A retomada da União

Bárbara Morais · Capítulo 29 de 39

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A retomada da União

Capítulo 29

 

Espero até que Rubi estej a dorm indo, abraçada nas próprias pernas, para m e aproxim ar de Áquila e sussurrar m inha ideia. O garoto olha para m im com o se eu fosse louca e sussurra de volta, apontando inconsistências. Nós tecem os o plano assim , sob o olhar raivoso do cônsul e, quando estam os nos últim os detalhes, m e sobressalto com o estrondo da porta da sala se abrindo.

Olho na direção do barulho e sinto m eu sangue gelar quando vej o Brian e Naoki entrarem no côm odo, os dois com as cam isas am arelas que vi o exército de Fenrir usar. Minha am iga tem os olhos baixos enquanto dá água para o cônsul, e Brian j oga alguns pacotes m etálicos na nossa direção, de form a descuidada. Áquila é lento dem ais para desviar ou segurar o seu, que o acerta exatam ente onde seu supercílio está cortado, e eu olho para Brian de form a quase assassina. É óbvio que ele fez de propósito. Am bos agem com o se fôssem os m obílias e eu m e levanto, cruzando os braços.

– Quanto tem po – digo, e Naoki levanta o olhar rapidam ente, se atrapalhando com as m ãos e derrubando um pouco de água na roupa do cônsul. – Fico feliz em ver que estão bem .

– Sy bil... – Naoki se afasta do prisioneiro, m as não olha na m inha direção em nenhum m om ento. Brian vai até ela e segura seu braço, oferecendo apoio, e sussurra algo que não escuto.

– Brian, Rubi m e contou o favor que você fez a ela – continuo, usando todo m eu autocontrole para parecer calm a. – Muito obrigada m esm o por colocar m inha fam ília nas garras de Fenrir. Nunca um am igo m e fez algo tão bom quanto isso.

Naoki encara Brian com um a expressão de choque e o garoto dá de om bros enquanto troca o balde por um lim po. Naoki volta a m e fitar e vej o com o está confusa, sem nenhum a ideia do que fazer agora. Ela se aproxim a e sinto m inhas m ãos trem erem , incerta do que vai acontecer. Ela tem todo o direito de ficar com raiva dessa vez, porque nós a deixam os para trás de form a deliberada. Brian é o único am igo que lhe restou, e se ela está aqui, agora, a culpa é m inha. Ela para à m inha frente e estica a m ão devagar, encostando onde Fenrir m e bateu.

– Você está viva – ela sussurra e eu engulo em seco, assentindo. – Quando m e disseram ... eu não acreditei...

– Naoki. – O tom de Brian é de repreensão e a garota se assusta. Eu seguro sua m ão e sinto sua pulsação acelerada nos dedos. Não faço ideia do que fizeram com ela, m as é óbvio que está aterrorizada. – Lem bre-se das regras.

– Me aj ude – m exo os lábios, de form a que Brian não m e escute ou vej a, e ela balança a cabeça. – Por favor.

O rosto de Naoki se contorce, com o se estivesse sentindo algum a dor em bora ela não pareça nem um pouco m achucada. A garota se aproxim a m ais de m im e tira algum a coisa de um de seus bolsos, segurando m inha m ão m achucada, pressionando algo um pouco m aior do que m inha palm a contra m inha pele. Abro e fecho a boca quando vej o a arm a de choques que estava em m inha m ochila. Ela usa seu corpo para m e esconder de Brian, m e dando tem po para guardá-la em baixo da m inha blusa folgada.

– Naoki, ela fez a escolha dela e você a sua. Ela quis nos trair e se j untar à ralé, e você está no cam inho certo – Brian fala com um tom um pouco m ais persuasivo, se aproxim ando dela e encostando as m ãos em seus om bros de form a carinhosa. O olhar de Naoki desliza entre m im e ele, e em bora não queira soltá-la, deixo-a ir, sentindo o coração pesar. – Vam os.

– Diga a Fenrir que preciso falar com ele – ordeno, encarando Brian, que dem onstra desdém . – É sério. Eu tenho algo que ele quer e se ele descobrir que você o atrapalhou, vai te punir.

– Fale com ele você m esm a – Brian rebate, puxando Naoki na direção da porta. – Porque ele virá te buscar em breve. Se eu fosse você, com eria algo antes. Você vai precisar.

Eu escorrego pela parede até m e sentar quando eles fecham a porta, dobrando os j oelhos e pegando o pacote que está um pouco à frente de m im . Sinto os olhos de Áquila e do cônsul observando cada m ovim ento e tenho dificuldades em conter o m edo enquanto tento abrir a em balagem . O que Fenrir quer com igo agora? Com o a carne seca e os biscoitos que vêm no pacote sem prestar m uita atenção no que estou fazendo e percebo Rubi pelo canto de olho, ainda dorm indo.

– O plano pode continuar – Áquila diz, baixinho. – Ele provavelm ente te cham ou para m ostrar algo que vai te aterrorizar. Não deixe ele ver que está com m edo ou se aproveitará cada vez m ais.

Concordo e ele m e im ita, abrindo seu pacote e com endo o conteúdo em silêncio. Se passam m ais de 250 m inutos até que a porta se abra novam ente e Felícia entre no côm odo, fazendo um a careta com o fedor. Não m e escapa a expressão de noj o que tem quando vê seu pai em um dos cantos, com o se a m era presença dele ali a incom odasse, e ela faz um gesto para que eu m e levante e a siga. Obedeço sem reclam ar, m as Felícia finca as m ãos em m eus braços novam ente e sussurra m ais um a ordem em m eu ouvido para que eu não fuj a. Mesm o que fugir não sej a m eu plano, tento lutar contra a sensação que m e dom ina, sem sucesso, e a sigo contente, com o se estivéssem os indo para um passeio.

Não voltam os para a sala do prefeito – em vez disso, vam os para um salão no m esm o andar da cela e, assim que entram os, entendo que é o lugar de onde o prefeito faz pronunciam entos quando aparece na televisão. Fenrir está na varanda e o sol poente faz com que sua som bra pareça im ensa dentro do côm odo; o hom em parece um anão em com paração. Felícia m e guia com a m ão nas m inhas costas, com o se eu fosse um a convidada e estivesse aqui de boa vontade, e param os ao lado de Fenrir.

Essa provavelm ente é a m elhor vista de Pandora: a cidade se espalha preguiçosam ente ao nosso redor, bairro atrás de bairro, com seus prédios e casas idênticas, até chegar a Prom eteu. As pessoas vestidas de am arelo se m ovim entam com o form igas pelas ruas m ais próxim as e, abaixo de nós, a bagunça da praça é evidente. Mas há um espaço vazio e lim po, no centro, e observo confusa a m ovim entação de pessoas da Aurora que vão e vêm , carregando obj etos grandes e desengonçados e despej ando-os lá. Felícia vê m inha confusão e dá um a risada fina que parece um tilintar.

– Ainda falta m uito? – ela pergunta para Fenrir, com um a ansiedade que a faz soar infantil. Fenrir parece se divertir.

– Tenha paciência, Felícia – diz, se m ovendo para sair do nosso cam inho. – Nós querem os que tudo estej a perfeito para Sy bil, não querem os?

– Se você diz – responde, dando de om bros.

– O quê... – com eço a falar, m as quando sinto o olhar dos dois sobre m im , fico acanhada.

– Não, continue. – Fenrir faz um gesto com a m ão, gentil.

– O que você está fazendo? – pergunto, observando o deleite com o qual recebe a pergunta.

– O que estou fazendo? Estou garantindo nosso futuro, Sy bil – ele responde de um j eito orgulhoso. – E quero m ostrar para você que não im porta o que tentem fazer, eu vou triunfar no final.

– Duvido. Você não sabe o plano de Idris. – Junto toda a m inha coragem para responder, m as pronta para qualquer reação violenta que ele tiver. Em vez disso, Fenrir gargalha.

– Sua tia m e fez o favor de contar tudo. Inclusive, deveria agradecer a Idris por fazer m etade do m eu trabalho, ela sem pre foi bem prestativa nesse sentido. – Ele olha para a praça m ais um a vez, com um a postura relaxada. – Felícia, anote isso. Não esquecer do papel de Idris. Por m ais que estej a tentando m e atrapalhar, ela m erece algum crédito depois.

– Certo. – Felícia revira os olhos, irritada. – O que m ais eu preciso anotar, Fenrir? Um lem brete para que você não conte o seu plano para qualquer pessoa que te dê atenção?

Estou desconfortável por ficar entre a disputa de poder dos dois, e fico m ais surpresa ainda quando Fenrir é o prim eiro a desviar o olhar e Felícia cruza os braços em desagrado, com o um a rainha que foi desobedecida. Inconscientem ente m e afasto da garota na direção de Fenrir, porque se ela é alguém a quem até ele tem e, com certeza não é um a pessoa segura.

– E se eu te disser que Cléo não sabe o plano real de Idris? Que Idris sem pre soube que Cléo era a infiltrada que vazava inform ações para você e, deliberadam ente, a fez acreditar no plano errado? – j ogo a isca e vej o a postura de Fenrir m udar quase im ediatam ente. A intensidade do ódio em seu olhar faz com que eu m e encolha e Felícia segura m eu braço com força, pronta para usar seu poder se necessário.

– Você não teria com o saber isso – ele diz com um a voz baixa, perigosa. – Você é só um a pirralha, Idris nunca confiaria em você.

– Quem disse? – digo em desafio, sentindo m inhas pernas trêm ulas. As chances da m inha m entira dar errado são m uito, m uito grandes. – Você pode perguntar para Cléo, Idris m e adotou com o secretária pessoal dela e eu a acom panhei em todos os m inutos de todos os dias. Cléo não esteve na m aior parte deles.

– E por que ela te m andaria para cá, logo para m im ? – ele pergunta com desdém .

– Porque ela sabia que você não m e m ataria. Ela precisa de m im para o plano dar certo – blefo, m eu coração se acelera. É esse o m om ento, se ele acreditar em m im as coisas vão dar certo. Se não... estam os todos ferrados.

– E por que você m e contaria isso se não fosse parte do plano dela? – Ele parece se divertir com m inha falta de lógica e eu olho para m eus próprios pés, deixando um pouco do m eu nervosism o transparecer.

– Quero que você solte m inha fam ília. Dim itri e Rubi. Hannah tam bém . E m e prom eta que não vai fazer nada com o pai de Andrei, nem com m eus am igos, se eu te aj udar. – Minha voz soa fraca e ele interpreta m eu m edo de form a com pletam ente diferente, soltando um a gargalhada.

– Você está traindo as pessoas que te salvaram para proteger quem você am a? – Fenrir balança a cabeça, se divertindo. – Vocês gostam de posar de nobres, de que nunca fariam algo fora dos padrões m orais que têm , m as, no final, basta pressionar um pouquinho que vocês cedem .

– Eu não vim até aqui para você rir na m inha cara. Aceite ou recuse m inha proposta e aí conversam os – falo entredentes, fingindo irritação, m as no fundo estou im pressionada por ele cair na m inha história tão rápido.

– Se eu não soubesse que seu m aior m edo é esse, perder todo m undo que você am a, eu não acreditaria em você. – Ele e Felícia trocam olhares e a garota faz um pequeno gesto com a cabeça. – Você sabe que se eu recusar, todos vocês estarão m ortos de qualquer form a. E, não im porta m inha escolha, você não sai disso viva.

– Não m e im porto de não sair viva. – Sinto m eu coração acelerado e engulo em seco. – Só m e prom eta que todos os outros vão ficar bem .

Um grito vindo de baixo cham a nossa atenção e não recebo nenhum a resposta. Fenrir se inclina na varanda, seu sorriso predatório se abrindo no rosto, e faz um sinal para que nós nos aproxim em os. Eu não quero, m as Felícia m e guia delicadam ente e não posso correr enquanto não fechar o acordo. Repasso m entalm ente o plano que inventei para Idris. E preciso contar para Fenrir algo que o tire com pletam ente do cam inho da líder, ao m esm o tem po em que m e dê plena oportunidade de fugir.

Mas quando olho para baixo e percebo o que está acontecendo, dou um passo para trás, sendo im pedida por Felícia. Finalm ente entendo o sorriso sádico no rosto de Fenrir e seguro o braço da m enina, incerta de com o proceder. São dezesseis corpos, todos estirados no m eio da praça. Há sangue seco em suas expressões vidradas e em suas calças verde-oliva, m anchando de vinho suas blusas coloridas e o calçam ento da praça. Conheço cada um deles porque eram da m inha equipe quando saím os da fortaleza em direção a Pandora, e m inha garganta se aperta, m e obrigando a desviar o olhar. Professor Z está parado na frente deles com um a expressão falsa de luto, e aos poucos a praça fica em silêncio quando o vê ali. Consigo ouvir a respiração de Felícia e de Fenrir ao m eu lado, que estam pam sorrisos ao ver o m eu horror diante da cena.

– Essas pessoas – professor Z com eça, gritando em um m egafone, sua voz ressoando pelos prédios ao redor da praça – são anôm alos fugitivos, pessoas que estavam escondidas do governo por não concordarem com as prisões em que eles nos m antêm ! Quando descobriram nosso esforço, entraram em contato para vir nos aj udar e foi assim que foram recebidos pelas forças hum anas, pelo exército do cônsul! Mortos! Cada um deles!

O som de ultraj e percorre a praça nos xingam entos, nos gritos de revolta, a indignação é palpável. Sinto-m e enoj ada, porque com certeza parte dos que estão ali participou da m atança e sabe que aquilo é m entira, que eles foram os responsáveis por aquelas m ortes. Com o alguém consegue viver sem tom ar responsabilidade pelas pessoas que m atou?

– Mas nosso dia está próxim o! – ele grita, e as pessoas urram de volta. – Em dois dias m archarem os por Prom eteu e tom arem os a glória para nós. Quando Fenrir estiver no poder, nunca m ais precisarem os andar com a cabeça baixa, nunca m ais precisarem os nos esconder! Finalm ente poderem os ser livres! Cada um a dessas vidas irá valer a pena e nós os farem os pagar pelo que fizeram .

E então, a coisa m ais aterrorizante acontece: eles com eçam a gritar o nom e de Fenrir em uníssono. Fenrir! Fenrir! Fenrir! Suas vozes se espalham , cada vez m ais altas, estridentes, alteradas e percebo que, aos poucos, se viram na direção de onde estam os. Fenrir se endireita e Felícia m e puxa para trás, para que eu saia do cam po de visão. Quando o hom em levanta um braço, as pessoas reagem com o se estivessem sendo abençoadas e ele faz isso três vezes seguidas, cada um a arrancando um a reação m ais intensa que a anterior.

– O dia está próxim o! Vocês estão com igo? – ele grita e, apesar de não usar nada para am plificar sua voz, ela ressoa por toda a praça. – Juntos vam os assistir a aurora de um a nova era.

Eles entram em êxtase, cantando o nom e do político enquanto nós voltam os para o salão; Fenrir exultante com a form a com o consegue m anipulá-los. Seu sorriso de dentes afiados é de orelha a orelha e percebo que ele tem um a m ultidão de pessoas à sua disposição que fariam qualquer coisa que pedisse, porque acreditam que ele realm ente é a solução. Sinto m inhas m ãos geladas e seguro na barra da blusa para controlar a trem edeira. Mesm o que eu consiga fugir, que consiga libertar m inha fam ília, se Fenrir com pletar seu plano, não terem os lugar para ficar. Ele nos caçaria até o fim do m undo.

Felícia m e senta em um a cadeira, m e dá um copo de água, e eu a encaro, confusa. Ela faz um sinal para que eu beba, com o se estivesse tudo bem , m as exam ino a água antes de obedecê-la. Observo Fenrir tirar algo de dentro da boca e j ogar em cim a da m esa, esm agando-o com a m ão. Percebo que é algum dispositivo eletrônico enquanto ele se senta, cruzando as pernas de form a relaxada.

– Você sabe, Sy bil, a m elhor parte disso tudo? – Fenrir pergunta, contente. – É que professor Z nem anôm alo é. Ele é um a dessas aberraçõezinhas que nascem em fam ílias anôm alas de vez em quando, tão sem poder quanto qualquer hum ano desprezível.

Engasgo-m e com a água e sinto a m ão de Felícia nas m inhas costas, com o se ela quisesse m e aj udar. Bem , apesar de não ter nenhum respeito pelo livre-arbítrio alheio, pelo m enos ela é gentil. Fenrir se diverte com m inha reação e se inclina, ainda anim ado com toda a idolatria da Aurora.

– E eu aceito. Me conte tudo sobre o plano de Idris que eu solto sua fam ília e aquela garota – ele diz e eu o encaro, surpresa. Esperava que ao m enos ele fosse consultar Cléo, m as deve estar se sentindo invulnerável o suficiente para confiar em m im sem se garantir.

– Você os solta prim eiro – exij o, tirando forças não sei de onde. – E depois eu te conto.

Fenrir leva a m ão ao queixo, m e analisando. Felícia cruza os braços ao m eu lado, com o se estivesse im paciente, e eu olho para m eus j oelhos, torcendo para que ele aceite. O único som dentro do côm odo são os gritos vindos de fora, clam ando o nom e de Fenrir com o se fosse um grito de guerra. Ele se m ove um m ilím etro e prendo a respiração.

– Tudo bem . Mas se eu descobrir que está m entindo para m im , eu os trago de volta e os m ato na sua frente antes de te m atar – ele fala de m aneira casual, com o se am eaças de m orte fossem algo que fizesse diariam ente, e eu hesito. Estou apostando alto dem ais, arriscando tudo o que tenho na esperança de ter um pouco de sorte. Mas, por fim , assinto, sentindo um peso no m eu peito quando aperto a m ão do hom em .

O paralelo com a vez em que o conheci no Centro de Apoio após a m issão na ilha não escapa, m as repito para m im que quem propôs os term os fui eu. Que tenho o controle da situação. Eu tenho as inform ações com pletas, não ele. Se da prim eira vez o segui cegam ente pelo cam inho que ele queria, agora é m inha vez de guiá-lo. É isso que m e dá forças para voltar para o cárcere sem reclam ar, sob o olhar atento de Felícia e de sua anom alia que m e m anda não tentar fugir.