A retomada da União
Capítulo 39
Estou com o sentim ento m ais am argo do m undo quando, dois m eses depois, sou obrigada a m e sentar nas fileiras de cadeiras reservadas aos heróis do Levante de Verão, no palco m ontado em um parque de Pandora, para assistir enquanto entregam um a m edalha ridícula para Áquila pelos serviços que seu pai prestou à União. O nom e que deram ao acontecim ento m e dá vergonha, e toda a pom pa e circunstância em que o fazem m e deixa desconfortável. O sol está em seu ápice e quero que ele m e derreta e m e im peça de ter que assistir a essa cerim ônia. Mal consigo enxergar com essa claridade, m eu olho esquerdo ainda extrem am ente sensível depois da segunda cirurgia, e aperto m eus olhos, tentando discernir as pessoas na m ultidão. Ao m eu lado, Andrei afasta a gola de sua cam isa de m anga com prida do pescoço para ventilar m elhor, m as está suando em bicas, sem poder subir as m angas para não prej udicar a cicatrização do seu braço queim ado. Leon e Hassam estão logo atrás de nós: Leon com os braços cruzados e Hassam com os olhos de águia, atentos a tudo ao nosso redor.
– Alguém m e lem bra por que estam os aqui m esm o? – Leon sussurra atrás de nós e Andrei dá um a gargalhada curta e am arga.
– O ego de Fenrir é tão grande que precisa ser m assageado até depois da m orte – Andrei responde e eu contenho o m eu sorriso.
Acho que qualquer pessoa m ais atenta percebe que a única que parece satisfeita com a cerim ônia é Felícia, sentada na frente do palco em que estam os, com seu sorriso felino. Eu im agino com o a garota deve parecer trágica, tão j ovem , tão pálida, com a prótese branca no lugar de um dos braços. Eu não faço ideia de com o Felícia ainda está solta, m as assim que a vi, procurei Jorge Cruz no seu lugar com o chefe da segurança do evento, e ele se desculpou falando que tinham indícios de que ela havia sido m anipulada para colaborar com Fenrir. Eu quase gargalhei na sua cara, dizendo que eles com certeza foram m anipulados por ela, m as m e contive. Eu m e senti m al por ela quando descobri que os acontecim entos no plenário culm inaram em seu braço am putado por causa do congelam ento, m as assim que vi a m aneira com o os novos amigos dela, todos ex-m em bros da Aurora, se com portavam com o robozinhos ao seu redor fiz questão de elim inar qualquer pretensão de em patia.
Com o se não bastasse Felícia livre no m undo para exercer sua anom alia de psicopata, todos os m em bros da Aurora foram absolvidos, e professor Z detido em seu lugar. As alegações de que usou da sua influência com o educador para fazer lavagem cerebral nas crianças, de que ele era o culpado real pela explosão no dia do Com ício, de que era responsável pela am eaça de bom ba na Prova Nacional o levaram direto para a cadeia, sem previsão para sair. Ele é um ser horrível, m as dá um gosto am argo vê-lo sendo preso por crim es que Fenrir e o cônsul Fornace com eteram . Acho que é m ais fácil apontar um culpado para ser punido do que assum ir a verdade.
Por m ais que m e irrite, eu entendo que o Senado está fazendo o possível para acalm ar os ânim os. Nenhum cônsul foi eleito ainda e o governo provisório, encabeçado por três senadores de partidos diferentes, está sendo pressionado de todos os lados para resolver o núm ero crescente de problem as que surgiram quando o cônsul Fornace foi afastado do poder por Fenrir. É quase com o um a hidra: cada cabeça que eles cortam faz com que duas surj am no lugar. O bloqueio às Cidades Especiais foi retirado, sim , m as em seu lugar surgiu a dificuldade de abastecê-las e de fazê-las voltar a funcionar com o antes. Os refugiados ganharam acesso às suas fazendas, m as não há consenso entre eles e o Governo quanto ao preço dos alim entos. Ainda há m uito a ser feito, m as pelo m enos o Senado parece disposto a agir.
Encaro Felícia com intensidade, m esm o que não consiga enxergá-la bem , querendo que m eu olhar a faça cair m orta. De algum a form a, no últim o m ês, ela conseguiu ser elevada a um patam ar de quase santa, a garota que desafiou seu próprio pai em nom e da liberdade para os seus iguais.
Se eu não tiver sucesso, Hannah, sentada logo atrás da m enina, com certeza conseguirá, porque é só esbarrar na cadeira de Felícia para que ela caia na m ultidão abaixo de nós. Gunnar senta ao seu lado, m ortalm ente entediado, e estam os só nós aqui em cim a, com o se vovó Clarisse, Idris ou todos os outros que nos aj udaram , Rubi e a Polícia Nacional, os m em bros do Sindicato, não im portassem . Eles escolheram os m ais quebrados para trazer para cá e construir um a historinha que os agradasse. Que graça tinham duas velhas e pessoas com treinam ento salvando os anôm alos? Tragam os adolescentes, quanto m ais m achucados, m elhor!
– Você está prestes a explodir algo, se acalm e – Andrei sussurra para m im .
– Percebe que vam os ter que fazer isso para sem pre, pelo resto das nossas vidas? – eu lem bro, apontando para todo o circo em que estam os. – Nós vam os ter que vir aqui e ouvir pessoas falando sobre com o Fenrir era m aravilhoso, com o ele vom itava arco-íris e algodão-doce enquanto nós sabem os a verdade.
– Mas olhe para Áquila. Ninguém está sofrendo m ais do que ele. – Andrei aponta para onde seu prim o está sentado, sozinho, no m eio do palco, e, se eu não o conhecesse tão bem , diria que há um a pontada de pena em seu tom . – Ele tem um a m edalha de “parabéns pelo seu pai babaca”. Sem pre pode ser pior. Fico em silêncio e pego o leque que vovó Clarisse m e entregou antes de subirm os aqui, usando-o para tentar aliviar um pouco nosso calor, e contenho um sorriso quando alguém da plateia parece decepcionado por não ter tido a m esm a ideia. Andrei se inclina na m inha direção para pegar m ais vento.
– Vam os nos distrair. Quem achar a m aior quantidade de pessoas com verrugas no nariz ganha. – Ele m e desafia e olho para ele, escondendo m eu sorriso com o leque.
– Na plateia? Eu não enxergo m ais tão bem assim – falo, com um m uxoxo, e Andrei exibe um a m istura de vergonha e raiva, e tam bém fuzila Felícia com o olhar. Eu encosto a cabeça em seu om bro. – Tá tudo bem , obrigada por tentar.
Ele concorda, desanim ado, e, quando a cerim ônia com eça, m e concentro intensam ente nas pessoas m ais próxim as da plateia. Em bora não consiga ver com nitidez, percebo a satisfação que sentem , com o se a j ustiça finalm ente estivesse sendo feita e, quando Áquila é cham ado ao pódio para discursar e se m ove até lá com aj uda das suas m uletas, as pessoas clam am pelo nom e de Fenrir; o cântico se espalha pela m ultidão com o um a peste. O garoto finalm ente chega ao m icrofone:
– Meu pai era um a pessoa... determ inada. – Ele parece escolher bem as palavras. – E sentia que seu obj etivo final era com andar todos os anôm alos rum o a um a vida m elhor. Eu acho... que ele ficaria orgulhoso de receber essa honra. Muito obrigado.
Não chega nem perto do discurso que estavam esperando, e, sem j eito, o m estre de cerim ônias cham a Felícia para falar a seguir. Minha atenção se volta inteiram ente a ela quando para no púlpito e observa a m ultidão. Ela percebe m eu olhar e sorri para m im , com o se com partilhássem os um segredo.
– Eu era um a m enina assustada sob o dom ínio do m eu pai, que m e odiava m ais do que qualquer outra coisa, quando conheci Fenrir. Ao longo do tem po em que convivem os, ele m e aj udou a entender m elhor o que significa ser anôm ala, o que significa ser especial. Ele foi com o o pai que nunca tive, que m e recebeu com o sou e m e ensinou o que é respeito, com preensão e autoaceitação. – Ela faz um a pausa, abraçando a prótese contra o seu corpo. – E não deixo de m e orgulhar ao ver que o seu m aior obj etivo foi cum prido: ele fez um a diferença para nós. Fenrir entendia que não im portava o preço que precisasse pagar, a liberdade é m ais im portante. E quando saím os daqui para exigir nossos direitos no Senado, ele estava disposto a dar a vida se fosse necessário. Felizm ente, estam os aqui reconhecendo a im portância, agradecendo pelos seus esforços. Mudam os o plano que m eu pai tinha para nós, destruím os sua ideia de país.
– Olhe para ela. – Ouço Hassam com entar atrás de m im . – Roubando todo o crédito para Fenrir.
– Eu não duvido nada se Fenrir arquitetou a própria m orte – Leon acusa, e quero responder que não acho que ele seria capaz disso, que ninguém finge m edo tão bem com o ele dem onstrou em seus últim os segundos de vida. Que sej a lá quem m andou m atá-lo, não deve ter antecipado o im pacto que isso teria.
Felícia continua seu discurso, focando em com o seu pai era um ditador, e eu m e sento na beirada da cadeira, observando-a. Ela está radiante, com o se fosse exatam ente isso o que queria. “Mudam os o plano que m eu pai tinha para nós, destruím os sua ideia de país”, foi o que ela disse. Lem bro da briga com ela no plenário, em que disse que só im pulsionou Fenrir para a ideia que j á tinha, de com o m encionou o próprio pai, e abro e fecho a boca, m e sentindo extrem am ente paranoica. Mas e se... e se tudo isso só aconteceu por que ela pressionou um hom em contra o outro? E se o assassinato de Fenrir foi a últim a ordem que o cônsul deu, sob o dom ínio de Felícia?
Me sinto cada vez m ais nervosa. Essa garota de rosto angelical só tem 15 anos de idade! Minha m ente deve estar m e pregando peças, porque essa teoria é insana e duvido que alguém acredite nela. Balanço a cabeça para m e distrair e percebo que a cerim ônia está no fim , ainda bem . Não adianta nada conj ecturar esses fatos sobre os quais nunca vou descobrir a verdade, porque se eu nunca m ais vir Felícia, ainda assim vai ser cedo dem ais.
Quando descem os do palco, som os recebidos por um a m ultidão de j ornalistas, m as fuj o com Andrei para m inha casa, onde nossas fam ílias com binaram de alm oçar, e som os os prim eiros a chegar. Eu m e j ogo no sofá, colocando m eus óculos de sol num a m esa de canto, e Dorian pula no m eu colo, alheio a toda a m inha irritação.
– Estou fervendo – Andrei reclam a, arrancando sua blusa e procurando um a regata na m ochila. A pele de seu braço e de parte do seu tórax está bem m elhor, m as ainda está enrugada e rosada, as cicatrizes que terá no futuro cada vez m ais aparentes. – O discurso de Felícia foi sinistro.
– Nem m e fale – digo, pressionando a m ão nas têm poras, frustrada. – Tenho a im pressão de que ela é pior que Fenrir.
– Pelo m enos não tem os m ais nada a ver com ela, e nem vam os ter. – Ele encontra a blusa que procurava e a veste, se sentando ao m eu lado com cuidado para não encostar o braço m achucado no tecido do sofá. Dorian pula do m eu colo para o dele, se esfregando em sua barriga. Andrei leva a m ão direita ao pescoço do gato, fazendo carinho nele.
– Talvez... – Hesito e Andrei olha para m im , intrigado. – Eu recebi um convite. Para fazer parte da Polícia Nacional. E estive pensando m uito nisso desde que saí da assem bleia.
– Você não pode estar pensando em entrar para o serviço m ilitar. – Ele franze a testa. – Sy bil! Você fugiu de Kali para não participar de nada disso.
– É diferente. – Olho para m eus próprios pés. – Não é o Exército, a Marinha ou a Aeronáutica, é um a força especial. E eu tenho escolha, dessa vez. Se não quiser, posso seguir e ser, sei lá, garçonete ou sorveteira.
– Ou cientista, ou senadora, ou qualquer outra coisa que você quiser – ele enfatiza. – Se você quiser fazer artesanato para vender nas estações de m etrô, você pode. Há opções ilim itadas.
– E um a delas é essa – digo e, quando levanto os olhos, vej o com o ele não consegue entender. – Esquece. Eu não devia ter falado sobre isso agora.
– Não, Sy b, eu só... não faz sentido. Isso é por que você não se acha boa o suficiente para fazer outra coisa? Você é boa em tudo...
– Não é isso, Andrei. É só que sou ótim a em sobreviver em situações absurdas e bolar planos de últim a hora e talvez eu goste de fazer isso. – Levanto-m e, arrum ando o cabelo escuro atrás da orelha inconscientem ente. – Mas ainda tenho um ano para decidir sobre isso, eu só queria... que você soubesse que estou pensando no assunto.
Quando Andrei não responde, m e viro e o vej o brincando com o gato, sem prestar m uita atenção, seus pensam entos distantes. Quando percebe que o observo, levanta o rosto, dá um sorriso que parece um pouco forçado, e sinto um aperto no coração.
– Vocês vão querer aj uda a em pacotar as coisas da m udança? – pergunto, na tentativa de m udar de assunto.
– Acho que sim , m as... – Ele suspira e sua voz soa um pouco quebrada, seus om bros encurvados. – Ninguém tem coragem de m exer nas coisas da m inha m ãe ainda. A gente... é difícil. É difícil ficar dentro de casa e lem brar dela.
– Eu im agino – falo, consolando-o. – Mas vocês j á acharam o apartam ento novo, agora está m ais perto do que antes.
– Mas ir para um lugar onde ela nunca esteve... – Ele esconde o rosto no m eu cabelo, m e abraçando. – Dói.
– Andrei. – Eu encosto o nariz na sua bochecha, apertando-o contra m im . – Você pode ficar aqui o quanto quiser, você sabe disso.
– Ah, antes que eu esqueça! – Ele se afasta, com um sorriso forçado no rosto. – Estava encaixotando as coisas do m eu quarto quando achei um negócio... – Ele se levanta e enfia a m ão na m ochila, tirando um em brulho de presente do bolso m aior. – Não tivem os tem po desde o seu aniversário então... aqui está seu presente. Feliz aniversário m uito atrasado!
– Oh, eu tam bém tenho um presente para você. – Me lem bro, de súbito, e faço um gesto para que ele espere um segundo antes de subir as escadas e revirar m eu quarto atrás do pacote. Finalm ente, o encontro num a bolsa e o aperto contra o peito quando m e recordo de que estava com Zory a quando o com prei. Desço pulando os degraus e, quando volto para a sala, Andrei está sentado novam ente no sofá. – Pronto.
– Nossa, fiquei com vergonha do m eu presente agora. – Ele se levanta novam ente, dessa vez com um sorriso genuíno, e nós trocam os os pacotes.
Eu fico na ponta dos pés para beij á-lo e, depois, nós dois com eçam os a abrir os em brulhos quase em sincronia, m as ainda estou com o gesso e Andrei acaba prim eiro. Ele encara a j aqueta no seu colo por alguns segundos e tenho certeza de que odiou, então paro o que estou fazendo para encará-lo, enquanto ele a desdobra e sente o couro entre seus dedos.
– Você é im possível! – ele fala com um sorriso na voz e eu m e aproxim o, recebendo o agradecim ento que eu queria. – Assim que eu ficar bom , você pode ter certeza de que não vou vestir outra coisa. Você quer aj uda?
– Por favor. – Eu seguro o pacote enquanto ele o desfaz com cuidado, revelando um a caixinha e, quando ele a abre, vej o um a correntinha prateada com um a pedra azul com o pingente. Fazem os um m alabarism o para que ele segure a caixa enquanto pego a corrente e sinto a superfície lisa entre m eus dedos, sem conseguir conter m inha felicidade. – É lindo, Andrei.
– É um a água-m arinha. É m eio brega, porque eu e você tem os anom alia de água, m as achei parecido com você. Não sei, a cor da pedra... ela m e acalm a. Que nem quando estou com você – ele tagarela e eu fico na ponta dos pés novam ente, fazendo-o se calar com um beij o.
– É perfeita – respondo e ele sorri enquanto pega a corrente das m inhas m ãos e tenta colocá-la no m eu pescoço. O cabelo gruda no fecho e precisam os fazer um a dança esquisita para ele tentar m e desgrudar e, quando vej o, nós dois não conseguim os parar de rir, m esm o com todo o sofrim ento dos últim os m eses. Ele finalm ente consegue prender o fecho e dá um beij o na m inha bochecha.
– Pronto – ele sussurra. – Está devidam ente no lugar.
– Obrigada – eu digo, encostando a cabeça em seu om bro.
– Você sabe do que eu estava lem brando outro dia? – Ele entrelaça sua m ão na m inha. – Já faz m ais de um ano desde que você chegou aqui.
– Só isso? – pergunto, surpresa. – Ah, é verdade. Fez um ano m ês passado.
– Eu queria não ter sido tão preciso com m inhas boas-vindas. “Bem -vinda ao inferno”, que tipo de babaca diz isso?
– Fiquei assustada, m as achei bonitinho – explico e ele balança a cabeça, com um a risada, encostando a testa na m inha.
– Deixa eu aproveitar a oportunidade para m e corrigir: bem -vinda aos m elhores anos da sua vida, Varuna. Aproveite a j ornada.
Eu sorrio e encosto o nariz na sua bochecha, fechando os olhos. Espero que estej a certo dessa vez. Espero que o últim o ano se torne nada além de um a m em ória ruim , que pode até ser relem brada todos os anos, m as que está no passado. Porque por m ais que sej a frustrante ver Fenrir ser reconhecido, ele está m orto, e eu estou viva.
E por m ais que tenham os conseguido alguns avanços, ainda tem os um longo cam inho pela frente.
Você terminou A retomada da União
Bárbara Morais
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