A retomada da União
Capítulo 23
No m om ento em que encosto a cabeça no travesseiro para ver se durm o um pouco, fico m ais alerta do que nunca. É absurdo com o nosso corpo tenta nos sabotar às vezes, e por m ais cansados que estej am os, ele se recusa a se recuperar. Fico algum tem po deitada, olhando para o teto e contanto os segundos que passam , m as não consigo dorm ir. Bebo m ais água, pego os diários de m inha m ãe para ler, m as os m inutos não parecem passar.
É assim que Sofia m e encontra algum tem po depois, quando vem m e ver. Nos acom odam os na cam a e ela divide um bolinho de cenoura com igo, cruzando as pernas em cim a da cam a. Parece m ais velha, m ais séria, e tenho a im pressão de que está m ais alta desde a últim a vez em que prestei atenção nisso.
– Estou m e sentindo culpada – Sofia declara quando term ina de com er, lim pando as m ãos na roupa.
– Por quê? – Eu a observo com o canto dos olhos e a garota desvia o olhar.
– Eu soube... m e contaram da cura. – Ela bate os dedos nervosam ente em seu j oelho, apreensiva. – Se você não tivesse m e salvado, eles não teriam conseguido isso aqui tam bém .
– Nós nem sabem os se eles realm ente conseguiram , Sofia.
– Eles conseguiram – afirm a, e sinto um frio no estôm ago. – Cléo trouxe alguns dos que j á foram curados para cá, e sua avó está fazendo os testes, e se eu não tivesse vindo para a União, isso nunca teria acontecido. Vocês não estariam num a situação tão ruim .
– Eu tenho tanta culpa quanto você, se for assim . Eu que te trouxe para cá. – Seguro a m ão dela, apertando-a com força. – Mesm o se eu tivesse te deixado lá, eles conseguiriam chegar à cura de outra m aneira.
– Eu só não sei o que fazer. – Sofia se encolhe em posição fetal, se encostando contra m im e abraçando as próprias pernas. – Tentei aj udar sua avó, m as ela só precisou do m eu sangue, e tem m uito m edo de que a doença de Lisandra possa passar para m im , porque estou m ais vulnerável que vocês. Não pude fazer nada para aj udar quando ainda estava lá em cim a, em Pandora. Zory a... – A voz dela falha. – Sinto que sou um grande peso atrapalhando tudo em que participo, e tenho m edo de que m inha presença aqui cause um a tragédia.
– Sofia, isso não é verdade. – Eu a abraço, apertando-a contra m im . – Nada disso é verdade. Todos nós tivem os m om entos m uito ruins nos últim os m eses, m as você é um a sobrevivente, você conseguiu passar por tudo isso m uito bem .
– Às vezes eu acho que estou pagando pelos pecados dos m eus pais – ela sussurra bem baixinho. – Porque eles não quiseram seguir as regras do Criador. Porque eles se recusaram a seguir as leis e se recusaram a se cadastrar. E eu acabo sofrendo para pagar o preço por isso.
Eu a abraço com m ais força, sentindo um vazio por dentro. Eu não entendo nada de pecado e leis do Im pério, nada da religião que eles têm ou de com o funcionam , m as esse tipo de culpa não m e parece certa. Quero dizer a ela que isso não é possível, que os pais dela nunca fariam nada se achassem que iria sofrer por causa disso, porém só a consolo, sussurrando bobagens para tentar acalm á-la. Penso em Reika, na ala hospitalar, e em com o ela talvez possa conversar com Sofia sobre o assunto e tentar acalm á-la. Acho que Sofia precisa de alguém que consiga entender o que é ser do Im pério estando aqui, na União, e não sou a pessoa m ais adequada para isso.
Dói m eu coração ver Sofia chorar até ficar cansada dem ais e dorm ir, m as não saio do seu lado até que estej a descansando tranquilam ente. Cubro-a com um lençol antes de sair do quarto, tirando o cabelo do seu rosto e beij ando-a na testa. Me lem bro de Kali e das m eninas que estão em algum lugar aqui, m eninas que cresceram com igo, m as que agora eu escolhi evitar. Com vovó Clarisse ocupada e toda a confusão, elas devem estar se sentindo tão desoladas quanto Sofia, principalm ente Carine com um bebê pequeno num lugar estranho. Sou um a pessoa horrível, e sinto um bolo na garganta. Minhas em oções estão tão descontroladas que preciso parar do lado de fora do quarto para respirar fundo algum as vezes e tentar retom ar a calm a.
Leon m e encontra ali, encostada contra a parede do corredor e tem trabalho para m e convencer a segui-lo até a sala de Idris. Não faço ideia de com o ele sabe que não estou bem , m as m e guia com a m ão nas m inhas costas, tentando m e consolar. Ainda estou m e sentindo péssim a quando abro a porta para que ele passe e, quando vej o Victor sentado em um a das cadeiras, sinto um peso no estôm ago e quero sair correndo. Mas Leon deve ler m entes tam bém , porque torna praticam ente im possível que eu não m e sente à m esa que usei nos dias em que passei aqui aj udando Idris.
Victor está sentado, m as Cléo, Idris e Maritza estão em pé em torno da m esa da líder, todos os livros em pilhados pelo côm odo para dar espaço para o m apa gigante que estão exam inando.
– Bom , Sy bil está aqui, podem os com eçar – Idris declara. – Me desculpe por tê-la tirado de seu descanso, m as acham os que é im portante que estej a aqui. Leon, venha cá.
O garoto obedece e Idris com eça a conduzir as m ãos de Leon pelos desenhos do m apa, explicando enquanto o aj uda a traçar as figuras. Conhecendo-o com o eu conheço, isso é o suficiente para que ele m em orize tudo. Tento acom panhar as descrições de Idris para tentar descobrir que lugar é esse, m as só percebo que é Prom eteu quando ela chega em República.
A única vez em que eu havia estado no Senado, no gabinete de Fenrir, para ser m ais específica, foi na reunião em que descobri que Ava havia sido curada. Pensar no que passam os desde então causa um nó no estôm ago, e lem brar da insistência de Sofia de que eles conseguiram a cura aqui tam bém m e deixa m ais nervosa ainda. Com o Ava estava? Será que havia tido algum efeito colateral, com o Lisandra? E se ela estivesse m orta de verdade? Que vida horrível ela havia levado, se achando um a aberração por anos só para depois virar cobaia e m orrer.
– É isso – Idris conclui, term inando o desenho da cidade com Leon. – Foi o suficiente?
– Acredito que sim – Leon concorda e ela o aperta no om bro contra si de form a carinhosa. – Muito obrigado, Idris.
– Eu que agradeço por você se disponibilizar a fazer isso, Leon – ela diz, e levanta os olhos para onde Victor está sentado.
Cléo m e observa e deve perceber m inha confusão, porque explica:
– Leon e Maritza vão para Prom eteu am anhã, dar início ao plano de depor o cônsul.
– Mas, para isso, precisam os da sua aj uda, Victor – Idris com plem enta, encarando o garoto.
– Eu ainda não posso aj udar com o vocês precisam – ele se desculpa, encolhendo os om bros, e Idris se aproxim a, segurando no encosto da cadeira dele.
– Victor, se eu te cham ei aqui, é porque eu sei que você vai poder m e aj udar – ela explica e se abaixa, com o se ele fosse um a criança. – Eu prom eti respeitar seu tem po e eu farei isso, acredite em m im .
– Desculpa. – Ele olha para baixo e depois para m im , encabulado. – Do que vocês precisam ?
Idris então pede que Leon explique o plano, incluindo as provas que conseguim os nos cam pos de refugiados, as quais certam ente enquadrarão o cônsul por m au uso do poder. Cléo adiciona algum as inform ações novas que descobriu no centro de pesquisas que invadiu: as provas escritas de que os estudos utilizam verbas destinadas para outros usos, desviadas sem aprovação do Senado. Todos parecem bem confiantes de que o cônsul não durará m uito tem po quando tudo isso for à tona.
– Nós consideram os Petra Am ani com o nossa aliada no Senado – Idris fala. – E querem os saber sua opinião. Ela irá nos aj udar? Você acha que... o que Felícia faz pode afetar Petra?
O garoto parece hesitante à m enção de Felícia e pondera bastante antes de responder.
– Felícia não tem nenhum interesse no que diz respeito à m inha m ãe, além de m im . Ela não vai atrapalhar seu plano – ele fala, m ordendo os lábios, e tenho quase certeza de que essas palavras foram difíceis de dizer. – E m inha m ãe vai aj udá-los. Inclusive antes. Ela pode j untar todas as provas e arrum ar alguém para apresentá-las ao Senado. Se for ela m esm a, vai parecer que está tentando dar golpe, e não será bom .
– Sinto que há um “porém ” no seu tom – Idris indica.
– Fenrir não vai ser fácil de lidar, m esm o com o bom relacionam ento entre os dois. “Inim igo do m eu inim igo é m eu am igo”, é o que m inha m ãe falava sobre ele – Victor expõe e fico na ponta da cadeira para não perder um a palavra do que fala a seguir, m ordendo os lábios apreensivam ente. – E vocês precisam se lem brar de quem está com ele.
– Felícia? – Maritza pergunta de onde está, cruzando os braços.
Victor apenas assente e Idris franze a testa, tentando j untar as inform ações.
– Você acha que Fenrir usaria Felícia para tentar controlar sua m ãe e as outras pessoas, com o fez com você? – pergunto e Victor balança a cabeça, tenso e nervoso. Observo que um a veia do seu pescoço salta, pulsando rapidam ente. Estam os em terreno perigoso. – Você disse que sua m ãe não estava no plano de Felícia. O que quis dizer com isso?
– Não precisa responder diretam ente, Victor. – Idris o acalm a. – Se achar que não consegue prosseguir, param os im ediatam ente.
– Não, eu estou bem . – Mas seu tom diz o contrário. – Não é nada disso.
– Os anôm alos estão com ele? A patrulha dele, aquela tal de Aurora, está cada vez m aior, com m ais j ovens e até algum as pessoas m ais velhas fazendo parte. Pandora está quase em histeria coletiva e qualquer pessoa que se m anifeste contra acaba sofrendo as consequências – Idris explica e eu olho para ela, piscando algum as vezes. É exatam ente com o eu suspeitava, m as ter certeza disso é com pletam ente diferente. Me lem bro de Brian e Naoki, no dia do funeral, e de com o um grupo deles queim ou dois hum anos sem nem hesitar. Fenrir e Aurora j untos são com o fogo e gasolina, e fico ansiosa por todos que perm aneceram em Pandora. Eles saíram de um a situação ruim para outra igualm ente péssim a.
– Não é isso. É o contrário – ele fala com a voz fina e desvia o olhar para o chão, frustrado. – Nada vai funcionar contra ele.
– Ao contrário? Os anôm alos estarem contra ele é algo bom – eu digo, tentando entender. – Não? Quer dizer que vão apoiar a intervenção de Petra, se ela se tornar a nova consulesa.
– Não, ele está falando que Felícia tem Fenrir. – Leon se m ove de onde está e Victor fica pálido, concordando. – O que diabos é essa garota para você ter tanto m edo dela assim ?
– Felícia é um a garota de 15 anos – Idris fala, descrente. – Fenrir é um hom em de quase 50. Com o ela tem o controle da situação? Isso não faz sentido algum , Victor. Você só está com m edo pelo o que ela fez com você.
Cléo encosta o quadril no canto da m esa de Idris, encarando Victor com um a expressão estranha. Ela arrum a o cabelo atrás da orelha e cruza os braços, sem m over os olhos.
– Você está transferindo a culpa para o elo m ais fraco, a pessoa m ais fácil de punir pelas transgressões de Fenrir. É um a acusação m uito séria – Cléo diz. – Eu entendo que seu relacionam ento com ela não tenha dado certo, m as culpá-la por tudo isso quando ela é claram ente m ais um a peça no quebra-cabeças de Fenrir é desonesto.
Fico um pouco surpresa por concordar com ela em partes, porque não consigo ver com o Felícia pode estar controlando Fenrir, sej a lá qual for a anom alia dela.
– Você não viu... – Ele balança a cabeça. – Vocês pediram m inha opinião, aqui está ela. Se querem levá-la a sério ou não, fica a critério de vocês.
– Idris... – Maritza fala devagar, parecendo se lem brar de algo. – Idris, você se lem bra de quando Zory a veio até nós? De quando procurou o Alm irante e disse que sabia de tudo e que queria nos aj udar?
– Do que você está falando, Mari? – Idris franze a testa. – Sim , eu m e lem bro. Foi um a das adições m ais peculiares ao nosso grupo.
– E difícil de aceitar – Cléo fala, olhando para Idris com o canto dos olhos.
– Ela disse que Fenrir estava se com portando de form a estranha ultim am ente, que às vezes m al o reconhecia – Maritza continua, ignorando a hostilidade na voz de Cléo. Fica óbvio de quem foi a decisão de acolher Zory a. – Que ela não reconhecia m ais os planos que ele fazia, que estava com m edo pela fam ília dela. Porque ele sem pre a am eaçou, m as ela nunca achou que ele agiria até...
– Até o quê? – pergunto, e engulo em seco. – O que Fenrir fez com Zory a?
– Você não deveria falar sobre isso aqui, na frente deles. – Idris entra no m eio do cam inho, encostando no om bro de Maritza com o sinal para se afastarem .
– Não, eu quero saber agora – eu peço. – Por favor.
– Você não quer não. – Cléo troca olhares com as outras duas m ulheres. – Só saiba que foi o suficiente para que eu concordasse com a aj uda dela. E é Fenrir, tenho certeza de que pode im aginar.
Mil cenários diferentes passam pela m inha cabeça. Penso em com o Zory a deve ter se sentido traída o suficiente para tentar im pedi-lo. Fico nervosa e sinto um orgulho estranho da m ãe de Andrei, por ela não ter se acuado com as am eaças de Fenrir. Isso era m uito m ais do que eu tinha conseguido fazer.
– O que eu quis dizer... – Maritza levanta a m ão, cham ando atenção para si. – É que Fenrir vem agindo de m aneira esquisita de uns quatro m eses para cá. Mais brutal do que o norm al, m ais am bicioso, se isso for possível. Ele sem pre fez de tudo para conseguir o que quer, m as havia um lim ite. Am eaçar, tudo bem . Manipular os outros para fazerem o que quer? Tam bém . Troca de favores é com o respirar para ele. Mas sem pre deixou claro que nunca assassinaria alguém , havia form as m ais sofisticadas de lidar com os adversários.
– Você está insinuando que ele m andou assassinar Klaus, que ele im plantou a bom ba no com ício porque está sendo m anipulado por um a garota de 15 anos para fazer esses atos terroristas? Só porque assassinato em m assa não está no menu de atrocidades de Fenrir? – Idris faz a pergunta com o se Maritza estivesse louca.
– Alguém fez todas essas coisas e não foi o cônsul – Maritza explica e Cléo bufa, im paciente.
– Não pode ser Fenrir, que j á estava a ponto de se tornar um assassino em série? Fenrir, que gerou provas falsas contra todos os candidatos que concorreram contra ele antes de Klaus? Fenrir, que está m ais preocupado em ter o poder do que garantir que anôm alos sej am tratados igualm ente? Você, em todos os seus anos trabalhando com o Senado e acom panhando essas pessoas, não acha que Fenrir seria capaz disso sozinho? – A tem peratura do escritório dim inui em vários graus enquanto Idris fala, seu tom cada vez m ais gélido e distante. – Ele realm ente precisa ter a desculpa de que um a garota de 15 anos m á intencionada o está m anipulando?
– Ela não m anipula – Victor interrom pe, levantando o rosto. Parece estar controlando a dor e os sintom as que m ostra todas as vezes que ultrapassa um território perigoso. – Ela só inibe ou liberta.
– De qualquer form a. – Idris encara Maritza. Sinto que há algo que não quer dizer, m as a m ulher loira se levanta, cruzando os braços. – Você percebe o que está dizendo, Maritza?
– Fenrir tem total consciência de suas ações e deve ser j ulgado por tudo o que fez, Idris. Eu nunca disse o contrário. – Maritza fica verm elha, com um a veia saltando de seu pescoço. É óbvio com o ela o odeia, principalm ente porque perdeu sua esposa na explosão do com ício. Por m ais que o raciocínio pareça loucura, não acho que ela estej a arrum ando desculpas para inocentá-lo. – Mas é com o se a noção de lim ite do que vai ferrá-lo ou não estivesse desligada. Ele nunca faria algo para prej udicá-lo a longo prazo, nunca deixaria um a ponta solta com o deixou. Não é a form a com o age.
– Inibe ou liberta – Idris repete as palavras de Victor, pensativa. – Você acha que Felícia tirou o pouco do bom senso que restava em Fenrir?
– Isso é ridículo! – Cléo exclam a, e Maritza levanta um a sobrancelha.
– Ridículo? É o que Victor está falando. Nós vim os com o ele ficou quando foi afastado dela, ela com certeza é bem forte – retruca, olhando para o garoto. – Não é?
Victor responde com gestos e percebo que suas unhas estão pressionando a palm a das m ãos até tirar sangue. Quais serão as consequências dessa conversa depois? Ele não parece tão m al quanto no dia em que o vi em sua cela, m as está consideravelm ente pior com parado ao estado em que entrou aqui. Idris encosta na m esa, levando a m ão ao rosto, refletindo. Cléo não tira os olhos de Victor, com o se seu olhar fosse o suficiente para fazê-lo presum ir que está m entindo. Maritza se aproxim a da líder e pega da m esa o livro com as com posições no Senado, abrindo-o em um a página m ais para o final.
– Nós precisam os considerar todas as hipóteses se quiserm os obter sucesso. Não custa nada ter um plano B para nos auxiliar caso o plano inicial dê errado.
– Com o podem os ter certeza de que ela não o está controlando? Que Fenrir não está sussurrando m entiras para que Victor nos engane? – Cléo sugere e Maritza suspira, se j ogando pesadam ente em sua cadeira.
– As duas hipóteses são absurdas – Idris fala, olhando para o m apa em cim a da m esa e m assageando as têm poras. – Toda essa situação é absurda. Nós perdem os o controle há m uito tem po e não tem m ais com o saber o que é certo ou errado.
– Não... não desista. – Cubro m inha boca no m om ento em que falo, constrangida. Por que eu fui falar isso? Sinto todos os olhos do côm odo em m im e preciso continuar. – Nós precisam os fazer algo, qualquer coisa. Não podem os ficar parados. Por m ais absurdo que pareça, acho que Maritza tem razão. Eu... acredito em Victor.
O garoto olha para m im , surpreso, e abraço m inha tipoia contra o corpo. Idris, Maritza e Cléo têm um a conversa silenciosa antes da líder fechar o livro com um estrondo. Cléo suspira pesadam ente, com o se achasse que o que está por vir não a agradará. Acho que fiz algo errado e não sei com o proceder, então preencho o silêncio com m ais palavras.
– Fico m ais segura quando tenho controle da situação, m as desde que tive de fazer a... a m issão em que salvei Sofia... Percebi que tem coisas que não dá para controlar. E se você só agir quando souber exatam ente o que vai acontecer, vão te j ogar de um lado para o outro e você nunca vai fazer o que quer. É um tiro no escuro, m as é m elhor do que ficar parada enquanto tudo desaba ao redor. – Me sinto boba por com partilhar m eus sentim entos. Que uso pode ter isso para Idris, Maritza e Cléo, com preocupações m uito m aiores que as m inhas? – O resultado de não fazer nada é bem pior do que o que pode dar errado se agirm os.
– Ela está certa – Leon interrom pe m eu fluxo, ainda bem , e vira o rosto para as três m ulheres. – Não sej am cautelosas dem ais se isso for im pedi-las de agir.
– Há um preço por ser im prudente, Leon. – O tom de Idris poderia ser condescendente, m as é apenas cansado. Acho que estam os todos exaustos, principalm ente ela.
– Um preço que todos nós conhecem os e estam os dispostos a pagar – Cléo adiciona rispidam ente. – Olhe, até eles sabem que isso é o certo a fazer. É o que venho dizendo para você há m eses. Se nós tivéssem os agido antes, não teríam os ficado encurralados com o estam os hoj e!
Idris se senta, sua expressão pesada. Me encolho para tentar m anter o calor do corpo, porque a sala está cada vez m ais fria. Os lábios de Cléo estão trem endo e entendo que o frio que Idris produz é seco, ou eu e m inha tia não estaríam os reagindo a ele.
– Por m ais que doa concordar com Cléo, eles estão certos, e você sabe disso – Maritza rebate. – Pense em Lupita. O que ela fez não pode ser em vão.
– Não ache que não penso nela em cada segundo em que estou em pé. – Idris leva a m ão à barriga, sua voz pesada. – Você perdeu sua esposa e eu m inha filha. E para quê? É nela que penso quando falo dos preços. Eu nem sequer pude enterrá-la, Mari. Você sabe o que é isso?
Ficam os em um silêncio pesado, e Cléo desvia o olhar quando Maritza consola sua sogra. Sinto que estou invadindo seu espaço, sua intim idade. Eu não sabia que Idris era m ãe de Lupita, m as agora, com a inform ação, consigo perceber a sem elhança de traços. Elas tinham o m esm o queixo, o m esm o desenho de sobrancelha. É assim que as pessoas m e veem depois que descobrem que sou filha do Alm irante? Com o pedaços do que ele foi?
– Todos nós pagam os m uito caro para chegarm os até aqui – Cléo m urm ura e vej o que tam bém está trêm ula. – Lupita. Meu irm ão. Takum i, m eu m arido. Todas as crianças que m andam os para salvar outras crianças e nunca voltaram . Mas não podem os deixar que isso sej a em vão, Idris. Pense nisso quando tom ar sua decisão.
Idris esconde o rosto e dem ora algum tem po para se recom por antes de nos encarar:
– Me desculpem . Vocês podem ir fazer o que quiserem . Nós voltam os a esse assunto m ais tarde, depois que eu pensar com calm a.
Assentim os e, quando deixam os as três m ulheres, Leon m e puxa até um dos cantos do corredor, atrás de um dos arm ários. Victor parece tão cansado que tenho certeza de que vai dorm ir, apesar do horário. Leon não larga m inha m ão nem por um m inuto sequer.
– Você parece nervosa. Seu coração e respiração estão confusos – ele fala, apertando m inha m ão. – O que aconteceu?
– Só estou cansada – digo, encostando a testa em seu om bro. – Quero ver Andrei. Quero dorm ir e não consigo. Quero voltar para casa.
Ele m e abraça e quando volta a falar, está hesitante.
– Queria conversar com você... Hassam m e disse o que aconteceu nas fazendas. – Ele para, escolhendo as palavras que virão a seguir. – Fiquei preocupado, m as tam bém ... surpreso.
– Surpreso? – pergunto, nervosa.
– Por você poder fazer algo tão extraordinário! – diz, com um entusiasm o incom um . – Explodir coisas! Com água! Isso é m uito m ais do que eu im aginei que um anôm alo fosse capaz de fazer.
– Cléo m e disse que posso controlar o sangue correndo nas veias – respondo, num quase sussurro, soando m ais calm a do que deveria.
– Hassam m e explicou que a m aior parte dos anôm alos daqui tem algum tipo de treinam ento para am pliar suas capacidades. Na escola, a gente só aprende a controlar, m as tem com o ser cada vez m elhor, descobrir cada vez m ais nuances. Parece que é algo com um no Im pério ou em fam ílias rebeldes – Leon fala, pensativo. – Não é fantástico? Não seria incrível se todos pudessem fazer isso?
– Eu entendo o lado dos hum anos em não querer pessoas que podem explodir coisas com água perto delas. Ou que possam controlá-las – falo, cansada. – Mas é m elhor aprender a lidar com anom alias do que causar acidentes, não é?
– Não, m as, olhe, há sem pre um efeito colateral. Você quase m orreu quando tentou fazer isso; Hassam fica exausto quando obriga alguém a falar só a verdade. E pelo que conversei com Gunnar, as ilusões dele podem ser bem m ais fortes, m as ele tem um a dor de cabeça trem enda. Não é com o se não tivéssem os lim ite. – Conform e conta, vej o que é algo que ele pesquisou e pensou durante os últim os dias. – Mas eles conseguem se conter. Eles não deixam que em oções afetem seus poderes, que saiam do controle com o acontece com igo. Eu tenho um a quantidade m oderada de controle sobre m inha anom alia porque nasci desse j eito, sem enxergar, então consigo focar, m as se eu estiver m uito agitado, tudo fica um a bagunça. Im agina conseguir m e conter e não deixar que as em oções m e im peçam ? Im agina descobrir que, não sei, assim com o eu consigo ouvir barulhos m uito baixos eu tam bém consigo m e m over sem fazer nenhum barulho?
– Ia ser fantástico, Leon. – Meu sorriso é desperdiçado, m as m eu tom é carinhoso. – Você devia pedir para que alguém te aj ude, talvez Reika. Ela m e aj udou no início, quando cheguei.
– Mas eu só conseguiria trabalhar isso porque conheço essas pessoas, im agina isso para todos os anôm alos da União? Todo m undo conhecendo cada detalhe e cada em pecilho da sua anom alia. Seria fantástico.
– Parece que você tem um plano.
– Quando tudo voltar ao norm al, nós vam os estar no últim o ano de escola e aí, o quê? Você j á pensou sobre isso? Sobre o que vai fazer? Eu quero fazer o m áxim o possível para m elhorar a vida dos anôm alos e acho que esse é um bom proj eto.
– Você está m e dizendo que quer fazer leis? – eu pergunto. A ideia m e diverte im ensam ente. – Você quer ser senador, com o Fenrir?
– Não com o Fenrir. Eu nunca seria com o ele. – Leon tem um a expressão de noj o enquanto fala. – Mas se ser senador é o que preciso para fazer algum a diferença, não vej o por que não. Ou um assessor, com o Zory a e Maritza foram . Parece um a boa carreira.
Eu apenas aperto sua m ão, sem saber o que dizer. É tão estranho pensar no futuro quando nem consigo decidir o que estou sentindo agora. Leon parece saber que tudo vai acabar bem , e em bora eu goste m uito da ideia, não consigo com partilhar da sua convicção. Meus únicos planos no m om ento são voltar para casa e com er o bolo de chocolate que Dim itri faz, e só.
– Eu sei que soa m aluco, m as quero m e sentir útil – ele se j ustifica. – Quero ser m enos egoísta.
– Não é m aluco, Leon, é incrível que você consiga ser tão otim ista assim . – Encosto a cabeça em seu om bro novam ente e ele m e faz cafuné.
– Eu aprendi com a m elhor. – Sua voz é quase inaudível e eu dou um a risada am arga.
– Eu queria ter m etade da coragem que você acha que tenho, Leon. Ia ser m uito m ais fácil.