Administrando Pessoas: crônicas sobre o cotidiano de um executivo de recursos humanos
35. Teoria e prática: o “acomodograma”
TEORIA E PRÁTICA
DO
“ACOMODOGRAMA”
Em mais de vinte anos trabalhando com processos de mudança, tenho encontrado executivos aparentemente engajados nos projetos de transformação organizacional, com um discurso progressista, mas com uma prática conservadora e, muitas vezes, carregada de corporativismo.
Aos envolvidos diretamente nos projetos, digo-lhes ser natural este tipo de postura, pois, como seres humanos, o novo nos incomoda e assusta.
Não tem sido fácil, dentro desse contexto, manter a motivação do time envolvido diretamente com as mudanças, contudo, quem lida com mudanças precisa aprender a não idealizar o processo como um caminho de desenvolvimento linear, mas sinuoso e cheio de idas e vindas. Por isso, é fundamental darmos um tom pragmático ao mesmo. Afinal, entre o redesenho de um novo processo e sua efetiva operacionalização, há um longo caminho a ser percorrido, tortuoso, que será vencido pelos determinados, aqueles com capacidade de abstração e uma tremenda resistência à frustração.
Quando a mudança é radical, revolucionária, as dificuldades afloram rapidamente e com múltiplas facetas, existindo sempre o grande perigo de se praticar o “acomodograma”, prática que trata de “mudar” a configuração organizacional mantendo, entretanto, as pessoas mais ligadas ao líder da área, nem sempre as mais adequadas aos novos papéis, fato que acontece mesmo entre os mais ardorosos defensores das mudanças.
O segredo de bem lidar com tantas ambigüidades está em não se perder a visão do todo, não se envolver em jogos políticos e trabalhar os conflitos de maneira madura e profissional. É como enxergar o processo como um imenso tabuleiro de xadrez, desenvolvendo a capacidade de prever todos os passos e recuos que a viabilização dele exige a curto, médio e longo prazo.
Sun Tzu, famoso general chinês, em seu livro “A arte da guerra”, escrito há mais de 2.500 anos já dizia : “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas...”.
No campo do comportamento, o fundamental é não esquecer que todos temos possibilidades e limitações e, portanto, estamos sujeitos a erros e a momentos infelizes. O importante é tentar encontrar sempre soluções alternativas para eliminar ou minimizar os problemas existentes ou em potencial e, assim, evitar com habilidade o aparecimento do “acomodograma”.
Congruência e transparência são essenciais para o sucesso de um processo de transformação porque geram confiança e credibilidade. Os deslizes, quando acontecem, devem ser tratados de forma direta, sem rodeios, mas com a devida habilidade política.
Mas não se engane : mesmo os programas mais participativos podem exigir, em um determinado momento, posturas mais assertivas, com a finalidade de quebrar a inércia que o status quo impõe e com isso, literalmente, viabilizar a mudança.