A retomada da União

Bárbara Morais · Capítulo 38 de 39

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A retomada da União

Capítulo 38

 

O fornecim ento de energia elétrica volta no m esm o dia em que o carro vem m e buscar para a assem bleia, atravessando Pandora e navegando Prom eteu até chegar em República. O contraste entre os bairros e as cidades é visível pela j anela e, para m inha surpresa, a grande praça à frente do Senado está cheia de anôm alos vestidos de am arelo. Sinto um frio no estôm ago quando percebo que há um palanque im provisado em um dos cantos. É a Aurora? Com o vieram parar aqui com Pandora ainda bloqueada? Alguns deles não estavam presos? Eu m e inclino na direção do m otorista.

– O senhor sabe o que eles estão fazendo aqui? – pergunto, e o hom em olha para m im pelo retrovisor, levantando um a sobrancelha.

– Eles têm autorização assim com o você, senhorita – explica, e eu volto a m e encostar no banco, arrum ando um a dobra im aginária do m eu vestido am arelo.

O carro fica m ais devagar conform e se aproxim a da entrada do Senado e só consigo discernir Fenrir dentre as palavras que falam . Tenho vontade de sair do carro e gritar para que todos se calem . Param os na frente do Senado e tento abrir a porta, que não cede. O m otorista desce, dá a volta e abre a porta para que eu saia e sou atacada por vários m icrofones, flashes e um a torrente de perguntas:

– É verdade que Fenrir te salvou de últim a hora por saber dos planos do cônsul de explodir o palanque no com ício?

– Com o é voltar à vida?

– O que aconteceu com seu olho?

– Você planej a honrar a m orte de Fenrir de algum a form a hoj e, na assem bleia?

– O que você acha do retorno de Idris Vernekar à política?

– Você apoia a reform a constitucional proposta pela Senadora Am ani?

Não faço ideia do que fazer até que o m otorista m e aj uda a atravessar a barreira de j ornalistas e entrar no Senado, onde Maritza aparece e m e guia rapidam ente pelas escadas. Hannah está nos esperando lá em cim a com Idris, que parece frustrada e irritada por não poder participar. Seu pesado sobretudo deu lugar a um terno azul-escuro que a deixa m ais poderosa ainda, e ela parece pertencer a esse lugar.

– Eu ainda não gosto da ideia de deixar elas e Clarisse sozinhas com eles – Idris fala para Maritza, receosa. – Sei que conversam os com Petra e fecham os o plano de m edidas, m as tenho m edo de que se aproveitem das duas e tentem m udar algo.

– Você pode tentar convencê-los a nos deixar entrar, nem que sej a só com o ouvintes – Maritza sugere, e Idris olha para a porta do plenário, apreensiva. – Mas criará m ais resistência às propostas. Você pode escolher o que prefere.

– Odeio com o, m esm o depois de tanto tem po, tudo perm anece inalterado. As m esm as políticas, a m esm a dança cuidadosa. Não sirvo m ais para isso, Mari. – Idris suspira. – Estou convivendo dem ais com você, preferindo m exer com os bastidores do que estar nos holofotes.

– Você... – eu as interrom po e fico com vergonha quando olham para m im . Mari faz um sinal para que eu continue e lam bo os lábios. – Você era senadora, Idris?

– Anos atrás, antes de Fenrir entrar no j ogo e m e elim inar de vez. – Seu sorriso é dolorido. – Mas chega de falar de m im , vam os ao que interessa.

Elas nos passam instruções e nos reasseguram de que tudo dará certo e que estarão nos esperando aqui fora, caso precisem os de algo. Sinto calafrios quando entram os no plenário, m as quaisquer indícios dos acontecim entos do início da sem ana desapareceram . Acho que foi a m udança de cadeiras m ais rápida da história, porque tudo está com o novo. Mesm o assim , m e sento nervosam ente no lugar onde m e apontam , entre vovó Clarisse e Hannah, e observo, confusa, a sucessão de discursos pom posos e argum entos sem sentido que se segue.

Estou m al prestando atenção quando cham am Hannah e eu para falar, e nos posicionam os no centro do côm odo, respondendo perguntas incôm odas sobre Fenrir, sobre Idris, sobre as m issões e sobre o tratam ento dos anôm alos em geral. Percebo, no m eio, que som os as únicas anôm alas no recinto. Sei que Idris e Maritza não tiveram autorização para participar, m as esperava que houvesse m ais anôm alos do que nós duas. Lem bro das palavras de Fenrir e sinto raiva de todos aqui dentro. Não é possível que eles tom em decisões para o bem dos anôm alos com base no que duas adolescentes dizem , e sem ninguém para lutar por nós. Eu levanto a m ão, pedindo a palavra, m as parecem m e ignorar. Quando não fazem perguntas diretam ente para m im , eu m e sento, frustrada, m e esforçando m ais para acom panhar a argum entação.

Vovó Clarisse é convidada para o centro, e ela não deixa que ninguém a interrom pa, apesar das tentativas de alguns senadores. Com eça exibindo as funções das m issões e lem brando a todos os senadores das provas que lhes foram apresentadas durante a sem ana, e depois parte para um a explicação sim ples e concisa sobre a tal cura para as anom alias, term inando com um a prova clínica de que todos os anôm alos supostam ente curados apenas estavam com um tipo de doença, com o um câncer, que os m atava rapidam ente. As perguntas que recebe são frustrantes e cheias de m á vontade, m as ela as responde de form a precisa e, quando se senta, o plenário todo está em silêncio.

Petra então tom a o centro, seu vestido de luto tornando-a m ais im pressionante do que o norm al.

– Com todas as inform ações às nossas m ãos e com a unanim idade de que a questão dos anôm alos sej a a prim eira a ser resolvida, antes do abastecim ento de com ida e da escolha do novo cônsul, podem os votar as propostas da reform a – enuncia. – A com eçar pela reabertura das Cidades Especiais e pela retirada de todas as sanções dos últim os m eses. Aqueles que são a favor, levantem as m ãos.

Olho ao m eu redor e consigo ver que todos, sem exceção, estão com as m ãos levantadas. Petra anuncia que a m edida passou com unanim idade, e todos batem palm as. Fico um pouco m ais aliviada, m as isso só faz as coisas deixarem de ser péssim as e voltarem a ser ruins.

– A seguir, a suspensão im ediata e definitiva de todas as m issões e de todos os experim entos relacionados à suposta cura das anom alias, incluindo a libertação de todos os anôm alos que são m antidos com o prisioneiros e a criação de um com itê para avaliar e investigar m ais a fundo as descobertas do Im pério do Sol para nos resguardar no futuro – ela fala sem perder o fôlego. – Todos que são a favor, levantem as m ãos.

A m ovim entação é m ais lenta dessa vez e vej o que, em bora a m aioria concorde, alguns nem sequer se m exem , com os braços cruzados. Um deles é o Senador Fueller, o hom em que discutiu com Fenrir e m andou que ele se colocasse em seu lugar. Petra anuncia que essa m edida foi aprovada com louvor, e as palm as são um pouco m ais fracas. Olho para vovó Clarisse e ela sorri. Essa é a prim eira vitória real do dia. E então Petra anuncia a próxim a:

– A suspensão da necessidade de perm issões para que os anôm alos que m oram em Cidades Especiais saiam de suas regiões, garantindo-lhes direito pleno de ir e vir. Igualm ente, fica proibido a discrim inação em qualquer tipo de estabelecim ento, público e privado, perm itindo que anôm alos frequentem os m esm os locais que não-anôm alos, sob risco de m ulta para os estabelecim entos que desobedecerem – ela fala, e ouço o som de ultraj e, m as ela eleva a voz. – Essa m edida será tom ada progressivam ente, ao longo dos próxim os três anos, sendo de execução im ediata apenas a suspensão das perm issões.

– Isso é um absurdo! – um a das senadoras exclam a, se levantando. – Eu tenho direito de não querer frequentar os m esm os estabelecim entos que eles.

– A senhora tem tanto direito de querer frequentar os estabelecim entos que quiser quanto eles, Senadora Pauline – Petra rebate de form a serena. – Se a lei continuar com o está, os estabelecim entos precisam poder proibir a entrada de humanos. Com o se sentiria quanto a isso?

– Nós não som os um a am eaça para a sociedade! – ela rebate, cruzando os braços.

– Há m ais algum a obj eção? – Petra pergunta, ignorando a birra da m ulher. – Não? Aqueles a favor, levantem as m ãos.

Existem tão poucas m ãos levantadas em com paração com as votações anteriores que fico nervosa, m as faço um a contagem rápida e vej o que são pouco m ais do que a m etade. Petra term ina a contagem e anuncia que a m edida foi aprovada por m aioria qualificada. Eu suspiro, aliviada, até que ela parte para a próxim a:

– E, por últim o, para fechar o prim eiro pacote de reform as: a elevação para cinco vagas destinadas a senadores anôm alos, iniciando-se na próxim a eleição. Pelo m enos um vindo de cada um a das principais Cidades Especiais, alavancados por cam panhas locais, com o acontece com todas as outras cadeiras – ela fala e é recebida com um silêncio sepulcral. – Algum a obj eção?

– Cinco? – Vej o um hom em se levantar com os braços cruzados e fico surpresa quando o identifico quase im ediatam ente com o o representante de Kali no Senado. – Nós som os a província m ais im portante para a segurança desse país e só tem os um representante, Senadora Am ani.

– Estou ciente das dificuldades de representação das nossas províncias, Senador Patil, e pretendo discutir várias outras reform as nesse sentido. Bantu é um a das m aiores províncias da União e nós tem os apenas três representantes. Não é um sistem a j usto, m as podem os dar m ais um passo em direção a isso agora. Lem brem -se de que tem os um a população extrem am ente nervosa e precisam os acalm á-los se não quiserm os o pior – explica e, quando vê que não há m ais nenhum a observação, convoca todos a votarem tam bém .

Se o resultado anterior foi apertado, esse é m ais ainda. A votação é ganha por um voto de diferença, e eu abaixo o rosto, m e sentindo m uito m ais leve depois de tudo isso. Eles podem ter votado m ovidos pelo m edo de um a guerra civil, m as pelo m enos haviam decidido tom ar algum tipo de ação. Não precisarm os m ais ter autorização para sair de Pandora nem serm os proibidos de entrar em loj as m e parece um passo im enso, em bora não m e escape que ainda som os obrigados a usar am arelo para nos diferenciar dos dem ais. Eu quero sair e celebrar, m as logo Petra cede seu lugar no centro para o Senador Patil, de Kali, e ele parece orgulhoso de finalm ente estar ali, com toda a atenção para si.

O hom em elucida, então, as descobertas da Polícia Nacional sobre os cam pos de refugiados. Não há com o negar que algo precisa ser feito, e m e sinto ultraj ada quando descubro que a m aior parte dos refugiados é traficado para o Im pério. Aparentem ente, todos os Fornace m antinham um relacionam ento bem próxim o com nossos inim igos e, além da venda de m ão de obra, tam bém praticavam outras gentilezas, com o garantir que não iriam usar toda a força da m arinha e da aeronáutica da União contra os dissidentes. Nenhum senador parece estar chocado com isso, e vovó Clarisse m e explica que essas exibições aqui são apenas um espetáculo, todos recebem os relatórios detalhados de antem ão.

A solução sai com unanim idade: o fim do program a de refugiados com o é feito hoj e e, com o reparação para os que atualm ente estão nas fazendas, a posse da terra em que trabalhavam . A próxim a m e deixa um pouco m ais apreensiva, m as faz sentido – term inar a guerra nos próxim os dez anos. Não acho que sej a possível, m as os senadores parecem otim istas.

O saldo final é m aravilhoso e nós com partilham os sorrisos, esperando o encerram ento. Mas quando o Senador Patil se acom oda em seu lugar, toda a m inha anim ação m orre quando vej o que o Senador Fueller está no centro do plenário.

– Eu recebi um pedido inusitado essa m anhã, de um a garotinha que não se identificou – fala. – E acho que, dados os resultados de hoj e, o discurso da Senadora Am ani e todo esse teatro de garantir direitos para essas... pessoas, nós poderíam os pensar no assunto: condecorar, postum am ente, Fenrir pelos seus serviços prestados à União. Afinal, ele foi o responsável por nos livrar do ditador e cônsul Fornace, não é m esm o? E ele m orreu com o um herói para os anôm alos.

Eu m e sinto m orta por dentro com as suas palavras e olho para os senadores, m ais surpresa ainda em vê-los atentos, com o se as palavras de Fueller fizessem sentido. Eu tenho vontade de m e levantar e lem brar a todos eles que estariam m ortos se não tivéssem os parado Fenrir e que, no final, foram os hum anos que o m ataram .

– Nós m ostraríam os nossa leniência com essas aberrações sem gastar m uito, alim entando-os com um sím bolo vazio para que não exij am o braço, agora que dem os a m ão – ele diz, arrum ando o terno.

– Isso é absurdo! – Não m e contenho e sinto o olhar gélido do hom em sobre m im . – Fenrir não m erece nenhum tipo de condecoração pelo que fez, m uito m enos virar um sím bolo para os anôm alos.

– Você vê? Mal aprovam os as leis para aj udá-los e eles j á querem roubar nossa voz – ele desdenha, m e ignorando. – Algum a obj eção de algum membro deste parlam ento?

– Ele teria m atado a todos nós se pudesse – Petra diz. – E você quer lhe dar um a m edalha?

– Qual a alternativa, senadora Am ani? Ir à televisão e declarar que Fenrir, que foi assassinado por hum anos, que foi o sobrevivente do Massacre Am arelo, o herói dos anôm alos, não é nada do que esperam ? Ninguém acreditaria em nenhum de nós – o hom em explica, e a form a com o todos ali o encaram m e deixa assustada, com m edo de que Petra não consiga derrotá-lo caso entrem num a votação para decidir o próxim o cônsul. Eu não aguentaria algo com o o que aconteceu dessa vez. – Então nós dam os a eles o que querem : Fenrir, o m ártir que precisam .

E observo, estupefata, enquanto a ação é votada com quase unanim idade pelos presentes, e Hannah m orde os lábios até que sangrem ao m eu lado.

É absurdo com o, m esm o m orto, Fenrir sem pre está um passo à nossa frente.