A retomada da União
Capítulo 37
Recebo alta no dia seguinte, pela m anhã, antes m esm o dos m eninos acordarem , e os m édicos não m e deixam esperar para m e despedir, m as m e fazem prom eter voltar no dia seguinte para acom panharem o progresso do m eu olho. Não tenho coragem de m e olhar no espelho com m edo do que vou descobrir, porque, por onde passo, sinto todos m e encarando, tentando descobrir o que tem de errado no m eu rosto. Nós vam os de am bulância para Pandora e observo pela j anela as ruas depredadas, o lixo espalhado e as pichações de “FENRIR MORREU POR VOCÊ” com um em brulho no estôm ago, m as o m ais estranho é com o a cidade parece vazia, com o se não houvesse nenhum m orador. Som os deixados na frente de casa, e Tom ás m e recebe com um abraço que acho que vai m e partir ao m eio. Tenho certeza de que, se eu soltá-lo, vou acordar e descobrir que ainda estou escondida, fingindo que estou m orta. Mas Tom ás m e solta, com um sorriso de orelha a orelha e eu o im ito, sentindo m eu peito inflar.
Estou em casa. Finalm ente.
O hall de entrada, o corredor que leva para o andar de baixo, a escada que leva para os andares de cim a, tudo parece inalterado, com o se ainda fosse a m anhã do dia do m eu aniversário. À m inha frente, Tom ás está ainda m ais alto e fico surpresa em ver a som bra de um bigode se form ando sobre seus lábios.
– Você realm ente está viva! – ele exclam a com olhos lacrim ej antes e parece nervoso, olhando para os próprios pés. – Você vai ficar com a gente agora?
– Sim . – Olho para Dim itri e m eu tio nos abraça apertado, seu gesso apoiado nos om bros de Tom ás. Meu irm ão adotivo parece se acalm ar, encostando a cabeça no om bro dele.
– Vocês com binaram de engessar a m esm a m ão? – ele pergunta e eu dou um sorriso.
– Tom ás. Sua boca está suj a. – Eu faço um gesto para m eu lábio superior, contendo um sorriso quando o vej o esfregar o dedo no seu próprio lábio. – Continua suj o.
– E agora? – ele pergunta, preocupado, e Dim itri prende um a risada. O garoto nos solta e cam inha até o espelho do corredor e, quando vê seu reflexo, olha para m im indignado. Não consigo não rir e ele revira os olhos, cruzando os braços. – Você tam bém !? Não tem nem dois m inutos que você chegou em casa e j á está m e zoando.
– Senti sua falta – digo e o abraço de novo, parando ao seu lado no espelho.
Sinto m eu peito apertar quando m e vej o. Meu cabelo está um a bagunça, os fios rebeldes quase encostando no om bro, e m eu rosto parece m ais fino, m eu queixo m ais pontudo, o nariz m ais proem inente. Mas o que cham a atenção são m eus olhos: a íris de um deles continua o castanho de sem pre, m as a do outro está preta. Nesse, as veias verm elhas se destacam contra o branco com o se estivessem prestes a explodir, e m eu reflexo aperta os lábios até que eles fiquem pálidos.
– Venha, Tom ás – digo, desviando o olhar. – Me conte tudo o que aconteceu enquanto estive fora, não quero perder nem um detalhe sequer.
Tento ignorar m inhas preocupações enquanto o garoto m e conta os detalhes m ais banais do últim o m ês aqui, m as é im possível quando a ansiedade fica óbvia em sua voz, ao com entar sobre a Aurora, sobre dorm ir com m óveis na porta, com m edo de que invadissem a casa, de com o m al tinham coragem de sair para pegar a cota de com ida. Dorian, o gato, salta no m eu colo e eu o seguro cada vez com m ais força, m eus sentim entos oscilando entre a raiva de Fenrir e o m edo de que eu tenha im pedido a única chance de m elhoria para os anôm alos.
Rubi só chega à noite, e toda a tentativa de retom ar a rotina e a norm alidade é j ogada fora quando ela nos inform a que no próxim o dia será o velório de Naoki e dos m uitos que faleceram por conta do caos no plenário.
Estou tão infeliz durante o enterro que com preendo o desej o de Cassandra de m e poupar da dor que sinto. Não faço ideia se estou assim porque um a pessoa que eu considerava am iga m orreu ou por causa do sofrim ento ao m eu redor, m as m e sinto vazia por dentro. É um a coisa deprim ente, o funeral, com apenas eu, Rubi, Dim itri, Tom ás e o pai de Naoki. O único som que nos acom panha é seu choro constante, sua dor am plificando a m inha. A cerim ônia é patética, e gostaria que o senhor Saitou tivesse esperado pelos m eninos, m as entendo a necessidade de se livrar disso o m ais rápido possível. A ausência de Brian é com o um lem brete constante do cam inho que escolheu e, quando Tom ás pergunta por ele, Rubi diz a verdade: ele está preso, assim com o a m aior parte dos garotos acim a de 18 anos da Aurora. Quando finalm ente descem os o corpo de Naoki na cova, convenço Dim itri a m e levar para o hospital o m ais rápido possível, e usam os a autorização da Polícia Nacional que Rubi m e deu.
Quero ir ver os m eninos, m as antes preciso fazer um exam e que dem ora m uito m ais do que os outros e m e deixa vendo luzes por vários m inutos depois, além da visão em baçada, j á norm al. O m édico avisa que provavelm ente vou precisar fazer algum tipo de cirurgia para recuperar totalm ente visão e sinto que está escondendo algo de m im quando pede para Dim itri ficar no consultório para conversarem . Tento não ficar m uito nervosa e vou para o quarto dos m eninos. Quando chego, só Andrei e Áquila estão na enferm aria.
Vou direto até Andrei, e contenho m eu im pulso de abraçá-lo quando vej o que seu braço esquerdo e todo o seu tórax estão enfaixados. Seu nariz tam bém está com um curativo que o m antém no lugar. Eu apenas o beij o na bochecha, com m edo de m achucá-lo, e apoio a m ão esquerda em seu braço direito.
– Você pode m e abraçar desde que não aperte m uito – sugere, sua voz soando um pouco anasalada, eu dou um m eio-abraço estranho, tom ando cuidado para o m eu gesso não bater em suas bandagens. Ele m e puxa para perto com o seu braço direito e sussurra no m eu ouvido: – Só tom e cuidado com a coberta, não estou vestindo m uito além dela.
– Andrei! – exclam o, m e sentindo um pouco m ais feliz, e m inha m ão escorrega pelo lençol. Mordo os lábios para não rir. – Você está falando a verdade.
– Por que eu m entiria sobre algo tão im portante, Sy b? – Andrei brinca e abre espaço na cam a para que eu sente ao seu lado, em cim a da coberta. Ele levanta m eu queixo, passando um dedo pela m inha bochecha. – Quem fez isso?
– Felícia – falo baixinho e m e apoio em sua m ão, m e sentindo gelada só de pensar na garota. – Mas está tudo bem . Estou enxergando direito.
– E o gesso? Machucado novo ou antigo? – pergunta e, pelo seu tom , eu sei que só está m e deixando escapar com a m entira por enquanto.
– O antigo. – Ele parece aliviado com a m inha resposta. – E você? O que você tem ? Quando vai ficar bom ? Por que seu pai o deixou sozinho?
– Ele foi buscar Sofia. – Andrei pisca algum as vezes, atordoado com as perguntas. – E eles m e deram analgésicos, então não sinto m uita dor. E são queim aduras de segundo grau, acho? Não pegou nenhum nervo, m as dói feito o inferno quando os rem édios param de fazer efeito. O nariz, eles colocaram no lugar assim que eu cheguei. Foi horrível, m as durou dois segundos.
– E Leon? Com o ele está? Ele acordou?
– Sim , ele está bem , apesar de ter batido a cabeça. Os m édicos tam bém conseguiram reconstruir os danos no ouvido dele ou algo assim , ouvi nossos pais conversando. – Ele m e dá um beij o na ponta do nariz. – Fique calm a, nós estam os bem .
Mas ele vê que m eus olhos vão direto para a cam a à frente da sua e se afasta de m im , com um suspiro de im paciência.
– Áquila?
– Eu estou bem . – Sua voz sai rouca quando fala e precisa lim par a garganta um a vez antes de continuar. – Não se preocupe com igo, Sy bil. Não m ereço a atenção de nenhum de vocês.
– Mas... você nos aj udou – digo, confusa, e olho para Andrei, procurando por algum tipo de apoio, m as não encontro nada. – Não podem os te deixar assim , sozinho e...
– Sy bil, sou tão ruim quanto m eu pai. – Suas palavras saem am argas e cheias de ódio. – Se não fosse... se eu fosse m enos m edroso, não teria aj udado vocês.
– Você não precisa ser com o ele, Áquila, você fez algo bom ...
– Andrei. – Ele cham a a atenção do m eu nam orado. – Diga para ela com o estou certo. Diga para ela o que aconteceu com você na escola.
– Eu não digo o que Sy bil tem que achar ou não, Áquila – Andrei responde entredentes e sinto seu coração acelerado. – E ela j á sabe sobre a escola. O que isso tem a ver com você?
– Eu fui o responsável – ele fala, virando a cabeça para o lado, resignado. – Eu os convenci a te tratar daquele j eito só porque eu podia. Isso não é ser m au? Não é ser com o m eu pai?
– Você fez o quê? – pergunto, descrente, e Andrei trava o m axilar ao m eu lado, se contendo com o pode para não voar em cim a do prim o.
– Eu pediria desculpas, m as não seria o suficiente. E isso é só um a das coisas que fiz – ele diz e levanta os olhos para nós. – Então não venha m e oferecer redenção, porque não quero ser absolvido por nada. Estou pagando o preço que m ereço.
– Sy bil, deixe-o em paz. – Ouço Andrei sussurrar em m eu ouvido e desvio o olhar de Áquila, sentindo m inhas bochechas quentes.
– Mas eu só queria aj udar – sussurro de volta e ele arrum a m eu cabelo atrás da m inha orelha com sua m ão boa, fazendo um m alabarism o para poder encostar os lábios nos m eus sem m achucar seu nariz.
– Às vezes as pessoas não querem ser aj udadas, Sy b, e você precisa aceitar isso.
Eu aceito, por enquanto, e m udo de assunto delicadam ente, m encionando o velório de Naoki. Andrei parece triste e, quando Leon chega, não tenho coragem de m encionar a garota. Hassam está com ele e Laura, e os dois garotos parecem um pouco constrangidos enquanto a m ãe de Leon m e atualiza sobre o estado de saúde do filho.
Sofia e Charles chegam um pouco depois de Leon retornar à enferm aria, e a m enina parece m uito preocupada com Andrei, que desvia de todas as perguntas com brincadeiras e afirm ativas de que está bem . Charles se aproxim a da cam a de Áquila enquanto conversam os e vej o que o garoto o ignora enquanto o hom em pergunta com o está e tenta oferecer algum conforto.
Quando o horário de visitas term ina, encontro vovó Clarisse na saída e ela leva Sofia, eu e Dim itri para j antar. Dim itri a atualiza quanto ao m eu estado m édico e ela parece apreensiva, m as sua cabeça está longe. Acho que nunca a vi tão cansada nem tão distraída e, quando term inam os de com er e ela pede para que um a das am bulâncias nos leve até em casa, m e puxa para um lado.
– Você está bem ? – pergunto para ela, preocupada. – Não está dorm indo direito, suas olheiras estão im ensas. Está com endo bem ? Quantas horas está trabalhando por dia?
– Estou bem , querida – responde com um bocej o, coçando os olhos. – Tudo está bem próxim o de acabar. Petra e Maritza conseguiram um apartam ento para m im e para as m eninas enquanto estiverm os em Prom eteu, você sabia?
– Isso é ótim o – respondo, encostando em seu braço, tentando não alim entar esperanças de que isso signifique que ela não voltará a Kali. – As m eninas... elas estão bem ?
– Acho que nunca vi Carine tão feliz na m inha vida. – Dá um sorriso. – Você deveria vir nos visitar, quando puder. A propósito, Idris te falou da assem bleia? Ela acontecerá em três dias e eu acom panharei você e Hannah.
– Idris e Maritza não vão conosco? – pergunto, e Clarisse faz um gesto negativo. – Por quê?
– Eles não deixaram . – Ela faz o seu bico de desgosto. – Mas tenho certeza de que tudo dará certo. Nos verem os em breve?
– Estarei aqui todos os dias, vovó – digo, abraçando-a. – Quero te ver todos os dias até você voltar para Kali.
– Ah, quanto a isso... – ela com eça e eu m e afasto, vendo o sorriso em seu rosto. – Você vai ter dificuldades de fazer isso enquanto estiver estudando.
– Você vai ficar aqui!?
– Conversei com Idris e acho que sou m ais útil aqui. Mas precisam os arrum ar alguém para cuidar das m eninas em Kali...
Não deixo que term ine, abraçando-a, sentindo m eu coração inflar. Um a pequena centelha de alegria surge e não quero soltá-la, m as nossa carona chega e preciso m e j untar à Sofia e voltar para casa. Pelo m enos vam os ter m uito, m uito m ais tem po j untas de agora em diante.