A retomada da União
Capítulo 22
Algum as m acas voltaram para a ala m édica, e Lisandra e a equipe de vovó Clarisse estão em um a enferm aria no fundo, em um a área isolada do resto. Procuro Ziba entre os m édicos e pela prim eira vez desde que cheguei aqui, com eço a prestar atenção nos pacientes. Idris havia dito que a ala m édica estava cheia de pessoas que salvaram dos Centros de Apoio em que faziam os testes aqui na União, e percebo que a m aior parte delas são adolescentes, entre a m inha idade e a de Sofia. O padrão é o m esm o em todos: pálidos, os lábios secos e um a tosse carregada, em acessos que os deixam trêm ulos e fracos.
Ziba m e encontra parada no m eio da enferm aria principal, parecendo perdida, e faz um sinal para que eu a siga até um consultório com o aquele em que m e atendeu quando cheguei ali pela prim eira vez. Quando a m édica se acom oda ao m eu lado e com eça a desfazer as bandagens, aproveito para tentar entender m elhor o que está acontecendo.
– Vocês voltaram para cá – digo, fazendo um a careta enquanto ela com eça a tirar as faixas, e o fedor do algodão úm ido e abafado sobe.
– Nossa, o que você fez com esse braço? – ela pergunta, surpresa, e seus dedos trabalham rapidam ente. – E, sim , voltam os. Clarisse percebeu que o que Lisandra tem não é tão contagioso quanto a Morte Verm elha, então não tem problem a. E estava m uito difícil cuidar de todo m undo no refeitório.
– O que eles têm não é igual ao que Lisandra tem ? – pergunto, observando os últim os pedaços de algodão sendo retirados da m inha m ão. Depois de tanto tem po enfaixada, está pálida e esverdeada, quase com o se não pertencesse ao resto do m eu corpo.
– Eles estão tentando descobrir, m as por enquanto acham os que não – Ziba responde, enquanto exam ina m inha m ão. – Hum , parece que você está quase boa. Não esperava que depois desta sem ana sem que eu usasse m eu poder tivéssem os um avanço tão grande.
– Então vou poder desenfaixar logo? – Meu tom é esperançoso e ela ri, colocando m inha m ão entre as suas.
– Provavelm ente. Mas venha para eu te curar m ais alguns dias, e verem os com o agir, tudo bem ?
Eu concordo e observo enquanto ela faz o ritual que j á conheço tão bem : seu poder esquenta m inha m ão e, depois de um tem po, ela para e a enfaixa novam ente. O fato de eu não sentir m ais dor é um bom indício da m inha m elhora, ela m e explica, e dessa vez m arca um horário para que eu apareça no dia seguinte.
Só quando m e levanto para ir em bora, seguindo-a, é que percebo o garoto parado na soleira da porta, com os braços cruzados, nos observando. Por um instante, espero que sej a Andrei, e tento esconder m inha decepção quando percebo que é Victor. Ele parece bem m elhor que antes, m as ainda tem bolsas escuras sob os olhos, e está visivelm ente m ais m agro.
– Está m elhor? – pergunto, parando ao seu lado na porta e encostando a m ão em seu braço.
– A febre parou – ele responde, e dá de om bros, com o se não tivesse passado os últim os dias à beira da m orte. – E você? Com o está sua m ão?
– Melhorando. – Minha resposta sai desaj eitada, e coloco a cabeça no corredor, olhando na direção onde vovó Clarisse e Andrei estão, m as não há nenhum a m ovim entação, nada. Me volto para Victor novam ente. – Você finalm ente aceitou vir para cá e sair da sua cela?
– Estou num dorm itório com outras pessoas – ele fala, e faz um sinal para que eu avance pelo corredor. – Achei que você estaria com fom e, então vim te cham ar para tom ar café da m anhã.
Hesito por um m inuto, m as m inha curiosidade sobre Victor vence a vontade de cam inhar até onde Lisandra está. Com certeza só vou atrapalhar, e é m elhor esperar que Andrei e vovó Clarisse estej am livres e venham m e procurar, então faço um sinal com a cabeça, concordando. Não consigo evitar lançar olhares furtivos para Victor enquanto cam inham os para o refeitório, considerando o quanto m inhas dúvidas são apropriadas.
– Eu não esperava que fosse ficar tão m al – ele quebra o silêncio depois de um tem po, sem olhar para m im enquanto fala. – Sabe? Quando decidi seguir vocês, achei que iria ficar m al um dia ou dois, no m áxim o. E aí poderia aj udar vocês... m as... não.
– O que aconteceu? – pergunto enquanto ele abre a porta do refeitório para entrarm os.
– Eu não consigo falar sobre isso. – Ele passa a m ão pelo rosto, frustrado. – Existem algum as perguntas que consigo responder diretam ente, m as outras que m e deixam ... alterado.
– Com o daquela vez em que você tentou m e avisar que Felícia era filha do cônsul?
– Sim . – Ele se senta à m inha frente em um a das m esas, olhando para um dos arcos do teto, pensativo. – Eu achei que poderia aj udá-los, m as não sou tão útil quanto esperava. Se não consigo falar, estar aqui não vale de nada.
Ele parece tão decepcionado, com o se aquilo fosse sua culpa, e eu paro, sem saber exatam ente o que fazer. O que Felícia fez para ele ficar tão m al todas as vezes em que tenta revelar algo im portante? Provavelm ente tem a ver com sua anom alia, m as que tipo de poder é tão forte assim , para controlar alguém de form a tão brutal? Quanto deve ser difícil para Victor carregar tudo o que sabe e que pode ser útil para nós sem conseguir com partilhar? Se eu estivesse em seu lugar, estaria enlouquecendo.
– Não é sua culpa – digo, por fim , apoiando a m ão gentilm ente em seu braço. – Pelo m enos está tentando.
– Pelo m enos estou longe dela – ele fala com determ inação, m as logo um a expressão de dor aparece em seu rosto. – O que você quer com er? Eu trago pra você.
– Não precisa, eu posso pegar sozinha...
– Não se preocupe, você está cansada e com a m ão assim e cansada. Eu não estou fazendo nada, m e deixe fazer um a gentileza por você.
Fico irritada, m as deixo que faça o que quer, sentindo um a pontada de com paixão por ele. Deve estar se sentindo péssim o, pensando em com o seus planos foram frustrados e em com o Felícia conseguiu prendê-lo a ponto im pedir sua vontade. Eu não sei o que faria se isso acontecesse com igo. O garoto volta com um a bandej a com pão, queij o e suco e a coloca na m inha frente antes de com eçar a com er devagar seu m ingau.
– A propósito, obrigada pelo dia do com ício. Se você não tivesse m e encontrado, provavelm ente teria m e perdido de Hassam na m ultidão – digo, arrancando um pedaço de pão para com er.
– Não foi nada. – Victor levanta os olhos verdes para m im , com um sorriso satisfeito e orgulhoso. Mesm o cansado e abatido com o está, os ângulos da sua bochecha e o desenho do seu queixo m e fazem entender porque Felícia parecia gostar tanto de tê-lo por perto. – Eu sabia... vi você e ele saindo do palanque e decidi segui-los.
Eu paro um segundo, observando-o com atenção. Ele sabia... o quê? O que iria acontecer? Que o palanque iria explodir e m atar todos que estavam ali? Fenrir e Felícia se safaram , então ele tam bém deveria estar com eles. Será que Felícia não percebeu que ele não estava por perto quando fugiu? Será que não é a raiva dela de ter sido abandonada que está fazendo com que Victor fique tão m al?
– Felícia... com o vocês se conheceram ? – pergunto, e ele suspira pesadam ente, largando a colher. Fico ansiosa porque acho que irá passar m al a qualquer m om ento, m as Victor parece bem enquanto m assageia as têm poras.
– Mais ou m enos três anos atrás, m inha m ãe, Petra, finalm ente foi convidada pelo cônsul para um dos eventos dele. Ela e Fornace não se dão nada bem , e, nos prim eiros anos, ela chegava em casa todos os dias irritada e frustrada porque, por m ais que tentasse, não conseguia vencer o cônsul nas votações – explica, com um tom cansado. – E ela m e levou, porque Dulce nunca gostou desses eventos. Até hoj e ela não gosta e prefere ficar em casa com Ida... Eu estou fugindo do assunto, não estou?
– Continue. – Eu apoio um cotovelo na m esa, curiosa. – Você foi com ela e aí conheceu Felícia?
– Eu tinha 15 anos na época, e ela era um a pirralha de 12 – ele fala com hum or na voz. – Ela ficou m e perseguindo pela festa inteira, logo a filha do cara que tornava a vida da m inha m ãe um inferno, e eu não quis ser chato e aí... um a coisa levou à outra... Quando eu vi, não conseguia m ais sair.
Victor fica cabisbaixo, pensativo, m ais preocupado em revirar a com ida do seu prato do que em continuar a história. Seu incôm odo é visível e percebo que ele está com vergonha pela form a com o evita fazer contato visual com qualquer coisa que não sej a as próprias m ãos.
– O que Felícia fez com você é responsabilidade dela, e não sua. Não precisa ter vergonha – digo e estico a m ão para encostar em seu braço, consolando-o
– Não, Sy bil, você não entende. – Ele se desvencilha de m im e sinto um a cham a de irritação subir em m eu peito. Qual é a desses m eninos que acham que só porque não estam os na m esm a situação que eles não conseguim os entender o sentim ento? – Eu gostava dela no início, sabe? Antes de Felícia com eçar... Se bem que nem sei m ais o que é real ou o que é fantasia dela. Antes eu só não percebia.
– E por isso você acha que tem culpa? – Cruzo os braços, m eu tom m uito m ais duro do que eu pretendia. – Você teve força o suficiente para tentar se afastar, sej a m ais gentil consigo m esm o.
Ele engole em seco e volta a encarar seu m ingau, a expressão im passível. Não sei com o tom a as m inhas palavras, m as espero que as considere. Ficam os em silêncio e term ino o café da m anhã sem saber m ais o que dizer. Victor levanta os olhos, abre a boca para falar algo, m as o que diz é abafado pelo estrondo das portas do refeitório sendo abertas de um a vez. Eu m e viro, sobressaltada, e sinto um frio na barriga quando vej o Cléo cam inhando na m inha direção com passos largos e decididos.
– Com o você está? – ela coloca a m ão na m inha testa e m e encolho quando sinto seus dedos gelados contra m inha pele. Sua expressão m uda de determ inada a preocupada em instantes. – Você chegou faz quanto tem po? Bebeu quantos litros de água desde que acordou? Sentiu algum a tontura, algo diferente?
Fico atordoada com a quantidade de perguntas, e quando Cléo percebe a atenção que cham ou, ela praticam ente m e arrasta para fora, m e levando pelo corredor até a sala de treinam entos. Quando chegam os lá, ela m e convence a sentar em um dos bancos e desaparece por algum tem po, voltando com um galão de cinco litros de água, que coloca na m inha frente.
– Quando Hassam m andou a m ensagem , dizendo o que tinha acontecido, fiquei m uito preocupada, e quase fui direto para onde você estava – Cléo explica, sentando-se ao m eu lado. – Mas não podia abandonar a m issão, que foi um pouco m ais com plicada do que eu im aginei que seria. Pegue um copo de água e m e conte tudo o que aconteceu.
Seu tom torna im possível não obedecer e, quando vej o, estou no terceiro copo de água, explicando o que aconteceu com um a voz trêm ula. A concentração com a qual m e encara é desconcertante e m e deixa assustada, porque torna m ais real o fato de que fiz algo m uito perigoso sem saber. Quando term ino, ela segura m eu braço com firm eza, em um gesto de conforto que não funciona bem vindo dela.
– Eu nunca im aginei... não esperava que você conseguisse fazer isso – ela diz, por fim . – Não é algo que todos nós podem os fazer, as pessoas da nossa fam ília. Seu pai não conseguia, não im portava o quanto tentasse.
– Quer dizer que eu podia ter m orrido queim ada tam bém ? – digo, m e sentindo cansada. – Se não desse certo, era o que ia acontecer...
– Você tem m uita sorte, Sy bil – Cléo fala, j untando as m ãos, pensativa. – Será que você tem todo o conj unto de poder da dona Miriam com o eu?
– Dona Miriam ?
– Sua bisavó, m ãe do seu avô – explica, e levo m inha m ão à testa, sentindo um a leve dor de cabeça. Eu não queria ter essa conversa nesse m om ento, talvez nunca, m as parece que não há escapatória. – Você vai conhecê-la assim que tudo acabar. Ela é m aravilhosa.
– Tenho certeza de que sim – digo, fraca, e ela com eça a tagarelar sobre várias pessoas e linhas de poderes e coisas que m al consigo acom panhar. Eu entendo que nem todos os anôm alos da fam ília do Alm irante têm as m esm as habilidades, e que pelo m enos m etade deles nasce com a habilidade de controlar sombras. Quase com ento que parece m uito m ais legal do que quase m orrer dom inando a água, m as Cléo parece tão em polgada que fico quieta.
– Então, Farah e Jam ila nasceram com a m esm a anom alia que a m ãe delas, a de controlar som bras. Sabah ainda é m uito pequena, m as acham os que ela puxou o pai. Eu tinha certeza de que ia pular um a geração, até você aparecer – ela conclui, com o se eu conhecesse algum a dessas pessoas. – Ah, elas são suas prim as. Todas m ais novas que você. Eu nem conheço Sabah ainda, vam os conhecê-la j untas!
Fico em silêncio, um turbilhão de sentim entos lutando ao m esm o tem po dentro de m im . É estranho pensar que há um ano eu nem sonhava que era anôm ala, e agora estou aqui, escondida em algum lugar em baixo da terra ao lado de alguém que é minha parente e que pode m e ensinar exatam ente com o explorar m inhas habilidades. Por m ais que ela tenha se m ostrado im paciente antes, sinto que não posso perder a oportunidade.
– Com o eu faço para controlar? – pergunto, interrom pendo sua verborragia. – Com o faço para não ter os efeitos colaterais se precisar usar... aquilo? Se eu precisar de água e tiver que tirá-la de algum lugar, com o funciona? Porque parece bem diferente do que você explicou quando com eçou a m e ensinar.
– Você ainda funciona com o um a esponj a, só que é um a esponj a superpotente que consegue direcionar e controlar o tanto que absorve – Cléo responde, apoiando o queixo nas m ãos. – Se Alex conseguia fazer o sangue de alguém subir até aparecer na pele, você vai conseguir controlar a velocidade com que ele corre no corpo da pessoa. Em um a piscina cheia de água, ele j am ais conseguiria fazê-la se m over um centím etro, m as você vai conseguir direcionar a correnteza se treinar. A base é a m esm a, m as os níveis de controle são diferentes.
Minha m ente fica a m il, pensando nas im plicações do que Cléo m e explica. Conseguir controlar a velocidade do sangue de alguém ? Isso m e parece perigoso dem ais, poderoso dem ais. Mas a alternativa é fazer isso acidentalm ente e acabar m achucando alguém , então a escolha é óbvia.
– Nós vam os retom ar os treinos? Você vai m e ensinar a fazer isso? – pergunto, e ela dá um m eio-sorriso, com o se eu tivesse dito algo que a agrada. Ela assente.
– Bem , não é ideal pular etapas, m as você precisa se preparar caso seu poder se descontrole nesse nível – explica. – É um a troca, sabe, entre você e a água. Se ela j á está perto, você consegue controlá-la sem nenhum a dificuldade. Mas se você tem que fazê-la ter força, fazê-la sair de onde está confinada, há um preço a pagar. Por isso você apagou, por isso você precisa repor a água agora.
– Isso faz um pouco de sentido. É com o se saísse água de m im para buscar a água onde ela está? – O quanto essa conversa é absurda não m e escapa, m as Cléo concorda, com o se fosse um a conversa casual.
– Sim . E, para isso, você precisa de duas coisas: controle e resistência física. Você precisa descansar, então hoj e está liberada. Lem bre-se de beber água constantem ente. A partir de am anhã, retom am os os treinos. Vou pedir para Idris te liberar para poderm os fazer intensivos. Com o Reika está na ala m édica...
No m om ento em que Cléo m enciona a garota, sinto a culpa de não ter perguntado nada sobre o resultado de sua m issão. Se ela está aqui, significa que tinha trazido o que vovó Clarisse precisava para salvar Lisandra, e que provavelm ente tinham m ais cobaias dos testes para serem tratadas. Eu nem sequer consigo im aginar a confusão que deve estar na ala m édica.
– O que aconteceu com ela? – pergunto, preocupada. – Ela está bem ? Está aj udando vovó Clarisse e os outros?
– Não. – Cléo desvia o olhar, parecendo culpada. – Nós tivem os... com plicações no cam inho. Encontram os dificuldade nos túneis quando estávam os voltando e ela acabou sendo atingida. Mas Reika está bem ! Vai ficar bem ! Ela conseguiu desviar e a bala ficou aloj ada em seu braço em vez de no peito.
– Dificuldade nos túneis – repito, a ansiedade subindo pelo m eu peito. – Um a dificuldade com posta por adolescentes anôm alos vestidos de am arelo?
O seu silêncio é o suficiente para eu saber que nossos dias aqui, em paz, estão contados. Se estão explorando em lugares tão distantes de Pandora, inevitavelm ente irão nos encontrar, sej a esse o obj etivo deles ou não. Não sei nada sobre a Aurora, m as tenho certeza de que eles e Fenrir andam de m ãos dadas. Sej a qual for o plano agora, Idris precisa agir rápido, antes que nos descubram .
– Am anhã nós com eçam os, Sy bil. Não tem os m uito tem po.