A retomada da União
Capítulo 11
O dia seguinte com eça cedo e, quando estou saindo do refeitório, Idris faz um sinal para que eu a siga. No corredor principal, viram os na prim eira porta e chegam os em um lugar com três m esas cheias de livros e papéis. Há um m apa gigantesco da União atrás de um a delas, com pinos pretos, verm elhos e azuis em algum as das cidades, e Idris se acom oda na cadeira, m e convidando a sentar ao seu lado. Divide um a pilha de papéis com igo e sigo suas instruções para lê-los e anotar qualquer anorm alidade. São relatórios de m issões, de todo tipo. Algum as têm com o obj etivo roubar com ida de trens, então paro por um m inuto, m e lem brando de um dia que parece ter sido anos antes, quando estávam os a cam inho da m issão que com eçou tudo isso. O trem em que estávam os havia sido parado por um grupo de pessoas que procuravam rações do exército. Olho para Idris e para o papel, extrem am ente surpresa ao perceber que m eu contato com eles aconteceu bem antes do que esperavam .
Depois de algum as horas, j á li dezenas de relatórios, e todos eles seguem o m esm o padrão, com nada m uito diferente. Missões para conseguir com ida dem oram entre um e três dias, m issões de resgate dem oram um pouco m ais, principalm ente porque precisam trazer as pessoas de volta. São m uitas acontecendo ao m esm o tem po, e m e espanta que o Sindicato não tenha sido descoberto ainda. Idris parece m e observar e, quando levanto o rosto do papel que estou lendo, sorri.
– Você quer dar um a volta?
Concordo e em pouco tem po estam os atravessando o corredor largo onde Abena coordena o grupo de pessoas que m onitora as frequências de rádio. Ela parece exausta, com o se não tivesse dorm ido desde o dia anterior. Entram os em um a das portas e passam os por um a câm ara larga, com paredes de concreto, onde várias pessoas da m inha idade parecem estar treinando algum tipo de luta. Reika os supervisiona, corrigindo posturas e m ovim entos. Quando nos vê, nos cum prim enta com um aceno de cabeça e nos segue com os olhos, curiosa. Depois, m ais um a porta e um lance de escadas nos leva até um a câm ara m ais ou m enos do m esm o tam anho da de treinam ento, m as com várias estantes cobertas de livros. O centro é adornado por quatro m esas com pridas, bem parecidas com m esas de refeições, e curvadas sob o peso dos livros em pilhados em cim a delas. Em um canto, percebo um grupo de pessoas ocupado com livros grandes, grossos, de capa preta. Leon é um a delas, e um garoto pequeno, m ais novo que Tom ás, sussurra baixinho as palavras para ele.
Idris atravessa a biblioteca im provisada, virando no corredor da últim a fileira de estantes e cam inhando até o fim . Só falta existir um a passagem secreta atrás de um a estante, com o nos rom ances policias. Se isso acontecer, não conseguirei conter a risada. A líder tira o chaveiro de seu bolso novam ente e, quando olho para frente, percebo que há um a porta pesada de m etal, parecida com a da cela de Victor. A porta é aberta com um a das chaves, m as sem o uso do m ecanism o que envolve o frio que Idris em ite e, quando entram os, a lum inosidade intensa do côm odo m e deixa atordoada.
Ouço um burburinho de conversa enquanto pisco para m e acostum ar à claridade e, aos poucos, consigo definir os contornos das bancadas de m etal com vários tipos de aparelhos em cim a, o m icroscópio é o único que reconheço de cara. A porta se fecha atrás de nós e as botas de couro de Idris fazem barulho enquanto cam inha. Esse côm odo não parece pertencer ao resto da fortaleza, com suas paredes brancas, arm ários firm es de m adeira e cheiro de álcool. Na verdade, m e lem bra e m uito os Centros de Apoio do governo da União. Isso faz m eu estôm ago em brulhar de nervosism o.
Vovó Clarisse, Andrei, Sofia e outras duas m oças estão em volta de um a m esa no fundo do laboratório, entretidos dem ais com o que estão fazendo para perceber nossa aproxim ação. Andrei tem um a expressão séria que form a um a ruga entre suas sobrancelhas, enquanto observa o que está na m esa.
Nós param os ao lado do grupo, e Idris lim pa a garganta, assustando-os. Andrei se sobressalta tanto que m ordo a língua para não rir alto. Acho que nunca o vi tão concentrado assim . Vovó Clarisse arrum a um a m echa que cai em seu rosto antes de nos cum prim entar:
– Ora, ora, não achei que as veria tão cedo.
– Vim verificar se está tudo em ordem – Idris diz, com um sorriso. – Vej o que escolheu Milena e Rosália para aj udá-la, boas escolhas. Depois você deveria conversar com My ung, ele pode te indicar m ais pessoas com o perfil que você procura.
– Quero com eçar devagar – vovó Clarisse se j ustifica. – Segundo m inha experiência, pessoas dem ais podem atrapalhar m ais que aj udar. Mas ainda estam os fazendo um levantam ento do que vam os precisar.
Enquanto as duas conversam , m e aproxim o de Andrei e ele m e cum prim enta com um beij o rápido. Nós havíam os nos visto no café da m anhã e ele parecia bem , apesar de seu pai ter decidido aj udar Idris e voltar a Pandora. As duas j ovens perdem interesse na conversa entre Idris e Clarisse e voltam para a m esa, explicando algo para Sofia com o se nunca tivéssem os interrom pido. Percebo que estão com um desenho grande, quase do tam anho da m esa, de algum as fitas com várias cores e letras, e reconheço um a fórm ula quím ica num canto, m as fico um pouco atordoada com tanta inform ação. Sei o suficiente para reconhecer um a sequência de m aterial genético quando vej o um a, m as há inform ação dem ais aqui.
– Você consegue entender isso? – sussurro para Andrei, com m edo de atrapalhar enquanto Idris dá referências de várias pessoas que podem aj udar tam bém .
– Não é difícil depois que você sabe do que se trata. Sua avó explicou para nós – ele se gaba, com um sorriso. – Você deveria ver isso.
Ele pega um dos livros que estão abertos do seu lado e apoia nas m ãos, m e m ostrando. Fico com pletam ente confusa porque é só um m onte de traços brancos em frequências diferentes, quase com o um a m ensagem em código Morse. Passo as páginas e vej o que eles se repetem de form a diferente em cada um a delas, e m e inclino para ler O GRANDE LIVRO DOS GENES 7 na lateral.
– ...Com o você consegue entender isso?
– Não é tão difícil assim . Eu te ensino quando tiverm os tem po. Sofia está quase entendendo. – Ele soa tão presunçoso que rio baixinho, deixando-o desconcertado. – O que foi?
– Só é engraçado ver você tão em polgado assim com algum a coisa acadêmica – explico, com um sorriso. – Estou orgulhosa.
– É feio achar que pessoas bonitas com o eu tam bém são burras, Sy bil – ele brinca, m as consigo perceber que está feliz com o que falei. Fico satisfeita ao ver que ele ainda consegue fazer piada, apesar de tudo pelo que está passando.
– Andrei, por favor, pegue um a caneta e anote a lista de coisas de que precisam os? – A voz de vovó Clarisse dem anda nossa atenção e Andrei concorda com a cabeça, pegando um bloco em cim a da m esa e procurando um a caneta em baixo dos papéis.
Vovó Clarisse se aproxim a de m im , enquanto Idris se j unta às m eninas, observando a sequência de DNA na m esa. Vovó m e segura pelos om bros, observando a m ovim entação de Andrei, e sussurra, bem perto do m eu ouvido:
– Você tem um ótim o gosto, querida.
– Vovó! – eu a repreendo baixo, sentindo m inhas bochechas quentes, e ela solta um a gargalhada, daquelas que ressoam no estôm ago e fazem você querer sorrir j unto.
– Ahá! – Andrei exclam a e volta para onde estam os, sem dar sinal de tê-la ouvido.
– Muito bem , querido. Venha com igo. – Ela faz um gesto para que ele a siga e vai até um dos arm ários, revelando dezenas de frascos escuros com rótulos escritos em branco quando o abre. Os dois se debruçam lá dentro, o tilintar do vidro contra m adeira o único indício do que estão fazendo. Vovó explica para que serve um a ou outra coisa, cham a um a delas de “lixo” e com eça a recitar um a lista de nom es estranhos que Andrei anota.
Talvez eu devesse avisar a ela que não é um a boa ideia deixar que ele faça isso, dada a natureza terrível da sua letra, m as ela vai descobrir m ais cedo ou m ais tarde. Além disso, Andrei parece anim ado, com o se estar aqui lhe desse algum propósito, e que tipo de pessoa horrível eu seria se fizesse algo para im pedi-lo?
– Vam os ter que fazer um desvio em algum a operação. – Idris para ao m eu lado, observando a senhora e o garoto do outro lado do laboratório im provisado.
– Desvio?
– Achei que tinha pego tudo o que Clarisse precisa, m as aparentem ente ela quer o coração da Branca de Neve, além de todo o resto – reflete, com um ar divertido. – Eu sei que ela conseguiria avançar com o que tem os aqui, m as precisam os ser rápidos.
– Você quer invadir algum lugar que tenha essas coisas para roubá-las? – pergunto, m e divertindo com a ideia.
– Por que não? A m aior parte dos centros de pesquisa é perto das fazendas de refugiados, é só dar um pulinho lá e pronto. Quem sabe até não pegam os um deles para nós.
– Invadir e conquistar devia ser o seu lem a pessoal.
– O que m ais podem os fazer? – Idris dá de om bros. – Juntar todos e m archar até Prom eteu, só para serm os esm agados pela polícia e pelo exército logo depois? Eu não tenho ilusões de que, sem neutralizá-los, nós conseguiríam os isso.
Reflito sobre as suas palavras e assinto, sabendo que Idris tem razão. Fico ansiosa quando penso que estam os aqui, a salvo, m as que se não agirm os logo isso pode acontecer com todos os anôm alos que estão nas cidades especiais. Idris percebe m inha ansiedade e apoia a m ão no m eu om bro, m e reassegurando de que tudo vai dar certo.
Vovó e Andrei voltam e ela se inclina na direção do caderno com a testa franzida. O rapaz parece um pouco constrangido.
– Bem , eu j á vi piores. – Vovó dá dois tapinhas nas suas costas. – Idris consegue se virar.
– Eu consigo m e virar com o quê? – Idris pergunta, cruzando os braços. – Clarisse, você não m e pediu nada im possível de conseguir, pediu? Você sabe que m inha anom alia não é m aterializar coisas do nada, eu tenho lim ites.
– Ah, não, não é isso, querida – vovó se diverte. – Menino, entregue a lista para ela.
Andrei destaca um bolo de folhas de papel e entrega para Idris, que faz a m esm a expressão de Clarisse ao ler o escrito. Fico na ponta dos pés para poder enxergar tam bém e vej o que Andrei se esforçou, m as não fez m uita diferença.
– Uau, dá até para ler. Parabéns, Andrei – elogio e o garoto faz um a careta para m im .
– Bem , se você consegue ler, então passe a lim po depois. – Idris m e entrega os papéis. – É só isso? Se precisar de algo m ais, tem um ou dois dias para m e procurar.
– Tudo bem . Obrigada – Clarisse agradece. – Nos vem os no j antar.
Nos despedim os e Idris m e leva de volta ao seu escritório, onde retorno para a m esa e com eço a passar a lista de vovó Clarisse a lim po antes de perceber que, sem falar nada, Idris m e transform ou em algum tipo de assistente pessoal.
Poderia ser pior.