A retomada da União
Capítulo 4
Hassam e Hannah chegam e encontram Gunnar ansioso, cam inhando pelo pequeno espaço com o um tigre enj aulado. Estou encolhida em um canto, abraçada à m inha m ochila, roendo as unhas de preocupação. Não sei se o tem po passa diferente aqui em baixo, m as eles dem oraram dem ais, a ponto de nos perguntarm os se havia acontecido algo.
Hannah parece abalada e j oga seu lenço em um dos cantos da sala de form a rebelde, sob o olhar reprovador de Hassam . O silêncio que fica enquanto m ovem os Victor até um a m aca im provisada é pesado e incôm odo, com o se algo terrível tivesse acontecido, com o se os dois irm ãos estivessem escondendo isso de nós. Estam os prestes a abandonar o local quando Maritza entra, aliviada por ainda nos encontrar ali.
Hassam se aproxim a da m ulher rapidam ente, enchendo-a de perguntas sussurradas, todas variações de “Com o você está?”. Maritza responde com um gesto para que se cale, com seus om bros encurvados e sua expressão exausta. Ela deve ser da idade da m ãe de Andrei – um pouco m ais velha do que o Alm irante era –, m as com bolsas escuras em baixo dos olhos e postura encurvada, m e parece m uito m ais velha que vovó Clarisse. Sua pele está am arelada, com o se estivesse doente, e seus lábios estão m achucados em um dos cantos, provavelm ente de tanto m ordê-los.
– Não aguento ficar um segundo m ais nesta cidade – ela diz, fechando os olhos e m assageando as têm poras. – Idris enviará outra pessoa para acom panhar os outros; eu irei com vocês.
Ninguém tem coragem de responder, e Hassam , Hannah e Gunnar se m ovim entam coordenadam ente, colocando m ochilas nas costas e organizando o esconderij o, com o se j á tivessem feito isso m ilhares de vezes antes. Paro ao lado de Maritza, apoio m inha m ão boa em seu braço, e ela a segura, apertando-o de form a reconfortante.
– Você está m elhor do que eu esperava – declara, olhando para m im pelo canto dos olhos. – Com o está sua m ão? Parou de doer?
– Os rem édios que vocês m e deram dim inuíram a dor, sim . Estou preocupada com Victor.
– Nós não podem os arriscar e ir buscar aj uda – ela fala, olhando para onde o garoto está deitado na m aca, com a m esm a respiração difícil. – Mas assim que chegarm os à fortaleza, vocês dois irão direto para a ala m édica. Eu m e preocupo com a sua m ão, não podem os arriscar que seus ossos cicatrizem de form a errada. Seria terrível ter que quebrá-los novam ente só para arrum á-los.
– Já foram duas vezes, m ais algum as não vai fazer diferença – falo, am arga, e Maritza ensaia um sorriso, apertando m inha m ão m ais um a vez.
– Maritza? – Minha voz soa pequena, hesitante.
– Sim ?
– Os outros... Leon e Andrei... – eu com eço. – Eles vão nos encontrar m esm o? Você falou com eles?
Ela suspira pesadam ente. Junto com o m eu resgate espetacular, Hassam havia trazido Leon e Andrei para cá após a explosão, em algo que pareceu estranham ente com um recrutam ento. Eu não tenho m uita escolha, porque não sei o que fazer agora e nem para onde ir. Maritza havia deixado claro que, se eu voltasse, estaria indo direto para as garras de Fenrir, principalm ente por saber com o ele age. Mas e os garotos? Eles poderiam vir conosco ou ficar em Pandora, a escolha é deles. Eu m e preocupo com Andrei porque não consigo im aginá-lo deixando seu pai para trás num a situação tão difícil. Não consigo im aginá-lo se j untando a um grupo que m al conhece sem questionar tudo, com o eu. A reação de Maritza m e deixa nervosa, porque parece confirm ar m inhas suspeitas.
– Leon disse que estará esperando no local m arcado em dois dias, com toda certeza – ela responde, e sinto m eu coração pesar. – Quanto ao outro... não tive coragem de perguntar.
Agradeço silenciosam ente enquanto a observo se afastar, apressando os outros.
Hannah é a últim a a deixar o esconderij o, equilibrando o peso de quase todas as m ochilas em seus braços, apagando a luz e trancando a porta ao sair. Gunnar e Hassam dividem a m aca que carrega Victor, sem nenhum a preocupação em não balançá-lo m uito. Maritza segue na frente, e sua pele se ilum ina com um a luz esverdeada que perm ite que vej am os um pouco à frente na escuridão dos túneis de m etrô abandonados. Todos nós estam os com várias m ochilas pesadas, cheias de m antim entos, cobertores e m edicam entos. Parece que não há intenção de voltar aqui tão cedo.
Nós cam inham os em um ritm o constante, virando à esquerda em um a intersecção, num túnel com um a grande placa que diz: INTERDITADO: NÃO ULTRAPASSAR. Os pelos da m inha nuca se arrepiam com o vento frio que sopra constantem ente, a um idade gruda na m inha pele com o um a cam ada de suor. Os trilhos são irregulares neste túnel, com várias carcaças enferruj adas e retorcidas nos acom panhando por todo o cam inho. O único cheiro que consigo distinguir é o de m ofo, e sinto m inha garganta se fechar, tornando a respiração difícil. Para onde estam os indo?
Maritza para abruptam ente e nós a acom panham os, apreensivos. O silêncio que se segue é quase sobrenatural, m e dando calafrios. Nem o ar se m ove. Depois, escuto o que assustou Maritza: o som constante e ritm ado da m archa de soldados. Ele está aum entando, cada vez m ais próxim o, e sinto m inha palm a suar.
– Mari! – Hannah sussurra, assustada, e Maritza se apaga, nos deixando na escuridão.
Estico a m ão e encosto nas costas tensas de Hassam . Tenho certeza de que consigo ouvir nossa respiração pesada e coração acelerado. Sej a lá quem está vindo, irá nos encontrar e nos pegar, e eu vou ter adiado m inha m orte em apenas quatro dias.
A luz chega prim eiro, clara com o o sol, m e fazendo encolher e cobrir os olhos. Consigo discernir um grupo com o o nosso, de cinco pessoas, que entra no túnel com um a precisão trem enda, e seus passos ecoam com o trovões. Me encolho atrás de Hassam , esperando a hora em que vão nos encontrar, m as ela não vem . Meus olhos se acostum am um pouco com a escuridão, e fico surpresa em ver não os soldados hum anos que eu esperava, m as garotos de blusa am arela.
– Realm ente existe, eu achei que era m entira – um a das garotas diz, se afastando do grupo e cam inhando em nossa direção. Prendo m inha respiração e Hannah m e segura, tão apreensiva quanto eu. – Uau, parece que ninguém passa aqui há um m ilênio.
– Traga a luz até aqui. – A voz de um dos rapazes ecoa pelo túnel, e a luz se m ovim enta alguns m etros m ais para frente, ilum inando o cam inho que iríam os seguir.
Pisco algum as vezes e Maritza faz um sinal para andarm os para trás, devagar e sem fazer barulho, grudados à parede. Com a quantidade de coisas que estam os carregando, é um a m issão quase im possível, principalm ente com Victor entre Hassam e Gunnar.
– Um entroncam ento de três túneis, exatam ente com o ele disse. – O com entário ecoa pelo túnel. – O da esquerda vai para fora, o do m eio, para dentro, o da direita leva ao abism o.
– Eu odeio, odeio, odeio m uito com o ele insiste em tentar ser poético o tem po inteiro. – Quando ouço a voz, paro m eu progresso lento para trás, surpresa. Faz m ais de três m eses desde a últim a vez em que fui à escola, m as eu reconheceria a voz de Any a, a trem e-terra, em qualquer lugar. O que ela está fazendo aqui!? – Por que só não diz: três túneis, o que vocês querem é o do m eio?
– Não teria graça – alguém responde. – Vam os, precisam os continuar o reconhecim ento antes de voltar para a base. Não querem os que ninguém nos descubra antes da hora.
– Eu ainda não entendi por que Fenrir quer tanto conhecer esses túneis – Any a com enta, e alguém m anda que faça silêncio.
Maritza faz um sinal para pararm os novam ente e observam os em silêncio enquanto a luz e os garotos desaparecem pelo túnel do m eio. Quando não conseguim os m ais ouvi-los, solto a respiração e nos desgrudam os da parede. Estou trem endo de nervosism o e ainda m ais confusa. Aprendi a reconhecer os adolescentes vestidos de am arelo com o integrantes da Aurora, m as... Fenrir!?
– Eu achei que ia m orrer – Hannah com enta baixo. – Nós não podem os m ais usar os túneis, Mari.
– Vam os, se apressem . Eles podem voltar a qualquer instante e estam os quase na nossa base.
A cam inhada que resta é tensa e pegam os o túnel da esquerda, finalm ente chegando no que um dia foi um a estação de m etrô, com um a plataform a coberta de detritos, as colunas de sustentação esverdeadas, com líquen e teias de aranha pendendo do teto. Mas não é isso que m ais m e cham a a atenção; é o veículo que está parado ao lado dela. Só consigo vê-lo quando Maritza sobe em cim a dele, intensificando o brilho da sua pele e destacando os contornos do carro contra a escuridão. Há quase nada além da estrutura de m etal: não existem portas ou cobertura e, das quatro fileiras de bancos, um a está fechada para ser um espaço de carga. Hassam e Gunnar deitam Victor no últim o banco, firm ando-o com um a corda.
– Sy bil, tom e. – Maritza m e entrega um a lanterna. – Eu preciso abastecer o carro e deixá-lo pronto para sair. Você pode aj udá-los a obstruir o túnel?
Fico confusa por alguns instantes, até perceber que os garotos e Hannah estão em um dos cantos, enchendo um carrinho de m ão com vários tipos de entulho, de pedras a pedaços de m etal retorcidos. Acendo a lanterna e os sigo, ilum inando o trabalho que fazem para tornar o cam inho até a estação im possível. Me sinto culpada por não conseguir aj udá-los por causa da m inha m ão quebrada, m as Gunnar tem m ais força do que os outros e faz com que o trabalho sej a rápido.
Quando voltam os, o carro está com o farol acesso e o ruído baixo do m otor funcionando preenche o túnel. Maritza parece tão cansada quanto quem estava levantando pedras pesadas, e Hannah m e aj uda a subir antes de partirm os.
– O que foi aquilo? – Gunnar faz a pergunta antes que eu possa, quando nos afastam os o suficiente da estação. – Com o eles descobriram os túneis?
– Não sei – Maritza responde, segurando de form a tensa o volante do carro. – Estou tão no escuro quanto vocês. Sinto m uito, Gunnar. Idris não gostará disso.
– Quem é Idris? – aproveito a deixa para perguntar e recebo expressões enigm áticas indicando que não vão m e responder. – Para onde estam os indo? Quem são aquelas pessoas de am arelo e por que falaram sobre Fenrir?
– Ei, calm a aí – Hassam diz, surpreso, se virando do banco da frente para m e olhar.
– Eu achei que você tinha entendido – Gunnar fala ao m esm o tem po que ele. Os dois se olham e Hassam levanta as sobrancelhas, com um a repreensão óbvia em seu olhar. – Só disse para ela o que fazem os, nada dem ais. Que som os um a rede de proteção.
– Você sabe qual é a política...
– Eu não concordo com a política – Hannah fala, cruzando os braços no lugar onde está. – Nem Gunnar. Não faz sentido...
– Hannah, e se nós acham os alguém , contam os tudo para a pessoa e depois ela decide não se j untar a nós? Ela vai poder espalhar nossos segredos por aí. Com o o m apa dos nossos túneis – Hassam responde, exasperado.
– Vocês! Não é hora de discutir isso – Maritza cham a a atenção de form a ríspida, m e lem brando de vovó Clarisse. – Sy bil, você vai descobrir em breve a resposta de quase todas as suas perguntas. Nós estam os te m antendo a salvo, m as não exigim os nada em troca disso. Fique calm a. Já quanto a Fenrir, eu não sei.
Aceito sua resposta, um pouco m ais tranquila com a garantia de que não vão exigir nada em troca por m e m anter a salvo. E se fazem isso para viver – salvar e esconder pessoas – toda atitude m isteriosa de não dar inform ações é m ais do que com preensível. Im agina se Fenrir descobre que estou viva e decide m e caçar?
Sinto um calafrio só de pensar e fecho os olhos, desej ando que m inha fam ília e am igos fiquem bem em Pandora enquanto estou escondida.