A retomada da União
Capítulo 20
Hannah está ao m eu lado quando acordo, dorm indo curvada sobre a m inha cam a, apoiando-se em um a parte do colchão. A claridade do quarto m e faz fechar os olhos novam ente e sinto cada m úsculo do m eu corpo dolorido, com o se tivesse sido atropelada por um dos tratores da fazenda. Minha boca está am arga e, quando tento m e sentar, percebo que m inha pele está ressecada, acinzentada. Hannah se m ovim enta, virando a cabeça, e tento m e lem brar de com o vim parar aqui e onde estam os.
O quarto é largo e tem várias cam as com o a que estou, todas vazias a essa hora do dia. As paredes cinza e o burburinho de conversa do lado de fora m e situam na fazenda. Sinto m inha cabeça pesada e exam ino a m ão enfaixada, percebendo que as bandagens estão com um cheiro horrível. Meu cabelo tam bém está seco, então pelo m enos algum as horas devem ter se passado desde que apaguei o incêndio.
O que foi aquilo?
Olho para m inha própria m ão, assustada, tentando retraçar o que fiz para conseguir aquela explosão, para controlar a água daquela form a. Tive um a dose grande de sorte, porque se não fosse por aquilo, provavelm ente estaria carbonizada a essa hora. Sinto um calafrio, pensando nas im plicações de tudo isso. Será que o Alm irante tam bém conseguia m anipular a água dessa form a? Gunnar disse que Cléo conseguia. Eu precisaria conversar com ela quando voltássem os, para tentar entender, para aprender a controlar, m esm o com toda a antipatia que sinto. Não alim ento ilusões de que conseguiria algo com o aquilo sem a aj uda da raiva que estava sentindo, e explodir canos não é algo que quero fazer acidentalm ente na m inha vida.
– Sy bil? – Hannah m e tira dos devaneios, levantando-se e coçando um olho, sonolenta. – Com o você está? Acordou faz tem po? Você quer água?
– Sim , por favor. – Fico surpresa ao perceber que estou rouca.
Observo enquanto a garota pega um a m oringa em baixo da cam a e enche um copo para m im . Bebo devagar, sentindo a um idade preencher m inha boca a cada gole, o frescor da água é um alívio para m eus lábios rachados. Bebo a garrafa quase toda desse j eito, m as quanto m ais bebo, m ais sede tenho.
– Com o está se sentindo? – Hannah pergunta novam ente, enquanto vai até um a das paredes do côm odo encher a garrafa.
– Dolorida. Minha cabeça está pesada e acho que vou m orrer de sede se você dem orar m ais um m inuto – respondo, sentando na cam a com as pernas para fora. Encosto no chão, analisando se consigo m e levantar, m as decido que vou cair se tentar. – Com o estão os outros? O que aconteceu? Tom am os tudo com sucesso? Todos se salvaram do incêndio?
– Beba devagar. – Ela m e entrega logo a m oringa inteira e bebo aos poucos direto do gargalo. Hannah se acom oda na cadeira onde estava e m e observa. – Você é m aluca, sabia?
– O quê? – Enxugo um fio de água que escorre da m inha boca com as costas da m ão e olho para ela, confusa.
– Você m al teve treinam ento para controlar o básico da sua m utação, aí seguindo um a ideia de Gunnar, que é outro louco, diga-se de passagem , decide que “Oh, vou tentar fazer esse negócio superespecífico que quase m ata m inha tia toda vez que ela faz para salvar essas pessoas em vez de procurar um a form a prática de tirá-los de lá, com o um a outra porta onde não tenha fogo” – ela dispara, im itando m inha voz de form a quase perfeita na últim a parte. Eu abaixo os olhos, constrangida. – Não, é sério! Porque existia outra porta. Existia outra form a que não fosse se m atar para salvar os outros.
– Desculpa – eu m urm uro antes de beber outro gole de água.
– Você não tem que se desculpar, só precisa ser m ais responsável com sua própria vida! – ela exclam a, cruzando os braços. – Você apagou com o um a cham a, assim , do nada, e achei que tinha m orrido. Estava tão pálida! E a gente não achava sua pulsação! Eu tive que te afundar na água até você voltar a respirar. Foi assim , ó, por pouco. Se não tivesse tanta água no corredor, você estaria m orta agora.
Olho para a pele ressecada da m inha m ão, considerando o que ela disse. Eu estou péssim a, é claro, porém não com o se eu tivesse quase m orrido. Mas a expressão de dor em seu rosto parece ser verdadeira.
– Não faça m ais isso – ela ordena, segurando m eu braço. – Por favor.
Concordo, fechando os olhos e m e sentindo burra. Penso im ediatam ente em Dim itri, Rubi e Tom ás. Com o eles saberiam da notícia, depois que tudo acabasse? Com o Andrei ou Leon iriam dizer para eles que eu estava viva até ser im prudente e m orrer por exaustão? E Andrei.... Meu peito aperta pensando em com o ele se sentiria, perdendo a m ãe e a nam orada em tão pouco tem po. O toque de Hannah fica m ais gentil. E ela tira a m oringa da m inha m ão e m e abraça. Encosto a cabeça em seu om bro e ela passa a m ão no m eu cabelo, gentilm ente.
– Mas estam os bem – m e consola. – Isso que im porta, não é? E você acordou, então podem os voltar logo. Aquele fogo destruiu o arquivo, m as nós tem os o general Rhy s, o sargento Oswald e os papéis da sala de com ando. No final, tudo deu certo.
– É – concordo, sem m uita confiança. – Quanto tem po fiquei desacordada?
– Só três dias – ela responde casualm ente e m e afasto, espantada. – O que foi? Cléo falou que poderia dem orar m ais, até dez. Ela tam bém orientou que eu passasse um pano m olhado na sua pele quatro vezes ao dia.
– Ela está aqui?
– Não, m andam os m ensagens para ela no centro de pesquisas. A m issão dela tam bém foi bem -sucedida.
– Isso é bom de ouvir. Tudo está cam inhando conform e o planej ado.
– Sim – Hannah diz, m as desvia os olhos de m im e sei que há algo de errado. – Vou buscar m ais água para você e depois te aj udo a tom ar banho, você precisa se m anter hidratada. Não saia daqui.
Eu a observo, curiosa, tentando descobrir o que está escondendo. Ela se inclina na torneira e enche a garrafa, levantando a cabeça quando vê que a observo.
– Sy bil? – ela m e cham a com o se fosse um a pergunta.
– Sim ?
– Gunnar m e disse com o você o trouxe de volta à vida – diz com um sorriso suave. – Muito obrigada.
Ela parece tão grata que sorrio de volta, deixando m inhas perguntas para depois.
***
Alguns litros de água e um banho frio bem dem orado depois, m elhoro. Meus m úsculos ainda doem , m as m inha pele parece m ais saudável, e em vez da sede descontrolada, sinto fom e. Hannah m ostra onde estam os, em um dos dorm itórios, e explica a nova dinâm ica na fazenda. A m aior parte das pessoas que vieram conosco vão ficar aqui para coordenar e defender o lugar, im pedindo o abastecim ento de Prom eteu e as possíveis tentativas de recuperar o controle da fazenda. Aos refugiados, foi dada a escolha de nos acom panhar ou continuar aqui, m as com suas próprias regras e organização. A m aior parte decidiu ficar, e no tem po em que fiquei desacordada, várias m udanças visíveis j á ocorreram . Um dos três prédios de aloj am ento foi pintado de azul vibrante, e o outro está a m eio cam inho de ser um verm elho extravagante, num a das prim eiras iniciativas para tornar o lugar m ais dos refugiados e m enos do governo.
– O que acontece agora? – pergunto para ela, observando um grupo de pessoas reforçar as cercas altas da fazenda.
– Nós levam os as provas para Prom eteu e as apresentam os no Senado. O depoim ento do general deve ser o suficiente para derrubar o cônsul legalm ente – diz, pensativa. – Junto com a pressão social, as coisas devem se resolver com m enos sangue do que eu previ.
– Mas ainda há Fenrir – lem bro e ela concorda. – E a cura. Com o vam os garantir que o próxim o cônsul não use isso contra nós?
– Idris está puxando suas cordas para garantir que o novo cônsul sej a com o nós querem os. – Hannah fala sem m uita convicção.
– E o cônsul atual, o que acontece com ele?
– Eu não sei, Sy bil – ela responde, exasperada, enquanto abre um a porta para eu passar. – Eu realm ente não sei nada além do que eu te disse.
Nós encontram os Hassam e Gunnar discutindo com um a m ulher um pouco m ais velha, vestida com um a m istura dos uniform es dos soldados e as roupas cinzas dos refugiados. Não vej o Juan ou Nara em parte algum a, m as suponho que estej am ocupados em outro lugar da fazenda. Nossos prisioneiros estão am arrados em um canto, sentados, e o capitão atual apenas observa a conversa com curiosidade. A m ulher olha para nós quando nos aproxim am os, e então volta a falar com os garotos.
– Olha, eu não estou pedindo nada de m ais: vocês j á têm o general, não precisam de Oswald tam bém – a m ulher diz, e Hassam balança a cabeça.
– Não vou deixá-lo com vocês, não im porta o argum ento.
– Você não entende! – Ela praticam ente cospe as palavras nele, arrum ando o cabelo liso e escuro atrás da orelha. Oswald, em seu canto, se encolhe, com o se estivesse assustado. – Você não sabe o inferno que era estar aqui enquanto ele estava no com ando.
– Eu im agino com o foi, Saira – Hassam apazigua. – Mas não é esse o tipo de vingança que vocês querem .
– Com o pode ter tanta certeza? – ela o desafia. – Im agine que eu sou sua irm ã, Hassam . Im agine todas as coisas que ele fez conosco com o se fossem com ela. Você não recusaria um pedido desses nessas condições.
– É exatam ente por pensar assim que eu não autorizo seu pedido – ele responde, apoiando as m ãos nas têm poras. – Eu não gostaria que m inha irm ã virasse um a assassina com o ele.
Saira tem um a expressão de que não se im porta com os grandes conceitos m orais de Hassam , m as parece saber que não vai ganhar a discussão. Ela xinga e passa a m ão pelo cabelo, bagunçando-o, frustrada.
– Sabe o que m ais m e irrita? – ela pergunta para o vento, m ovim entando as m ãos de form a expressiva. – O fato de que eu sei que ele vai contar tudo o que fez, colocar a culpa nas ordens que recebeu, e sair ileso, para viver a vida dele norm alm ente. É um a chance que nenhum de nós teve quando ele estava no com ando. Ele pode fingir o quanto quiser, m as gostava do que fazia. E não vej o com o é j usto que ele não sej a punido.
– Ele será punido – Gunnar dá um passo à frente, num tom incisivo. – Não tenha dúvidas.
– Vai? – Saira ri. – Por favor, m e m andem um convite para a prim eira fila se isso realm ente acontecer.
A m ulher sai com passos pesados e Hassam senta em um dos containers do galpão, enfiando a cabeça nas m ãos, parecendo cansado. Gunnar é o prim eiro a nos notar e se aproxim a em polgado, parecendo feliz em m e ver em pé.
– Você está bem ? – pergunta, colocando a m ão na m inha testa para ver m inha tem peratura. Olho para Hannah com o canto dos olhos e ela parece se divertir. – Me desculpe por sugerir que você fizesse aquilo, eu não sabia...
– Hannah tam bém te deu o serm ão? – Não consigo conter um sorriso. – Eu acho que estam os quites, j á que quase te m atei com os holofotes.
– Sim , eu dei o serm ão para ele – Hannah responde, revirando os olhos.
– Por três dias seguidos. – Ele tira a m ão da m inha testa. – Eu j á estava m e preparando para o quarto.
– Agora que Sy bil está bem , nós podem os ir. – Hannah ignora o tom de Gunnar e fala para Hassam , que balança a cabeça.
– Não posso deixar esse lugar desse j eito, nessa bagunça. Vocês podem ir na frente e levar os prisioneiros, eu vou depois que organizar tudo.
– Hassam , você nunca vai organizar tudo aqui. Deixe que eles se organizem – Hannah insiste. – Você será m ais útil conosco do que aqui.
– A m enina tem razão – o capitão finalm ente se pronuncia. – Vou deixar m inha unidade aqui para aj udá-los com qualquer problem a que tiverem , m as Saira foi eleita com o líder e parece ser capaz de cuidar bem das coisas. Não subestim e a capacidade que seus conterrâneos têm para a eficiência, Hassam .
– Mas e os soldados que foram presos? Sei que eles fizeram coisas horríveis, m as m erecem um a punição dentro da lei.
– É por isso que vou levá-los com igo para Prom eteu. As investigações devem dem orar um pouco, m as assim que o cônsul sair do poder, todos terão a punição que m erecem . – O hom em se levanta e cam inha até os prisioneiros enquanto fala. – Esses dois deveriam vir com igo tam bém , se não fosse o acordo com Idris.
Eu franzo a testa, confusa. Achei que esse hom em era um dos nossos, um dos m em bros do Sindicato, m as parece que não é o caso. Ele percebe m inha confusão e oferece um a explicação:
– Eu sou o Agente Dalibor Zupan, do Serviço de Segurança e Inteligência da União, tam bém conhecido com o Polícia Nacional. Nós estam os investigando as fazendas de refugiados há algum tem po, m as sem nenhum a prova concreta até vocês nos aj udarem .
– Você é do governo? – pergunto, cética. – Com o o cônsul autorizou isso?
– O cônsul não é o rei da União, existem outros poderes além dele – Dalibor explica, abaixando-se ao lado do general. – Mesm o que ele se esqueça disso constantem ente.
O general tenta falar algo, m as está am ordaçado, e Dalibor apenas sorri com a tentativa dele.
– Claro que o cônsul não sabe o que estam os fazendo para im pedir que seus m alfeitos continuem . Minha chefe tem conduzido investigações secretas há anos debaixo do nariz do cônsul e ele nem sequer percebe. – Ele parece satisfeito.
A conversa m uda de foco rapidam ente para o que precisam os fazer antes de partir, e Hannah pede a Gunnar que m e leve para com er algo. Sigo o garoto com a im pressão de que tem algo que não estou entendendo, algo que não percebo. Vam os para um refeitório e, enquanto com o, a sensação não m e abandona. Existem tantas forças em ação aqui, nessa m ovim entação para retirar o cônsul do poder, que todas as inform ações, por m ais irrelevantes que sej am , im portam . O que não faz sentido para m im é que um hom em tão poderoso com o ele não estej a ciente de que cada passo que dá é incerto, que cada deslize é um m otivo para os interessados no poder tirarem -no dele. Ele tem que estar m uito cego de vaidade para não ver que o passo que deu ao reduzir a liberdade dos anôm alos foi destruir a base do castelo de cartas em que seu poder está construído.
Gunnar se acom oda ao m eu lado com o olhar perdido e percebo que há algum a coisa errada, algo que não envolve o cônsul. Repouso a colher ao lado da tigela de sopa que estou tom ando e o cutuco com o cotovelo gentilm ente. Ele parece sair do seu devaneio e olha para m im .
– Tudo bem aí em cim a?
– Só estava pensando... – Ele balança a cabeça, passando a m ão no rosto. – Nem todo m undo tem a sorte que tivem os.
Suponho que fala das nossas experiências de quase m orte e olho para a sopa à m inha frente, sem saber o que dizer. O garoto suspira, com o se estivesse em negação.
– Hannah te contou? De Nara? De Juan? – ele pergunta casualm ente, m as consigo ouvir o peso em sua voz e antes que ele continue, e j á sei o que vai dizer. Toda m inha fom e vai em bora e sinto um aperto no peito, principalm ente quanto penso em Nara. No m eu silêncio, Gunnar continua: – Eles... eles foram pegos no incêndio.
– Sabem os quem iniciou o incêndio? – pergunto, espantada com a raiva que sai na m inha voz.
– Não, m as acham os que foi um dos soldados, um dos corpos que encontram os... Capitão Oswald explicou que o protocolo é destruir todas as inform ações e... – Gunnar esconde o rosto nas m ãos. – Me desculpe, eu não deveria estar falando sobre isso com você depois do que aconteceu.
– Alguém tinha que m e contar em algum m om ento – respondo, m e levantando. – Vou lá para fora observar a nova organização da fazenda, m e cham em quando precisarem de m im .
Isso, obviam ente, é um a desculpa. Preciso de tem po para pensar. Por que as m ortes aqui têm um im pacto tão m aior em m im do que as que vi em Kali? Por que m e sinto responsável por não ter im pedido o incêndio antes, m esm o que soubesse, agora, do preço que preciso pagar por usar m inha anom alia daquela form a? Por que sinto vontade de gritar enquanto cam inho, frustrada com o fato de que sem pre parece haver a necessidade de um sacrifício para que as pessoas possam ser livres?
No cam po, não encontro nenhum a das respostas de que preciso, observando o trabalho de form iguinha das pessoas na grande fazenda. Suspiro, fechando os olhos. Eu só quero que tudo isso acabe logo e que eu possa voltar para casa em paz, para Rubi, Dim itri e Tom ás.