A retomada da União
Capítulo 5
O cam inho é cheio de subidas e descidas, entroncam entos e m udanças de direção. Não sei em qual sentido vam os, só que estam os nos afastando de Pandora. É a prim eira vez, desde a m issão, que saio da cidade, e fico ansiosa quando penso nisso. A velocidade com a qual avançam os tam bém não aj uda; um ritm o constante e lento que nos faz levar horas para chegar ao nosso destino. Ninguém puxa assunto, e Hannah está apreensiva, provavelm ente ponderando sobre o que acabou de acontecer.
Subim os um a ladeira bastante íngrem e com dificuldade e, por alguns instantes, acho que o carro não irá aguentar e terem os de em purrá-lo, m as, quando chegam os ao topo, um portão de ferro está aberto para nos receber. É algo bem antigo, elevado por alavancas e com algum as m anchas verm elhas de ferrugem .
Entram os em um lugar que é um arm azém -garagem , com outros carros com o esse e várias caixas; as paredes são de um a pedra escura, bem diferentes das de concreto dos túneis. Duas m ulheres usam as alavancas para fechar o portão com um baque atrás de nós, e Gunnar salta do carro, j untando-se a elas para tirar as m ochilas do bagageiro. Mais duas pessoas se aproxim am com um a m aca, e Hannah as orienta a rem over Victor. Todas vestem um a m istura de calças cargo verde-oliva, com o o uniform e do exército, e blusas nas cores m ais exóticas possíveis. Um dos hom ens que aj uda a carregar Victor veste um a blusa com m andalas laranj a-berrante. Maritza sai do seu lugar na frente, dando algum as instruções para todos, que a tratam com deferência. Todos parecem ter um a função, e eu fico no carro, sem saber para onde ir.
– Sy bil? – um a m ulher m e cham a e acho que estou ficando louca por alguns instantes, porque j uro que conheço a voz.
– Oi?
– Você está bem ? – A m ulher se senta no carro ao m eu lado, suas feições parecem preocupadas enquanto m e exam ina. – Precisa de aj uda para sair?
Minha voz fica presa na garganta. Mesm o com a luz fraca desse lugar, é fácil discernir os traços suaves e o queixo teim oso, o sorriso gentil e o cabelo grisalho de vovó Clarisse. O que ela está fazendo aqui!? Eu devo estar tendo alucinações. E em vez dos vestidos elegantes que sem pre usa, está com a m esm a calça dos outros e um a regata preta discreta, que a fazem parecer bem m ais nova.
– Vovó? – É a única palavra que digo e ela sorri, m e abraçando.
– Minha m enina! – Ela m e aperta contra seu peito, passando a m ão em m eu cabelo, e eu a abraço de volta de form a desaj eitada, ainda tensa, confusa. Não acredito que ela está aqui, não acredito. – É tão bom vê-la novam ente, inteira. Estava prestes a te buscar eu m esm a! Vocês dem oraram dem ais para vir para cá.
Fecho os olhos e encosto m inha testa em seu om bro. O cheiro cítrico de seu perfum e m e leva ao passado, e a pressão de todas as em oções que sinto ao m esm o tem po m e sufoca. Seguro o tecido da sua blusa com um a das m ãos, lutando contra a vontade de chorar com o um a criancinha, percebendo o quanto senti sua falta desde que saí de Kali. É engraçado com o às vezes você só repara com o teve saudades quando reencontra alguém , com o se o sentim ento se acum ulasse num cantinho do coração para explodir na hora m ais inesperada. Vovó arrum a m eu cabelo atrás das orelhas, passa a m ão pelas m inhas costas, sussurra com o está com saudades e eu não consigo acreditar. Isso é real? Por que ela está aqui e não em Kali?
– Você realm ente está aqui? – eu pergunto com um sussurro, e ela levanta m eu rosto para que eu a encare.
– Não faz nem um ano que você saiu de casa e j á está m uito diferente – diz, acariciando m inha bochecha. – E, sim , eu e as m eninas chegam os um a sem ana atrás. Assim que soube do bloqueio tive de vir aj udar Idris. Não poderia deixá-los enfrentar isso sozinhos.
– Ah... Você trouxe as outras m eninas? – Confusa, eu m e afasto, m as ela apoia a m ão em m eu om bro, im pedindo que eu vá m uito longe.
É tão estranha a ideia de que ela fez toda a longa viagem de Kali até aqui trazendo as outras crianças a tiracolo. A viagem por terra é m uito cansativa e eles nunca teriam dinheiro para pagar um a passagem de navio nem para um a pessoa, im agina para todas? A m enos que esse grupo, essa rede de proteção, fosse rica, e tivesse coberto todas as despesas.
– Sy bil, nós devem os entrar. Você precisa verificar o ferim ento na sua m ão, m elhorar essa bandagem , e depois nós conversam os. Existem outras pessoas que você precisa conhecer.
Eu a encaro, receosa. Ela está exatam ente com o eu m e lem bro, m as tem algo que não parece certo. Prim eiro, o fato de estar aqui e ter trazido as m eninas com ela. Depois, a fam iliaridade com a qual falou de Idris, sej a lá quem for essa pessoa. Será que não é um a ilusão, algo para m e convencer a ficar e aj udá-los? Maritza havia m e dito que não iriam exigir nenhum tipo de contrapartida da m inha parte, m as não duvido da capacidade de m anipulação alheia. E por que a m ulher que m e criou teria algo a ver com esse grupo de pessoas que salva anôm alos? Ela é hum ana e só cuida de crianças hum anas órfãs e...
– Você está desconfiada – vovó Clarisse afirm a, com um tom divertido. – Com o sem pre, não é?
– Eu... m e desculpa. – Fico ligeiram ente constrangida. – Mas...
– Eu sei, eu te criei. Hum , com o eu posso te convencer de que sou eu m esm a? – Ela fica pensativa e leva um dedo à boca, olhando para cim a, num a expressão típica de vovó Clarisse. – Você aprendeu a andar antes de aprender a falar, e a nossa vizinha, Susi, sem pre achou que você tinha algum problem a porque só falava quando era obrigada. Você aprendeu a ler com 5 anos, antes de todo m undo da casa. O que m ais? Ah, você m enstruou pela prim eira vez aos 11 anos e achou que estava m orrendo...
– Tudo bem ! – eu a interrom po, sentindo m inhas bochechas quentes. Acho im provável que alguém tenha se dado ao trabalho de conseguir essas inform ações só para m e convencer de algo, m as continuo confusa sobre com o e por que ela está aqui. – Tudo bem , tudo bem , vovó. Eu entendi.
– Nem falei da vez em que você se perdeu na feira e, quando te achei, você estava afundada até a cintura em um a tina de tintura com xixi...
– Vovó! – eu exclam o e ela ri, segurando m eu om bro.
– Venha, m enina, nós tem os m uito o que fazer e pouco tem po. Posso responder às suas perguntas depois.
– Com o você sabe que tenho perguntas a fazer?
– Se não tivesse, não seria você – ela responde, enquanto m e aj uda a descer do carro.
Percebo que estam os sozinhas, a não ser por um a das m ulheres que abriu o portão e nos espera na frente de um a porta de ferro, com um a expressão neutra. Vovó é m ais alta que eu e, enquanto cam inham os, ela passa um braço pelos m eus om bros, com o se eu ainda fosse criança. Entram os na fortaleza, em um túnel coberto pelas m esm as pedras escuras da garagem . O ar aqui é m enos denso que do lado de fora, e um a tem peratura am ena torna a curta cam inhada agradável.
Há um a bifurcação no túnel: o lado esquerdo é contínuo, no m esm o nível, e, o direito tem um a escada um pouco íngrem e para outro andar. Seguim os pela esquerda, e as paredes e o chão de pedra dão lugar a azulej os brancos e a um a sala com alguns sofás, que parece um a recepção. Há um hom em atrás de um a m esa de m adeira antiga, vestido com roupas parecidas com as de vovó Clarisse, e, quando nos vê, apenas abre um a das portas no fundo do côm odo para que continuem os.
Se torna óbvio que estam os num hospital quando atravessam os algum as enferm arias com m acas e cam as, algum as ocupadas por pacientes, estantes de m edicam entos e instrum entos, pias, toalhas, lençóis, cobertores... Procuro por Victor em um a delas enquanto vovó m e leva até um a sala no fundo da ala, m as não o encontro. Lá, há um a cadeira, um a m aca e um a m esa, e vovó Clarisse m e deixa só por alguns instantes, trazendo um copo de água e alguns com prim idos quando volta. Eu os tom o sem que peça, e ela se aj oelha na m inha frente, pedindo para exam inar m eu braço.
– Hum , quem fez essa im obilização? – pergunta, procurando a ponta da bandagem . Com eço a sentir m inha cabeça m eio leve e pisco algum as vezes. – Nós vam os ter que refazê-la. Sua m ão está virada num a posição estranha, com certeza terem os problem a no futuro.
– Foi o pai do Leon – eu digo, e ela levanta um a sobrancelha. – O pai do m eu am igo. Mas eu a m achuquei novam ente quando Hassam m e salvou.
– Então foi isso que deixou tudo torto. – Ela faz um bico enquanto fala num trej eito próprio que significa desaprovação. Contenho um sorriso, ainda sem acreditar que ela está aqui. – Mari te deu os com prim idos, não? O que te dei agora é um pouco m ais forte, para eu e Ziba poderm os cuidar do seu braço sem que você sinta m uita dor.
– Certo – respondo, observando enquanto ela pega um a série de obj etos de um dos gabinetes. A luz bate no seu cabelo acinzentado e cria um halo ao redor da sua cabeça, com o se ela fosse um a daquelas santas que as pessoas idolatravam anos atrás. – Tem certeza de que você não é um a alucinação?
Isso a faz rir antes de com eçar a desenfaixar m eu braço. Não sinto nenhum a dor, o que é im pressionante, considerando o incôm odo constante que o m achucado m e causou, m esm o com os analgésicos que Maritza m e deu. Quando ela term ina, m inha m ão está horrível, a pele está esverdeada em alguns lugares e há um a bola inchada em um a das j untas. Vovó Clarisse faz um a careta que não consigo decifrar enquanto exam ina, num padrão parecido com o que o pai de Leon fez.
– Esse rem édio é bem forte.
– Sim , e m uito rápido – ela adiciona, m as sua expressão é de preocupação. – Há quanto tem po você não com e algum a coisa? Talvez você sinta tontura, seria bom com er algo enquanto esperam os por Ziba. Não vou conseguir fazer nada sem ela.
– O que você está fazendo aqui? – Não consigo resistir e pergunto, porque a resposta que m e deu não é suficiente. Quanto m ais eu penso na presença dela aqui, m enos sentido faz. Com o ela, um a dona de orfanato em Kali, pode ter ligação com esse grupo, e um a ligação com o Alm irante Klaus? Com m eu pai? A única explicação é... bem , eu não quero pensar nisso.
– Nós vam os com eçar a fazer perguntas agora, é? – ela brinca enquanto se levanta. – Idris precisa de m im , e estou aqui. Eu j á te disse.
– Mas quem é Idris? – questiono, frustrada.
– É quem está no com ando dessas pessoas, e é alguém que conheci m uito tem po atrás e considero m uito. – Ela repousa m inha m ão na m esa à m inha frente. – É m inha vez agora. Quem fez isso com a sua m ão?
Eu a encaro, em silêncio, m e lem brando do incidente. Sinto um a raiva que sobe pelo peito e fecha a garganta, e aperto os lábios para não gritar. Não consigo explicar exatam ente o que m e irrita m ais – a m aneira casual com o ela faz a pergunta, o fato de que o soldado m e atacou só porque m e recusei a obedecer um a ordem estúpida, ou estarem m e usando com o desculpa para atacarem hum anos inocentes assim com o fui atacada.
– Ninguém te contou? – falo, finalm ente, entredentes.
– Quero ouvir de você. – Ela segura m inha m ão boa na sua.
– Alguns soldados hum anos estavam esvaziando as m ercearias de Pandora e... bem , um a senhora dona de um a perto da m inha casa pediu que eu ligasse para Rubi... – falo, reticente. – Rubi é a m ulher que m e acolheu em sua fam ília em Pandora.
– Eu sei, querida – vovó confirm a, suavem ente. – O que aconteceu?
– Ela m andou que fôssem os em bora e, quando estávam os saindo... eles acharam que nós fôssem os fugir, m as ela só iria m e levar em casa. E aí... e aí...
Minha voz fica rouca e abaixo a cabeça. As im agens passam com o um film e pelos m eus olhos, com o soldado gritando conosco, eu o desafiando... O m om ento em que tentei m e defender, usando o poder esquisito e ainda desconhecido que possuo... O barulho da bota contra o asfalto, esm agando m eus ossos... Minha respiração fica difícil, apressada e abaixo m ais ainda a cabeça, tentando sorver o ar, sem sucesso. O cheiro de carne queim ada dos hum anos que vi m orrerem m ais cedo se j unta às m em órias e com eço a trem er de m edo, de raiva, de não sei o quê.
– Sy bil, respire fundo. – Ouço a voz de vovó Clarisse, e sua m ão está nas m inhas costas para m e acalm ar. – Eu não im aginei... Me contaram outra coisa.
– Desculpa – eu sussurro. – Sou m elhor que isso.
– Não, não, não, não. Por favor, não diga isso. Você tem o direito de se sentir m al pelo que aconteceu, de reagir. Eu só... – Ela m e abraça e encosto a cabeça no seu om bro, ainda tentando controlar a respiração. Quando continua falando, consigo ouvir sua voz reverberar em seu peito, e isso, aos poucos, m e acalm a. – Você sem pre foi tão durona, achei que não teria problem a em perguntar. Principalm ente porque pensei que não fosse tão ruim assim . Quem tem que te pedir desculpas sou eu, m eu am or. Se eu soubesse o que iria acontecer, nunca teria deixado...
– Deixado...?
Vovó Clarisse m e solta e se afasta, passando a m ão pelo rosto, com um a expressão que nunca vi. Sua boca form a um a curva para baixo, as rugas ao redor de seus olhos parecem se m ultiplicar e, de repente, ela parece ter o dobro da idade. Não parece m ais a figura m aior do que tudo que sem pre esteve presente na m inha infância, a figura invencível. Aqui, nesse consultório, em um hospital subterrâneo, ela parece um a senhora frágil com o vidro, e sinto um ím peto de protegê-la do pior dos m eus sentim entos, porque acho que ela não seria capaz de aguentar.
– Não sou enferm eira. – Ela quebra o silêncio. – Nunca fui. Eu sou um a m édica, um a pesquisadora de m edicam entos, que se escondeu em Kali para desaparecer do radar do governo. O analgésico que você está tom ando é de autoria de um grupo de pesquisadores liderados por m im , assim com o vários outros tratam entos, todos controlados pelo governo Unidense. Eu conheci sua m ãe quando estava em um trabalho em Kali, e, m ais ou m enos no m om ento em que decidi fugir e m e esconder, sua m ãe... ela m e pediu para cuidar de você.
Olho para a m ulher que cham ei de avó a vida inteira, séria, m e sentindo traída. Ela conheceu m inha m ãe, apesar de ter dito várias vezes enquanto eu era pequena que havia m e encontrado em um dos hospitais, com o um a das crianças órfãs que nem sequer sabiam de onde vieram . O que m ais ela havia escondido? Por que faria um a coisa dessas?
– Você conheceu o Alm irante? – pergunto de form a calm a, contida.
– Não. Não – ela responde, balançando a cabeça. – Eu só soube quem ele era quando cheguei aqui e todos estavam agitados por causa da cam panha, do com ício, do que poderia acontecer. Ninguém m e disse diretam ente que ele era... seu pai, m as pelo que sua m ãe m e contou, deduzi rapidam ente que era ele.
– O que ela disse? Que ele era narigudo e tendia a fazer om issões extravagantes? – As palavras escapolem da m inha boca antes que eu possa m e controlar, e vej o Clarisse se encolher, com o se elas m achucassem .
– Sy bil... Eu tenho certeza de que ele teve seus m otivos. Sei que tenho os m eus – diz, cruzando os braços. – Não, sua m ãe m e disse que ele era oficial no navio Varuna e tinha um a irm ã quase da idade de Dim itri. Claro que não im aginei que ele chegaria tão longe na carreira, m as provavelm ente Cassandra sabia. Provavelm ente, se não tivesse m orrido, sua m ãe seria a Alm irante, e não seu pai. Era ela quem tinha todas as características para ser um a líder.
– Então você sem pre soube de tudo? – pergunto, com um a voz fina.
– Eu sei o que sei: sua m ãe estava doente e veio atrás de m im , porque eu estava testando a cura para a Morte Verm elha nessa época. Nós ficam os am igas e ela m e contou que era capitã-tenente em um navio, m as que havia fugido tanto deles quanto da sua fam ília, porque estava com m edo de transm itir a doença, m as, principalm ente, com m edo de passar a doença para você. Ela tinha acabado de descobrir que estava grávida na época. E não queria, em hipótese algum a, que você viesse para o Continente Pacífico, porque coisas ruins iriam acontecer... E, por isso, não queria que eu procurasse seu pai, porque ele te traria para cá; não queria que você fosse fácil de encontrar. – Ela pausa. – Nós conseguim os im pedir que a doença passasse para você, m as não foi possível salvá-la... Então eu te criei. Ela havia dito que queria que você se cham asse Sy bil, e o sobrenom e... Bem , eu achei que o m elhor a fazer era te dar o nom e do navio onde seus pais serviam .
Fico em silêncio, olhando para os j oelhos e tentando processar as inform ações. De algum a form a, esse tal de Idris está conectado aos m eus pais biológicos, m esm o que m inha m ãe tenha tom ado todos os cuidados para que eu nunca entrasse em contato com o resto da fam ília. Por que ela faria isso? Por que ela teria tanto m edo de m e deixar vir para cá, onde a vida era infinitam ente m elhor que em Kali?
Era. A resposta está aqui, no ponto em que estam os, na m inha m ão quebrada, no horror que presenciei m ais cedo. Até algum as sem anas atrás, a vida realm ente era m elhor, m as e agora? Aposto que Kali oferece facilm ente m ais conforto do que Pandora.
Saio dos m eus devaneios quando um a m ulher entra no quarto, vestida com calça verde-escura e um a blusa rosa-choque em baixo de um j aleco branco. Ela tem a pele m arrom com o a m inha e as feições de quem nasceu em Kali, e sorri quando m e vê, franzindo a testa ao ver m inha m ão. A conversa é interrom pida e um clim a esquisito paira no ar, m as a nova visitante parece não reparar.
– Olá, você deve ser a Sy bil! – ela fala, anim ada. – Sou Ziba, e nós vam os dar um j eito em todos os seus ferim entos hoj e, de um a vez por todas. Vej o que Clarisse j á desenfaixou seu braço para que eu exam ine, m uito bom , Clá.
– Você está com m uito trabalho, Ziba. Pensei em adiantar as coisas – vovó diz, se acom odando no outro lado da sala. Se fosse alguns m inutos atrás, eu lhe pediria para se aproxim ar, m as tudo está m uito confuso e não m e sinto m ais segura perto dela.
– Maravilha! – A m édica pega m inha m ão quebrada e a exam ina, pensativa. – Hum , bem , não sei se Clarisse disse, m as eu sou anôm ala, não sou com o ela. Posso refazer ossos e tecidos, m as não de um a vez. Se fosse um a fratura com um ou um corte, você sairia daqui inteira, m as, do j eito que está aqui, você precisará m e ver um a vez por dia e continuar tom ando seus analgésicos. Farei o possível para te curar o m ais rápido, m as não posso fazer um a previsão de quanto tem po levará.
– Tudo bem – eu respondo, resignada. – É m ais rápido do que esperar curar naturalm ente, não é?
– Com certeza! – Ziba sorri de form a reconfortante. – Nós precisam os deixá-la na posição correta, porque, apesar de conseguir curar, nem sem pre dá certo. Quando eu estava aprendendo a controlar m inha anom alia, rem endei um osso na posição errada e tivem os que quebrá-lo novam ente e, oh, não, não faça essa cara. Eu aprendi agora, nada vai dar errado.
– Tudo bem .
Ziba envolve m inha m ão nas suas e, depois de poucos segundos, m esm o com o efeito dos analgésicos, sinto um calor no centro da palm a, que se espalha pelos dedos e sobe pelo braço, se tornando um a sensação parecida com a de um form igam ento. Minha m ão não parece m elhor enquanto ela a im obiliza novam ente com bandagens lim pas, m as espero que em um a sem ana com ece a ter algum resultado visível. Quando term ina, m enciono que m eu j oelho tam bém dói às vezes, e ela resolve isso em dois segundos, deixando-o com o novo.
Ziba nos deixa com um a com binação dos analgésicos de Clarisse e um silêncio de sete toneladas entre nós. Abraço a m ão recém enfaixada contra o peito, m e recusando a olhar para vovó. Entendo que ela só fez o que a m ulher que m e pariu pediu, que talvez ela tivesse razão de ter m edo que eu viesse para cá, m as não deixo de m e sentir traída. Na últim a sem ana, tudo o que achei ser verdade se m ostrou parte de um a om issão extrem am ente elaborada por parte de todos os adultos ao m eu redor, com o se eu fosse apenas um a peça em um j ogo que não dom ino. Por que eles acharam que esse era o m elhor cam inho? Se eu soubesse m ais cedo de tudo isso, talvez... talvez... não sei, talvez nada fosse diferente, m as eu saberia. Eu teria um referencial, seria Sy bil, filha do Alm irante Alexander Klaus e de Cassandra Koukleva, seria a sobrinha de Dim itri. Não Sy bil Varuna, a pobre órfã náufraga de Kali.
– Você ainda é a m esm a pessoa que sem pre foi, Sy bil. – Clarisse quebra o silêncio, com o se estivesse lendo m inha m ente. Por um m ilésim o de segundo penso que ela está, m as então m e lem bro de que é hum ana. Ou talvez não sej a? Tudo isso é confuso dem ais! – Nada m udou. Você continua sendo Sy bil, a garota coraj osa que foi criada por m im , e é isso o que im porta.
– Com o você sabe? – Eu levanto o queixo em desafio. – As pessoas m udam .
– Tudo bem , você pode ter m udado sim . – Ela suspira. – Mas só quero que se lem bre de que você não é o que seu pai ou sua m ãe são, e que isso não pode te definir. Você não é a filha do Alm irante, você é Sy bil Varuna. Não deixe que ninguém tente ignorar ou apagar isso.
Não sei por quê, m as sinto vontade de chorar. Meus sentim entos estão um a bagunça e parece que a form a que escolhem para se organizar é vazando pelos m eus olhos, m e sufocando com soluços, encharcando o tecido da blusa de vovó Clarisse. Pelo m enos ela está aqui para recolher m eus pedaços e tentar m e reorganizar em algo m ais ou m enos coerente.