A retomada da União

Bárbara Morais · Capítulo 3 de 39

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A retomada da União

Capítulo 3

 

Observo atentam ente o cam inho que fazem os para voltar à Estação de Em ergência, envergonhada por não conseguir cam inhar sozinha. A prim eira im pressão que tive, quando Hassam m e trouxe até aqui fugindo da explosão, parece errada agora. Nós ficam os pouco tem po no túnel principal, onde o m etrô passaria se estivesse funcionando, e logo desviam os para um outro, visivelm ente desativado. O grande “A” que vi pichado nas paredes é acom panhado de outras palavras e desenhos e, m ais perto do nosso esconderij o, ele se transform a em um a pintura gigantesca feita com tinta branca, retratando algo parecido com a evolução das espécies.

Prom eteu é um a cidade com centenas de anos e é de se esperar que existam alguns túneis de m etrô desativados. O que descobri nos últim os dias é que eles com punham um labirinto de estações e cam inhos não utilizados, lugares que não são habitados há anos. Pelo m enos oficialm ente. Não é o caso do nosso esconderij o: ele foi feito algum as décadas antes, durante a construção da nova linha de m etrô, para acom odar os trabalhadores da obra. Aposto que m uitos enlouqueceram no processo, porque a sensação de confinam ento é constante.

Mas pelo m enos há a tentativa de tornar o am biente m ais aconchegante nos tapetes que cobrem o chão frio, nas alm ofadas que criam um a ilusão de conforto, na televisão sem pre ligada. Além do pequeno côm odo principal, há um a porta escondida atrás do arm ário que leva a um depósito m odificado, com alguns beliches m isturados às caixas de ração m ilitar e roupas. No canto, um banheiro que m al m e cabe é o único lugar onde podem os ter algum a privacidade. Dividi o am biente com Gunnar, Hannah e Hassam nos últim os dias, m as, quando chegam os, só encontram os a figura adorm ecida de Victor deitada em seu beliche, com o de costum e.

A respiração do garoto continua acelerada e sua pele está coberta de suor, m ostrando que não m elhorou em nada desde que saím os. Passo a m ão em sua testa num m ovim ento que se tornou quase autom ático nos últim os dias, sentindo sua alta tem peratura com um suspiro. Eu sei que ele só está aqui por causa da sua ligação com Felícia, não m ais que um prisioneiro, m as o pouco caso com seu estado de saúde m e irrita. Eu m al consigo fazê-lo beber água nos m om entos em que está acordado, m urm urando palavras desconexas, com o se estivesse delirando. Tenho certeza de que bateu a cabeça forte dem ais na explosão e está com algum tipo de sequela, e só posso aj udá-lo dando um pouco dos analgésicos superpotentes que Hassam m e entrega para aliviar a dor na m inha m ão quebrada.

Sei que não tem os m uito tem po aqui, m as sinto que preciso de um m om ento sozinha, então m e escondo em m eu beliche, m e enrolando nas cobertas com o um sinal de que não quero ser incom odada. O que vi em Pandora m e assom bra e preciso decidir o que fazer agora. Os últim os quatro dias foram com pletam ente insanos, e não tive tem po para planej ar nenhum dos próxim os passos. Continuo aqui por inércia, seguindo pessoas que m al conheço, m ovida por um sentim ento esquisito de obrigação: honrar o últim o desej o do Alm irante. É tão surreal pensar que ele é – era – m eu pai, e que se preocupou com igo o suficiente para garantir que Hassam m e tirasse do palanque antes que tudo fosse pelos ares. Por m ais que não estej a confortável com a ideia, pensar nos diários e nas fotos da m ulher que dizem ser m inha m ãe biológica, e que estavam na caixa que Klaus m e deu pouco antes de m orrer, servem com o um consolo. Ainda não tive coragem de abrir nenhum deles e não sei se quero fazê-lo. Fora isso, o pouco de pertences que tenho agora m e foi em prestado por Hannah e, m ais um a vez, m e vej o solta no m undo, sem nenhum rum o definido e nada realm ente m eu.

O que m e acalm a é saber que, em algum lugar na superfície, ainda tenho um quarto na m inha casa e, se tudo der certo, Rubi e Dim itri estarão esperando por m im . Acho que se eu quiser ir em bora agora, não haverá nenhum a obj eção, e poderei ficar trancada dentro do quarto, lendo livros de m istério eternam ente, saindo só para com er e tom ar banho. Parece um a boa ideia, pelo m enos até as aulas voltarem .

Mas é isso o que eu quero? Fugir da situação, deixar que outras pessoas resolvam o problem a enquanto m e m antenho afastada de tudo? É exatam ente o que eu fazia em Kali: nunca m e im portei m uito com as batalhas, a guerra, o dram a todo, nada fazia sentido para m im . Meu m ecanism o de defesa é m e retrair e fugir, evitar o sofrim ento que pode acontecer se eu fizer algo. Antes de qualquer coisa, escolho o que m e dá m aiores chances de sobreviver.

Só que quando decidi fazer algo, as coisas tam bém deram errado. Em bora eu saiba que a situação em que nos encontram os não é culpa m inha, por alguns m om entos eu m e deixei convencer por Fenrir, acreditei que sua plataform a de governo era a m elhor chance que poderíam os ter. As alegações de que ele é o responsável pela explosão podem não passar de acusações, m as eu vi com o as pessoas ficaram loucas durante o funeral, com o elas o veneraram da m esm a form a que os dissidentes veneram o seu Deus. Se não foi responsabilidade dele, foi um a coincidência m uito conveniente o fato de ele ser um dos únicos sobreviventes do atentado.

E, então, há o m aior m istério: m eus protetores. Maritza, a esposa de Lupita, havia saído daqui j unto com os m eninos para resolver alguns problem as e, desde então, só tinha vindo nos ver duas vezes. Na prim eira, quando trouxe Gunnar, parecia exausta e só ficou tem po o suficiente para ver se estávam os todos bem e deixar um suprim ento de rem édios e ataduras. Na segunda, dem orou um pouco m ais, conversando na escuridão do túnel com Hassam . Mal tive tem po para tirar m inhas dúvidas e todas as vezes que perguntava algo para Hannah, ela se m ostrava enigm ática e se esquivava, j ogando a cartada do Alm irante. Eu sei que são algum tipo de grupo que está tentando im pedir Fenrir, m as, fora isso, não sei m ais nada. Já havia sido estúpida de confiar cegam ente em alguém um a vez, não o faria novam ente.

Mas, então, im agens de fogo e dor logo ocupam m inha m ente e m e encolho m ais ainda, respirando fundo para tentar apagar da m em ória o que vi em Pandora. A im pressão que tenho é que foi um pesadelo terrível, m as preciso encarar a realidade: há pessoas usando m eu nom e com o desculpa para m atar outras, e não posso deixar isso continuar. Me sinto traída por todos os lados, principalm ente pelo governo. Com o eles ousam nos tratar dessa form a? Com o se não fôssem os nada? E tam bém ... Eu não quero viver em guerra constante. Não quero que o prim eiro lugar que considerei com o lar se torne o inferno que é Kali e, m esm o que eu não faça diferença nenhum a no final, ficar parada não vai aj udar em nada.

Tam bém penso em Fenrir constantem ente. Se souber que ainda estou viva, o que fará com igo? Eu não alim ento ilusões de que ele m e deixaria sair im pune, de que não m e usaria de novo com o ferram enta do seu plano. E há a prom essa sem pre constante de que ele pode usar Rubi, Dim itri, Tom ás e os outros para tentar m e atingir. Voltar significa enfrentar Fenrir, e não sei se estou pronta para isso.

Escuto passos no quarto e m e sento na cam a, abrindo a cortina do beliche um pouco para ver quem é. Quando vej o Gunnar parado ao lado da porta, com as m ãos nos bolsos e um a expressão de desconforto, tenho certeza de que Hannah e Hassam voltaram , e terem os que ir em bora. Certam ente, ele está aqui para m e apressar, e eu gostaria de m ais tem po antes de tom ar um a decisão.

– Você está m elhor? – o garoto pergunta, visivelm ente sem j eito.

– Nós podem os ir se for necessário. – Me sento na cam a, procurando m eus sapatos.

– Não, não é isso. Ainda tem os algum tem po, Hassam e Hannah ainda devem estar a cam inho. – Ele se aproxim a e senta na cam a ao lado da m inha, curvando as costas para caber no beliche.

– Você está bem ? – devolvo a pergunta, analisando-o.

– Não é o pior que j á vi acontecer – responde, segurando um dos degraus da escada do beliche com força. – Eu... Antes de sairm os, Hannah pediu para eu conversar com você porque... Bem , não sei. Por algum m otivo ela acha que sou bom nisso.

– Ela acha que você é bom ? – repito quase com o um reflexo, segurando um sorriso.

É engraçado ver alguém tão grande ficar verm elho rapidam ente. Gunnar engasga nas palavras seguintes e esconde o rosto, m as consigo ver que até suas m ãos estão coradas. Depois, ele bate na testa algum as vezes, com o se estivesse repassando a conversa m entalm ente e se castigando pelo que falou, e tenho vontade de rir, m as m e controlo para não aum entar o seu em baraço.

– Se você veio aqui dizer que não havia com o im pedirm os aquilo, eu j á sei disso – falo, num a tentativa de tirá-lo da espiral de vergonha. – Não é só isso que está m e incom odando.

Ele suspira e encosta a cabeça na escada, sem olhar na m inha direção.

– Eu tam bém sou com o você, Sy bil. Você, Hannah e os outros sabem que eu estou vivo, m as m inha fam ília... – Ele faz um a pausa, respirando fundo. – Eles têm certeza de que eu m orri. Eles m e enterraram e m e deixaram para trás.

Toda a descontração vai em bora no m om ento em que ele diz isso, e sinto um pesar m uito grande, sem saber exatam ente o porquê. Não faz nem um a sem ana que estou aqui e a ideia de viver nessa duplicidade m e atorm enta, im agina o que não faz com esse garoto? Me levanto e encosto no seu om bro, em um a tentativa idiota de dizer para ele que tudo ficará bem em breve.

– O que aconteceu?

– Quando eu tinha 15 anos, fui escolhido para um a m issão e... – Ele para e levanta o rosto, olhando para m im . – Você está bem ?

Abro e fecho a boca algum as vezes, sentindo tudo ao m eu redor girar. Eu fui escolhida para um a m issão. Sei com o a história acaba. Sei, porque acabava exatam ente com o a de Leon, com o o que quase havia acontecido conosco. Só que em vez de m e safar com o Gunnar fez, acabei m e envolvendo em um a bagunça m uito m aior, virei um a presa fácil.

– Continue – eu ordeno, num tom que m al reconheço. – Você foi escolhido para um a m issão...

– Era idiota, quatro adolescentes indo para o m eio do deserto em Dakar atrás de um as cápsulas com algum as am ostras que pertenciam aos dissidentes... Nós conseguim os isso com um a facilidade im ensa.

– Mas, quando vocês voltaram , eles os obrigaram a escolher alguém para ficar para trás – eu com pleto, sabendo que a história é ridiculam ente parecida com a de Leon.

– Dois de nós. Eu e Abena, você vai conhecê-la quando chegarm os à fortaleza. Mas essa história deve soar fam iliar para você.

– Sim ... nós... nós fom os para um a m issão – eu digo, m e apoiando na m adeira da escada do beliche. – Mas a nossa foi difícil.

– Às vezes eles fazem isso, quando querem que todo m undo m orra. Eles não esperavam que vocês tivessem sucesso. – Gunnar contem pla, pensativo. – Ou foi um teste, para ver as habilidades de vocês e tentarem recrutá-los. É o modus operandi deles.

– Deles?

– Do governo. É tudo um plano elaborado para... bem , deixa eu term inar m inha história e você vai entender.

Faço um sinal com a cabeça para que continue e ele respira fundo, olhando para o estrado da cam a acim a, enquanto recita as palavras, com o se as tivesse decorado e odiasse ter que repeti-las.

– Eu e Abena fom os levados para um a instituição, um prédio, não sei, onde vários outros anôm alos estavam presos, todos na m esm a situação que nós. Nos separaram : eu em um a cela com outros doze garotos, e Abena em um a com duas m eninas. Por algum tem po, nós ficam os lá, com um a rotina bem parecida com a de um a prisão: com íam os e trabalhávam os j untos, então voltávam os para a cela para passar a noite. Até que...

Há um a pausa e ele m e observa, com o se tentasse prever qual será m inha reação. Estou im paciente, m e sentindo cada vez m ais incapaz e m ais furiosa a cada palavra dita por ele. Não sei o que vê, m as Gunnar decide continuar:

– Eles escolheram um de nós e, todos os dias, o m esm o garoto era tirado da cela cedo e trazido de volta bem tarde. Ele com eçou a ficar m agro e a passar m al de noite, com convulsões, tosses, até com eçar a vom itar sangue. Nenhum dos outros garotos sabia o que podia ser, m as quando Abena contou o que estava acontecendo para as outras m eninas, elas ficaram pálidas, porque era o que havia acontecido com todas as outras garotas antes de m orrerem . Eles estavam tão assustados que m al conversavam entre si para trocar inform ações, m as eu e Abena éram os novos dem ais para ter esses receios. Não dem orou m uito para esse garoto m orrer, em sua cam a, engasgado no próprio sangue.

– Espera. – Eu levanto a m ão, sentindo o peito apertado. – Você disse que eles tinham convulsões, tosses e vom itavam sangue? A pele do garoto tam bém ficou am arelada ou as pupilas ficavam dilatadas o tem po todo, deixando os olhos bem pretos? Ele teve febre?

– Não sei quanto a febre, m as as pupilas, sim e...

– Isso parece com os sintom as da Morte Verm elha. – Minha voz sai tão irritada que quase não a reconheço. – A doença causada por um a das arm as biológicas dos dissidentes, que dizim ou quase m etade dos anôm alos de Kali antes que descobrissem um tratam ento eficaz, quase vinte anos atrás. É extrem am ente contagiosa e letal para anôm alos, m as só passa pelo contato com fluídos corporais contam inados.

– Quando fom os salvos... Idris nos disse que aquilo eram testes para encontrar a cura para anôm alos, para nos transform ar em pessoas sem poderes. Nós estávam os ali com o cobaias vivas – Gunnar explica. – E é isso que nós fazem os, sabe. Salvam os anôm alos, refugiados e fugitivos das garras do governo, para aj udar a salvar m ais gente. É com o um a rede de proteção.

Estou tão concentrada nas im plicações do que ele diz que m al noto o que revela por últim o. Conheço os sintom as da Morte Verm elha m uito bem , porque em Kali nos ensinam a identificá-los desde pequenos, com m edo de que a doença volte e com ece a atacar não só anôm alos, m as hum anos tam bém . Foi um dos golpes m ais baixos que os dissidentes j á deram na União em toda a história. Um dos m otivos de anôm alos serem tão preciosos assim para o exército era a baixa que haviam tido nas décadas em que a doença esteve fora do controle. Eu não sei quase nada sobre essas coisas, m as seria possível que estivessem usando a Morte Verm elha para desenvolver a cura para as anom alias? Eu não tenho sequer palavras para descrever o redem oinho de sentim entos que brota dentro de m im , um a m istura de angústia com raiva e um a pitada de revolta. Com o eles podiam fazer algo desse tipo? É exatam ente o que os dissidentes estão fazendo com os anôm alos deles!

Eu cresci em Kali, e de algum as noções era difícil de se livrar, sendo a principal a de que nós éram os m elhores do que o Im pério em todos os aspectos. É ultraj ante pensar que estam os nos rebaixando ao nível deles, copiando um sistem a tão arcaico e terrível, ainda por cim a usando um a arm a que m atou nossa gente. As coisas ficam subitam ente claras: todas as m issões são desenhadas não para atrapalhar o Im pério em seus esforços, m as para deliberadam ente roubar suas pesquisas e tentar replicá-las. Recrutar anôm alos em m issões em busca de pesquisas que visam à cura das anom alias e, de quebra, usar alguns deles com o cobaias, garantindo o silêncio dos outros. É um plano doentio, m as que funciona perfeitam ente bem e que não cria nenhum tipo de suspeita.

– Sy bil? – Gunnar m e cham a de volta para a realidade e percebo que estou com o punho fechado, m inhas unhas afundando contra a m inha carne.

– Me desculpa, o que você disse?

– Eu perguntei se você tem algum a dúvida. – O garoto se levanta, fica de frente para m im .

Levanto o queixo e o encaro. Ele disse que tinha 15 anos quando foi na m issão, m as hoj e aparenta ser m ais velho do que eu, m ais ou m enos da idade de Hassam . Eu não consigo nem im aginar com o ele deve se sentir quanto a isso tudo, m as se é algo parecido com o que estou sentindo agora, m e espanta que os anôm alos rebeldes não tenham feito algo drástico ainda, com o explodir o Senado.

– Estou pronta para ir a qualquer m om ento – declaro com a voz firm e, determ inada. – Não é com o se tivesse outro lugar para estar.

Gunnar m e dá dois tapinhas desaj eitados no braço e se vira para sair, ficando im plícito que irá m e cham ar quando Hassam e Hannah chegarem . Eu observo enquanto se abaixa para passar pela porta.

– Gunnar? – cham o, abraçando m inha m ão enfaixada contra m im .

– Sim ?

– No final disso tudo, nós vam os poder voltar para casa e para nossas fam ílias – prom eto e o garoto dá um m eio-sorriso desaj eitado, balançando a cabeça em descrença. – Eu j uro, nem que sej a a últim a coisa que eu faça.

– Vam os torcer para que não sej a a últim a coisa que você faça – diz, antes de m e deixar sozinha com m eus pensam entos.