A retomada da União
Capítulo 13
Cléo m e acorda no outro dia para o prim eiro treino, e fico confusa porque achei que ficaria com Idris o dia inteiro. A m ulher não responde às m inhas perguntas, m as a sigo até a câm ara de treinam entos. Descubro que é m uito cedo, e quase ninguém está em pé. Só Reika está lá, brandindo sua espada de m adeira com um a concentração im pecável. Cléo m e leva até o outro lado, onde degraus im provisados de m adeira se passam por bancos.
Ela parece m ais calm a hoj e e não m enciona o fato de serm os parentes. Prim eiro, m e explica que terem os aulas intensivas de quatro ou cinco horas por dia, porque preciso ter o m ínim o de dom ínio antes de sairm os na prim eira operação, em cinco dias. Com eçarem os cedo e, depois do alm oço, volto a aj udar Idris, o que oficializa m inha posição com o secretária da líder.
Cléo é obj etiva e com eça m e explicando exatam ente com o funciona m inha anom alia: a ideia é que nós som os com o “esponj as”, sugando ou transferindo água, dependendo da quantidade que tem os no corpo. Treinados, podem os escolher com o isso acontece, m as, em geral, descontrolados, só sugam os a água. Isso não serve apenas para seres vivos ou derivados, com o frutas e com idas, e ela dem onstra o que disse em poucos segundos, absorvendo toda a água de um a toalha úm ida.
Ela pede que eu com ece devagar, secando algum as uvas em m inha m ão, e não consigo deixar de lem brar do Alm irante, quando m e contou que era m eu pai. Meu pai. Será que um dia vou conseguir pensar nisso sem m e sentir estranha, com o um a peça de quebra-cabeça defeituosa? Quando fecho as m ãos sobre as frutas, sentindo sua superfície lisa, m eus sentim entos estão tão m alucos que consigo secá-las rapidam ente. Cléo as analisa e olha para m im , séria.
– Essa é a lição dois: se você não consegue controlar seus sentim entos, não consegue controlar seus poderes. – A m ulher pega um m orango da m esa e o repousa na m ão aberta. Ela o encara, im passível, e observo com um m isto de adm iração e repulsa enquanto ele m urcha até ficar ressecado. – Você sabe o que estou sentindo?
– Não – respondo.
– Porque não im porta. Eu posso estar triste ou irritada, feliz ou nervosa que vai funcionar do m esm o j eito. Porque eu lim po a m ente e penso apenas na ação de secar a fruta – explica, m e entregando um as uvas. – Lim pe sua m ente de tudo o que não sej a seus poderes.
Pego as frutas, incerta, e respiro fundo, fechando os olhos. Tento não pensar em com o m e sinto com tanta determ inação que, no final, nada acontece. Cléo, pacientem ente, pede que eu tente m ais um a vez, e dessa vez penso água, água, água, num m antra, im aginando um a cachoeira e um oceano. Levo um susto quando as uvas explodem em m inha m ão, espalhando a polpa gosm enta por todos os lados, inclusive na testa de Cléo.
– Bem , pelo m enos você descobriu com o fazer o contrário. – Cléo pega um lenço de papel, lim pa o rosto, e m e entrega um . Sua expressão é neutra, m as algo em seus olhos m e diz que está frustrada. – Continue tentando, garota.
Penso em desertos e no sol. Penso na água fluindo e saindo dos obj etos em m inhas m ãos para m inha pele e, em bora eu consiga na m aior parte das vezes, m inha treinadora não parece satisfeita. Com eço a sentir fom e. Além de não ter ido tom ar café da m anhã, ainda sou obrigada a treinar com com ida, criando um a pilha crescente de frutas secas. Mas Cléo não parece sequer notar isso quando m e m anda sentar num canto e m editar, para tentar lim par m inha m ente de todas as influências que podem atrapalhar.
Me sinto patética. Com as costas apoiadas na parede, observo a m ovim entação da sala de treinam entos. Mais pessoas se j untaram a Reika, e eles estão fazendo abaixam entos que cansam só de olhar. Com o é que alguém pode m editar? Com o é que alguém para um segundo e não pensa em nada, com tantas coisas acontecendo ao m esm o tem po? Fico inquieta e fecho os olhos, decidida a não falhar. O que as pessoas achariam se eu desistisse na prim eira hora, sem sequer ter tentado? Me esforço o m áxim o possível para não pensar em nada, m as acabo pensando sobre com o conseguir não pensar em nada é difícil.
Cléo parece satisfeita depois de alguns dolorosos m inutos e vej o que usou esse tem po para buscar com ida para nós duas. É pão, queij o e um copo de suco, com as frutas secas de sobrem esa. A m aior parte tem um gosto horrível, e faço careta ao m astigá-las.
– Sabe o que é isso? – pergunta Cléo, quando cuspo um a uva particularm ente ruim .
– O quê?
– Você estava pensando em algo negativo quando a secou.
– Isso quer dizer que se eu m atar um a pessoa assim e for com ê-la, ela vai ter um gosto ruim ? – retruco, sarcástica.
– Não é sobre gosto, é sobre controle. – Ela parece contrariada. – Se você precisar se proteger ou até atacar alguém , não vai querer que qualquer distração te atrapalhe. Pode ser a diferença entre ter a m ão quebrada ou não.
Fico irritada com sua insensibilidade e m e levanto, aproveitando a oportunidade para ir ao banheiro. Toda essa coisa de ficar sugando água de frutas tem um efeito parecido com o de beber vários copos de água seguidos e acho que m inha bexiga vai explodir. Quando volto, Cléo está em pé, com as m ãos na cintura, m e esperando.
– Não podem os prosseguir enquanto você não dom inar o básico – declara. – Mas antes, queria te dizer que não tolero esse tipo de com portam ento de ninguém. Você pode ser filha de Alexander, o que for, m as se falar com igo dessa form a m ais um a vez, vai se arrepender.
Mordo a língua para não responder de form a grosseira e peço desculpas, em bora não ache que eu deva. Se ela quer que eu fique im passível enquanto m enciona um m om ento horrível da m inha vida, tudo bem . Sou boa com o silêncio e com os olhares cheios de j ulgam ento. Sento-m e, determ inada a fazer com que o suplício dessas horas passe m ais rápido, m as quando não consigo fazer as coisas da form a com o ela quer, Cléo fica cada vez m ais frustrada.
– Estou tentando – digo a ela depois da quarta tentativa falha.
– Não parece – reclam a. – Não é tão difícil assim , Sy bil. É só não pensar em nada e fazer.
– Não estou pensando em nada, m as você continua dizendo que está errado! – exclam o e ela fecha a expressão.
– Você é realm ente ruim nisso. – Reika se aproxim a, enxugando as m ãos em um pequeno pano, e Cléo se vira para ela em fúria.
– Outra pirralha achando que sabe de algo! – Ela levanta a m ão e Reika se encolhe, e seus olhos estreitos ficam atentos.
– Não desconte em nós o que está sentindo – Ela retruca. – Posso tentar aj udar?
– Vá em frente – Cléo diz em tom de zom baria. – Se você conseguir ensiná-la a fazer da form a certa, pode treiná-la pelo resto da vida.
– Com licença então. – Ela faz um gesto para que se levante e Cléo obedece, descrente. Reika se senta na m inha frente, descascando um a banana e apontando para as outras frutas. – Escolha um a delas.
Pego a últim a uva do cacho e ela concorda com a cabeça, m astigando, pensativa, um pedaço da banana. Ela se senta de form a engraçada, com as pernas abertas, o cotovelo apoiado em um a das pernas e a cabeça am parada na m ão, parecendo um boneco de corda, ou algo assim , com seus braços e pernas longilíneos e bem definidos.
– Agora feche os olhos e sinta a fruta. Sim , soa idiota e você vai parecer boba, m as só faça o que estou pedindo. Sinta a textura da fruta, pense no gosto que ela tem , pense em com o ela tem água, assim com o você.
Olho para Cléo, que está ao seu lado im paciente, e resolvo obedecer a garota à m inha frente só para irritá-la caso dê certo. Me sinto estúpida enquanto tento sentir a uva, girando-a entre o m eu indicador e m eu dedão. Eu tinha secado quase um a dúzia de uvas e nunca percebi que elas não são circunferências perfeitas, nem que alguns pedaços de sua pele são um pouco m ais ásperos que outros, ou com o parte da experiência de com ê-las é o m om ento em que a pele arrebenta e a parte de dentro, gelada e escorregadia, se espalha pela boca. É um a coisinha assim , cheia de água. Não sei quando paro de rodá-la entre m eus dedos e a escondo em m inha m ão, nem exatam ente quando a seco, m as abro os olhos e ela está lá, no centro de m inha m ão, tão ressecada quanto as de Cléo.
A m ulher encara Reika, que parece estar se divertindo, com descrença. Cléo pega a uva da m inha m ão e j oga na boca, balançando a cabeça enquanto a prova. Reika m e entrega a casca da banana que acabou de com er.
– Muito bom , Sy bil. Agora com isso aqui.
E eu faço, novam ente, sem saber quando parei de prestar atenção na fruta e agi. Fico m ais anim ada, e Cléo se senta um pouco m ais para trás, resignada. Reika é, de longe, um a instrutora m uito m elhor do que ela. A garota corta pedaços de m açã e de m elão, de m elancia e de m anga, e nem m e im porto com a suj eira que fica nas m inhas m ãos, porque estou conseguindo. Depois de um tem po, percebo o que Cléo quis dizer sobre controlar m eus sentim entos: é só pensar no que estou tocando até que o obj eto e m inha m ão se tornem um e, então, está feito. Mas ela m e deixou tão nervosa que foi im possível perceber isso sozinha.
– Você... a sua anom alia é com o a nossa? – pergunto depois de alguns m inutos, curiosa.
– Não, não é – Reika diz, seus dedos se m ovendo rapidam ente pelos cabelos e form ando um a trança em cinco segundos. – Sou rápida. Não absurdam ente rápida, com o a velocidade da luz, m as rápida o suficiente para desviar de um a bala de revólver se eu precisar. Pelo m enos hipoteticam ente. Meu irm ão era bem m elhor do que eu nisso, m as estou m e aperfeiçoando.
– Então... com o? – pergunto.
– A m aior parte da exploração dos lim ites de um a anom alia passa pelos m esm os princípios. No m eu caso, não posso pensar sobre m inha velocidade ou não consigo ir tão rápido quanto posso. Então é bem m ais fácil m e concentrar só na ação que estou fazendo e deixar que m eu corpo faça o resto, com o em um reflexo. Mas Cléo é... im paciente. Ela vem aqui e age com o se você tivesse a obrigação de entender isso de prim eira. – Balança a cabeça. – Tenha paciência com ela, suas intenções são boas. Ela aj udou a m e treinar.
– Com o ela espera que eu aprenda desse j eito? – pergunto baixo, para que ela não escute. – Ela vai te falar as coisas e você vai m e treinar?
– Vou conversar com ela. Enquanto isso, vá treinando com o que tem os aí. Meus alunos vão com er tudo quando você term inar, então capricha, viu? – ela pede, com um sorriso, e eu concordo.
Cléo se levanta para se j untar a m im , m as Reika a im pede, levando-a para o outro lado da sala. Eu continuo, anim ada por estar funcionando, secando figos, pedaços de banana, pedaços de m açã, am eixas... Depois de um tem po, praticam ente vira um reflexo. Pegar a fruta na m ão, pensar nela, secá-la. É relaxante, até, porque todos os problem as parecem estar a quilôm etros de distância. Com o será que é o processo contrário? Eu tinha pensado em água quando explodi a uva, m as provavelm ente estava errado. Talvez sej a só pensar no oposto, em com o a textura da m inha m ão é diferente da fruta, em com o eu tenho m uito m ais água que ela... Sinto o interior gosm ento da am eixa que eu estava segurando grudar no m eu rosto antes m esm o de perceber o que eu fiz. Tudo está suj o e terei que tom ar banho de qualquer form a, então explodo m ais um a antes de perceber que as duas m ulheres estão m e observando.
– Olha, eu consegui. – Dou um sorriso, m ostrando a bagunça ao m eu redor.
Cléo e Reika trocam olhares e a m inha tia suspira.
– Parabéns – ela diz, irônica. – Você entendeu exatam ente com o é, não achei que seria tão rápido. Mas com frutas é fácil, a prim eira etapa. Quer tentar em outras coisas? – As palavras são inofensivas, m as o tom é de desafio.
– Claro! Tenho certeza de que vou conseguir rápido. – Minha resposta é petulante, e Cléo parece ficar m ais irritada.
– Não é tão fácil assim .
– Mas o princípio é o m esm o, você não disse?
– Exige bastante energia e concentração.
– Não tem problem a, eu dorm i bem à noite.
– Então que tal testar com isso? – Ela pega um dos degraus de m adeira com o o que estou sentada e j oga na m inha frente, com um a violência desnecessária. – Se você conseguir, te libero para o alm oço.
– Ah, então vou alm oçar m ais cedo, que ótim o!
– Verem os.
– Já chega! – Reika eleva a voz e eu m e assusto, tendo esquecido com pletam ente de que ainda está ali. – Cléo, nós tínham os com binado que você ia se controlar e m e deixar com a parte didática da coisa.
Ela esconde o rosto com a m ão, m as consigo ver sua expressão de desdém , com o se ter um a garota tão m ais nova a repreendendo lhe desse nos nervos. Não consigo im aginar com o essa m ulher pode ser irm ã do Alm irante, porque ela age de form a com pletam ente diferente da dele. Tam bém não entendo porque ela parece ser tão apreciada por Idris, j á que parece ter 14 anos e acha que todas as pessoas são obrigadas a fazer o que ela quer, quando quer e da form a que ela escolher.
– Tudo bem , use sua paciência m ilenar cultivada no Im pério para ensiná-la – responde, e m e sinto ofendida pela garota, apesar de ela achar engraçado. – Madeira é o próxim o passo, depois água, depois obj etos de plástico e, por últim o, pessoas. Não acho que vam os conseguir passar disso nesses próxim os dias.
Reika concorda e Cléo sai, sem sequer se despedir de m im . A garota pede que eu a aj ude a lim par a bagunça que fiz e cham a o grupo de pessoas do outro lado da sala para com er as frutas secas. Quase todos são um pouco m ais novos do que eu, m ais ou m enos da idade de Sofia e fico surpresa quando escuto alguns deles sussurrarem entre si no idiom a do Im pério. Enquanto com em os, Reika conversa com igo sobre si, respondendo m inhas perguntas de bom grado.
Descubro que m inha treinadora e seu irm ão m ais velho, Takum i, fugiram do Im pério para cá, anos atrás, e que m uitas das pessoas daqui tam bém são dissidentes. É surpreendente pensar que eles estão tentando nos aj udar a tornar a União um lugar m elhor para viver, m as quando digo isso, Reika tem um a crise de riso contida, antes de levantar a m anga da cam isa e m ostrar seu pulso, que tem um a cicatriz im ensa em form ato de gota.
– Você está vendo isso? É onde o m eu chip de identificação costum ava estar. Eles inseriram isso em m im na hora que em que nasci, no m om ento em que descobriram que eu tam bém era... com o vocês dizem aqui? Anôm ala, com o m inha m ãe e m eu irm ão. Meu pai nos devolveu para m eu avô depois disso, porque era um absurdo um a m ulher que não conseguia gerar um a criança boa – ela diz, sua voz firm e. – Nós crescem os ouvindo que som os um a punição para o m undo pelos pecados dos nossos antepassados, e aqui pode ser ruim o quanto for, m as não é pior do que a hum ilhação e a vergonha de viver no Im pério.
Fico em silêncio, sem palavras para confortá-la, e encosto a m ão em seu braço. Ela esconde a cicatriz, com um suspiro.
– Idris nos acolheu com o som os, e encontram os nosso lugar aqui, por isso aj udam os. – Noto que ela fala no plural, apesar de estar sozinha.
– Onde está seu irm ão?
Reika desvia o olhar para os adolescentes, dispersando-os com um com ando para que voltem ao treinam ento. Percebo que foi um a pergunta errada quando ela volta a m e dar instruções do que fazer agora, e fico constrangida pela indelicadeza. Mas, depois de um tem po, ela finalm ente responde:
– Ele não está m ais entre nós. Mas não im porta, ele partiu em nom e de algo que acreditam os. Tenho certeza de que terem os um a chance de aj udar os anôm alos do Im pério quando tudo isso acabar.
– Espero poder aj udá-los quando essa hora chegar – respondo sinceram ente e ela sorri, balançando a cabeça.
– Vam os, você tem que aprender logo a secar m adeira para esfregar na cara de Cléo com o é capaz – diz com um gesto para que eu prossiga o treinam ento, e fico com a sensação de que talvez tenha feito um a nova am iga.