A retomada da União

Bárbara Morais · Capítulo 25 de 39

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A retomada da União

Capítulo 25

 

Acordo suada e quente, as pernas de Andrei em boladas nas m inhas em baixo do cobertor na cam a estreita, e m e levanto, tropeçando em suas calças no cam inho. Pego a prim eira peça de roupa que encontro – a cam iseta dele – e visto, subitam ente envergonhada. Nós esquecem os de apagar a luz ontem à noite e parece que houve um a guerra no quarto. Encosto a cabeça na porta, ouço o som dos chuveiros no fim do corredor e suponho que é de m anhã. Volto até a cam a, m ordendo os lábios enquanto observo Andrei dorm indo calm am ente. Passo a m ão em seu cabelo e lhe dou um selinho. Sussurro em seu ouvido com um sorriso no rosto quando lem bro da noite de ontem .

Antes de encontrar Cléo na sala de treinam entos, tom o banho e vou até o refeitório. A ideia de treinar com ela m e deixa nervosa, m as ontem a m ulher foi m enos irritante. Talvez possam os nos dar bem . Encontro vovó Clarisse no café da m anhã e com em os j untas. Meu hum or m elhora bastante depois da conversa que tem os, m as quando m e pergunta onde está Andrei, tenho certeza de que ela sabe. Pelo m enos, para a vantagem do m eu nam orado, ele só precisa aparecer na enferm aria de tarde, então pode dorm ir e evitar a paranoia que surge em m im : todas as pessoas sabem o que aconteceu ontem à noite. Encontro Maritza no corredor e quando olha para m im , ela sabe. Cléo tam bém . Hassam tam bém . Leon tam bém , e ele nem enxerga.

Paro um segundo para respirar e m e acalm ar. Prim eiro, estou ficando louca por um m otivo com pletam ente banal e desnecessário. Segundo, existem coisas m ais im portantes na cabeça de todas as outras pessoas do universo que não envolve quem está fazendo sexo com quem , principalm ente se os dois envolvidos forem adolescentes. Cléo percebe com o estou aérea e decide não m e ensinar nada hoj e, sabendo que vai se irritar. Em vez disso, m anda que eu corra ao redor da sala até m inhas pernas queim arem e eu ficar exausta.

Na hora do alm oço, encontro m eu grupo no refeitório. Andrei está ao lado de Sofia, conversando baixinho com ela, os dois com um a aparência ainda cansada. Hassam e Hannah estão lado a lado e ele parece am uado, com o se algo o tivesse irritado. Leon está entre Andrei e Victor, que m e observa de form a incôm oda enquanto m e aproxim o.

– Vocês duas se m ataram ? – Hannah pergunta quando m e sento à sua frente, entre Leon e Andrei. Fico confusa. – Você e Cléo!

– Não. Por que isso aconteceria? – respondo e ela encolhe os om bros, balançando a cabeça.

– Droga!

– Eu falei. – Andrei estende a m ão e Hannah tira do bolso um pacote que parece um bom bom e lhe entrega.

– Por enquanto você está ganhando, Andrei, m as da próxim a não passa.

– Vocês apostaram que eu iria brigar com Cléo? – pergunto, surpresa e um pouco ofendida. – Só porque a gente não deu certo no início não quer dizer que isso vá acontecer novam ente. Obrigada por m e defender, Andrei.

– Ah, não. Eu não apostei que você não iria brigar com ela, só não ia ser hoj e. Dou cinco dias. – Ele m e entrega o bom bom e se inclina para m e dar um beij o na ponta do nariz. – Está vendo, estou trabalhando em ser m ais otim ista.

– Que bom pra você – digo, sarcástica, e tento abrir o pacote com um a m ão só. Andrei m e aj uda, segurando um a das pontas enquanto eu desenrolo a outra. Não consigo resistir e lhe dou um selinho, trocando um sorriso cúm plice antes de colocar o chocolate na boca.

– Não acho que você vá brigar com sua tia – Victor acrescenta, se inclinando para m e olhar tam bém e fico incom odada, principalm ente com o term o minha tia. Me escondo atrás de Leon, que parece estar alheio à nossa conversa.

– Você nem conhece ela. – Sofia reage rispidam ente e se inclina na m esa tam bém , lançando um olhar letal para Victor. Andrei parece surpreso com a reação de sua irm ã adotiva e apoia a m ão em seu om bro.

– Sofia. – O tom de Andrei é de aviso e ela se endireita, falando algo em voz baixa que não consigo entender, m as Andrei descarta. – Não se preocupe.

– Vou pegar com ida. – Hassam se levanta de supetão, surpreendendo a todos. – Alguém quer ir com igo?

Leon se m antém im óvel, com o se não tivesse escutado, e Andrei se voluntaria para acom panhá-lo. Eu o seguro pelo braço e nós tem os um a conversa silenciosa: “O que aconteceu?”; “Eu vou descobrir”; “Aproveita e traz comida para mim”. Os dois entram na fila, conversando, e vej o Hassam balançar a cabeça várias vezes, com o se estivesse contrariado. Sofia ocupa seu lugar, encostando o braço contra o m eu e fitando Victor de form a hostil. Pessoas são tão com plicadas que dão preguiça.

– Quando você sai, Leon? – pergunto baixinho para o garoto, que se inclina na m inha direção.

– Depois de com erm os. Gunnar vai nos acom panhar. – Leon é econôm ico com as palavras e cruza os braços. Na m inha frente, Hannah fica surpresa, confusa e finalm ente parece entender algo.

– Achei que m eu irm ão iria com vocês – ela fala com cuidado, com o se estivesse pisando em ovos. – Gunnar ia ficar com Idris.

– Os planos m udaram . – Leon dá de om bros e eu seguro sua m ão em baixo da m esa. Será que ele e Hassam brigaram ? Fico nervosa por ele ao pensar que talvez tenha contado a Hassam com o se sente e levado um pé na bunda.

– Você lem bra o que eu pedi? – Victor atropela as palavras quando pergunta para Leon e é óbvio que está tentando m udar de assunto com rapidez. Me sinto traída quando percebo que ele sabe o que aconteceu e eu não.

– A m ensagem para sua m ãe? Sim , eu lem bro, Victor. Você poderia vir conosco sem problem a algum se quisesse. – O tom de Leon é um pouco m enos rígido.

– Não. Eu preciso enfrentar Felícia. Haverá tem po para isso depois.

Essa frase m ata qualquer possibilidade de continuar um a conversa descontraída. É fácil tratar a m issão de Leon e Maritza com o algo isolado, que não é crucial, m as m encionar Felícia traz Fenrir à m ente, e com ele toda a incerteza que sentim os. O clim a pesado que fica é quebrado quando os m eninos voltam . Hassam larga o prato na sua frente com irritação e transform a o ato de com er no m ais agressivo do m undo, m astigando com o se estivesse planej ando um a guerra.

– Eu não sei o que a com ida fez pra você, Hassam , m as tenho certeza de que ela não m erece essa reação – Hannah fala, com hum or na voz, m as seu irm ão só em ite um grunhido. – Ah, claro, Hom em das Cavernas. Vou te deixar em paz para m utilar o pobre purê de batatas com seus dentes.

– Hannah, deixa ele em paz. – Me surpreendo por Andrei pedir isso, porque em qualquer outra situação seria ele fazendo a piada. Hannah levanta as sobrancelhas, Andrei aponta para Leon com os olhos e a garota im ita o gesto, m as com Hassam . Eu não faço ideia do que está acontecendo, m as eles parecem estar se entendendo.

– Vocês podem parar? – Leon pede, se levantando. – Eu não preciso enxergar para saber o que estão fazendo e m e irritar com isso. Estou indo, preciso encontrar Maritza para acertar os últim os detalhes. Se quiserem se despedir, sairem os em m eia hora.

– Eu vou com você. – Victor se levanta tam bém e vej o que os dois estão conversando enquanto saem , m as Leon ainda parece chateado. Tenho vontade de segui-lo, m as Andrei m e im pede.

– Ele ainda não vai nos querer por perto – sussurra. – Dê a ele algum tem po sozinho.

– O que aconteceu?

– Você quer saber o que aconteceu? – Hassam larga os talheres e apoia os cotovelos na m esa, deixando óbvio que estava prestando atenção à nossa conversa. – Existem algum as pessoas que acham que eu posso ser um a “distração” e um “em pecilho” ao bom andam ento de um a m issão. E, não, não im porta que eu tenha um bom histórico em m issões desse tipo, não im porta que tenha treinam ento e sej a a pessoa m ais adequada para isso, eu sou um “perigo”. Foi isso que aconteceu.

– Oh! – Hannah exclam a, segurando o braço do irm ão. – Oh, Hassam ...

– Não venha com “Oh, Hassam ” pra cim a de m im . – Ele bufa. – Acho que nunca m e senti tão hum ilhado na vida, é isso que você ganha por... Ah, esquece.

– Eu não sabia que você estava fazendo escola, Andrei – Sofia com enta e vej o Andrei se encolher com a alfinetada, m as ela tem razão.

– Você deveria conversar com ele – sugiro, e Andrei concorda, passando a m ão pelos m eus om bros. – Conversar sério, perguntar por que ele disse isso, dizer que ficou chateado.

– Vocês sabem de algo. – Hassam nos fulm ina e nós dois desviam os os olhares, desconversando. – Não, vocês sabem de algo e vão m e contar agora.

– Você devia perguntar para Leon sobre isso – Andrei diz, coçando a cabeça.

– Ele não vai m e contar nunca, sej a lá o que for. Qual o problem a? Ele se sente inseguro porque não sabe se gosta de hom em ou de m ulher? Se for isso, não tem problem a, porque eu sinto atração pelos dois. Não é algo difícil de aceitar depois que você entende.

Sofia engasga com a declaração de Hassam e m e lem bro de que no Im pério nada disso é considerado natural. O norm al é um hom em e um a m ulher, os dois sem anom alia. Tudo que desvia desse padrão é punição divina. Andrei a aj uda a desengasgar.

– Não é isso. Eu acho que ele tem cem por cento de certeza de que gosta de você – respondo, olhando para Andrei com o canto dos olhos.

– Uau, essa foi direta – Andrei diz, surpreso.

– Mas é a verdade – m e defendo. – E se Leon disse o que disse, Hassam , ele acha que está fazendo o que é m elhor pra você. Mas Leon está sendo idiota e você precisa dizer isso para ele. Não acho que nós podem os nos dar ao luxo de desperdiçar o tem po que tem os, porque quem sabe o que vai acontecer am anhã?

Hassam fica em silêncio, boquiaberto, m e encarando com o se nunca tivesse m e visto antes. Andrei esconde o sorriso, e Hannah cruza os braços, parecendo satisfeita.

– O relógio está correndo, Hassam – digo, fazendo o m ovim ento do ponteiro com os dedos. – É m elhor ser m ais rápido que ele.

Hassam se levanta de form a desaj eitada, desam assando a roupa num gesto nervoso e esbarrando em algum as pessoas no cam inho da saída. Nunca o vi tão afobado ou nervoso, e Hannah ri abertam ente de sua cara, provocando um a reação rude de seu irm ão antes que ele saia do refeitório.

Eu não sei se Hassam conversa ou não com Leon, porque quando vam os nos despedir do nosso am igo, ele não está lá. Sofia se despede prim eiro, abraçando Leon e desej ando boa sorte. Na m inha vez, não quero soltá-lo, porque tenho a im pressão de que algo terrível vai acontecer. Mas preciso deixar que vá, porque ainda falta Andrei. Os dois se afastam , sussurrando enquanto eu desej o boa sorte a Gunnar e Maritza. Sofia m e segue, desconfortável por não conhecê-los bem .

– Não faça nada louco ou suicida, Gunnar – eu brinco com o gigante, e ele solta um a gargalhada.

– Não sem você por perto, pode deixar – gracej a, cruzando os braços. Ele vê Sofia e sua expressão se suaviza, num sorriso. – Com o você está?

– Bem – ela repete a m entira m ais recorrente dessa fortaleza, e Gunnar suspira audivelm ente.

– Hannah m e disse que você consegue ficar invisível. Minha anom alia é um pouco parecida. Se você quiser, quando voltarm os, posso te aj udar a entendê-la m elhor – ele oferece e a garota se anim a um pouco, m as parece desconfiada. – Reika pode nos aj udar, ela é do Im pério que nem você. Vai ser um bom passatem po.

– Tudo bem – ela responde e dá um sorriso fraco. – Obrigada, e boa sorte.

Gunnar se separa de nós para checar m ais um a vez o carro que vão usar, antes de trazer os prisioneiros que vão levar para servir de testem unha. Parece um tanque de guerra, e fico nervosa quando m e lem bro que podem ter pessoas da Aurora em qualquer lugar dos túneis, esperando para atacá-los. Eu e Sofia nos agarram os a Andrei enquanto os vem os se afastar, e tenho a im pressão de que essa é a últim a vez que vou vê-los.

Espero estar m uito, m uito enganada.