A retomada da União
Capítulo 18
Respiro fundo e com eço a cam inhada em direção aos prédios, que estão m ais distantes do que aparentam . Quanto m ais ando, m ais parecem se afastar, e é quando percebo que estão em um a colina, alguns quilôm etros à frente. Minha adrenalina está a m il e olho para trás várias vezes, para ver se não estou sendo seguida. Alguns soldados supervisionam o trabalho, m as com o o sol está bem perto do seu ápice, devem deduzir que estou tirando um a folga e nem sequer prestam atenção em m im .
Quando com eço a subir a encosta íngrem e para chegar aos silos, um garoto se j unta a m im e observo, surpresa, que é Gunnar, com suas roupas de guarda. O suor em suas têm poras e a respiração acelerada indicam que ele veio correndo até aqui, e quando apoia a m ão nas m inhas costas, fico tensa. Olho para trás, m as ninguém parece estar nos observando enquanto ele m e guia pela colina, cam inhando pela som bra que os silos fazem na gram a.
– O que você está fazendo aqui? – ele pergunta, falando baixo apesar de estarm os sozinhos.
– Tivem os um im previsto, precisam os dar o sinal – explico.
– Que tipo de im previsto? – pergunta, franzindo a testa.
– Do tipo que não espera você term inar seu interrogatório para dar errado – respondo, exasperada.
– Hannah está bem ?
– Sim .
Ele leva a m ão ao peito sem perceber e respira fundo, aliviado. Sua tensão é palpável enquanto cam inham os até o terceiro silo, e ele faz um sinal para que eu espere abaixada na parte de trás enquanto verifica se está tudo bem . Enquanto espero, entendo que Hassam tinha certeza de que Gunnar m e encontraria e m e aj udaria, porque quanto m ais penso, m ais percebo que não conseguiria fazer isso sozinha. Prim eiro, eu não sabia exatam ente onde estava cada um dos nossos agentes infiltrados, depois, com a m ão enfaixada, seria m uito com plicado acionar e direcionar os holofotes sem atrair atenção.
Gunnar volta para m eu cam po de visão e cam inho até ele, nós dois nos m ovendo furtivam ente até o lugar onde os holofotes estão. São três, um m aior do que os outros, e percebo que não podem ser m ovidos. Paro com a m ão na cintura, considerando o que fazer.
– E agora? – Gunnar pergunta com urgência. – Nós tínham os de usar a luz para ilum inar um dos tratores, que iriam usar os espelhos para propagar o sinal.
– Você acha que conseguim os fazer som bras nos silos? Não é possível que não vej am – com ento e ele para um pouco, pensativo.
– Talvez. Nós podem os tentar. O problem a é o horário...
– Nós podem os explodir tudo tam bém – sugiro, olhando para o tam anho dos silos. Provavelm ente necessitam os de explosivos m uito fortes se quiserm os destruí-los, m as precisam os só fazer barulho. E, provavelm ente, os guardas vão sair de seus postos e vir até aqui verificar o que aconteceu, tornando m ais fácil encurralá-los.
– Explodir? Você está louca? Não podem os destruir a com ida, Idris deu as ordens expressas contra isso.
– Nós não vam os destruir nada, só fazer barulho. O que você tem que pode nos aj udar?
– Um a pistola e um a faca, só isso. É o equipam ento básico de quem faz patrulha aqui.
– Hum – m urm uro, pensativa. Não precisaríam os desviar m uito do plano inicial, porque poderíam os usar os holofotes para fazer barulho, se causarm os um curto-circuito.
– Você está m e assustando com essa cara...
– Procure onde ligar os holofotes e m e dê a faca. Em alguns m inutos vai estar resolvido.
O garoto parece relutante enquanto m e passa a ferram enta, e com eça a dar voltas nos silos, atrás de um interruptor ou algum a chave para controlar a energia. Eu espero que haj a algum a form a de acioná-los m anualm ente, ou vam os perder ainda m ais tem po. Enquanto isso, m e abaixo perto de um dos holofotes e com eço a puxar a fiação, desenterrando-a com um pouco de dificuldade por só ter um a das m ãos disponível. Faço isso nos três e corto, com dificuldade, os fios que os ligam . Gunnar retorna quando term ino de cortar o últim o, com a expressão um pouco som bria.
– Eu encontrei, fica no silo m ais à esquerda.
– Então agora você vai lá e liga.
– Você está louca se vou deixar você fazer isso sem nenhum a proteção! Você pode m orrer.
– É só j untar os fios, são dois segundos.
– Não – ele insiste determ inado. – Eu faço isso, você vai ligar. Se sair do controle, desligue a chave im ediatam ente.
– Gunnar, não tem problem a algum , a potência aqui é baixa e não é letal – tento convencê-lo, m as ele cruza os braços.
– Se é assim , então não tem problem a eu fazer. Me explique com o funciona.
Ficar discutindo não vai nos levar a nada, então explico, rapidam ente, com o fazer. Provavelm ente só um deles será o suficiente para causar curto no sistem a, e oriento que faça com o do m eio, que consom e m ais energia. Ele escuta atentam ente e o deixo, um pouco apreensiva, com m edo de que não funcione e em vez de dar um sinal, eu faça fritado de Gunnar.
A chave está escondida em um a escotilha no chão, próxim a ao silo. Gunnar deixou a portinhola aberta para que eu a encontrasse com facilidade e, lá dentro, nenhum dos disj untores tem nom e. Eu os viro devagar, aguardando por algum grito ou sinal de Gunnar. O prim eiro acende os holofotes do silo m ais distante, sua luz m al passando de um reflexo na superfície m etálica da estrutura. O segundo acende o m ais próxim o de m im , o zum bido da lâm pada preenchendo o silêncio da colina. O terceiro não parece surtir nenhum efeito e acho que Gunnar não j untou os fios até que aciono o quarto e m e abaixo quando escuto os barulhos de tiros seguidos.
Dem oro preciosos segundos para entender que não, eles não nos descobriram , e que os barulhos foram os holofotes explodindo. Meu coração se acelera e eu desligo as chaves antes de correr para onde Gunnar estava. Eu esperava barulho, m as não tão forte. Se o garoto foi pego no m eio dessa descarga elétrica, com certeza...
– Gunnar!? – eu grito, m eus pés batendo contra a gram a da colina. – Gunnar?
Mas conform e m e aproxim o, não consigo ver sua figura alta contra o azul do céu e fico m ais nervosa ainda. Será que m eu plano m aluco e im pulsivo o tinha m atado? Se fosse o caso, seria a m orte em m issão m ais estúpida de todas, e inteiram ente m inha culpa. Eu deveria estar lá, correndo o risco, e não ele. Eu havia tido a ideia.
Finalm ente o vej o, j ogado na gram a a alguns m etros de distância de onde os fios desm anchados se encontram e acelero, m e j ogando ao seu lado e levando a m ão diretam ente ao seu pescoço, tentando achar algum a pulsação. Minha m ão trem e e fico frustrada de não poder usar a que está enfaixada.
– Gunnar? – pergunto com a voz firm e, sacudindo-o, m as não obtenho resposta. – Gunnar!
Deito a cabeça em seu peito e não consigo ouvir seu coração. Meu rosto se torna um a careta de horror. Me lem bro das aulas de prim eiros socorros e levanto um pouco a cabeça do garoto, garantindo que não há nada im pedindo-o de voltar a respirar, sopro um pouco do m eu ar em sua boca e com eço as m assagens em seu peito, m esm o com um a só m ão, m urm urando baixinho para que dê certo.
– Vam os, Gunnar, vam os! Você é forte, volte a funcionar direito! – eu m urm uro, contando até dez antes de repetir tudo novam ente. – Acorda, Gunnar! Vam os, acorda!
Fico m ais nervosa ainda quando percebo que o plano deu certo: os soldados com eçam a cam inhar na direção dos silos, e os tratores a se reunir, devagar. Vej o, ao longe, um a fila de refugiados com as ferram entas de fazenda, arrastando três soldados para a nossa direção e eu fecho os olhos, colocando toda a força que consigo na m inha m assagem .
– Deu certo, Gunnar, acorde para ver o que fizem os – continuo, tentando m anter o m esm o vigor, m as m eu braço com eça a cansar. Nem sei se estou conseguindo abaixar seu peito o suficiente para atingir seu coração com a m assagem , e quanto m ais penso em com o esse é um esforço em vão, m ais m eus olhos ficam m arej ados. – Droga, garoto, a últim a coisa que preciso é de alguém m orrendo no m eu lugar.
Vej o que os soldados estão subindo a colina e bato a cabeça contra o peito de Gunnar, frustrada. Com o as pessoas são frágeis e a vida é estúpida! Basta um segundo, um m om ento de idiotice para deixar de estar vivo. Eu tento m ais um a vez, agora com o punho fechado, dando m urros descom passados com as lágrim as que insistem em cair dos m eus olhos. Idiota, idiota. Nós poderíam os ter feito de outra form a e ninguém precisaria voltar para o castelo num caixão.
Me assusto quando sinto alguém segurar m eu pulso, m e im pedindo de continuar, e pisco os olhos algum as vezes para ver se não estou ficando louca. A respiração de Gunnar está arfante, m as ele tem os olhos abertos e seu coração voltou a bater, e eu m e abaixo, encostando a testa em seu peito e respirando fundo para controlar m eus sentim entos.
– Você está vivo – m urm uro fracam ente, aliviada.
– Por sua culpa. Obrigado por m e salvar – ele diz, sua voz entrecortada.
Eu não respondo e sinto a m ão do garoto no m eu cabelo, em um gesto que é m ais para o m eu conforto do que um a ação natural. Os passos dos soldados se aproxim am e eu levanto a cabeça, assustada. Gunnar tenta se levantar, m as não consegue, praticam ente desabando em cim a de m im com um pedido de desculpas. Ele é grande dem ais para que eu consiga arrastá-lo para nos esconderm os.
– Ei, vocês! Parados aí! – um dos soldados grita, ao nos avistar, e sinto um calafrio.
Gunnar m e entrega sua pistola com pressa e eu m e preparo para utilizá-la se precisar, tirando o bloqueio do gatilho e colocando o dedo nele. Fecho os olhos, tom ando coragem , m e convencendo de que não preciso atirar para m atar, só para im pedir que cheguem até nós.
Mas antes que possam nos alcançar, ouço gritos vindos do outro lado da colina e arregalo os olhos, vendo a m ultidão de refugiados subindo por elas na direção dos soldados.
A rebelião com eçou.