A retomada da União
Capítulo 10
Ira é um eufem ism o para o que Idris parece estar sentindo. Dem onstra isso ao cam inhar pela fortaleza com o um tornado gelado, dando ordens a praticam ente todos que encontra. Ao seu lado, sinto cada vez m ais frio, porque a tem peratura parece estar atrelada ao seu hum or. Maritza m e entrega seu casaco e m e enrolo nele, tentando m e m anter no ritm o frenético de Idris. Hassam nos encontra um pouco antes de chegarm os ao nosso destino, cam inhando ao m eu lado em silêncio, com penetrado.
Vam os para um lugar que não conheço, descendo um a escada com degraus cada vez m enores e m ais íngrem es, até chegar a um corredor com prido, sem fim , em que as pedras parecem m ais antigas que as dos túneis acim a, e o ar tem um cheiro de bolor e de m orte. As pedras parecem vibrar sob m eus pés, com o se estivessem vivas, e a única luz que nos guia é a que Maritza em ite de sua pele enquanto cam inha.
Idris tira um chaveiro pesado do bolso e percebo que estam os na frente de celas, cada um a coberta por um a pesada porta de m etal que parece ser um a aquisição m ais recente. Esse lugar deve ter centenas de anos, no m ínim o, e m e causa arrepios. Idris abre um a das portas com um a chave e um m ecanism o que parece usar da sua anom alia de em anar frio do corpo para destrancá-la. Lá dentro, vej o que Victor está sentado, enrolado em um a coberta, encarando o nada. Apesar de ser um a cela, o lugar é bem parecido com o quarto onde estou: há um a cam a, um banco e um a pequena m esa de cabeceira onde repousa um prato cheio de com ida e um a garrafa de água intocada. Num canto, um vaso sanitário exala o fedor de vôm ito.
Ele se aj eita quando nos vê. Seus olhos verdes estão fundos no rosto, e um a cam ada fina de suor cobre sua pele m orena; m as, apesar disso, sua m andíbula está trem endo e ele parece estar m orrendo de frio, m esm o com o cobertor grosso. Olho para Maritza e para Idris com receio, porque se elas tratam um a pessoa que visivelm ente m e aj udou com o um prisioneiro, não sei do que serão capazes. Hassam se acom oda num dos cantos, praticam ente invisível, e não faz contato visual com igo, com o se estivesse envergonhado. Maritza se aproxim a e coloca a m ão na testa do garoto, preocupada. Victor se encolhe com o toque.
– Você não m elhorou? – Maritza pergunta, preocupada. – Sua febre continua alta e você não tocou na com ida. Deveria beber algo.
– É assim m esm o. Vai passar – ele responde, desvencilhando-se da m ão e piscando algum as vezes, com o se tentasse focar a visão. – O quê... Oh, você.
Victor olha para m im e se senta na beirada da cam a, desenrolando-se do cobertor m esm o que isso signifique trem er m ais. Percebo que seus lábios estão um pouco arroxeados, e Idris se encolhe com o olhar que eu lanço a ela.
– O que ele está fazendo aqui? Não deveria estar no hospital? – eu exij o saber, m e aproxim ando. Victor se encolhe um pouco quando enxugo o suor de sua testa, e sinto sua pele pegando fogo.
– Eu pedi para vir para cá. – A voz de Victor sai rouca. – Eu não sei... não sou confiável.
– Nós o colocam os sob cuidados na ala m édica, m as, depois que acordou, só se acalm ou quando estava preso e longe de todos – Idris explica, observando o garoto com olhos atentos. – Queria que ele se recuperasse antes de conversarm os, m as dado o últim o acontecim ento...
– O que Fenrir fez agora? – ele pergunta, fechando as m ãos em punho no seu colo para controlar a trem edeira.
– Os anôm alos não obedecem m ais às regras da União e, sim , às leis de Fenrir. Pelo m enos de acordo com ele – Maritza diz, se aproxim ando de m im .
– Ah, não – Victor resm unga, fracam ente, encolhendo os om bros. Ele m e lem bra um filhote de pássaro caído do ninho, fraco e assustado.
– Por favor, se agasalhe – eu peço, colocando o cobertor em seus om bros. Pego o copo de água da m esa e insisto até que ele beba um gole. Victor agradece balançando cabeça, lam bendo os lábios antes de pegar o copo com suas próprias m ãos e beber todo seu conteúdo de um a vez.
– Eu sei que você quer nos aj udar, ou nunca teria seguido Hassam e Sy bil. Nós sabem os que você é o escudeiro fiel de Felícia Fornace, então deve ter inform ações sigilosas que nenhum dos nossos espiões possui – Idris explica, enquanto se acom oda no único banco da cela de form a extrem am ente elegante, apesar do tam anho de suas pernas.
– Vocês sabem quem eu sou – Victor afirm a.
– Nós tem os olhos e ouvidos em todos os lugares, Victor.
– Então explique para ela. – O garoto aponta para m im com o queixo, encolhido em baixo do cobertor. Idris parece surpresa, e Maritza olha para Hassam , que sai de sua posição de guarda e passa a m ão pelo cabelo.
– Ele é Victor Am ani, filho da senadora Petra Am ani. Não tem nenhum a anom alia, assim com o o resto da sua fam ília. Há três anos é visto em todos os lugares com Felícia Fornace, a filha do cônsul e... é isso. – Hassam para ao m eu lado, parecendo preocupado com o estado do garoto à nossa frente. – Não deveríam os cham ar um m édico para aj udá-lo? Ele parece pior.
– N-não – Victor balbucia. – Vou ficar bem . Vocês podem m e dar m ais água?
Esperam os em silêncio enquanto Victor bebe m ais quatro copos de água, lam bendo os lábios repetidam ente a cada um que term ina. Não dem ora m uito para que seu corpo com ece a ter espasm os, e só a reação rápida de Hassam faz com que o garoto chegue ao vaso sanitário a tem po de colocar todo o conteúdo do seu estôm ago para fora de um a vez. É só água e bile, pelo cheiro azedo, e olho para o outro lado, sem saber o que fazer. Hassam senta o garoto novam ente na cam a, e Victor parece extrem am ente constrangido, m as eu e Maritza o lim pam os com a fronha do travesseiro e um pouco da água que ainda resta na garrafa.
– Vai passar – ele repete com o um m antra. – Vai passar.
– Idris, não vam os conseguir tirar nenhum a inform ação dele hoj e. Podem os voltar quando ele estiver m elhor – eu suplico.
– Não, vocês precisam da m inha aj uda. – Victor segura no m eu braço com determ inação. – Eu consigo. Eu consigo. Eu consigo.
Uso o outro lado da fronha para enxugar m ais um pouco do suor da sua testa, e Victor se acom oda na cam a, encostando-se contra a parede num a tentativa de parecer um pouco m elhor. Não funciona, porque logo tem que puxar a coberta para que sua voz não saia trêm ula.
– Eu conheci sua m ãe – falo suavem ente, num a tentativa de distraí-lo. Ele não tem condição de dar nenhum a inform ação no estado em que está. – Eu não sabia... não sabia que você era filho dela.
– Você não teria com o saber isso – o garoto fala, e seus lábios se contorcem em um sorriso am argo. – Porque ela não se lem bra.
– Ela não se lem bra? – Idris pergunta com um tom suave, inclinando-se na direção do garoto.
– Não preciso que você tenha pena de m im – ele responde rispidam ente, segurando o cobertor com força. – Eu preciso é que vocês m e escutem .
– Nós estam os escutando, Victor. – Hassam se abaixa na beirada da cam a. – Mas você não deveria se esforçar tanto.
– Estou bem . – Ele balança a cabeça. – Não. Eu estou bem . É Felícia, ela... a culpa disso tudo é dela.
Sua respiração fica ofegante e m e lem bro claram ente do dia em que o conheci, quando passou m al ao m eu lado e m e disse quem Felícia era. Há algo de errado com Victor e eu não faço ideia o que é, só que, se continuar dessa form a, acabará m orto.
– Desde que eu a conheci, m inha vida... – Ele tem dificuldade em continuar e decide m udar a abordagem . – Vocês precisam im pedi-la. Não deixem que ela tenha sucesso no que quer fazer.
– Victor, você não está fazendo sentido – Maritza diz suavem ente.
– Não fale assim com igo. – O tom dele é de m ágoa. – Eu... estou fazendo o m eu m elhor. Vocês são anôm alos? Todos vocês? Então podem m e aj udar. Eu preciso... m as não posso.
– Aj udar com o quê? – Hassam pergunta, e Victor o encara por alguns segundos em silêncio, abrindo e fechando a boca algum as vezes. Depois, parece se irritar e j oga a coberta para um lado, tentando se levantar. Hassam tenta apoiá-lo, m as ele se encolhe e se apoia na cabeceira de m etal da cam a, e, apesar de estar visivelm ente fraco, se porta com orgulho.
– Quero ser o responsável por Felícia. Não im porta o que façam , quero que ela olhe para m im enquanto todos os seus planos são destruídos, que vej a o que o cachorrinho dela foi capaz de fazer – ele rosna.
Victor fala com um a m istura de ódio e noj o tão grandes que não tenho ideia do que pode estar pensando. O que Felícia tem a ver com tudo isso? O que Felícia fez para despertar tanto ódio? Ele não podia sim plesm ente ir em bora e deixá-la, com o havia feito ao nos seguir? Por que parecia tão irritado? Idris, Maritza e Hassam estão sem palavras com o eu. Idris lim pa a garganta e se levanta.
– O que você sabe?
– Tudo – ele responde, satisfeito. – Ela nunca im aginou que eu conseguiria m e livrar do... do... do que ela faz, não havia m otivo para esconder nada.
– E o que você pode nos falar?
Victor deixa que Idris se aproxim e, inclinando a cabeça para um lado. Parece frustrado.
– Felícia – ele diz, por fim , com o se fosse um a explicação. – Por favor, sej am rápidos.
Confusa, olho para Hassam , que encara o garoto à nossa frente com descrença. É óbvio que existem certos assuntos que Victor não pode m encionar, m as como? Se Felícia fez algo com ele para que não falasse, seu ódio é m ais que j ustificado. E ainda havia o fato de que sua m ãe não se lem brava dele... Felícia tam bém estaria envolvida nisso?
Idris prom ete que irá fazer o possível para aj udá-lo, e convence Victor a voltar para a cam a e lhe dá m ais água, m as dessa vez obrigando-o a beber devagar. Prom ete que alguém virá cuidar dele em breve e repete que vai aj udá-lo m ais cinco vezes, até Victor acreditar.
Quando saím os, Idris encosta a porta, m as não a tranca. Não há m otivo para isso, pois m esm o que Victor sej a um a am eaça, ele j am ais conseguirá sair do quarto no estado em que se encontra. Maritza e Hassam parecem tão espantados quanto eu, enquanto a expressão de Idris está ainda m ais irritada do que antes, se é que isso é possível.
– Nós estam os com um grande problem a – Idris diz, parando no corredor, com as m ãos na cintura. – E não sei o que fazer quanto a isso.
– Nós deveríam os ter essa conversa aqui? – Maritza pergunta, olhando para m im e para Hassam .
– Eles podem nos aj udar, Mari – declara. – Confio neles.
– Nós acabam os de nos conhecer – falo, ligeiram ente constrangida. Fico ansiosa com a resposta, porque se ela disser que confia em m im porque sou filha do Alm irante, provavelm ente vou sair correndo com o um a louca. Em vez disso, Idris abaixa a cabeça, ponderando m inhas palavras.
– Você foi criada por Clarisse. Se eu não confiar em você, duvidarei da capacidade de m inha m elhor am iga – Idris diz e olha para Hassam . – O m esm o com você. Seu m entor foi Alexander, você nunca nos trairia.
Fico em silêncio, chocada com a sinceridade e a confiança que ela dem onstra. Em sua posição, eu seria m ais cautelosa ao acreditar em desconhecidos. Talvez eu fosse desconfiada dem ais, m as a form a desconcertada com que Hassam agradece a confiança m e parece um indício de que ele tam bém não está confortável. Não som os do seu círculo pessoal, apenas duas peças irrelevantes no quebra-cabeça de poder em que estam os inseridos, m as se Idris acha que podem os aj udar, o m ínim o que posso fazer é tentar.
– Nossas inform ações estão defasadas. Até pouco tem po, saberíam os de todas as ações de Fenrir um pouco antes de ele executá-las. Quando Zory a veio até nós, com o intuito de nos aj udar desde que garantíssem os a segurança de sua fam ília, nossas inform ações ficaram ainda m elhores, m ais específicas, m ais precisas – Idris expõe. – Estávam os sem pre um passo à frente, sem pre deduzindo o que iria acontecer e arrum ando algum a form a de sabotá-los. Mas...
– Nas últim as sem anas, Fenrir com eçou a ficar estranho – Maritza continua, resignada, vendo que não há escolha a não ser confiar em nós. – Zory a m esm o nos disse isso, ela estava assustada. Fenrir não confiava m ais nela com o antes e, às vezes, se com portava de m aneira errática, diferente da precisão de sem pre. Isso com eçou uns dois ou três m eses atrás, m ais ou m enos na época do início da cam panha.
– Oh.
– E o ápice veio quando descobrim os, dois ou três dias antes do com ício, o plano de Fenrir, um plano insano e absurdo. E nós elaboram os um a estratégia insana e absurda para tentar im pedi-lo de vez, m esm o com algum sacrifício – Maritza narra, cruzando os braços com força contra o corpo. – E aí...
– O Alm irante foi m orto antes m esm o que pudéssem os agir, antes que pudéssem os levar Fenrir conosco – Hassam fala, fracam ente. – E alguém passou a inform ação do nosso plano m ais rápido do que nós recebem os a inform ação do outro lado.
– Eu sabia que vocês iriam entender rápido. – Idris cam inha até um a das paredes, apoiando-se nela. – Mas não é só isso: m esm o que Victor não consiga falar com todas as palavras, é óbvio que Felícia não é só m ais um a coadj uvante nos planos de Fenrir com o a nossa inteligência levou a crer. Tam bém há o fato de só term os descoberto que a cura foi efetivam ente alcançada por m eio de Zory a sem anas depois do que saberíam os norm alm ente. Inform ações importantes estão chegando até nós com um atraso significativo.
– Você acha que alguém ... descobriu? – pergunto. – Descobriu seus agentes? Ou com o vocês trocam inform ações?
– É um a possibilidade que j á cogitam os e estam os aos poucos tentando m udá-los. Mas descobrir todos, em todos os lugares? Até no Im pério? Acho im provável. A única form a seria se fosse alguém de dentro, com acesso a m uitas inform ações.
– Você desconfia de alguém daqui? Do próprio Sindicato? – pergunto, abaixando o tom de voz. Sinto um calafrio, que nada tem a ver com a anom alia de Idris, percorrer m eu corpo.
– Ah, não nos cham e assim aqui. – Idris parece descontente. – E eu não desconfio de ninguém específico, eu só preciso de ouvidos e olhos abertos para o caso de alguém estar se com portando dessa form a...
– Quer que eu ande por vários grupos para ver se o que as pessoas estão falando são verdade ou m entira? – Hassam questiona, com a m ão no queixo, com o que planej ando a m elhor form a de fazê-lo.
– A pessoa suspeitaria – Idris afirm a. – Não, faça o que sem pre faz, m as m antenha os olhos atentos para qualquer atividade fora do norm al.
– Sim , senhora. – O garoto praticam ente bate continência e Idris parece se divertir. Me surpreendo por finalm ente descobrir que Idris é tratada com o m ulher, j á estava m e acostum ando a pensar nela com o se fosse um a entidade. Nem hom em , nem m ulher, apenas Idris.
– Mari, por favor, Victor deve ficar em observação o tem po todo. Julian e Mako devem se revezar para exam iná-lo e anotar todo o progresso da doença. Nós precisam os descobrir o que ele tem antes das m issões saírem , se é contagioso ou não – ordena, e Maritza concorda. – Hassam , j unte sua unidade e faça um inventário das nossas provisões e se elas são o suficiente para o influxo de pessoas que vam os receber em breve. Se não for, se reúna com a logística para organizar o transporte dos alim entos da fazenda para cá.
Com um gesto, os dois sobem as escadas. Hassam olha para trás um a vez, com o se perguntando o porquê de Idris não m e dar algum a tarefa, m as logo desaparece e ficam os só eu e a líder no subsolo, m ais parecido com as m asm orras de um castelo m edieval. O silêncio entre nós é confortável, apesar de eu m al conhecê-la. Idris faz um gesto para que eu cam inhe ao seu lado, e acabo acom panhando o resto das suas atividades do dia.