Administrando Pessoas: crônicas sobre o cotidiano de um executivo de recursos humanos

8. E Ovídio tinha razão...

E OVÍDIO TINHA

 

RAZÃO...

 

Quando comecei a trabalhar na indústria, como trainee de manufatura, no início da década de 70, tive a rara felicidade de conviver com um superintendente de fábrica, a quem nós, trainees, chamávamos carinhosamente de “o velho”.

Ovídio, era esse o seu nome, costumava nos surpreender com seus conselhos, de grande sabedoria, advinda de uma longa vivência prática e, sobretudo, permeada por uma visão humanística e pragmática.

Certo dia, estava eu completamente absorvido na análise de inúmeros dados da seção de produção, a qual eu deveria assumir dentro de uns quatro ou cinco meses, quando, de repente, entra na minúscula sala, de forma brusca e agressiva, o chefe da seção que praguejava contra tudo e contra todos, especialmente contra os trainees que, segundo ele , apesar da formação superior, “não sabiam nada e amolavam o tempo todo com perguntas tolas e inúteis”.

Na impetuosidade dos meus 24 anos, meu primeiro impulso foi revidar os insultos, pois “massa física” e “coragem” não me faltavam. Entretanto, por um instante, tocou-me o bom senso e deixei o rancoroso chefe a resmungar sozinho e apressadamente deixei a sala, na ocasião muito pequena para nós dois.

Coração a 120 batidas por minuto, fui “correndo” procurar o velho Ovídio para desabafar.

Lembro-me como se fosse hoje : irrompi sala adentro como um furacão e encontrei o velho, em sua escrivaninha, absolutamente tranqüilo.

Com o barulho que provoquei, Ovídio levantou a cabeça e, serenamente, perguntou-me: “que houve filhote?” Indignado com o ocorrido, passei a relatar o incidente, deixando transparecer todo meu sentimento de revolta.

“O Velho” ouviu-me com atenção: cada gesto, cada palavra, nada lhe escapou.

Quando acabei o relato, “o Velho” fitou-me por alguns, mas, longos segundos e perguntou-me: “filhote, quem é o mais esclarecido entre vocês dois ?” Aquela pergunta, em um primeiro momento, não fazia sentido. Afinal, pensava eu, estávamos diante de um caso típico de insubordinação. Assim, de bate-pronto, respondi com certo grau de irritação: “Velho, você ainda tem dúvidas sobre quem é mais esclarecido? Esse homem mal tem o primário”, disse-lhe.

“Pois é, filhote”, colocou serena e calmamente o Ovídio, “não tenho dúvidas sobre sua formação, só que na vida a compreensão tem que partir do mais esclarecido. É você quem tem que procurar compreendê-lo e não o contrário, como você pensa”.

Aquelas palavras tocaram-me profundamente. Cabisbaixo e humilde, deixei sua sala em silêncio.

Passaram-se dias, meses e durante todo este período, com humildade e obstinação, eu me aproximei de Ovídio, conseguindo me transformar em seu amigo.

Essa amizade, construída com muita paciência e compreensão, valeu-me um excelente estágio naquela seção. Aquele Chefe que um dia eu quis punir, passou-me inúmeros “macetes” de como resolver determinados problemas, para os quais somente a experiência, o bom senso e a prática seriam capazes de indicar a melhor solução.

Com humildade, aprendi uma lição que jamais esquecerei e que tento passar para meus pares e subordinados, sempre que há oportunidade..

Com toda certeza, Ovídio tinha razão...