A retomada da União

Bárbara Morais · Capítulo 15 de 39

Páginas do PDF

A retomada da União

Capítulo 15

 

Hassam bate na porta enquanto ainda estou digerindo a inform ação sobre Lisandra e a cura. Leon o acom panha, ainda cabisbaixo. O soldado guia Leon até um a cadeira, m esm o que o garoto consiga fazer isso sozinho, e insiste para que se acom ode, m as fica em pé em um a postura protetora atrás.

– Olá, Sy bil – Hassam m e cum prim enta. – É bom que estej a aqui, assim acabam os com isso de um a vez.

Fico confusa, então percebo o que Leon carrega. Meus arquivos. Os que roubei do Im pério durante a m issão em que perdem os Ava, os que peguei escondido e tentei decifrar durante quase todo o verão. Leon havia m e dito que Hassam o estava aj udando a traduzir as páginas do idiom a do Im pério para o nosso, e pensar que aqui, agora, irei descobrir o que tem escrito neles m e deixa nervosa. É isso que está gerando o m al-estar em Leon? Ele descobriu o que tem escrito e ficou apreensivo? Enxugo o suor da m ão na m inha calça, olhando para Idris, que percebe m eu desconforto.

– Hassam , sente-se. – Faz um gesto para a outra cadeira, enquanto cam inha até a frente da m esa, encostando-se nela. Hassam se recusa, balançando a cabeça em sua m elhor posição de soldado, e Idris suspira. – Certo, o que vocês tem aí para m im ?

Hassam olha para Leon, que segura os arquivos com m ais força nas suas m ãos, com o se tivesse dúvidas de que queria entregá-lo. Me aproxim o, curiosa.

– Sy bil? – ele fala, baixo. – Eu... eu não queria que você soubesse assim .

– Não tem problem a, entregue para Idris – eu digo, dando perm issão. – Vocês decifraram ?

– Sim – Hassam confirm a, com a expressão rígida e o m axilar travado.

– Esses são os papéis de que m e falou? Da onde vieram ? Parecem coisa do Im pério – Idris afirm a, com um a ruga de dúvida se form ando em sua testa.

Eu tom o a dianteira e explico. Apesar dos poucos dias em que estou em sua com panhia, m e sinto segura o suficiente para com partilhar a traj etória da pasta, desde quando eu a encontrei até nossa luta para descobrir o que estava escrito. Idris escuta com atenção, e sua expressão m uda conform e desenvolvo a história. No fim , olha para a pasta nas m ãos de Leon, com curiosidade.

– Você não só roubou um a pasta dos dissidentes, m as tam bém salvou um a das cobaias deles? Sofia, a filha adotiva de Charles? Eu não sabia desse detalhe – revela, olhando para m im com um a expressão de orgulho.

– Andrei e Leon estavam com igo. E... Ava.

– A garota que eles curaram – ela com pleta, olhando para o outro lado, parecendo culpada. Não consigo acreditar que ela não sabia disso, que não havia conectado os pontos. Eu a encaro, um tanto preocupada, e ela percebe, fazendo um sinal para conversarm os depois. – E vocês finalm ente decifraram o arquivo e descobriram algo grande pelo que Hassam m e adiantou do assunto.

– Não passa de especulação, m as... – Leon diz, entregando o arquivo para Idris. – Se conseguirm os provas, não há quem fique a favor do governo da União quando descobrirem .

Idris olha para o arquivo em suas m ãos com o se fosse um a granada sem pino, e depois para m im , e é visível com o sua adm iração cresce. Abre a pasta, tirando um conj unto de papéis gram peados e os entrega para m im . Quando os pego, vej o que está escrito num a caligrafia bonita, organizada, no nosso idiom a. Idris está lendo o arquivo original e, quando passo os olhos pelo papel, abro e fecho a boca. Volto e leio do início, de novo e de novo, sem parar, e depois o largo, com o se estivesse pegando fogo.

Eu não sabia o que era raiva até esse m om ento. Nunca soube. Porque é um sentim ento que queim a nas veias e consom e, e dá vontade de gritar e destruir e m atar. Sinto m eu corpo inteiro trem er; m ordo m eus lábios, fecho os punhos e m inha m ão im obilizada dói com o m ovim ento. Essa é a gota d’água e, se depender de m im , coloco o Senado abaixo em três segundos. Dane-se ir com calm a, dane-se precisar do apoio dos hum anos, nós tem os que fazer algo agora, im ediatam ente.

– Isso é... – Idris fica sem palavras, repousando o arquivo na m esa. – Minha nossa!

– Sy bil, se acalm e. – Leon se levanta e se aproxim a de m im , m as m e esquivo, respirando fundo para não explodir. – Sy bil... eu sinto m uito.

– Leon, deixe-a em paz. – Hassam encosta no om bro do garoto. – É m uito para processar.

– Nós precisam os fazer algum a coisa! – exij o de Idris. – Agora. Com o o cônsul ousa ainda estar lá, dando ordens, com o se fosse um deus? Com o ousa brincar com a vida das pessoas assim , com o se elas fossem descartáveis?

– O tem po dele está chegando ao fim , Sy bil. As coisas vão ser diferentes – Idris rebate, tentando m e acalm ar.

– Isso é tão absurdo que eu... eu... – Sinto m eu corpo trem er de ódio. – Me deixe ir na m issão que vai investigar isso, a dos refugiados, e não ir com Cléo para os centros de pesquisa. Por favor, preciso fazer algo ou vou enlouquecer.

– Hassam , você irá com ela. Sairão am anhã, avise aos responsáveis para iniciarem os preparativos – Idris instrui, séria. – Vocês precisam arrum ar pistas, porque um a acusação desse tam anho vinda do Im pério não será levada a sério, a m enos que tenham indícios fortes de ser verdade.

– Nós tem os a m elhor m arinha do m undo, m as ainda assim escolhem os piores navios para transportar os refugiados. Eles vêm para cá sem nenhum a escolta, pelas rotas que todo m undo sabe que são as m ais perigosas, segundo esse docum ento. Para m im é argum ento o suficiente – respondo, ríspida e, logo depois, fico com vergonha.

– O Senado não pensará dessa form a – Idris fala e adm iro sua capacidade de m anter a cabeça fria, porque consigo ver um a veia pulsando em sua garganta. – Se você realm ente quer que o cônsul pague por isso, consiga m ais provas. Nós farem os o resto da m ágica.

– Considere feito, então – respondo e, sem pedir licença, deixo o côm odo. Eu não conseguiria fazer m ais nada m esm o com toda a raiva que estou sentindo.

***

Leon m e encontra no lugar m ais isolado possível, na superfície, onde arrisco ser vista por alguém , m esm o que estej a escuro. Estava m e sentindo confinada nas paredes da fortaleza, num lugar pequeno dem ais para conter m inha fúria, e praticam ente coagi Abena a m e m ostrar com o ir para o lado de fora. Quando saio, a lua cheia ilum ina o suficiente para que eu vej a que estam os num penhasco, na beira do oceano. O m ar bate violentam ente nas pedras, num estrondo que é com pletam ente isolado pelas paredes dos túneis.

Me ocupo j ogando pedras no m ar. É um a tarefa frustrante porque com o vento intenso do penhasco, a m aior parte volta para a terra ou bate contra a parede de pedra. Ainda estou fulm inando de raiva, m as esse esforço inútil m e acalm a um pouco.

Leon se senta na gram a, em silêncio. Quero gritar com ele e perguntar por que não m e procurou assim que traduziu tudo, por que levou as coisas para Idris antes de m ostrar para m im . Ele não era m eu am igo? Não estávam os nessa j untos? Pego outra pedra e j ogo com m ais força, dessa vez fazendo-a chegar longe.

– Me desculpe – Leon fala tão baixo que é quase inaudível. Jogo m ais um a pedra. – Eu queria falar com você, m as assim que term inam os Hassam disse que era m elhor levar para Idris e...

– Custava m e puxar um m inuto para m e dizer que tinha decifrado tudo? Que ia contar para m im e para Idris ao m esm o tem po? – Eu m e viro para ele. – Você teve horas para isso lá no refeitório!

– Achei que você não ia reagir bem . Não queria te deixar ainda m ais tensa, a situação j á estava difícil – Leon fala, escondendo o rosto num gesto de vergonha. – Sinto m uito, você tem razão. Quando acho que estou fazendo tudo direito, faço um a bobagem dessas. Não sou bom nessa história de ter am igos.

Me aproxim o, sentando em um a pedra grande, provavelm ente um bloco do que foi o castelo um dia. Leon se encolhe, parecendo tão vulnerável que sinto vontade de m e aproxim ar, m as ainda estou furiosa, e m e contenho.

– Era para ser um a surpresa, para seu aniversário. Não tivem os tem po de term inar e achei que te deixaria anim ada... só não im aginava que o conteúdo seria tão horrível – continua. – Não pensei direito o que isso significaria para você. Até hoj e.

– É só pensar em com o você ficou quando descobriu sobre as m issões – digo, m e exaltando conform e falo. – Não aguento m ais, sou tudo o que eles querem destruir, Leon. Tudo: anôm ala e refugiada, a garota que trouxe a peça que faltava para a cura, a única que conseguiu sobreviver às tragédias program adas para exterm inar os refugiados. É com o se a m inha existência fosse um a ofensa m ortal, sei lá.

Leon se levanta e senta ao m eu lado, sem encostar em m im , e entendo o gesto com o um a deixa para continuar. Minha raiva m uda de form a e se torna algo m ais m odelável, algo que consigo direcionar.

– E aí... – Fecho os olhos, levando dois dedos às têm poras. Im agem de corpos afundando e se debatendo dom inam a m inha m ente. – Fico pensando em todas aquelas pessoas do navio... Já tem um tem po que não m e lem bro delas; m as, agora, é com o se eu tivesse o dever de vingá-las, sabe? Elas m orreram porque um im becil não queria lotar as fazendas. Só por isso. Eram pessoas dem ais no plano com pletam ente perfeito do país desse hom em ridículo e... ugh. O que m ais dói é pensar que som os descartáveis.

– Você pode fazer algo – sugere. – Incom ode-o. Im peça-o de continuar. Use as ferram entas do cônsul contra ele m esm o. Aproveite a oportunidade que tem para agir.

É m inha vez de ficar em silêncio, olhando para o céu acim a de nós. A lua está cada vez m ais alta, abrindo cam inho entre as estrelas. Até que ponto derrubar o cônsul pode m udar as coisas? Por m ais fácil que sej a culpá-lo por tudo, ele não governa sozinho. Tem que haver outras pessoas que saibam do que ocorre, que concordem e achem aceitáveis suas ações. Com o Idris planej a contornar isso?

– O que m ais adm iro em você é com o continua cam inhando, continua viva, não im porta o que aconteça – Leon interrom pe m eus pensam entos com sua a voz trêm ula. – O passado não é um a âncora para você, é o com bustível. Queria ser coraj oso assim .

Encosto a cabeça em seu om bro e ele m e abraça, apoiando o queixo no topo da m inha cabeça, com as m ãos trêm ulas. Pela fragilidade do seu tom de voz, tenho certeza de que não estam os m ais falando sobre os arquivos, o cônsul ou ideias revolucionárias.

– Penso em Seeley o tem po todo – ele fala, por fim . – Penso em com o preciso im pedir que outras pessoas acabem com o ele. Penso que talvez Idris o tenha salvo, penso em com o ele deve ter virado cobaia e m orrido, e sobre com o tudo isso é m inha culpa. Olho para Hassam e penso em Seeley, fico com vergonha e m e sinto um a farsa.

– Leon... – Seguro um a das suas m ãos na m inha. – Você não sabia. Não im aginava que era para isso que o estava escolhendo, não é com o se fosse de propósito. Você não deveria se sentir culpado por isso.

– Eu não sabia? – pergunta ele, soando autodepreciativo. – Eu e ele sabíam os que algo terrível acontecia e que sem pre tinha alguém que não voltava. Eu poderia ter m e voluntariado. Seeley teria se sacrificado se fosse sua escolha. Eu sou egoísta e idiota, Sy bil.

– Todo m undo é egoísta e idiota às vezes, Leon. Todo m undo. – Eu aperto sua m ão. – E tem coisas, com o isso, que estão fora do seu controle. Não tenho ideia de com o... de com o eu reagiria se tivesse que escolher entre Andrei e você, ou alguém que m al conheço.

– Tenho m edo de tê-lo escolhido inconscientem ente porque... eu estava nervoso – ele fala, constrangido. – Eu nunca havia m e sentido atraído por ninguém até que ele entrou na m inha vida. Um cara. Meus irm ãos todos casaram com pessoas do sexo oposto, m inha m ãe repetia o tem po inteiro que eu tinha que arrum ar um a esposa e dar netinhos m aravilhosos para ela, e eu fiquei com m edo de desapontá-la.

– Isso nem faz sentido, Leon. Você está m e dizendo que tem m edo de descobrir que seu subconsciente quis m atar o garoto de que você gostava porque você tinha m edo de decepcionar sua fam ília? – falo e ele abaixa a cabeça, m ais envergonhado ainda. – Não, é sério. Você é um a pessoa racional o suficiente para perceber a falha na lógica. As pessoas que deveriam te proteger coagiram você a fazer um a escolha e é isso, apenas isso. Sim , foi horrível, m as se essas m issões não existissem , você nunca precisaria viver com essa culpa.

– É um a form a de encarar as coisas – ele diz com a voz em bargada, coçando o olho com um a das m ãos. – O m ais engraçado é que nem m inha m ãe nem m eu pai se im portam com isso. Com o negócio de gostar de m eninos, sabe?

– Você contou para eles? – pergunto, surpresa.

– Aparentem ente, não sou tão discreto quanto achei que era, e um dia, quando fui encontrar Hassam na biblioteca, m inha m ãe disse: “Você pode trazer seus nam orados aqui pra casa, sabia? Não precisa ficar se encontrando na biblioteca com o se fosse um crim inoso”.

– Não acredito – digo, segurando um a risada. – E o que você respondeu?

– Fiquei tenso, e depois paranoico, e depois contei tudo pra m inha m ãe. E m eu pai é médico e decidiu m e dar um a aula sobre anatom ia e outras coisas... – ele cobre o rosto. – Nunca passei tanta vergonha na m inha vida.

– Olhe pelo lado bom , agora você sabe tudo o que precisa saber sobre o assunto.

– Eu sei m ais do que queria saber sobre o assunto, você quis dizer. – Leon parece um pouco m ais anim ado. – Venha, se você realm ente quer destruir o cônsul com suas próprias m ãos, vai precisar estar descansada para am anhã. Mais um a vez, m e desculpe por não ter te falado sobre o arquivo antes.

– Tudo bem – digo, com um suspiro. – Só não faça novam ente.

Ele assente e beij a m inha testa.

– Você não tem noção do quanto estou grato por você ainda estar viva – ele sussurra e eu o abraço com força, toda a m inha raiva transform ada em determ inação.