Administrando Pessoas: crônicas sobre o cotidiano de um executivo de recursos humanos
38. Empresa familiar ou multinacional: um dilema para o executivo
EMPRESA FAMILIAR
OU
MULTINACIONAL:
UM DILEMA PARA O
EXECUTIVO
Em minha trajetória profissional, tenho tido oportunidades seguidas de trabalhar em empresas multinacionais, onde comecei como “trainee” e em empresas familiares. Estas experiências me credenciam a opinar sobre vantagens e desvantagens que essas empresas oferecem, sem nenhum pré-julgamento, mas ancorado na vivência do dia-a-dia.
Em primeiro lugar, há sempre pontos positivos e negativos, qualquer que seja a escolha. Entretanto, vantagens ou desvantagens podem ser potencializadas, dependendo das pessoas que dirigem estas organizações, independentemente de sua origem.
Certa ocasião, trabalhei em uma grande multinacional, onde seu presidente tinha tanto ou maior poder que muitos acionistas, com os quais tive oportunidade de trabalhar. A distância da matriz e o prestígio que lá gozava, transformava-o numa espécie de semideus. Vale lembrar que este excesso de poder nem sempre é exercido em benefício da própria empresa, estando muitas vezes vinculado à necessidade de auto-afirmação do executivo.
Por outro lado, convivi com acionistas que possuíam sensibilidade aguçada para negócios, aliada a um entendimento de que era preciso profissionalizar a empresa e descentralizar o poder de decisão. É bem verdade que, em alguns momentos, havia recaídas, mas também é verdade que qualquer processo de mudança convive com ambigüidades.
Em paralelo, trabalhar em companhia nacional familiar significa estar junto do poder maior, onde não existe outra instância a se recorrer; ou o projeto está aprovado ou não, independentemente do valor do investimento. Para mim, esta é uma grande vantagem, embora muitas vezes tenha sofrido em razão dos critérios utilizados na aprovação, como co-responsável que sempre me senti.
Entretanto, salvo raras e honrosas exceções, há pelo menos dois aspectos que considero importantes e que acabam por prejudicar a gestão das empresas familiares brasileiras: visão empresarial imediatista e falta de cultura em Recursos Humanos. Na visão imediatista, identifico que o “vale o aqui e agora”, em muitos casos prejudica a perenidade dos negócios e tende a confundir a figura do acionista maior com a da própria empresa e, também, por não possuir uma cultura voltada para os Recursos Humanos, seus empregados fazem o que lhes mandam, sem o compromisso da parceria e sem se sentirem partícipe daquilo que produzem.
Estes fatores, quando conjugados, tendem a criar um ambiente pouco propício ao desenvolvimento da excelência empresarial que privilegia a ética do alto desempenho, na medida que não identifica o norte para onde a empresa deve caminhar, desperdiçando energias e restringindo a visão do todo, por deixar de incentivar a participação dos empregados nas decisões que os afetam.
Mas, vale observar que com a globalização da economia e a concorrência internacional, as empresas familiares estão se equipando para se ombrearem às companhias de padrão internacional, procurando buscar maior produtividade e competitividade nos mercados em que atuam. Isto eqüivale a dizer que as diferenças entre multinacionais e familiares estão muito mais focadas nas diretrizes propostas por seus gestores, do que na origem de seu capital.
No entanto, ainda há empresas familiares que não atuam com padrões de gestão atuais e com práticas gerenciais de nível internacional que perderam o bonde da história. O dilema está em saber que carreira se quer construir, para depois tentar encontrar a empresa que crie condições que este objetivo ser alcançado, seja ela familiar ou não. Ao mesmo tempo, levar em conta os valores que possuem seus dirigentes, pois eles poderão ser o diferencial qualitativo, em seu processo de escolha.