxam e. Os olhos de Fenrir se arregalam e ouço barulhos de tiro, m as Gunnar tem experiência o suficiente para conseguir se cam uflar entre seus clones.
Sussurro para que Leon fique aqui, esperando, e aproveito que todos os guardas parecem concentrados em parar Gunnar para cam inhar parte do círculo externo antes de descer para o centro, determ inada a tirar Andrei de lá. Fenrir foi rodeado pelos seus guarda-costas e está com a m ão no om bro do garoto, um a am eaça clara de que se Gunnar chegar perto dem ais, Andrei terá o m esm o destino do cônsul. Desço as escadas de dois em dois degraus, m e concentrando na m inha respiração num a tentativa de conseguir controlar m eu poder com facilidade quando eu precisar. A m ultidão de Gunnars alcança o centro e um dos garotos aciona a arm a, soltando um a labareda que destrói um a dúzia de ilusões e faz algum as pessoas da prim eira fila de cadeiras gritarem e tentarem fugir desesperadas para a fileira de cim a. O fogo atinge o tecido verm elho e rapidam ente se espalha para as cadeiras adj acentes, o cheiro de cabelo queim ado m e fazendo tossir conform e preenche o am biente.
Analiso m inhas chances: se eu m e aproxim ar dem ais, nunca vou conseguir vencer o círculo de anôm alos que separa Andrei e Fenrir de m im . Paro alguns degraus antes, ponderando o que fazer, e Andrei olha na m inha direção, com um a expressão de espanto. Eu levo as m ãos aos lábios para que fique em silêncio ao m esm o tem po em que Gunnar derruba dois dos seus com batentes de um a vez, roubando a arm a de um deles antes de desaparecer. O grupo parece desnorteado.
– Fenrir! – berro. O hom em olha na m inha direção, surpreso e, atrás dele, as cham as se espalham , atingindo outra fileira de cadeiras. – Você quebrou sua prom essa.
– O que...
Andrei não dá oportunidade para que ele term ine. Levanta-se de um a vez e o atinge com o peso do seu corpo, derrubando-o. Ele aproveita os segundos que dem oram para nossos adversários entenderem o que está acontecendo para correr, m as o sangue deixa o chão escorregadio e ele não vai m uito longe antes que Victor o segure pela gola da cam isa.
– Pegue-a! – Ouço a voz abafada de Fenrir ordenar, e enquanto Andrei luta para se soltar de Victor, vej o Felícia cam inhar na m inha direção de form a determ inada, seus olhos azuis m e encarando com raiva, com o se eu a tivesse contrariado. Ela tom a a arm a de um dos garotos perto dela e eles abrem cam inho sem questionar.
Dou um passo para trás, e depois m ais dois, e m ais três, presa em seu olhar. É com o se ela fosse um felino prestes a dar um bote na presa e eu estivesse paralisada dem ais para reagir. Não posso dar as costas a ela, porque com certeza conseguirá m e pegar, m as tam bém não tenho nenhum a chance se a arm a que estiver segurando for um dos lança-cham as.
– Olá, Sy bil. Com o está sua cabecinha? Bem ? Nenhum a dor? – Ela sobe um degrau, encostando a ponta da lança que segura em seus sapatos. Eu m e afasto m ais um degrau, m as tropeço, nervosa, e quase caio. Preciso de um plano, rápido.
– Nunca estive m elhor – provoco, observando-a. Ela é m ais alta do que eu, m as sou m ais pesada, e com certeza tenho m ais força. Se eu a pegar desprevenida e conseguir desarm á-la, tenho algum a chance. – Mas não posso dizer o m esm o de Naoki.
– Ah, Naoki. Foi tão fácil, você sabia? Assim com o Victor. Sem pre é m ais fácil quando eles são solitários. – Ela sobe m ais um degrau, suas palavras m ostrando desprezo, e tento ignorá-las. Preciso m e concentrar e procurar um a oportunidade. Estou acim a dela na escada, então além do peso, tam bém tenho a vantagem da gravidade. – Mas você m e deixa confusa, Sy bil. Me diga, com o conseguiu chegar aqui sem que o seu lindo cérebro explodisse?
– Você parece inteligente o suficiente para convencer Fenrir a fazer essa bagunça. – Com isso, ela para de avançar e franze a testa, com o se estivesse reavaliando sua opinião sobre m im . Eu dobro os j oelhos discretam ente, m e preparando para o salto. – Tenho certeza de que consegue descobrir sozinha.
– Então Victor falou – ela m urm ura, pensativa, e levanta a arm a na m inha direção. – Não fiz nada dem ais, Sy bil. Fenrir j á estava à beira do precipício, só precisou de um em purrãozinho, de um a sugestão. Com o m eu pai. É engraçado com o as pessoas perdem os pudores quando você as convence de que algo é bom para elas.
– Quando a alternativa é quase m orrer de dor, não vej o com o há m uita escolha. – Meu tom é raivoso e ela ri com deboche.
Aproveito para saltar em sua direção, em purrando-a, m as ela reage com rapidez, usando o corpo da arm a para m e bloquear. Eu seguro a arm a e a viro na direção de sua cintura, enquanto puxo seu pé com um dos m eus. Ela larga a arm a, m as seus dedos com pridos se engancham na m inha cam isa e eu dou um berro quando caio j unto com ela. Tento atingi-la com a lança, m as sinto suas m ãos esm agando m eu pulso m achucado e, com a dor, largo-a de qualquer j eito. Enlaço m inha m ão esquerda em seus cabelos, fazendo-a bater a nuca em cada degrau que escorregam os e, quando chegam os ao fim , dou um a cotovelada em seu nariz, o que faz sua cabeça quicar e ela finalm ente solta m eu pulso.
Minha respiração está ofegante quando Felícia tenta m e dar um m urro e m e esquivo, m as ela se aproveita da força do m ovim ento para m e rolar para debaixo dela. Sinto a um idade do sangue do cônsul nas m inhas costas e contenho um grito de horror enquanto seguro os dois pulsos da m enina, im pedindo-a de m e atingir. Ela coloca todo seu peso contra m inhas m ãos e, em bora não consiga m e bater, pressiona um dos dedos contra m eu olho com força. Grito e tento im pedi-la, m as sinto a pressão cada vez m ais forte enquanto m exo m inhas pernas, o sangue que escorre de seu nariz pingando no m eu rosto. Consigo ouvir os gritos de Gunnar ao nosso redor, os passos apressados, o calor cada vez m ais forte e o cheiro de queim ado.
– Você conseguiu se im unizar. Me diga com o – ela sibila furiosa e m ordo os lábios para não gritar de dor novam ente, sua voz saindo anasalada. – Você usou sua força de vontade?
– Ah, você dem orou para perceber – respondo, ofegante com a dor no m eu olho, sentindo o sangue escorrer pela m inha bochecha, e dou um a cotovelada em sua testa, atordoando-a por tem po suficiente para j ogá-la para o lado. Eu rolo para longe e tento ficar em pé, o olho em que ela estava pressionando parecendo prestes a explodir, m as escorrego no sangue e m e apoio com o pulso m achucado, sentindo a dor subir pelo m eu braço com um gem ido.
Pisco algum as vezes, pontos pretos dom inando m inha visão. Felícia escorrega duas vezes na tentativa de se levantar e eu m e afasto m ais, tentando entender o que está acontecendo fora da nossa briga. Os garotos da Aurora ainda estão caçando as ilusões de Gunnar pelo côm odo, m as elas estão em m enor quantidade e sei que o garoto não vai aguentar m uito tem po. As cham as nas cadeiras de um dos quadrantes estão cada vez m ais altas e os senadores se acum ulam em cadeiras m ais acim a, do outro lado, com expressões assustadas. Tenho vontade de gritar para que façam algo.
Tam bém consigo discernir vovó Clarisse entre eles, com um a das arm as da Aurora, sua expressão de desafio, m as os soldados de Fenrir escolhem deixá-los em paz. O alarm e de incêndio com eça a tocar alguns segundos depois e fecho os olhos quando sinto os respingos de água do sistem a anti-incêndio caírem na m inha pele. Tento focar a vista em Felícia e considero com o posso usar isso para m e defender. No centro, Fenrir está parado com o um m aestro, com um a postura confiante, m as tensa, com o se nada disso estivesse fora de seu plano.
Mas a surpresa vem quando procuro Andrei e o vej o encolhido em um canto, segurando a lateral do corpo com dor e Áquila, ao seu lado, com o se estivesse preocupado. Leon está ocupado em desviar a atenção de Victor dos dois, m as não está com seus sentidos em sua plenitude e nos poucos segundos em que os observo, leva três socos doloridos no tórax. Eu coloco m inhas m ãos no chão e m e lem bro do treinam ento de Cléo, m e concentrando na água que com eça a se acum ular, no sangue que m ancha o m árm ore branco, e tento direcioná-los para Victor. O garoto escorrega e cai, e Leon consegue acertá-lo, m as não tenho certeza se foi por m inha causa.
–Eu te odeio. – Ouço Felícia falar entre os dentes e percebo o erro que foi parar de prestar atenção nela quando puxa o m eu cabelo. Eu chuto seu tornozelo e a derrubo novam ente, afundando as unhas em sua pele e m e concentrando em usar m eu poder.
– Que bom , porque é recíproco! – eu grito, usando m eu corpo para pressioná-la contra o chão, sentindo sua pulsação em baixo de m inhas m ãos. Preciso m e desvencilhar dela para aj udar os garotos com Victor e sinto seus batim entos cardíacos cada vez m ais rápidos. A garota arregala os olhos para m im e tenta falar algo, m as aperto m ais m inha m ão contra seu pulso, determ inada.
O que salva Felícia é o estrondo das portas se abrindo, que m e desconcentra. Olho para cim a, assustada com as pessoas vestidas de preto que invadem a sala de supetão, surpreendendo a todos. Os garotos da Aurora se assustam e apontam as arm as em m assa na direção dos agentes, se esquecendo de Gunnar, se esquecendo de todos nós. Meus olhos não se desgrudam da porta do centro e das duas pessoas que guiam os soldados na direção de Fenrir.
As duas figuras têm m ais ou m enos a m esm a altura e, enquanto a de cabelo verm elho está com o m esm o uniform e preto dos outros, o casaco pesado da segunda é inconfundível.
Rubi e Idris.
A tem peratura no Senado cai drasticam ente anunciando que a cavalaria havia chegado.