A retomada da União
Capítulo 7
A relativa privacidade do m eu quarto é boa, porque posso ficar acordada lendo até ficar tão cansada que durm o com o um a pedra. No dia seguinte, só desço para com er, m e divertindo com o fluxo constante de palavras entre Reika e Abena, sob os olhos preocupados de Hannah. Devo estar com um a aparência péssim a, m as não m e im porto. Decido ficar no quarto até alguém precisar de m im .
Estou num a parte especialm ente tensa dos diários de m inha m ãe quando a porta do quarto se abre. Levo um susto, largando o caderno de um a vez, com o se estivesse fazendo algo errado. Andrei está encostado na porta, com um a expressão engraçada e os braços cruzados. Meu peito se aquece quando o encaro, surpresa por vê-lo aqui. Não acredito que ele veio, que deixou o pai sozinho e decidiu seguir um m onte de m alucos para um lugar que não sabia onde era. Ele sorri para m im , m as o gesto não atinge seus olhos, que estão som brios e carregados de dor. Não parece estar nada bem e tenho vontade de afundar m eu rosto em seu pescoço e escondê-lo do resto do m undo até que tudo volte ao eixo certo.
– O que você está fazendo? – pergunta, com o se fizesse dois m inutos desde a últim a vez em que nos vim os, se acom odando ao m eu lado na cam a e pegando um dos diários que ainda não li.
– Conhecendo m inha m ãe biológica – respondo, e as palavras soam m uito esquisitas. Me contenho para não enchê-lo de perguntas e observo enquanto ele abre um caderno verm elho e levanta um a sobrancelha, e seus lábios se curvam num quase sorriso.
– “Eu sonhei que você m e beij ava, eu disse, m ordendo os lábios, m e sentindo idiota por estar parada de m adrugada na frente do quarto de um oficial.” – Ele lê, fazendo as vozes. – “O quê?, Alexander perguntou, sonolento. E então reuni toda a m inha coragem e...”
– Andrei! Você está estragando a história! – Roubo o diário de form a desaj eitada por só estar usando um a das m ãos.
– Você sabe que nasceu desses dois, Sy bil, em algum m om ento isso ia ter que acontecer – ele diz, de form a prática, se inclinando na m inha direção para pegar o caderno de m inha m ão. Apesar da brincadeira, posso ver a tensão em seus om bros e com o seus m ovim entos são calculados para serem descontraídos. – Não sej a difícil, Sy b, ou vou ter que usar todas as m inhas arm as contra você.
– Ohh, que m edo – zom bo, e ele aperta os olhos, se aproxim ando m ais de m im . Sinto m eu coração se acelerar com a proxim idade e, em um segundo, Andrei parece desistir e encosta a cabeça na m inha testa, fechando os olhos e suspirando. Eu sussurro, com m inha voz fraca. – Você veio.
Não m e im porto com m inha m ão enfaixada quando o abraço, sentindo sua respiração quente contra a m inha bochecha. O garoto m antém os olhos fechados, e um a de suas m ãos repousam na curva entre m eu om bro e o pescoço, com o se ele quisesse verificar se a m inha pulsação ainda existe. Os lábios do garoto se curvam num a tentativa de sorriso quando deslizo um dedo pela sua m andíbula, encostando os lábios contra sua bochecha. Ele esconde o rosto no m eu om bro, m e puxando para seu colo.
– Você está viva – ele fala no m eu ouvido, e sua voz reverbera no m eu peito. – Você está realm ente viva.
– Andrei...
– Eu j á sabia disso antes, m as ver o caixão que deveria ser o seu entrar na terra... não conseguia parar de pensar que era você ali, ao lado da m inha m ãe, você e ela, j untas em baixo do solo, para serem com idas pelos verm es. Que eu só havia im aginado que você sobreviveu. – As palavras saem em um a torrente, e sua voz está em bargada. – Mas aqui está você, exatam ente com o da últim a vez.
Meus lábios se m ovem , traçando o desenho da sua bochecha, a linha íngrem e do seu nariz, a curva dos seus lábios. Seus cílios acariciam m inha pele e eu sinto seus dedos se afundarem contra m inha cintura, m e puxando m ais para perto, com o se nossa proxim idade nunca fosse ser o suficiente. Andrei retribui m eus beij os suavem ente, tom ando tem po para explorar a pele do m eu pescoço e a curva do m eu queixo. Sinto sua m ão nas m inhas costas, por debaixo da blusa, e fecho os olhos, beij ando-o, sentindo a batida acelerada do seu coração no m eu.
Ele é o prim eiro a se afastar, devagar, e seu rosto tem m anchas verm elhas, seus lábios estão ligeiram ente inchados. Me sento ao seu lado, arrum ando m eus cabelos atrás da orelha, tentando controlar a respiração e m eu coração, que parece prestes a explodir. Andrei passa a m ão pelo rosto, bagunçando ainda m ais os cabelos loiros, e eu j ogo um travesseiro para ele, que usa para cobrir seu colo, no lugar onde eu estava sentada antes. A culpa por estar m ais preocupada em beij á-lo do que com outras questões m ais urgentes m e invade e abaixo a cabeça, envergonhada. Ele deve estar pensando exatam ente a m esm a coisa.
– Merda – ele diz, olhando para cim a, e sua respiração é ainda ofegante. – Merda, m erda, m erda. Nós deveríam os ir encontrar os outros, colocar as coisas em m ovim ento, vingar m inha m ãe. Não... você sabe.
– Eu sei. – Suspiro, m assageando as têm poras. Mas a sensação da sua pele contra a m inha ainda está fresca, e m eu corpo parece protestar por ter sido privado dela. – Eu só... eu achei que você não ia.... Você deixou seu pai?
– Meu pai veio com igo. Sofia tam bém . Estam os todos aqui – responde, olhando para as próprias m ãos que repousam sobre o travesseiro. Depois, levanta o rosto e m e encara, com um m eio sorriso m ais genuíno do que o anterior. – Eu não iria deixar você e Leon ficarem com toda a diversão.
– Está sendo ridiculam ente divertido, olha só, não parei de rir um m inuto desde que cheguei aqui – respondo, sarcástica, e isso o faz rir, m as não dem ora m uito para que seus olhos fiquem perdidos, encarando a parede na frente da cam a.
– Eu quero fazer algo. Qualquer coisa que possa aj udar, qualquer coisa que faça o que estou sentindo ir em bora. – Ele abaixa a cabeça, fechando suas m ãos em punhos. – Precisei de toda m inha força de vontade para não derrubar Fenrir do palanque no funeral.
Quero tocá-lo novam ente, m as m e lim ito a colocar a m ão ao lado da sua, esperando que se m ova. Ele só usa um dedo para acariciar o dorso da m inha m ão, e seus olhos estão distantes. Não sei exatam ente com o reagir a esse Andrei, porque acho que nem ele sabe o que fazer com tudo o que está sentindo. É tão estranho pensar que nossos dilem as são opostos: enquanto m eus sentim entos são por descobrir que tenho um a m ãe, um a fam ília, o dele é por ter perdido a sua. Me faz sentir vergonha pensar em com o estou perdida só por um detalhe com o esse.
– Eu fico com m uita raiva quando penso nisso. – Andrei se levanta abruptam ente, cam inhando pela pequena área do quarto com passos largos. – De todos os sentim entos, o único que consigo discernir é raiva. Eu vej o o rosto de Fenrir sorrindo com aqueles dentes brancos e afiados o tem po todo em m inha m ente, enquanto nos observava no enterro, com o se não se im portasse. Minha m ãe era am iga de infância dele, sabe, e é assim que ele a trata. E isso sem pre m e leva para outros lugares. Por que eu não a tratei m elhor? Por que fui estúpido o suficiente para não aproveitar enquanto m inha m ãe estava viva? Por que ela teve que se arriscar e acabar desse j eito? Por que m eu pai tem que passar por tudo isso, logo ele, a m elhor pessoa do m undo?
– Andrei, m e escuta. – Me levanto tam bém , parando à sua frente e o segurando, até que ela olhe para m im . – Entendo a raiva de Fenrir, porque eu senti a m esm a coisa, m as não... não fique com raiva de si m esm o nem de sua m ãe. O que aconteceu não pode ser m udado e se você ficar se rem oendo, não vai trazer ninguém de volta.
– Você não entende. – Ele praticam ente cospe as palavras e eu m e encolho, cruzando os braços, acuada.
– Não, não entendo. Nunca tive um pai ou um a m ãe para saber o que é perdê-los – respondo, com um tom duro, m e levantando tam bém –, m as sei o suficiente para saber que você tem que usar o que está sentindo para se m over para cim a, e não para baixo.
Andrei não responde por algum tem po, visivelm ente tenso. Eu consigo sustentar silêncios m uito m elhor do que ele, então apenas o encaro, confusa sobre com o seu hum or pode ter m udado tanto em tão pouco tem po. Conheci pessoas de luto o suficiente para saber que cada um age de um a form a, m as não esperava que Andrei fosse dos que oscilam entre fingir que está tudo bem e o fundo do poço. Ele parece desconfortável sob o m eu olhar e, finalm ente, quebra o silêncio:
– Nem perguntei com o você está. Alguém deu um a olhada na sua m ão?
– Estou m elhor que você, Andrei. Não se preocupe com igo. – Arrum o os diários na m esa de cabeceira e j ogo o travesseiro na ponta da cam a com um pouco m ais de violência do que o necessário. – Quero ir ver Leon e Sofia, onde estão?
– Eles podem esperar m ais um pouquinho, não faz diferença.
– Tudo bem , você quer saber sobre m im ? – estouro, falando rapidam ente, irritada com a sua presunção. – Estou aqui, tentando m e aj ustar com a ideia de que tenho um pai e um a m ãe e que pelo m enos um deles estava vivo até quatro dias atrás e, surpresa! Agora realm ente sou órfã, de verdade! Vi duas pessoas serem queim adas até a m orte com o vingança pelo que fizeram com igo. Estou m orta para as pessoas que considero m inha fam ília. A única coisa que tenho são prom essas vagas, de pessoas que m al conheço, de que tudo vai ficar bem , de que nada disso vai se repetir. Tenho um nam orado que perdeu a m ãe e não sabe com o agir quanto a isso, e eu não sei com o consolá-lo, porque quando tento aj udar, ele m e trata com o se eu não soubesse nada sobre o luto. Logo eu, que cresci em Kali. Na m aior parte das vezes, só m e pergunto que tipo de m erda vai acontecer a seguir, porque é im possível que algo bom aconteça na m inha vida sem que haj a algo terrível logo depois!
Andrei m e encara com a boca entreaberta, porque nunca m e viu desse j eito, tão alterada. Aperto o punho e m ordo os lábios, respirando fundo para não m e descontrolar ainda m ais. Ele parece arrependido de ter insistido na pergunta e, provavelm ente, de ter m encionado qualquer assunto. Tenho m edo de que ele se feche e não queira m ais conversar com igo, m as, em vez disso, ele se abaixa, devagar, com o alguém se desm anchando, e sinto m eu coração na garganta quando vej o que ele se senta no chão, com o rosto afundado nas m ãos. O único indício de que está chorando são os espasm os periódicos nas suas costas e m esm o com toda raiva, não consigo deixá-lo passar por isso sozinho. É tão esquisito vê-lo assim , tão vulnerável, tão diferente do que estou acostum ada. Eu o abraço, forte, até que suas lágrim as passem .
Nós estam os todos ferrados se nosso futuro depender de pessoas tão m achucadas quanto eu e Andrei.