A retomada da União
Capítulo 2
Um burburinho com eça na m ultidão quando a cerim ônia acaba e, de form a desordenada, a m assa de pessoas se abre ao m eio, deixando espaço suficiente para que um trem de m etrô passe. De um lado e de outro vej o que há um cordão form ado por pessoas, im pedindo que a m ultidão ocupe o espaço recém conquistado. Logo depois, um trio de policiais anôm alos, devidam ente fardados, sai, dando início ao cortej o fúnebre. De onde estam os, podem os ver os caixões levantados ligeiram ente acim a da m ultidão e, em certo ponto, notam os todos os carregadores no lado direito. A confusão aum enta conform e vão passando, todos querendo se aproxim ar e encostar na m adeira escura, com o form a de se despedirem de pessoas que nem sequer conheceram .
Nós ficam os no lugar, procurando por Hassam e Hannah, enquanto as pessoas com eçam a se dispersar, seguindo o cortej o. Os últim os a saírem da prefeitura são as pessoas “ilustres”, e quando Fenrir coloca o pé para fora do prédio, com o caixão do Alm irante Klaus sobre seus om bros, ocupando o lugar de m aior destaque, em detrim ento a todas as pessoas da fam ília do hom em , sinto raiva. Não é possível que sej a tão dissim ulado assim , que não só ocupasse a posição de honra de um a pessoa que m al conhecia, m as tam bém deixe que um estranho ocupe seu lugar na hora de carregar o caixão da m ãe de Andrei. Eles não eram am igos desde a infância? Ela não era irm ã da falecida esposa dele? Os dois trabalharam j untos por tanto tem po, o m ínim o que um a pessoa decente faria seria prestar um a últim a hom enagem a alguém tão im portante em sua vida.
– Respira – Gunnar m urm ura. – Garota, respira. Inspira, expira. Parece que você está prestes a m atar alguém .
– Estou bem – respondo entredentes.
Mas não estou. Tom ás, Rubi e Dim itri entram no m eu cam po de visão de um a vez, carregando m eu caixão em suas costas com dificuldade, envergados com o peso. Sinto um a dor no coração e fecho os olhos, pressionando m inha m ão quebrada contra o corpo, m urm urando m eu m antra. Por favor, que os meninos tenham falado a verdade para eles e que não sofram muito. Por favor, que isso seja o certo a fazer. Por favor, que tudo dê certo no final.
– Vam os em bora. Eles podem nos encontrar depois. – Meu guia encosta a m ão no m eu om bro, cham ando m inha atenção. – Tudo bem ?
– Tudo – respondo com um a voz falha, frágil, que não reconheço com o m inha.
– Funerais nunca são um a boa ideia – ele resm unga, com sua m ão apoiada nas m inhas costas para m e conduzir pelo cam inho sem m e perder.
Fico em silêncio, porque não há o que discutir. Eu não sei qual a finalidade de virm os aqui, de cutucar ainda m ais a ferida aberta. Hassam m e salvou da explosão e eu serei eternam ente grata por isso, m as a form a com o guarda segredos m e irrita. É óbvio que ele, Gunnar, Hannah e Maritza são algum grupo clandestino que tem um a infraestrutura exem plar, m as qual o obj etivo dessas pessoas? Eu m e contento com a proteção que oferecem e com a oposição à Fenrir, m as sinto falta da transparência, de que m e contem o que estão fazendo e por quê. Balanço a cabeça, deixando m inhas desconfianças para depois. Não é hora para isso.
Passam os por algum as ruas laterais para nos desvencilhar do grosso da bagunça, até sair em um a das ruas principais que levam para longe do centro da cidade. Nós ouvim os os gritos antes de verm os o grupo de pessoas aglom erado na entrada de um prédio abandonado, suas palavras indecifráveis se m isturando um as com as outras, num a cacofonia de ódio. Eles carregam paus e pedras e, não deixo de perceber: quase todos estão com cam isas am arelas. Gunnar para abruptam ente, segurando m eu braço para im pedir m eu avanço quando a porta do prédio se abre e um grupo de rapazes sai de lá, arrastando um dos agentes vestidos de preto que vi no telhado m ais cedo. Um dos garotos está com um a arm a grudada na cabeça do hom em , o dedo no gatilho indicando que está pronto para usá-la. Meu queixo cai quando reconheço o rosto dele.
Brian.
O cabelo verm elho está cortado quase rente à cabeça, e sua feição está distorcida em ódio, m as não há dúvidas de que é o garoto que m e acolheu tão bem quando cheguei aqui. Sinto um aperto no peito e quero m e m eter no m eio do grupo para arrastá-lo dali, m as estou paralisada. É com o se esse Brian e o que conheci fossem duas pessoas diferentes, dois gêm eos idênticos com tem peram entos distintos, m as o rapaz grita algo e a voz é conhecida. Não há dúvidas de que quem segura a arm a é o m eu am igo.
– Fique aqui – Gunnar ordena, estalando os dedos. – Não cham e atenção para você. Eu resolvo isso em dois m inutos e então seguim os.
– Gunn... – tento cham á-lo, m as ele j á está no m eio do cam inho, andando com passos largos e precisos, provavelm ente calculando o que precisa fazer.
Os anôm alos circulam o hom em , que está deitado no chão, com a arm a na cabeça, provavelm ente trem endo de m edo. O paralelo com o que aconteceu com igo dias atrás não m e escapa, quando um dos colegas do hum ano m e deu a m ão quebrada de presente, além de ter atirado contra um a senhora que não tinha nada a ver com a história. Acho que parte de m im deveria se sentir vingada com a situação reversa, m as só m e sinto exausta. Estou tão, tão cansada, com o se finalm ente tudo o que aconteceu nos últim os dias tivesse m e atingido em cheio, cobrando seu preço.
– Olha só, um a bosta de hum ano. O que um a criatura com o você acha que está fazendo aqui, na nossa cidade? – Escuto um a das garotas do grupo dizer, com noj o palpável na voz. – Não basta vocês m atarem e ferrarem a gente, ainda querem vir aqui, cheios de bossa, com o se m andassem em tudo?
– Acho que ele pode servir de exem plo. Esses filhos da puta estão m uito cheios de si, achando que podem chegar aqui assim , sem sofrer nenhum a consequência – Brian fala, substituindo o cano da arm a na cabeça do hom em pelo seu pé. Sinto m eus j oelhos cederem e m e sento no m eio-fio, incapaz de fazer algo além de observar a cena. – Nós poderíam os fazer igualzinho fizeram com a Sy bil. Vocês não tiveram m isericórdia dela, tiveram ?
– O que vocês vão fazer? – um a voz vacilante pergunta e, quando sigo o som , vej o Naoki j unto com eles, destoante do grupo com seu vestido am arelo de verão. Ela parece tão horrorizada quanto eu, e encara Brian quando ele entrega a arm a que segura para ela.
– Não, não tem graça se ele não voltar para casa vivo, chorando, com o rabo entre as pernas. A gente quebra a fuça dele e m anda de volta. – O ódio em sua voz é tão diferente do tom j ovial que sem pre usa. – Você não quer se vingar pelo que fizeram com Sy bil?
– Por favor... – A voz fraca do hum ano ganha um pouco força. – Só estou cum prindo ordens, eu tenho filhos e...
– Ninguém falou com você – a prim eira garota diz, e dá um chute na cabeça do cara, acertando exatam ente o nariz. Ele urra de dor, e a garota se abaixa, segurando-o pelo pescoço contra o chão, e eu m e encolho, em solidariedade. – Você precisa saber seu lugar, hum ano. Nós vam os m ostrar exatam ente a m esm a m isericórdia que vocês m ostraram conosco.
Eu m e viro, m e sentindo enj oada enquanto escuto os gem idos de dor do hom em e a exaltação do grupo. Eu não sei o que m e incom oda m ais, saber que eles estão dando um a punição em m eu nom e, saber que m eus am igos estão usando-o para vingar m inha m orte falsa, ou sentir que, se esse hom em fosse o que m e atacou, eu acharia pouco o que eles estão fazendo.
– Ei, vocês aí! – Ouço a voz de Gunnar gritar, m as, quando m e viro, vej o que ela sai de um hom em alto com feições com o as de Naoki, vestido com um a roupa igual à do hum ano. – Parem com isso se não quiserem ser presos. Só darei um aviso.
– E você acha que m anda em nós? É m uita babaquice para um a raça só – Brian diz, cruzando os braços. – Venha nos pegar se acha que...
Gunnar, observo, tem essa m ania feia de não deixar que as pessoas term inem suas frases. Antes que o garoto conclua, ele j á está no centro da roda, se m ovendo absurdam ente rápido, e seu punho fechado atinge em cheio o rosto do adversário, derrubando-o de um a vez. Eu m e encolho, com sentim entos conflitantes. Ele aproveita o m om ento de surpresa dos outros para j ogar o hum ano sobre seu om bro e sair correndo. Todos estão estupefatos dem ais com o que aconteceu para reagirem e, quando percebem que perderam seu alvo, com eçam a gritar e perseguir Gunnar.
Mas m al com eçam a correr e, de um prédio m ais para frente, outro grupo sai arrastando dois agentes hum anos. Parecem surpresos ao ver os am igos em um a perseguição, m as logo se j untam . Não consigo m ais ouvi-los e tenho m edo de m e aproxim ar, então espero, ansiosa, que Gunnar volte. Eles sabem onde os hum anos estão e os recolhem , um a um . Não há o que fazer para salvar todos eles, então é m elhor voltarm os para nossa base e tentarm os um a nova abordagem .
O barulho de risadas de satisfação soa alto quando despem os dois agentes, um hom em e um a m ulher, e os obrigam a cam inhar na rua na frente deles, um a arm a apontada para a cabeça de cada um . O hom em está trem endo tanto que parece estar prestes a desm aiar, e, depois que um garoto grita que ele irá m orrer em breve, o hom em faz xixi de m edo, virando alvo de m ais piadas. É patético e hum ilhante e eu não consigo desviar os olhos, em choque.
– Nós podíam os fazer algo m ais... extravagante – um dos garotos diz, enquanto passam por m im com o se eu não existisse. Eu acho que o vi antes, na escola, e sinto noj o. – Sabe, nós tem os poderes. Podem os usá-los.
– O que você quer fazer, Josh? Colocar fogo neles?
– Parece um bom plano.
Acho que nenhum deles, tirando o tal Josh, esperava pelo que acontece a seguir: do nada, as cham as brotam do chão sob os pés dos dois hum anos, subindo pelas suas pernas rapidam ente, levando os gritos dos dois a um nível inim aginável. Os sons agudos e desesperados cortam m eu coração, e o cheiro de cabelo queim ado vem logo a seguir, os dois correndo desesperadam ente na direção para onde a m ultidão estava. Apesar do susto, o grupo de anôm alos ri. Eles riem com o se fosse a piada m ais engraçada do m undo, com o se duas pessoas correndo nuas em cham as pela rua fosse algo que fizessem por diversão no tem po livre. Pela segunda vez, em tão pouco tem po, eu m e curvo sobre o asfalto e vej o o conteúdo do m eu estôm ago se acum ular na m inha frente, m ais um fedor para se m isturar ao odor de carne queim ada.
Eu tenho certeza de que nunca m ais vou conseguir com er carne na vida.
Ainda consigo ouvir os gritos das vítim as, m esm o à distância, quando Gunnar volta, usando seu disfarce do velório. Parece preocupado quando m e vê sentada no m eio-fio, suada, e os restos do m eu café da m anhã no asfalto ao m eu lado. Ele se abaixa e analisa se há algum ferim ento.
– O hom em está bem , apesar de m achucado – diz baixo.
– O m esm o não pode ser dito sobre as duas pessoas que eles acabaram de queim ar vivas – respondo, am arga, e o garoto abre a boca e fecha, sem saber o que dizer.
– Eu sinto m uito.
– Eu tam bém .
E ele tem que m e carregar de volta para o esconderij o, porque nem sequer tenho forças para m e levantar.