A retomada da União
Capítulo 33
Nenhum de nós tem coragem de cham ar Gunnar, e eu m e sento ao lado de Leon, Áquila e Naoki enquanto analiso a situação. Ver a corda pendurada m e em brulha o estôm ago e dem oro a perceber que era um pedaço de um a escada de cordas. Com certeza essa é um a rota de fuga do Senado, e Fenrir im aginou que Idris poderia usá-la, deixando Cléo com o um aviso. Não há com o subir sem a aj uda de Gunnar e m e concentro em Naoki, sentindo sua testa febril com um a das m ãos.
– Sy bil? – Leon m e cham a baixinho e eu m e inclino em sua direção. Ele estende a m ão e para a m ilím etros do m eu nariz, soltando o ar devagar. – Fale algo.
– Leon? Você está bem ? – Obedeço e ele sorri, aliviado.
– Você respira alto – diz, baixinho, e estala os dedos perto do ouvido algum as vezes. – Minha audição está voltando.
– Que ótim o! – digo, segurando sua m ão e ele parece bastante satisfeito. – Estam os esperando Gunnar.
– O quê... O quê aconteceu? – Leon pergunta. – Onde estam os? O que é esse cheiro forte? Alguém se m achucou?
Eu luto para encontrar palavras para respondê-lo, m as antes que encontre um a boa resposta que não sej a “Cléo é um a traíra, m as Fenrir é pior”, Áquila solta um grito e se afasta de Naoki com o se ela o tivesse atacado, colidindo contra m im e Leon. O som dos dentes da garota rangendo tom am o túnel e ela com eça a convulsionar, seus olhos entreabertos m ostrando apenas a parte branca. Ela grita de dor, com o se estivessem rasgando-a de dentro para fora, e Áquila nos em purra para longe, com o se ela fosse perigosa. Leon cobre os ouvidos com m edo, m as Naoki não tem força para usar sua anom alia. A garota puxa o ar com ferocidade, lutando para respirar.
– Ela desistiu – Áquila fala, com um a delicadeza inesperada, e sinto com o se estivessem esm agando m eu coração no peito.
– Sy bil? – Naoki cham a, sua voz saindo fraca. Eu troco de lugar com Áquila, m e aproxim ando da garota. Sinto Leon m e seguir, poucos centím etros nos separando.
– Naoki? – seguro sua m ão, olhando para seu rosto, assustada. Mesm o com a pouca luz com a qual Gunnar nos deixou, consigo ver seus olhos verm elhos e a palidez excessiva. – Naoki, não fale. Guarde energia, você não pode desistir.
– Sy bil... Leon? Oh, vocês estão bem . – Ela fecha os olhos, apertando m inha m ão sem força. – Eu não consigo. Me desculpa.
– Shh, você consegue. Não fale m uito, Áquila pode te aj udar.
– Não, Sy bil, não, eu não vou aguentar. Dói... m uito. – Ela gem e e se encolhe em torno da barriga. – Eu quero voltar a ser feliz.
– Naoki...
– Eu só... quero voltar a ser feliz – repete com dificuldade.
– Shh, j á passou. Daqui a pouco fica tudo bem .
– Eu estava... tão sozinha – continua, m e ignorando. – Mas não... estou m ais. Obrigada... por m e trazerem ... com vocês.
– Naoki. – Leon encosta a m ão no m eu om bro e entendo que ele quer segurar a m ão da m enina tam bém , m as não consegue encontrá-la. Eu o guio e ele aperta nossas m ãos na sua, m uito m aior do que as nossas. – O que aconteceu com você?
– Leon... eu podia... ser m ais forte. Ser... um a am iga m elhor. Me desculpa. – Ela fecha os olhos, m ordendo os lábios até sair sangue enquanto um a onda de dor a faz trem er novam ente. Leon segura nossas m ãos com m ais força. Ao nosso lado, Áquila se dobra, soltando um gem ido de dor.
– Naoki, não! – Leon fala, desesperado. – Não, Naoki, sej a lá o que tiver te controlando, você precisa lutar. Eu sei que não era você, por favor. Eu não vou te odiar, só não vá em bora. Naoki...
Fico em silêncio enquanto a vej o desistindo, vej o o poder de Felícia vencer o de Áquila, enfraquecendo o garoto e fragilizando o corpo de Naoki, que entra em convulsão novam ente com o um a punição por ter resistido. Vej o sua respiração se acelerar até um nível im possível e, de repente, parar, com o se seu coração houvesse adorm ecido, seu corpo descansando, enfim . Leon a cham a num balido, com o um filhote perdido da m ãe, e eu preciso abrir seus dedos com algum esforço para que ele a solte. Eu o consolo com o posso, sem forças para nada além de segurá-lo. Prim eiro Cléo, depois Naoki. Fenrir e Felícia podiam fazer o que quisessem com igo, m as não sem que eu causasse um estrago terrível em seus planos. É o m ínim o que posso fazer.
Áquila nos dá espaço, m as assim que Leon m e solta e afunda o rosto nas m ãos, o garoto ocupa o lugar de Leon, com respeito quase nulo pelo m eu espaço pessoal. Seus lábios não passam de um a linha fina no rosto, e o hem atom a na bochecha faz m etade do seu rosto parecer feito de som bras.
– Você sabe algo sobre Felícia que não quer contar – ele diz em um quase sussurro.
– O quê?
– Ela fez algo com Naoki e com você, e eu consegui contrabalancear. Com o você sabia disso? – pergunta e eu m e afasto, esbarrando na m ão de Cléo e m e sentindo claustrofóbica.
– Foi... um chute – respondo, hesitante, e ele faz um som de desdém .
– Balela! Você sabe algo. E eu... senti. Com você e com Naoki, senti com o se houvesse um pouco da vontade dela em vocês, eu não sei. Mas não é igual à m inha anom alia – fala, pensativo. – Se fosse, eu saberia.
– Que diferença faz se eu sei algo ou não? – falo, na defensiva, e m e levanto, querendo ir para longe do corpo das duas.
Ele parece ponderar m inhas palavras por alguns segundos e seus olhos desfocam , com o se estivesse m uito concentrado. Fico com m edo de que o próxim o a cair m orto sej a ele, m as a visão do garoto logo se foca em m im , com um a expressão vulnerável.
– Eu queria um a explicação para o que Fenrir fez. – E sei que ele não está falando da explosão ou de nos prender, do assassinato de Klaus, de nada disso.
É m inha vez de ficar calada. Ele abaixa a cabeça, levando a m ão inconscientem ente para sua bochecha. Considero as palavras de Victor em m inha cabeça, as que usou quando explicou o que Felícia pode fazer. Ela não inventa nada, ela só m ostra ou inibe. Então, o com portam ento de Naoki não foi algo que ela criou, foi algo que despertou. Se Fenrir bateu em Áquila, teve algum a influência dela, não foi algo com pletam ente inventado. O potencial estava ali. Escolho m entir a aprofundar sua dor.
– Eu não sei de nada, Áquila – respondo e vej o que ele não acredita, m as não pressiona por m ais inform ações.
Junto-m e a Leon, que está inconsolável, e tento enxugar suas lágrim as com o posso, sussurrando bobagens para acalm á-lo. O garoto sorve o ar com dificuldade e tento m anter a calm a, porque sei que se eu m e desesperar com o ele, nossas chances de sair daqui dim inuem . Gunnar se aproxim a de nós, fungando, lim pando o rosto com as costas das m ãos e para quando vê a cena, seus om bros se curvando com o se carregasse um a tonelada.
– Nós voltam os para buscá-las depois – quebra o silêncio, apontando sua lanterna para a escotilha. – Sy bil, eu te levanto prim eiro e você aj uda Leon e o outro garoto. Depois eu subo e estam os prontos.
Não há m uito que discutir, e Gunnar m e levanta com o se eu não pesasse nada. Apoio-m e nas bordas do buraco e puxo m eu corpo para cim a, causando um a pontada dolorida no m eu pulso ruim . Arfando, m e j ogo para o lado e desabo no chão. Pisco várias vezes até m e acostum ar com a diferença de claridade e reconheço as paredes recobertas de tecido verm elho, com detalhes dourados do Senado. Várias portas de m adeira escura ladeiam o corredor, e não há nenhum indício de atividade, nenhum sinal de vida. A m ão de Áquila aparece e eu o aj udo a subir com algum a dificuldade. Ouço os grunhidos de Gunnar m ais abaixo, e ele em purra Áquila de um a vez, que cai de form a desengonçada em cim a das próprias costelas, com um gem ido de dor.
O próxim o é Leon, e ele agarra m inha m ão boa com força quando vou aj udá-lo, quase m e arrastando de volta para o túnel de acesso. Gunnar o em purra duas vezes antes que o m eu am igo consiga subir, e ele parece desnorteado. Vej o as m arcas de sangue em sua cam isa e fecho os olhos, m e sentindo culpada por deixar o corpo de Naoki para trás. Gunnar o acom panha logo depois e dem oram os algum tem po para nos recom por.
Leon enxuga o rosto com as m ãos, sua respiração lenta, tentando se controlar.
– Para onde nós vam os agora? – questiona.
– Destruir Fenrir – Gunnar explica, com o se fosse sim ples assim , e se levanta de um a vez, forçando Áquila a se levantar com ele. – Você sabe onde ele deve estar, não sabe?
– A-acho que s-sim . – Áquila hesita, olhando para m im com um pedido de aj uda nos olhos. Gunnar ignora a apreensão do garoto e faz um gesto com a cabeça para levantarm os.
– Então você vai nos guiar. – Seu tom não dá m argem para discussões e Áquila assente fracam ente, apontando a direção que devem os seguir. Gunnar m al espera que nos levantem os antes de voltar a cam inhar, seus passos cheios de propósito assassino, e sei que ele seria capaz de m atar Fenrir com as próprias m ãos se o encontrasse agora.
Bem , ele teria que entrar logo atrás de m im na fila.