A retomada da União
Capítulo 30
Faço um sinal discreto para Áquila quando volto para a pequena sala, com o form a de dizer que deu certo, e ele parece apreensivo com m inha resposta. Devo parecer m uito assustada enquanto m echo na m ochila, porque Rubi pergunta constantem ente o que aconteceu e percebe que não deixo que encoste em m im . Verifico a faca em m inha bota e escondo a arm a de choques no cós da calça. Sentar a faz m achucar m inhas costas, m as não fico segura deixando-a longe de m im .
– O que você está fazendo? – Rubi exige um a resposta depois de um tem po, parecendo irritada. – Sy bil, o que você fez?
– Preciso que você guarde os diários para m im – digo, entregando a m ochila para ela sem encará-la. – Por favor. Prom eto que volto para buscá-los.
– Sy bil... – Ela pega a m ochila, m uito confusa, e eu a abraço, apertando-a contra m im . Ela passa a m ão pela m inha cabeça e eu encosto a testa em seu om bro, respirando fundo. Rubi insiste: – O que você fez?
– Você e Dim itri precisam procurar aj uda, m as de form a discreta – sussurro em seu ouvido. – Hannah estará com vocês, ela saberá a quem alertar e com o alertá-los.
– Você... – Rubi se afasta e m e encara, assustada. – Sy bil, o que você fez para aquele psicopata nos soltar?
– Não foi nada que vai m e colocar em um risco m aior do que j á corro – digo, desviando o olhar, e ela segura m inha m ão com força. – Peça aj uda, pegue Tom ás e desapareçam até tudo voltar ao norm al. Eu vou encontrá-los quando puder.
– Droga, Sy bil! – ela exclam a e levanta o m eu rosto. – Você não deveria ter feito isso sem m e consultar. Você não devia se colocar em risco para tentar nos salvar, nós daríam os um j eito.
– Rubi, é a m elhor m aneira – falo baixinho e a sinto suspirar quando m e abraça novam ente. Sinto um bolo na garganta e m ordo os lábios. – Prom eto que vou voltar para casa.
– Nós estarem os te esperando – ela sussurra e m e dá um beij o na testa. Sinto que quer dizer algo, m as seu peito só sobe e desce de form a cansada enquanto faz cafuné no m eu cabelo.
São Brian e Felícia que vêm buscá-la, e não preciso insistir para que m e levem j unto, para vê-la partir em segurança. Encontram os Dim itri e Hannah no prim eiro andar e levo a m ão ao rosto quando vej o o estado físico do m eu tio. A prim eira coisa que noto é a ausência de cabelo em sua cabeça, a segunda é o fato de que ele não consegue ficar em pé sem aj uda. Depois, vej o que os dedos de sua m ão estão retorcidos, com o se tivessem sido quebrados, e preciso m e conter para não arrancá-lo das m ãos do garoto que o segura e enchê-lo de cuidados.
Ele olha para nós e, m esm o com os hem atom as em seu rosto, dá um sorriso quando m e vê. Rubi corre até ele e ninguém a im pede quando ela o tom a do garoto, apoiando-o em seus om bros. Hannah parece confusa, m as está exatam ente do j eito em que a deixei. Felícia faz um sinal para que eu m e aproxim e deles e abraço Dim itri e Rubi de form a desaj eitada. O hom em encosta a testa na m inha cabeça e quando percebo seu alívio ao m e ver bem , preciso conter um soluço que certam ente se transform aria em choro.
– Eles vão nos soltar? – ele sussurra para m im , e Rubi e eu trocam os olhares. Dim itri percebe e seus lábios se transform am em um a linha fina de preocupação. Eu o beij o na bochecha e m e afasto.
– Prontos? – Felícia pergunta, com um sorriso que a faz parecer angelical. Segura no braço de Brian, que parece desconfortável com a cena, e ordena: – Brian, leve-os para casa em segurança. Se acontecer qualquer coisa com eles, você irá se arrepender am argam ente.
Percebo a dúvida nos olhos de Hannah enquanto descem os as escadas, passando pelo hall da prefeitura e indo para um subsolo que eu nem sabia que existia. Mas há um a saída de em ergência aqui e Hannah só percebe que não os sigo quando está do lado de fora.
– Sy bil! – Ouço-a gritar. – Sy bil! Por que você não vem tam bém ? Sy bil! Me larga, seu troglodita!
Ouço o barulho seco do soco e a porta se abre novam ente. Hannah e um guarda lutam , ele a puxa para fora e ela se agarra na m adeira da porta com o se sua vida dependesse disso. Ela m e encara, confusa e eu faço um sinal discreto para que ela vá em bora.
– Sy bil! – m e cham a m ais um a vez, chutando o garoto que a puxa no m eio das pernas e Felícia cruza os braços, se divertindo m uito com a cena.
– Hannah, só vá em bora! – digo, incisiva.
Hannah m e encara por um segundo e finalm ente se solta, fazendo a porta se fechar em um estrondo atrás de si. Felícia apoia sua m ão no m eio das m inhas costas novam ente e quando percebo que está cantarolando baixinho enquanto fazem os o cam inho de volta, tenho vontade de socá-la. Mas preciso m e concentrar porque se a prim eira parte do m eu plano funcionou, preciso de m uito m ais habilidade para fazer a segunda parte dar certo tam bém . Com o esperado, ela m e leva direto para a sala do prefeito, onde Fenrir está sentado na frente da flâm ula que exibe seu rosto. Dessa vez, Victor e Cléo tam bém estão aqui, e enquanto o olhar do m enino é vazio, o da m ulher seria capaz de m e m atar. Felícia m e direciona até um a das cadeiras e m e encosto com pletam ente no espaldar, com m edo que encontrem a arm a de choques escondida em baixo da m inha blusa.
– Conversei com sua tia, Sy bil, e foi um prazer descobrir que você não m entiu para m im . – Fenrir faz um gesto am plo na direção de Cléo, que parece contrariada. – Por alguns instantes realm ente achei que você estava m e enganando, m as não. E só por isso sua fam ília está lá fora, a salvo, com o você pediu. Agora é sua vez de cum prir sua parte na barganha.
– O que você quer saber? – digo, apertando o assento abaixo de m im .
– Não há nenhum outro plano, Fenrir – Cléo m e interrom pe, se levantando. – Faça com o planej a e dará tudo certo.
– Da form a com o reage, até parece que é você que quer esconder algo. Você está trabalhando com o agente dupla, Cleópatra? – O tom de Fenrir é preciso com o um a faca e vej o os sinais de irritação surgirem em Cléo. – Você m e trouxe um plano falso para que a sua aberraçãozinha de estim ação triunfe?
– Você sabe que não – ela responde, entredentes. – Eu não devo nada a ela, não depois do que ela fez.
– Então deixe sua sobrinha falar – faz um sinal com o queixo para m im . – Com ece, Sy bil.
– Ela sabe que você planej a levar a Aurora para Prom eteu – digo, nervosam ente. – E fez Cléo acreditar que vão te deixar em paz só para aproveitar enquanto estão fora para tom ar Pandora e im pedir que voltem para cá.
Fenrir se inclina na m inha direção, com a testa franzida, e continuo tecendo m inha torrente de m entiras, prendendo-o no m eio. Idris sabe os planos dele, sabe que ele está com o cônsul, e está usando a Cúpula Máxim a com o isca para atraí-lo até o Senado para acabar com ele de um a vez. Idris sabe que se o encurralar, ele nunca conseguirá realizar seu plano de com eçar um a nova era, e é isso que planej a fazer. Nós fom os um a distração, algo para fazê-lo achar que estávam os no escuro quanto aos term os dele, enquanto sabíam os tudo. Quando term ino, usei a expressão “roubar a sua glória” pelo m enos um as vinte vezes, e vej o que Fenrir cai direitinho, exatam ente com o Áquila havia dito.
Sua m andíbula está trem endo quando se levanta devagar, a tensão visível em seus m úsculos, e eu m e encolho, com m edo do grito que dá a seguir, derrubando tudo da m esa com um gesto da m ão. Prendo a respiração e sinto que todas as outras pessoas fazem o m esm o enquanto ele j oga sua cadeira contra um a das paredes, quebrando-a em m ilhares de pedaços. Ninguém tem coragem de dizer nada.
– Você. – Ele aponta para Cléo praticam ente cuspindo as palavras. – Você não ficará aqui para cuidar de tudo, você irá com igo e im pedirá Idris se for preciso.
– Ela está m entindo! – Cléo protesta, ao se levantar. – O nosso acordo não foi esse, eu te entregava o que você queria e, em troca, você m e protegeria! Você faria algo para m e vingar!
– Não existe m ais acordo a partir do m om ento em que você não m e trouxe a inform ação com pleta – ele ruge e Cléo cruza os braços, com um a expressão de desgosto.
– Nada do que ela fala é verdade! – Cléo exclam a novam ente e se aproxim a de m im , segurando no m eu om bro. Me encolho e desvio o olhar, m e sentindo constrangida. – Diga para ele, Sy bil. Você não colocaria sua fam ília em risco, colocaria? Sua m entira só está m e prej udicando.
– Não, eu nunca colocaria a m inha fam ília em risco – afirm o sem olhar para Cléo, m e sentindo um pouco culpada. Fenrir nos encara por alguns segundos e sua expressão para Cléo é cortante.
– Você é tão cega que não percebe que é exatam ente por isso que ela nunca m entiria? – ele fala, e eu deveria m e sentir esperta, m as só m e sinto um a farsa. – Porque é a segurança da fam ília dela que está em j ogo aqui, fam ília que não te inclui.
Fico ainda m ais envergonhada quando percebo o choque no rosto de Cléo, que indica que ela nunca havia cogitado essa possibilidade até o m om ento. Se ela m e considera com o fam ília, por que m e entregou para Fenrir? O que achou que ele faria com igo? Me daria chocolate e m e levaria para dar um a volta num parque de diversões? É absurdo que Fenrir tenha sido capaz de perceber isso em poucos m inutos, sendo que, depois de todos esses dias, com todas as m inhas negativas e os m om entos desconfortáveis, Cléo ainda não tivesse caído na real. Toda e qualquer chance de considerá-la m inha fam ília m orreu ontem , no m om ento em que ela m e entregou para o professor Z de m ão beij ada.
E ela pode clam ar o quanto quiser que estou m entindo, porque Fenrir acredita dem ais na m inha retidão m oral para duvidar da m inha história. Me lem bro de Hassam e do funeral: a m elhor m entira é aquela que está tão m isturada com a verdade que não há com o distinguir as duas. É irônico que Fenrir caia na m esm a arm adilha em que prendeu todas as outras pessoas com tanta facilidade.
– E você. – Fenrir finalm ente se vira para m im . – Você tam bém irá conosco, para testem unhar a expressão de Idris quando perceber que você a traiu. Para m e ver enquanto triunfo.
Eu tento parecer chocada ou chateada, m as, no fundo, m e sinto vitoriosa. Porque, sem perceber, ele está fazendo exatam ente o que eu quero.