Administrando Pessoas: crônicas sobre o cotidiano de um executivo de recursos humanos
Reflexões
Tenho pensado muito sobre o futuro da área de recursos humanos, porque também muito se tem falado a respeito. Uma observação atenta dos diversos prognósticos, leva-me a crer que poucos conseguem enxergar com clareza o que nos espera.
Quando você ouve o executivo principal de uma empresa falar, conclui que ele já não aceita o perfil anterior do profissional de recursos humanos, mas ainda tem dificuldades em definir o que realmente quer e deseja. Se de um lado, as tradicionais funções perderam sentido, as novas provocam arrepios. E porque?
Há um mundo novo que muda de desenho a cada instante. Este mundo privilegia as pessoas e as classifica de forma completamente diferente da atual. Além de lidar com pessoal muito mais esclarecido e, portanto, mais exigente, novas formas de organização do trabalho e de relacionamento empresa/empregado começam a tomar contornos diferenciados.
Já se ouve falar no executivo interino, aquele que é escolhido para cumprir uma missão especial por um determinado período de tempo. Paralelo, o conceito de terceirização evolui e toma corpo, não mais focado unicamente em custos, mas em produtividade. Com isto, o quadro das empresas vêm se tornando mais enxuto e especializado, portanto, exigindo um novo e especial tipo de tratamento.
Por outro lado, trabalhar em equipe já é uma crença e sinônimo de maior eficácia organizacional. Também está mudando rapidamente o conceito de liderança. O velho chefe dá lugar ao facilitador que não impõe o como fazer, mas facilita o conhecimento e as habilidades do grupo, quando já não é eleito por ele, como no caso dos times autônomos.
Há quase consenso que os atuais sistemas de remuneração estão falidos. Fala-se em pagar por habilidades e o velho conceito de cargo tende a ser entendido por “espaços virtuais ocupados por período de tempo” e que, com a redução dramática dos níveis hierárquicos, as carreiras sofrerão um tremendo impacto, pois as organizações estão cada vez mais horizontalizadas e oferecendo menos oportunidades de acesso vertical. E mais, creiam-me, cada um é dono de sua própria carreira!
Além dos desafios acima colocados, a transição entre o modelo tradicional de organização e o novo, voltado para o business, exige alguém com capacidade de assegurar o sucesso da implementação, navegando pelas ambigüidades da mudança, sem receio do novo, enfrentando sua sinuosidade e exigindo coerência de seus pares, tudo em nome da transparência e da credibilidade.
Mas que não se limite a estes monstruosos desafios: uma nova parceria com marketing estende a atuação de recursos humanos ao cliente externo, fazendo-o entender como funciona a empresa e como tirar maior proveito deste novo relacionamento/parceria. Sem falarmos dos fornecedores também externos, para quem, na maioria das vezes, é preciso transferir tecnologia para ter insumos compatíveis com as exigências dos clientes.
Assim, estar apto e disponível para absorver e praticar novas tecnologias de educação de adultos, objetivando preparar seu quadro de pessoal para levar a empresa a competir com as melhores do mundo, passa a ser um importante requisito. Isto sem falar no esforço de desenvolvimento de empreendedores da base da pirâmide, onde de maneira efetiva muita coisa acontece, que passa a ser mandatório neste novo perfil que se desenha.
Por isto, é preciso estar também preparado para aprender a aprender e a difundir este conceito, a partir de sua internalização e focar sua atuação nos objetivos empresariais, deles não se afastando, a não ser para montar estratégias e táticas para alcançá-los; estar impregnado pelo social e ser um tradutor fiel, em sua melhor expressão, do que ocorre fora da organização para poder contribuir em seu planejamento, são funções que se agregam às novas atribuições deste profissional.
Assim, a mim não assustam os negativistas de prontidão. Recursos Humanos não vai acabar! Vai sim, mudar de configuração para atender melhor a empresa e seus clientes, assumindo novos paradigmas que revitalizarão a área e a tornará muito mais contributiva no processo empresarial. Entretanto, fica para reflexão o grande desafio: para trabalhar com gente é preciso ser, antes de tudo, gente e isto exige mudança de postura e aquisição de novas habilidades. Estamos preparados?