A retomada da União
Capítulo 19
Espalhar nosso plano de revolta para os refugiados parece ter dado certo até dem ais: o núm ero de pessoas que se reuniu ao sinal que dem os é m uito m aior do que eu esperava, e eles invadem a colina com o um a onda, arrastando o que aparece pela frente. Aj udo Gunnar a engatinhar até a lateral de um dos silos com m edo de que sej am os pisoteados, porque há um a sede de sangue m uito grande em todos eles. A m aior parte não tem nada além dos ancinhos, das pás e dos facões usados no trabalho diário, m as a determ inação com pensa a falta de arm am entos. São um a m ultidão assustadora, gritando de form a desconj untada enquanto vão de encontro aos seus cárceres.
O m edo fica estam pado nos rostos dos soldados, e em qualquer outro m om ento eu sentiria pena e tentaria im pedir, m as não agora. Eles atiram cegam ente, o que não im pede a fúria dos refugiados, e eles são obrigados a bater em retirada. Mesm o que não sej am todos culpados pelo o que acontece aqui, eles ficaram calados e não fizeram nada para im pedir os m aus tratos. Com certeza acham que som os inferiores e que não há problem a serm os vendidos ou tratados com o anim ais. Acho que vovó Clarisse não concordaria com igo, m as não im porta. Nunca m e senti tão hum ilhada em toda m inha vida com o nas últim as horas, nem quando estava em Pandora durante o bloqueio. Nem quando fui atacada pelo policial na rua sem m otivo algum .
O que fazem é encurralar os guardas e pastoreá-los até os estábulos, depois de tom arem suas arm as. Vej o que estão reunindo todos lá, vindos de diferentes lugares da fazenda. O bom de estar em cim a da colina é ter um a visão privilegiada dos grupos se j untando, adicionando m ais e m ais núm eros aos soldados presos. Um grupo de garotas com eça a am arrá-los uns aos outros, abaixados e com as m ãos cruzadas entre as pernas, da form a com o fazem com prisioneiros do Im pério que são capturados. Tenho certeza de que vão receber orientações sobre com o proceder depois, m as por enquanto acho que todos nós querem os sentir um gostinho de vingança, fazê-los sentir pelo m enos um terço da hum ilhação que nós vivenciam os. A raiva nos transform a em pessoas terríveis.
– Você consegue se levantar? – pergunto para Gunnar depois de alguns m inutos, ciente de que tenho que voltar para onde os outros estão para prosseguirm os com o plano.
– Talvez – ele responde, e usa a parede da estrutura de um silo com o apoio. Fico apreensiva quando percebo com o está pálido e tento aj udá-lo, m as ele levanta a m ão para m e im pedir. – Não, fique aí. Você vai acabar se m achucando novam ente.
– Mas você não parece bem .
– Eu consigo cam inhar com você, se form os devagar.
Concordo e devolvo a pistola para ele, sabendo que, se precisarm os usá-la, não serei de m uita aj uda.
Vej o que pelo m enos um a cada cinco guardas está aj udando os refugiados a prenderem os outros, e a facilidade com a qual os soldados foram presos agora faz m ais sentido para m im . Precisam os parar no m eio do cam inho para que Gunnar recupere o fôlego, e um a garota passa por m im , dando um sorriso enorm e quando nos vê. Eu retribuo o sorriso por reflexo, porque ainda estou preocupada. As coisas estão sendo fáceis dem ais para o m eu gosto.
Estam os quase no centro quando ouço a prim eira explosão, seguida de m ais duas. Me encolho e Gunnar se vira na direção do som , que é seguido por um a saraivada de tiros de verdade. Fum aça sobe de um dos prédios de habitação e nos apressam os para ir até lá. Gunnar tem sua pistola entre os dedos, pronto para atacar se necessário. Estar fraco não parece ser um em pecilho para ele.
Entendo a situação assim que o pátio entra no nosso cam po de visão: um grupo de soldados fez um a trincheira no galpão, m as não sem antes j ogar granadas em cada um dos prédios. Eu e Gunnar nos escondem os na parede de um a das edificações para não serm os alvo das balas errantes que eles trocam com refugiados que conseguiram arm as de fogo. Se fossem pessoas de qualquer outro lugar, diria que o que fazem é loucura, m as sendo de Kali com certeza sabem o básico sobre atirar, se proteger e atingir alvos.
– Nós deveríam os aj udar – Gunnar sussurra para m im , sua arm a em punho.
– Não, eles conseguem se virar. Em breve alguém vai aparecer por aqui – sussurro de volta e, quando estico o pescoço para ver direito, um a bala zune bem próxim a a nós. Levo um susto e m e encosto contra a parede, levando a m ão ao peito. – Minha nossa!
– Se você quer chegar ao centro adm inistrativo, precisam os passar por aqui. E para passar por aqui, tem os que desviar das balas – insiste. – O que é im possível, então é m elhor aj udar.
Estico um pouco m ais a cabeça para enxergar, vendo que algum as das colheitadeiras e tratores estão do lado de fora, num ziguezague que form a um a boa proteção. Os refugiados estão escondidos atrás de um trator e, se form os com atenção e abaixados, tenho certeza de que conseguirem os atravessar.
– Você está com aquela cara. – Gunnar parece contrariado.
– Que cara? – Volto a m e encostar na parede.
– A de que está planej ando algo que vai m e m atar de novo.
Eu olho para baixo, culpada. O garoto estica o pescoço e parece calcular a distância que tem os de percorrer para cruzar a área crítica, antes de assentir.
– Posso criar um a ilusão para não nos verem enquanto cam inham os, m as terem os que tom ar cuidado com as balas.
Ele insiste em ir na frente e quase falo que ele se esforça para se colocar em perigo, m as fico quieta porque ainda m e sinto culpada por quase m atá-lo. Nós vam os abaixados, correndo entre um obstáculo e outro. Quando estam os no m eio do cam inho, Gunnar se levanta e se abaixa quase im ediatam ente, e m eu reflexo é im itá-lo, usando m inha m ão boa para proteger a cabeça do estrondo subsequente. Sinto o chão e o carrinho de m ão virado em que estam os escondidos trem erem , o cheiro de pólvora e o calor da explosão nos envolvem , e antes que possa entender o que está acontecendo, Gunnar m e puxa para atravessarm os o pátio no m eio da fum aça. Contenho a vontade de olhar para trás e continuo cam inhando, segurando o pulso do garoto com força para que ele não perca o pique.
Com eçam os a ouvir o barulho insistente do alarm e do centro adm inistrativo quando estam os a alguns m etros de distância e nos apressam os. A porta principal está fechada e, quando tentam os abrir, parece em perrada. Tenho um m au pressentim ento e m inha boca fica seca. Me afasto para que Gunnar chute a porta. Não percebo nenhum a m ovim entação, nem de refugiados, nem de soldados.
Por m aior e m ais forte que Gunnar sej a, ele não consegue m over a porta nem um centím etro, e olha para m im , com o quem espera que eu tenha m ais um a ideia m irabolante e potencialm ente perigosa para nos colocar lá dentro. Olho ao redor, nervosa, e percebo, pelo canto do olho, que um dos tratores das fazendas está estacionado a alguns m etros de distância. Gunnar segue m eu olhar e suspira, resignado.
– Você espera ali enquanto abro a porta – ele aponta para um canto, cam inhando na direção do trator.
– Se você acha que vou ficar esperando, está enganado – digo, acom panhando-o.
Ele dá de om bros e penso que, se fosse Andrei, nem teria cogitado a possibilidade de m e deixar de fora. Chego prim eiro no trator, porque Gunnar ainda não está com pletam ente bem , e aj udo-o a subir, apesar de ter apenas um a m ão disponível. O trator é todo aberto, com um a cobertura em cim a para evitar o sol e um m ilhão de botões, m anivelas e coisas estranhas. Gunnar olha para a cabine aberta, um pouco apreensivo, e se senta na cadeira, tão confuso quanto eu. A sorte de ser pequena é que m e encaixo perfeitam ente no vão de trás, entre a cadeira e a lataria, agachada com os pés firm es na parte de baixo do banco e m e segurando com força contra a cadeira.
– Você sabe ligar isso? – ele pergunta, confuso.
– Deve ser com o qualquer outro veículo, não? – Acho que sei m enos do que ele sobre dirigir.
– Isso parece m ais um avião de guerra, sei lá. – Franze a testa e com eça a apertar botões, que não surtem efeito algum .
– Não tem algum a coisa em baixo do console? Um a alavanca ou algo assim ?
Gunnar passa a m ão por onde falei, levantando as duas sobrancelhas quando encontra algo. Ele puxa um a pequena alavanca duas vezes e o veículo abaixo de nós com eça a trem er, seu m otor fazendo um ruído constante. Depois, o garoto aperta delicadam ente um dos pedais e o trator dá um salto, m e fazendo dar um grito e m e agarrar ao encosto da cadeira.
– Se segura! – diz, em polgado, antes de afundar o pé no acelerador.
Nós vam os ganhando velocidade enquanto percorrem os o cam inho, e quando estam os chegando bem perto do centro, ouço Gunnar gritar:
– Você tem certeza disso?
– Tenho!
– Ainda dá para parar!
– Pisa m ais fundo no acelerador, que está devagar! – grito de volta e ele obedece, com um sorriso enigm ático no rosto.
Me escondo atrás da cadeira, segurando com força para não ser j ogada longe com o im pacto. O vento bate no m eu rosto e escuto Gunnar gritar um palavrão antes de sentir a pressão do trator contra a parede, de ouvir o barulho do m etal se contorcendo. O encosto da cadeira se curva para a frente com m eu peso e m achuco m eu pé tentando m e firm ar para não esm agar Gunnar. O prédio inteiro trem e, e se não fosse pelo cinto de segurança, tenho certeza de que o garoto estaria desacordado com a porrada que levou. Só o escuto xingar m ais ainda, ir para frente outra vez, dessa vez um a carícia com parada ao im pacto anterior, antes de dar ré. Não só a porta caiu: pelo m enos m etade da parede externa desabou e dem oro para entender que a fum aça que sai de lá não é do m otor do trator e sim de dentro do prédio.
– Me aj ude a sair daqui – Gunnar pede, com urgência, suas m ãos tentando se livrar do cinto de segurança. – Sy bil!
Me levanto, passando de form a esquisita por cim a dele e parando no espaço pequeno entre a cadeira e o console, aj udando-o a puxar a fita do cinto do lugar onde ela está presa. Com a parede desabada, com eço a ouvir os pedidos de socorro de dentro do centro e fico m ais nervosa ainda. Nossos puxões ficam m ais desesperados e Gunnar tira as m ãos rapidam ente quando com eço a usar o pé para destruir a fivela do cinto de segurança, am assando a estrutura de plástico que a prende o suficiente para que liberte o garoto. Ele puxa as faixas do cinto com um pouco m ais de força e elas se soltam . Ele não perde tem po e salta do trator, m e levando j unto enquanto pulam os pelos destroços, o m eu pé m achucado esquecido com a adrenalina do m om ento.
O calor denuncia que as cham as estão à direita, na direção de onde fica o arquivo e a escada que leva para o subsolo onde os outros refugiados estão presos. Tam bém é de onde vem a m aior parte dos gritos de socorro. Para a esquerda, fica a sala de com ando, onde Hassam e os outros estavam .
– Gunnar, vá atrás de Hassam e os outros por ali. Vou ver se os refugiados estão bem – digo, olhando para a direita, determ inada.
– Ah, de novo não – ele m urm ura. – Sy bil, eu não vou deixar você ir para o lado das cham as sozinha. Hassam e os outros podem se virar para encontrar a saída, acho que ficou bem óbvio que nós a liberam os.
– Se nos dividirm os as coisas vão m ais rápido – persisto, frustrada. – Você fica insistindo em m e acom panhar com o se eu fosse um a inútil que não sabe fazer nada, m as eu sou com pletam ente capaz.
– Eu não duvido da sua capacidade, m as você só tem um a só m ão e um décim o do treinam ento necessário. Seria irresponsável deixá-la sozinha – explica. – E quanto m ais você discutir com igo, m ais tem po dem oram os.
Aj o contrariada, seguindo o m apa m ental que fiz do lugar quando nos trouxeram . Gunnar segue ao m eu lado, a m ão na lateral de seu tórax o tem po todo, com o se estivesse sentindo dor. O calor fica cada vez m ais intenso e m al processo o que isso significa quando viram os no corredor que leva às portas e som os recebidos por um a parede de cham as. Elas sobem quase até o teto, seu crepitar abafando os gritos desesperados que saem da porta que bloqueiam . É im possível abri-la sem passar pelas cham as e m e encolho, cobrindo os olhos e dando alguns passos para trás. O fogo avança, obrigando-nos a recuar.
– Merda, m erda, m erda – eu repito e Gunnar olha ao redor, eficiente, procurando um a outra saída, algum a form a de tirar os refugiados dali.
– Você pode explodir os canos – ele sugere. Mais um a ideia extravagante que tem tudo para dar errado.
– Com o eu faria isso? Não tem os tem po para procurar o registro de água ou para tentar aum entar a pressão.
Ele olha para m im com o se eu estivesse louca e encosta a m ão em um a das paredes, m as recua rapidam ente com um a careta de dor.
– Você é sobrinha de Cléo, não é? Eu j á a vi explodir caixas de água e outros recipientes que contém água várias vezes, se ela consegue, você consegue – diz com o se fosse óbvio, e eu olho para o fogo e para ele, abrindo e fechando a boca algum as vezes. Com o assim , explodir caixas de água? Ela consegue explodir tubulações de água?
– Eu m al consigo secar um a fruta sem que ela reclam e que está errado, nunca vou conseguir fazer isso – digo, olhando para o corredor. – Deve ter um extintor de incêndio em algum lugar por aqui e...
– Não tem os tem po. Ou você faz isso ou as pessoas lá dentro vão m orrer queim adas.
Sinto m eu coração disparado e olho para m inhas próprias m ãos, assustada. Cléo nem sequer havia m encionado que isso era possível, e eu podia não conseguir. Mas o que custa tentar?
– Vá procurar algum a form a alternativa de apagar esse fogo – peço, determ inada. – Pode não dar certo.
Gunnar assente, correndo na direção oposta à do fogo enquanto m e abaixo, encostando a m ão no chão apesar do calor que em ana dele. Fecho os olhos, im aginando com o devem ser as tubulações que passam aqui, m entalizando a água dentro delas, da form a com o aprendi a fazer. Apesar do nervosism o, m inha respiração vai se acalm ando e sinto o m ovim ento da água sob m inhas m ãos, fluindo com o um rio, e penso em com o ela deveria estar fora dos canos, rom pendo as paredes com toda a força, se libertando da prisão. Minha m ente vaga para as pessoas presas na sala abaixo e o pânico que devem estar sentindo, o desespero de pensar que vão m orrer de um a das piores form as possíveis. Eu j á vi pessoas dem ais m orrendo para deixar que isso aconteça de novo, e quando im agino que a única explicação para esse incêndio é ele ser proposital, para que os refugiados não se libertem , sinto a raiva subir do estôm ago para o m eu pescoço, borbulhando, queim ando por dentro.
Duas coisas acontecem de um a vez: um grito, quase um rugido, escapa dos m eus lábios e o chão à m inha frente racha ao m eio, com j atos de água se m isturando a pedaços de argam assa e tinta, dom ando o fogo com um a força extraordinária. Me levanto, sem m e preocupar em estar m olhada ou em m e m achucar com a força da água, e cam inho na direção da porta, ao longo da parede de água que se form a. Meu cabelo gruda no rosto e em purro a porta, sem sucesso. Alguém , do outro lado, grita algo e eu m ando que se afastem , enfiando m inha m ão nos j atos de água e direcionando-os para a porta até que ela se abra.
Sinto com o se estivesse observando tudo de cim a, com o se a pessoa que direciona os refugiados pelo corredor cada vez m ais alagado sej a outra, alguém em um sonho. Ela age com tanta precisão, com o se soubesse o que está fazendo, que não m e reconheço. E não sinto nada além de propósito: preciso tirar todos daqui o m ais rápido possível e im pedir que o fogo nos alcance.
Gunnar volta, boquiaberto, e se aproxim a com cuidado, com o se eu fosse um anim al selvagem . Faço um sinal de que vou entrar no côm odo, e a água m e segue, descendo pelas escadas em um a pequena torrente e se aglom erando no chão. Não há m ais ninguém aqui em baixo, ainda bem . O garoto m e acom panha espantado, e m inha vista fica cheia de pontos escuros quando vej o que Hannah está com ele.
– Oh, vocês estão bem .
É a últim a coisa que falo antes de desm aiar.