A retomada da União
Capítulo 8
Quando Andrei se acalm a e m ostro para ele onde é o banheiro, Abena passa pelos quartos, convocando todo m undo para o refeitório. Algum as pessoas parecem surpresas, m as logo o corredor se enche com os sons delas se m ovim entando, suas conj ecturas e perguntas j ogadas no ar. Andrei m e encontra e fica intrigado com a quantidade de pessoas, e faço um sinal para que m e siga. O clim a continua pesado entre nós, m as ele o preenche com conversa.
– Hassam disse que iria levar m eu pai e Sofia para o nosso quarto, para eles descansarem – m e diz, e reconheço um pedido de desculpas em sua voz. – Nós viaj am os a m adrugada inteira, foi bem cansativo. Eu escolhi ir te ver.
– Você quer descansar? Pode ficar com eles se quiser, eu te conto o que acontecer – ofereço, e Andrei abaixa a cabeça, provavelm ente entendendo tudo errado. – Olha, eu quero que você venha com igo, m as não quero que fique exausto.
– Eu estou bem – ele se defende. – Você sabe para onde estam os indo?
– Descobrir exatam ente qual é a dessas pessoas. Pelo m enos, é o que acho.
Isso o leva a fazer várias perguntas sobre o lugar, os túneis, as pessoas. Só respondo o que aprendi no dia anterior, m as quando nos aproxim am os do refeitório e o fluxo de gente fica cada vez m aior, ficam os em silêncio. Ele passa um braço pelo m eu om bro para não nos perdem os um do outro e, quando finalm ente entram os no refeitório, fico im pressionada com a quantidade de pessoas ali dentro, sentadas ao redor das m esas, em pé perto das paredes, ocupando cada espaço possível.
No local onde ficava o altar da capela, a m esa que usavam para servir com ida deu lugar a algum as cadeiras dobráveis, organizadas num sem icírculo. Identifico Maritza sentada em um a delas e, ao seu lado, vovó Clarisse está tão diferente com o cabelo grisalho preso e as roupas escuras que m al a reconheço. Guio Andrei entre as pessoas até lá, pedindo desculpas quando tropeço em alguém num a cadeira de rodas.
– Sy bil! – Ouço a voz de Leon m e cham ar à direita, acim a da conversa da m ultidão, e m e viro para procurá-lo, encontrando-o num grupo com Hassam , Hannah e Gunnar. Os outros três parecem im pressionados que ele tenha m e identificado, m esm o com todo o barulho, m as, conhecendo Leon, ele provavelm ente ouviu nossos passos quando estávam os nos aproxim ando. Ele tam bém é capaz de reconhecer nossas vozes à distância, então para m im não é surpresa.
Nos aproxim am os e Leon m e abraça com força, afagando m eus cabelos. Me sinto protegida com seu abraço, provavelm ente por ele ser tão m aior que eu, e o aperto contra m im . De todos nós, é o que tem m enos m otivos para estar aqui conosco e sinto um a gratidão estranha por ele ter decidido nos acom panhar. Andrei para ao nosso lado, com um a expressão de alívio, com o se nós três estarm os j untos de algum a form a suavizasse o buraco de dor em seu peito. Leon tam bém o puxa para o abraço e ficam os assim por alguns segundos, apenas sentindo nossos batim entos cardíacos com o se fosse só um coração. Mesm o quando nos soltam os, ainda fico entre os dois, nossos braços entrelaçados pelas costas, com o um a corrente.
– Está tudo certo com seus pais – Leon sussurra para m im . – Eu e Andrei falam os com Dim itri antes do funeral.
– Obrigada. – Meus om bros relaxam instantaneam ente, com o se tivessem tirado m il toneladas de cim a deles. Me sinto aliviada e olho para Andrei com o canto dos olhos. Ele poderia ter m e dito antes e poupado um pouco m eu nervosism o, m as só desvia o olhar, observando o côm odo em que estam os. Nossos outros com panheiros se j untam em um trio tam bém , ao nosso lado, conversando baixinho. – E seus pais, com o ficaram ?
– Eles acham que estou com Andrei e com a fam ília dele, aj udando-os nesse período – ele responde, com um tom divertido. – Tam bém acham que isso é o m ais seguro a fazer, j á que m eu pai está atendendo pessoas clandestinam ente lá em casa.
– Bem , não foi exatam ente um a m entira – Andrei com enta. Ele consegue fingir bem dem ais que nada aconteceu.
– Espero que todos eles fiquem bem . – Minha voz sai num suspiro. – Vocês conheceram vovó Clarisse?
– Vovó Clarisse? A m ulher que te criou? – Andrei questiona, intrigado. – O que ela está fazendo aqui?
– Sim , olhe ali, perto de Maritza... ah, acenem para ela. – Duas m ulheres levantam o rosto de suas conversas e olham na nossa direção. Vovó acena de volta, com um sorriso. – Depois apresento vocês.
– Isso não faz sentido. – Leon franze a testa. – O quê...?
Mas toda a conversa no refeitório cessa aos poucos quando percebem que duas pessoas chegaram . A m ulher que segue à frente está vestida com uniform e m ilitar m odificado e tem o cabelo escuro cacheado na altura dos om bros, com sobrancelhas arqueadas e um rosto largo. Cam inha com passos largos e com propósito no espaço que as pessoas abrem para ela, seu nariz proem inente form ando um arco orgulhoso enquanto equilibra os óculos de grau quadrados. Atrás, com um passo m ais lento e descontraído, um a pessoa bem m ais alta segue, e seu pesado casaco preto m e faz sentir calor só de olhar. Parece ser m ais ou m enos da idade de vovó Clarisse, pelas rugas que aparecem ao redor dos olhos quando sorri. Seu cabelo crespo está cortado curto, um pouco m aior que o de Leon, e nada em suas feições ou em sua vestim enta m e perm ite discernir se é um hom em ou um a m ulher. Ela, ou ele, cam inha até o altar. Todos ficam em um silêncio reverente e, do m eio da m ultidão, encontro Charles, o pai de Andrei, e Sofia. Aceno e eles com eçam a tentar abrir cam inho até nós.
– Estão todos aqui? – a pessoa no centro do altar pergunta e, m esm o quando fala, continuo sem saber seu gênero. – Todas as m issões j á estão de volta?
– Sim , Idris. – Um hom em por volta de seus 30 anos se descola da m ultidão e faz um a reverência dobrando quase o corpo inteiro, com as m ãos encostadas à sua frente. Tenho certeza de que j á o vi antes; seu rosto e sua voz soam fam iliares. Ao m eu lado, Leon inclina a cabeça, concentrado. Tenho certeza de que ele tam bém o reconheceu. Mas de onde? – Todas as operações retornaram com sucesso, os suprim entos foram recuperados.
– Muito obrigada, Juan – Idris fala, olhando para a m ultidão. – Gostaria de agradecer por vocês disporem de seu tem po para virem até aqui ouvir o que tem os a dizer. Peço desculpas pela om issão nos últim os cinco dias, m as não queria convocar um a assem bleia sem um plano bem definido. – Apesar de sua postura ser de um (ou um a) líder nato, seu tom de voz não é de com ando, é m ais am igável. – Para com eçar, Cléo desej a falar com vocês.
Com um gesto, a m ulher de cabelos cacheados tom a o lugar de Idris à frente. Aqui em baixo, Hassam para ao lado de Leon, e sua m ão repousa em um dos braços do garoto que não está ao redor da m inha cintura. Hannah se encosta na parede ao lado de Andrei, com os braços cruzados, parecendo conter o entusiasm o com o que irá acontecer. Gunnar, ao seu lado, apenas observa tudo atentam ente, com o sem pre. Continuo olhando para o hom em , que voltou a se sentar em um dos bancos do refeitório, intrigada. Onde o vi antes?
– Abena não está aqui. Nem os outros da equipe dela – Hassam com enta, e seus olhos correm pela m ultidão. Me desconcentro, olhando para o garoto sem entender.
– Provavelm ente Idris os colocou em alerta, ouvindo o rádio e vigiando o telégrafo – Hannah responde, tranquila, m as vej o que Gunnar está tão tenso quanto Hassam . Eu ainda não entendi com o funcionam as coisas aqui, m as é óbvio que tanto Abena quanto Reika têm algum a posição de com ando.
– Mas toda a unidade de com unicação? – Hassam questiona. – Bastaria um a ou duas pessoas para isso.
– Antes de com eçar, gostaria de dar as boas-vindas aos nossos convidados e novos recrutas. – Cléo interrom pe o pensam ento de Hassam com sua voz clara e lím pida, e, ao contrário de Idris, seu tom é de ordem , m esm o que suas palavras sej am calorosas. – Deixe-m e apresentá-los. Prim eiro, tem os os Novak, a fam ília de Zory a, que veio buscar asilo e proteção conosco depois do Massacre Am arelo. Nós sentim os m uito pela perda de vocês, j uram os fazer o possível para que não tenha sido em vão.
Algum as pessoas da sala fazem um a reverência com o o costum e dos dissidentes, outras apenas abaixam a cabeça e levam a m ão ao peito, em sinal de com paixão. Aperto Andrei contra m im , consolando-o, m as ele tem o queixo erguido num a postura orgulhosa, e seus olhos estão atentos nas palavras da m ulher.
– Zory a nos aj udou por pouco tem po, m as foi valiosa no que trouxe para nós. Ela foi um a das m ulheres m ais coraj osas que j á conheci, principalm ente pelo que colocou em risco ao nos contatar – ela continua falando e vej o, com o canto dos olhos, a incredulidade no rosto de Maritza. – Por isso, peço um m inuto de silêncio em sua m em ória.
Charles e Sofia nos alcançam exatam ente quando Cléo pede a hom enagem à Zory a, e a garota se j oga contra m im , m e abraçando com força. Eu retribuo com o posso, sentindo seu rosto contra m eu om bro, e suas m ãos trêm ulas na m inha cintura. Andrei vai até seu pai, que parece abatido, m as tem um a expressão tão im passível quanto a do filho. Fingir que está tudo bem é de fam ília.
– Tam bém tem os Leon Martins, um j ovem que participou de duas m issões para o governo e saiu inteiro. Leon nos procurou por conta própria, sej a m uito bem -vindo.
Algum as pessoas olham para onde estam os, e Hassam parece estranham ente orgulhoso com a apresentação de Leon. Passo a m ão nas costas de Sofia, tento acalm á-la. Ela não está chorando, m as está trem endo tanto que sei que não está bem . Ela sussurra algo que se perde quando Cléo volta a falar.
– Vinda de Kali, tem os Clarisse LeRoux, um a am iga antiga de Idris, que veio nos auxiliar na últim a parte de nossa j ornada. Clarisse é um a m édica cientista excepcional, a responsável por m etade dos m edicam entos que usam os aqui hoj e e, dezoito anos atrás, foi quem descobriu a cura para a Morte Verm elha, doença que dizim ou anôm alos na zona de guerra por anos a fio. – Cléo aponta para vovó Clarisse, que está sentada em um a das cadeiras. Ela se levanta e faz um a pequena m esura, sendo saudada com palm as. Cléo m al deixa que elas cessem antes de prosseguir.
– E, por últim o, tem os Sy bil Klaus, filha de Alexander Klaus, m eu irm ão, a única sobrevivente do atentado ao com ício. Nós todos sentim os pela sua perda, porque Alexander foi um hom em adm irável, com conquistas extraordinárias para todos nós durante sua vida e, por isso, nosso escolhido para nos representar pelas vias legais. Tudo o que sei hoj e foi graças a ele, e esperam os que Sy bil sej a bem recebida no segundo lar de seu pai. – Seus olhos estão grudados em m im , e várias pessoas se viram em m inha direção. Me agarro à Sofia, querendo que ela m e torne invisível aqui, agora. Essa m ulher é m inha tia? Meu nom e não é Sy bil Klaus. O que estou fazendo aqui, sendo apresentada dessa form a? Essa não sou eu.
– Varuna – vovó Clarisse fala baixo, interrom pendo Cléo. Ela continua da sua cadeira, m as sua voz ressoa pelas abóbadas do refeitório. Quando olho para os outros, o desconforto que sinto é visível em seus rostos. – O sobrenom e dela é Sy bil Varuna, não Klaus com o vocês.
Vej o os lábios de Cléo se m overem em algo que entendo com o “verem os”, m as, à distância, não consigo ouvir. Vovó Clarisse a encara, com um a expressão beligerante, e minha tia dá um sorriso desdenhoso. Ela se volta para a m ultidão, que parece alheia aos pequenos gestos entre as duas.
– Essas são adições que serão peças-chave no nosso próxim o plano. Muito obrigada por estarem conosco.
As pessoas ao redor batem palm as, as m ais próxim as nos desej am boa sorte e apertam nossas m ãos. Quando Sofia finalm ente m e solta e lim pa o rosto com as costas das m ãos, seus olhos estão verm elhos e ela tem olheiras im ensas. Arrum o seu cabelo atrás da orelha e lhe dou um beij o na bochecha.
– Você está bem ! Não acreditei quando m e disseram – ela diz, baixinho. – Eu precisava ver com m eus próprios olhos.
– Shhh. – Alguém na nossa frente pede silêncio e faço cara feia, puxando a m enina para ficar entre m im e Leon, que coloca a m ão em seu om bro.
Um pouco m ais à frente, Andrei e seu pai observam Cléo com o m esm o olhar clínico, com o duas águias vigiando um a presa. Olhando-os de perfil, consigo ver com o são parecidos, têm as m esm as bochechas altas, o m esm o nariz agudo. Consigo ler a desconfiança em seus gestos e entendo que, se estão aqui, é na m esm a situação que eu: certam ente tem em algum tipo de retaliação de Fenrir.
– Os últim os dias foram terríveis para nós. A candidatura de m eu irm ão, o nosso plano m aior para com eçar a expandir nossa bandeira de igualdade, teve um fim trágico. Perdem os não só ele, m as duas pessoas fundam entais de nossa equipe de planej am ento e articulação. O plano que Maritza sugeriu, das m udanças lentas e graduais, com eçadas de dentro para fora, falhou de form a desastrosa, com um sacrifício desnecessário – Cléo volta a falar, tom ando toda a atenção do côm odo para si. Ela cam inha com passos firm es, sua voz se eleva com um tom de com ando absurdo. Se eu não soubesse, diria que ela é a líder, e não Idris, que se sentou ao lado de Maritza, com seu rosto andrógino im passível de em oções.
– Nós sabíam os que iríam os perder pessoas m uito queridas para nossa organização no processo, m as isso acontecer sem que nenhum avanço ocorresse? Não podem os desperdiçar nossos recursos dessa form a. Nós tem os um obj etivo claro, que é tornar a vida m elhor para todos nós, anôm alos, hum anos, refugiados de Kali ou do Im pério, todos os que são perseguidos inj ustam ente só por não concordarem com o que o governo nos im põe. E nunca, nunca chegam os tão perto de conseguir um a m udança drástica com o agora, com o hoj e. Não som os m ais um a m inoria escondida nas ruínas de um castelo m ilenar, estam os na voz de todos os anôm alos que clam am por m udança. Ou nós pegam os essa oportunidade e tom am os a história para nós, ou ficarem os escondidos aqui para sem pre.
Olho para Leon, querendo fazer algum tipo de com entário, m as tenho m edo de ser ouvida. Cléo discursa extrem am ente bem , talvez m elhor que o Alm irante, talvez m elhor que Fenrir. Ela é precisa, fazendo todas as inflexões nos m om entos certos, se m ovim entando pelo côm odo e m antendo contato visual com o público. É im possível não sentir em polgação enquanto fala, o senso de urgência em seu tom de voz contagia os presentes.
– Então é a vez de m udar o plano – Cléo declara, levantando três dedos. – Terem os três frentes de trabalho, agora, para cobrir nossos principais desafios: precisam os estar prontos para a cura, ela existindo ou não. Precisam os, tam bém , derrubar o cônsul e colocar alguém que execute as m udanças que dem andam os. E, por últim o, tem os Fenrir. Muito j á foi discutido sobre o hom em , m as é visível seu desprezo por anôm alos em geral, e seu único interesse é o poder. Não podem os deixar que um hom em desses tom e nosso lugar e continue a desperdiçar vidas com o se elas fossem descartáveis.
– A ideia é bem sim ples, na verdade – Idris declara, levantando-se e cam inhando até Cléo. Tenho a im pressão de que a tem peratura na sala cai um pouco, e Sofia se encolhe contra m im , arrepiada. Se Cléo passa a im pressão de autoridade com sua voz, Idris a veste em todos os seus gestos e trej eitos. – Todos vocês sabem que o Im pério diz ter descoberto um a cura para os anôm alos e, em bora ainda estej am os aguardando a confirm ação dos nossos agentes infiltrados, tem os certeza de que a União tam bém chegou a um a descoberta sem elhante, principalm ente depois da últim a m issão que realizaram . – Os olhos de Idris param onde eu e os m eninos estam os e sinto vergonha. – Um a das nossas equipes de resgate soltou um novo grupo de crianças de um dos centros de pesquisa e eles estão na enferm aria até hoj e, sofrendo de algo desconhecido. É por isso que Clarisse está aqui, para tom ar frente e descobrir o que exatam ente é isso que eles cham am de cura. Ela tem autorização para usar nossos laboratórios e escolher quem j ulgue necessário para aj udá-la. Vocês devem tratá-la com a m esm a deferência que usam com Cléo, m eu braço direito, e com Maritza, m eu braço esquerdo. Pensem nela com o o cérebro.
Cléo cruza os braços. Sua expressão é fechada, os pés estão separados em um a postura dom inante. Tenho certeza de que ela e Clarisse não se dão bem , a hostilidade entre as duas é palpável, m as Idris parece ignorar a tensão. Não sei o m otivo, m as pensar que sou parente dessa m ulher m e dá um bolo no estôm ago. Vovó Clarisse levanta o queixo, orgulhosa, e Cléo desvia o olhar rapidam ente.
– Depois, o cônsul. Os anôm alos não precisam de nada para invadir a cidade e tom ar o senado, m as se não fizerm os isso com o um só, não dará certo. Todas as pessoas precisam estar insatisfeitas e j untas decidirem que Fornace não serve m ais para nós. Se for um a tom ada de poder de um lado só, a balança ficará desequilibrada. – Idris cam inha pelo altar com as m ãos nos bolsos e olhos focados na audiência. – Os hum anos precisam de incentivos. Com os anôm alos sem trabalhar, a m aior parte das fábricas está produzindo bem m enos, porque os hum anos se recusam a suj ar as m ãos pelos salários oferecidos. Os donos de fábricas estão irritados por receber m enos, apesar dos grandes pagam entos que o governo está dando a eles, e hum anos estão cada vez m ais insatisfeitos com a escassez de m antim entos, em bora com preendam a necessidade nesse m om ento difícil. Nós podem os esperar até que finalm ente Fornace sej a deposto – o que pode levar m eses –, ou podem os dar o nosso j eito.
– As pessoas podem viver sem roupas ou sem desodorante por um tem po, se for necessário – Cléo continua, cam inhando no sentido oposto ao de Idris. – Mas sabe o que ninguém consegue viver sem ?
– Com ida – Idris com pleta, com um gesto am plo na direção onde fica a cozinha. – Nós sabem os m uito bem disso, com os nossos esforços constantes para não deixar nos faltar alim ento. O próprio cônsul dem ostrou saber quando racionou a com ida dos anôm alos. Nossa ideia não é fazer as pessoas passarem fom e, m as reduzir suas opções, tornar o governo refém das nossas dem andas. Quase 80% da com ida que nós consum im os é produzida nas fazendas do Estado, com m ão de obra de refugiados, com o vocês j á devem saber. Se nós controlarm os as duas m aiores, em Arkai, calculo um a sem ana até que eles estej am , literalm ente, com endo em nossas m ãos.
– Eu e Juan serem os responsáveis por essa parte – Cléo conclui, parando na frente do hom em , no outro lado do côm odo. – Os participantes da operação serão convocados, m ais tarde, para m aiores inform ações sobre os detalhes e datas das nossas m ovim entações.
– Ao m esm o tem po em que Cléo age, tem os de garantir que o próxim o governo sej a bom . – Idris para, j untando as m ãos de form a pensativa. – Algo que não sej a apenas as m esm as ideias em baladas em um papel de presente brilhante. Nós tem os alguns candidatos ao posto, dentro do próprio Senado, e Maritza será a responsável por sondá-los, investigá-los e ver qual é o m ais favorável. Tam bém estam os trabalhando com outros contatos para fazer um bom caso contra o cônsul, se, por acaso, o que ele vem fazendo com os anôm alos desde que assum iu o poder não for o suficiente. Nós vim os, ao longo da história, várias revoluções darem errado por falta de planej am ento. A nossa não sofrerá desse m al.
– E Fenrir? – Cléo adiciona. É o único sinal de fraqueza dem onstrado por ela, a form a com o olha para Idris com o se não soubesse com o proceder.
– Eu cuido dele. – A voz de Idris é gelada e, com suas palavras, a tem peratura do côm odo parece baixar ainda m ais. – Se cada um de vocês fizer sua parte, as peças vão se encaixar perfeitam ente no final.
Fico curiosa quanto ao que Idris planej a, pois Fenrir j á m ostrou inúm eras vezes que sem pre está um passo à frente de todo m undo. É preciso um plano m uito, m uito bem -feito para poder pegá-lo desprevenido, porque o hom em parece se resguardar de todos os lados.
– Os líderes de cada operação irão orientá-los sobre com o proceder. Mas antes que vocês se dispersem e voltem para seus afazeres, gostaria que refletissem sobre essa nova etapa. Sobre o que vocês querem para sua vida, sobre o que esperam , sobre em que lugar querem viver. Alguns de nós estão aqui há anos, vivendo num a bolha em que não im porta se você é anôm alo ou hum ano, então as dificuldades que podem os encontrar lá fora são incontroláveis. Não im porta o passo que derm os agora, ele será difícil. – Do centro da sala, a voz de Idris reverbera pelo côm odo, e suas palavras soam pesadas. – Não só no sentido de perderm os m ais com panheiros, m as haverá resistência. Mesm o se conseguirm os o que querem os, a vida não será com o é aqui. Ponderem sobre isso, conversem com quem chegou há pouco tem po e pensem em que soluções a longo prazo podem os dar para isso. É nossa chance de serm os ouvidos e fazerm os as coisas da nossa form a.
O côm odo fica em um silêncio quase sobrenatural por alguns instantes até que vários focos de conversa com eçam a brotar de todos os cantos. Idris levanta a m ão e, com o um m aestro, faz com que todos se calem .
– É isso, por enquanto. Podem voltar às suas atividades – diz e faz um gesto na nossa direção, m e surpreendendo por saber onde estam os no m eio de toda a m ultidão. – Vocês fiquem , por favor. Maritza tam bém .