Administrando Pessoas: crônicas sobre o cotidiano de um executivo de recursos humanos
13. Transformações: separar o joio do trigo
TRANSFORMAÇÕES
: SEPARAR O JOIO
DO TRIGO
Muitos consultores de empresas e articulistas têm se posicionado contrários à reengenharia, como processo de transformação. Longe de argumentos lógicos, tendem a generalizar experiências mal sucedidas com os processos de mudanças, desconhecendo a imperiosa necessidade de nos ombrearmos às empresas de padrão internacional, para sobrevivermos.
Outro dia, em um domingo de sol em São Paulo, lendo a Revista da Folha, deparei-me com artigo do brilhante jornalista Caio Túlio Costa que criticava os modismos das mudanças, especialmente da reengenharia, lançando um apelo à salvação de nossas almas, diante dos novos processos de transformação.
Com certeza, há muitas empresas empreendendo mudanças de diversas maneiras e utilizando os mais diversos rótulos, especialmente o da reengenharia. Estas empresas, ávidas por resultados imediatos e sem visão do futuro, embarcam em modelos inadequados de mudanças, com ênfase na dimensão técnica que traz resultados imediatos mas nem sempre duradouros e, na maioria das vezes, assessorados por profissionais sem a devida qualificação.
Mas não se pode generalizar estas experiências que carecem de conceitos e práticas atualizadas de manejo de mudanças organizacionais. Importante é colocar que qualquer processo que se proponha vitorioso e perene, necessariamente deve privilegiar os recursos humanos, pois são eles que geram resultados.
Assim, os modelos puramente tecnicistas tendem ao fracasso, embora, em um primeiro momento, chamem a atenção dos menos avisados, pelos resultados rápidos que propõem alcançar. O fracasso advém de não se ter considerado o elemento humano como a verdadeira alavanca das mudanças e aquele que as torna perenes, auto-sustentadas.
As mudanças com enfoque sócio-técnico, por outro lado, concebem as transformações considerando os empregados como verdadeiros agentes de mudanças, participantes ativos da escolha das novas práticas, baseadas nas melhores do mercado(benchmarking) e que recebem sua contrapartida, em termos de remuneração, pelos resultados alcançados, além de ambiente de trabalho saudável e desafiador.
A verdadeira reengenharia não propõe melhorias, mas o novo, o inusitado, espelhado nas práticas das chamadas World Class Company. São as práticas inovadoras o propulsor das transformações e não podem existir novas práticas se não forem criadas e assumidas pelos próprios empregados e mantidas pela motivação e comprometimento dos mesmos.
Por outro lado, o fato das mudanças serem constantes não é sinônimo de inconsistência, até porque vivemos uma realidade onde os cenários mudam constantemente e somente as empresas que possuem estruturas flexíveis, capazes de se adaptarem rapidamente a estas transformações, conseguirão sobreviver.
Existem fatos que demonstram que o sucesso das empresas de padrão internacional, as World Class Company, está ligado a algumas práticas tais como:
ð Trabalham com times semi ou auto-dirigidos, organizados através dos processos;
ð Os times são responsáveis pelos resultados;
ð Times enxutos e praticantes da multifuncionalidade;
ð A relação entre empregados administrativos e operacionais é em torno de 25%;
ð Os investimentos em educação, treinamento e desenvolvimento representa 4,0% sobre o faturamento da empresa;
ð A remuneração é decorrente de resultados;
ð Clima organizacional monitorado.
Estes são alguns exemplos das chamadas Best Practices de um mercado de empresas de classe internacional, que são referenciais para um bom programa de reengenharia. Este é um processo onde todos ganham mas, devo concordar que a mentalidade de alguns empresários no Brasil, ainda é a do ganha/perde que todos sabemos é predadora e de vida curta.
Portanto, ao invés de dizer não às mudanças, peçam que elas venham, as transformações, pois somente assim sairemos da condição de terceiro-mundismo. Mas, há uma ressalva: procedam às transformações com competência e com o envolvimento total das pessoas; se não, que Deus salve nossas almas.